Era Uma Vez
1 Era Uma Vez
Notas iniciais
— Era Uma Vez
Não era muito tarde da noite quando Kin decidiu pôr as crianças para dormir, mas ela estava morta de cansaço. Então, logo que o céu escureceu, levou-as para o andar de cima.
Cobriu-as da metade do corpo para baixo e foi até a janela ver como estava o clima. Cruzou os braços. Mais um dia inteiro de neve torrencial. Nunca foi a maior fã do calor, mas temperaturas abaixo de zero mudariam a opinião de qualquer um a respeito dele. Por outro lado, ajudavam a manter a paz. E seus filhos reclamavam menos quando os colocava para dormir. Por isso, não conseguia se queixar de um tempo como aquele.
Ia apagar a luz e deixar o quarto até seus olhos esbarrarem na foto em cima da estante. Ela sempre esteve ali naquele mesmo porta-retratos e sobre aquela mesma cômoda bege de madeira. Sempre virada para a parede. Por que virada para a parede? Porque escondia lembranças capazes de abrir feridas muito antigas.
Durante anos Kin não pôde nem olhar aquela foto, nunca poderia guardá-la no fundo de uma gaveta. Quando limpava a cômoda, evitava tocá-la. Não punha nela nem espanador, nem pano e nem os dedos. Nem permitia que alguém fizesse isso.
Mas agora, diferente de antes, seu coração estava calmo. Sentiu que podia olhar o retrato. Quando estendeu a mão para tocá-lo, sua menina, a pequena e curiosa Saori, perguntou:
— É ele que tá na foto, né mamãe?
No primeiro instante, Kin levou um susto. Mas sorriu. Saori herdou o gênio da mamãe. Sua alegria, no entanto, não veio desacompanhada da dor. Nunca imaginou que seus filhos se refeririam ao pai deles como a um desconhecido. Claro que não podia culpá-los, foi sua a escolha de não lhes falar sobre Arashi. Sempre que um dos dois perguntava, ela desconversava. Com certeza ouviram dele da Yue, do Sora ou de algum outro de seus amigos. Nunca dela.
Kin escondeu atrás da orelha uma das mechas de seus compridos loiros cabelos encaracolados e pegou a foto. Contemplou-a demoradamente. Ao contrário do que pensou, foi tomada de uma tranquilidade indizível. Nela, estavam Arashi, sua segunda mãe Mari, seu irmão Haru e ela própria. Tinha dezoito anos, então. Arashi, dezesseis. Já era a namorada dele. "A primeira e a única", como ele gostava de dizer.
No dia que bateram a tal foto, comemoravam o aniversário de Mari. Ela teria amado os gêmeos de Kin talvez até tanto quanto Kin.
— É ele sim, meu anjinho. — Optou por abrir o jogo. Com cabelos enrolados como os da mãe, embora pretos iguais aos do pai, Saori completara cinco anos na semana passada, mas era intuitiva e extremamente inteligente.
Iori viu naquilo a oportunidade de saber sobre Arashi. Sempre quis isso. Fisicamente em nada lembrava o genitor, pois possuía cabelos loiros, olhos negros idênticos aos de Kin e a pele mais clara. No jeito ameno de ser, no silêncio que gostava de guardar e na forma meticulosa de agir, por outro lado, não havia um só velho amigo ou conhecido de seu pai que não apontasse suas semelhanças.
— Fala um pouco dele pra gente! Conta alguma história! — Pediu o pequeno.
Kin não viu por que não. Na verdade, pensando melhor agora, não entendeu o motivo de ter mantido segredo para eles. Não saberia explicar o que a conteve. Talvez fosse medo do que sentiria ao contar aquelas histórias sabendo que ele não estava mais ali e que nunca mais iria estar. Percebeu que vinha sendo injusta. Com a fotografia em mãos, foi até a cama e sentou-se junto aos dois. Mostrou-lhes a imagem. Os gêmeos se aninharam como os passarinhos se escondem sob as asas da mãe. Queriam olhá-lo. Claro que já haviam visto fotos do pai antes, mas em nenhuma delas ele era tão jovem quanto naquela ali.
Sendo a criança hiperativa e impulsiva que era, Saori raptou a gravura das mãos de Kin. A loirinha riu.
— Ele era tão bonito, mamãe! — Exclamou a pequena, emocionada. Kin deu-lhe um beijo na testa.
— Era, sim, amor. Sempre foi. — Reiterou. Em Iori, que estava mais perto, fez carinho no rosto. — Que história vocês querem ouvir? São tantas!
A pergunta desencadeou uma grande discussão entre os gêmeos. Saori queria ouvir sobre o romance dos dois, Iori, que escutara vários contos, rumores e lendas acerca da grande mente militar de seu pai, queria saber sobre a primeira guerra na qual Arashi foi o estratego. E era importante ouvir essas histórias diretamente de Kin, pois, segundo soube, ela estava lá com ele. Foi parte essencial do sucesso dele.
— Você quer saber também sobre a "Grande Guerra Intergaláctica", não é, espertinho? — Kin fez sua escolha, a contragosto de Saori, que cruzou os braços e fez beicinho, e mesmo sabendo que Iori calculara tudo. Igualzinho ao pai. — Tudo bem. Hm... Eu tinha dezoito anos, seu pai tinha dezesseis. Como já devem ter contado pra vocês, naquela época a nossa galáxia era dividida em dois quadrantes: Alfa e Beta. Nós éramos do quadrante Beta. Um homem muito poderoso chamado Kaira era o rei de toda a parte alfa da Via Láctea... ele era um rei muito bondoso, mas um dia o Santsuki machucou as pessoas que ele amava, ele culpou minha mãe e meu pai por não terem capturado Santsuki antes disso e declarou guerra ao nosso quadrante.
Por mais fortes e talentosos que fossem, Kin e Arashi não conseguiram mais do que o comando da Força Kappa de Combate, uma das mais fracas divisões da guerra. Mas isso não os chateou. A princípio aborreceu Kin, verdade seja dita. Arashi, entretanto, convenceu-a a não fazer pouco da responsabilidade que receberam. Acreditava firmemente que iriam mudar o rumo da guerra.
As batalhas mais decisivas estavam acontecendo no espaço sideral, outras bastante perigosas se davam no ar e o objetivo de Kaira era invadir a Terra de Áries com seu exército de elite. Enquanto as legiões espaciais encarregadas de proteger Áries permanecessem de pé, a vida no planeta estaria protegida. Arashi e os outros estrategos escolhidos para chefiar as tropas terrestres só precisavam manter seu mundo a salvo dos extraterrestres até Kaira cair.
Os soldados do comando dado a Arashi, por outro lado, não estavam tão confiantes. Lutaram sem parar por meses a fio, enfrentaram algumas derrotas sucessivas antes de garoto chegar e, a cereja do bolo, o local que ele escolheu para a luta contra os invasores se fizera notável pelas temperaturas abaixo de zero. E estava fazendo jus à fama.
As tendas foram armadas às margens de rios congelados, a poucos metros de montes com picos cobertos de neve. Os campos, estéreis, não ofereciam nada além de pedras congeladas e uma imensa superfície desnivelada que não favorecia nenhuma tática de combate. Ninguém entendia o que havia dado na cabeça do estratego para acampá-los num lugar como aquele. Nem Kin entendia. Todavia, ela o conhecia há anos. Esperava algo surpreendente. Por isso, os dois passavam o tempo jogando damas folgadamente numa das tendas.
A tenda em que os dois estavam era verde como a grama, bastante espaçosa e, ao fundo, abrigava dez sacos de dormir. No centro, havia a mesa de madeira para as refeições — a qual, neste momento, Kin e Arashi usavam para jogar. Uma lamparina acesa iluminava e aquecia o ambiente. Kin, que tremia de frio tanto quanto os outros soldados, discordaria disso.
— Como você tá tão tranquilo? — Indagou. Após mover uma peça no tabuleiro, falou: — Eu sinto que vou congelar!
Sem tremer um milímetro e sem esboçar a menor reação ao frio do qual todos reclamavam, Arashi moveu uma peça. Seus claros olhos azuis não saíam da tábua.
— Tem a ver com os meus poderes, lembra? Nenhuma temperatura, por mais baixa que seja, me afeta. — Desfez a dúvida da amiga.
A resposta mais irritou do que ajudou. Kin saltou da cadeira e, mostrando os punhos, brigou:
— Seu exibido! Eu não me lembro de nada, tô morrendo de frio!
A tarde se despedia e dava espaço à noite quando um guerreiro chamado Seizei invadiu a tenda de Arashi para dizer o que estava acontecendo lá fora. Seu espanto por vê-los tão despreocupados quase arrancou uma risada da loira. "Jogando num momento desses...?", pensou, parado na entrada. Seizei foi quem Arashi designou como o estratego oficial das tropas, pois sabia que os soldados não iriam acatar as ordens de duas crianças.
Seizei pigarreou. A dupla se encontrava tão entretida que, antes disso, não fez muito caso de sua vinda.
— Os guerreiros estão se amotinando... Não suportam mais o frio e a inércia, já ameaçaram desertar! — Comunicou, alarmado.
Agora preocupado, Arashi se colocou de pé. Kin tirou proveito de sua distração para trapacear e mudar as peças de lugar.
— Consiga que eles esperem pelo menos até o anoitecer, não falta muito tempo. — Pediu.
— Ficou louco? Se eu voltar lá fora e disser isso, eles vão me apedrejar! — Seizei redarguiu.
Arashi teve seu rosto ameno e de cor acastanhada tomado de tensão e palidez. Seizei tinha razão. E conforme a noite fosse se avizinhando, o frio e o temperamento dos lutadores só pioraria. Tentou pensar em algo para ajudá-lo a persuadir os guerreiros a esperar. Nada lhe veio à mente. Sem dizer nada, foi para o lado de fora e viu por si mesmo que Seizei não exagerou no relato.
Dezenas de seus liderados, insatisfeitos, se aglomeraram em frente às tendas. Debatiam a deserção acaloradamente. Arashi, então, mirou o céu. Viu a escuridão baixar e encobrir os contornos das coisas como um manto. A lua reluzir. Tomou uma decisão. "Vamos ter que agir mais cedo do que eu pensava", pensou.
Dentro da tenda novamente, disse a Seizei e Kin:
— Vamos realizar um ataque noturno.
— Um ataque noturno? — Eles repetiram, em uníssono. Kin saltou da cadeira. Mais confusa do que nunca, pressionou-o por respostas: — Arashi, você sabe que esse tipo de tática não costuma dar certo, aqui tá ventando tanto que não dá pra manter uma tocha acesa nem por um segundo! Nós não vamos saber quem estamos atacando lá!
— Saberemos, sim. — Retrucou. Passeou até seu saco de dormir, pegou um mapa de lá, abriu-o em cima da mesa e pôs o dedo num dos pontos dele. Por fim, se fez entender: — É aqui que nossos inimigos estão, na parte menos fria do campo de batalha. Hoje de manhã o general explodiu parte da arena para nivelá-la, ele acha que o atraímos pra cá pra dificultar a alocação das tropas dele, mas foi pra induzi-lo a explodir a arena que o trouxemos aqui.
Kin e Seizei se entreolharam. Finalmente entenderam.
— Por causa da explosão, a energia dele está espalhada por toda a área na qual ele se alojou. — Seizei raciocinava em voz alta.
— E o exército dele ficou exposto à energia forte liberada na explosão por tanto tempo que poderíamos identificar cada um dos guerreiros dele até mesmo no escuro, enquanto nossos soldados vão continuar invisíveis e indetectáveis. — Continuou Kin. Antes com olhar de peixe morto, de repente abriu um enorme sorriso. Rindo, quase gargalhando, falou: — É brilhante! Uau!
Mas Arashi manteve o domínio sobre as próprias emoções. Sabia que seu plano não estava isento de falhas. O outro lado tinha como estratego um soldado experiente, alguém com o dobro da soma da idade de Kin e Arashi. Subestimá-lo era um erro. Porém, cria muito mais no sucesso.
— Vão, digam que ataquem! — Determinou. — Kin, vá na frente, lidere as primeiras filas! Seizei, vá pelo meio, mantenha contato com os mais fortes e lembre a todos de manter silêncio até que alcancem as tendas!
Os dois acenaram com a cabeça, concordando.
O resultado foi aquele calculado por Arashi: sucesso. A investida noturna durou pouco mais de duas horas e foi mais um massacre do que uma batalha, os alvos nem sabiam de onde vinham os ataques. Muitos foram mortos antes de saber que acontecera. Sempre nas primeiras linhas com sua espada de luz, Kin orquestrava os assaltos e dizia para que lado cada um deveria ir. Graças à escuridão e às orientações dela, nenhum único combatente da Força Kappa perdeu a vida.
Kin acabava de prostrar mais um oponente quando Arashi se juntou a ela. Apunhalou o inimigo no estômago e, com um chute frontal, atirou-o ao chão. Suas mãos e sua face estavam salpicadas de sangue. Em volta, havia tantos cadáveres espalhados que os dois nem sabiam onde pôr os pés. O solo, outrora gélido, fora aquecido pelo sangue dos derrotados. Os gritos de dor dos vencidos e os dos festejos dos vencedores enchiam o ar.
Seizei estava impressionado. Há meses não ouvia seus companheiros festejarem. Gostaria que fosse dia ou de ao menos poder acender uma tocha para ver, pois sabia que aquela noite ia ficar pra história. Que o mundo inteiro, um dia, saberia os nomes daqueles dois. Mas se contentou com ser um dos guerreiros presentes. Com ser parte da vitória.
Ao reconhecer Kin, Arashi tocou as costas nas dela e lhe falou:
— Precisamos procurar o líder deles, esse não morreria nas mãos de guerreiros comuns. Vai pro norte e eu vou pro leste.
A loirinha consentiu com um gesto de cabeça e se foi. Arashi tinha razão, o líder dos invasores se provou um combatente notável e, mesmo no escuro, derrotava muitos. Continuava mesmo sabendo que perdera a batalha. Como um leão acossado recua quando ferido pela matilha e atira para seus perseguidores um olhar feroz, consciente de que o fim se avizinha, assim pugnava ele. Os adversários mantinham certa distância.
Então, chegou Kin. Literalmente brilhando, pois inflamou sua energia dourada para poder enxergar e atrair até si os ataques, deixando para seus aliados a proteção da noite. Semelha à mais fulgurante estrela cadente. Fulva tal qual seus cabelos, a espada em sua mão cobiçava os morticínios e os ais dos agonizantes. Quando a viram, seus aliados encheram-se de esperanças. Apartaram-se da presa e abriram caminho para ela.
Kin foi curta e grossa:
— Renda-se ou eu não vou ter pena.
Seus parceiros vibraram. O líder não temeu. Sentiu-se desafiado. "Criança insolente", pensou, partindo para o ataque.
Entrementes, Arashi adentrava a tenda para a qual disse que iria. Sua audição apurada lhe dizia que havia de três a cinco retalhadores no recinto. A espada de gelo que empunhava e a feição vazia que retinha no rosto diziam que, assim como Kin, não pouparia por pena quem entrasse em seu caminho.
— Eu não sei quem vocês são e não posso vê-los, mas isso não faz diferença. — Falou, a fim de não lutar com gente desavisada. — Se resistirem em vez de se entregar, todos vão morrer.
No entanto, todos ali preferiam perder a vida a salvá-la de maneira vergonhosa. O desenlace foi uma chacina. O garoto cumpriu com a palavra e não poupou uma só vida. Quando ele saiu, as paredes da cabana estavam tintas de sangue, tão ensanguentadas quanto o rosto e as mãos dele, que foi embora sem uma só expressão na face.
Kin não teve um conflito tão fácil, mas o seu também findara. Chutado, o líder dos invasores voou de costas contra a parede e caiu abatido. Os espectadores aplaudiram a menina. Ela, com fúria no olhar, passeou até ele e tocou-lhe a garganta com a lâmina. Tomara o cuidado de não feri-lo seriamente, pois não queria matá-lo. Queria vê-lo aprisionado e humilhado diante de todos para que os soldados se tornassem mais confiantes. Para que todos acreditassem nela.
— Acabou, pare de lutar! — Ordenou.
O sujeito ergueu a cabeça e sorriu. Arashi e Seizei entraram juntos na cabana e na hora perceberam tudo o que estava acontecendo.
— Kin, acabe com isso. — Arashi aconselhou. — Não vai persuadi-lo.
Ela não moveu um músculo. Todos notaram sua hesitação. Arashi captou uma verdade essencial sobre a loira, um segredo: o fato de que ela não tinha o ímpeto matador dele, que, no fundo, era uma menina gentil que só queria deixar os pais orgulhosos.
— Arashi tem razão. — Seizei interviu. — Esse aí é o general Yuzuko, um guerreiro muito experiente. Não há morte e nem tortura capaz de fazê-lo admitir uma derrota pra salvar a própria vida.
Yuzuko riu.
— Então minha fama já se espalhou por aqui. E eu gosto dela. — Afirmou. Olhando para Seizei, elogiou: — Ser derrotado por um homem tão brilhante não é desonra.
Seizei nunca seria capaz de roubar a glória alheia. Saindo da frente, revelou diante de todos os presentes:
— Arashi foi a mente por trás de tudo isso, ele é o verdadeiro estratego.
A maioria dos queixos caiu. Recuperado do choque da notícia, Yuzuko começou uma sinistra gargalhada. Arashi não mudou de expressão corporal e facial, conservava nele o mesmo olhar frio.
— Uma... criança! — Repetia. — Uma criança! Um moleque me venceu!
Sacou a lâmina repentinamente e investiu sobre o menino, tão rápido que todos se assustaram. Correu vinte metros num piscar de olhos. Todavia, ao mesmo tempo, Kin e Arashi atravessaram-lhe o coração: ela, pelas costas, ele, de frente. Sangue espirrou nas bochechas dos dois. Arashi viu o alento vital evolar-se do corpo de Yuzuko sem desviar os olhos dos dele.
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