Eu estava sentada no sofá com a Lise. Nós duas costumávamos ficar vendo filmes enroladas em cobertas nas noites frias de inverno. Era nosso jeito de fugir do mundo. Apesar de morarmos em Buenos Aires havia dois anos, nenhuma de nós havia feito muitos amigos. Naquela noite específica, estávamos vendo um filme de romance qualquer em que a protagonista encontra o cara perfeito a puro acaso e tudo fica perfeito.

—Bem que a vida podia ser assim... — Deixei o pensamento escapar por baixo de minha respiração.

—Ah? Milla, você disse algo?- Minha irmã perguntou.

—Não foi nada. — De repente me senti cansada. — Acho que vou tomar banho e dormir... — Me inclinei e dei um beijo em sua bochecha. — Vejo você amanhã?

—Sim, claro. Boa noite, Mil.

Ela continuou vendo o filme. Eu me dirigi até a aŕea de serviços, onde ficava nosso aquecedor, e liguei. Foi para meu banheiro e deixei a água quente escorrendo para aquecer o ambiente. Assim que já estava com o vidro embaçado e saindo vapor, eu tirei minha roupa e entrei na água. Senti aquele frio enquanto meu corpo se ajustava a temperatura do meu banho.

Começava a me secar quando a luz do banheiro apagou. Me virei para abrir a janela e deixar um pouco da luz da rua entrar, quando as lâmpadas voltaram a se acender. Espiei pelo vidro e não vi nenhum sinal de tempestade. Normalmente só ocorre queda de energia durante uma tempestade. Fui para meu quarto e coloquei meu pijama. Ainda dava para escutar o barulho de televisão da sala. Entrei embaixo das cobertas e fechei os olhos tentando adormecer.

Estava quase pegando no sono quando ouvi um clique parecido com o de uma máquina de fotos. Abri os olhos num pulo, mas não havia nada no quarto. As luzes dos carros dançavam em minhas paredes, e as árvores sacudiam na rua. Nada fora do normal. Voltei a fechar meus olhos e finalmente consegui dormir.

Acordei tarde no dia seguinte,mas por ser férias de inverno não me importei muito. Fui para a sala e encontrei minha irmã adormecida no sofá. A TV ainda ligada. Aqueci o pão para o café da manhã e preparei dois copos de achocolatado. Levei tudo para a mesa e acordei a Lise.

—Não me diga que você me deixou dormir até as 9! Eu precisava ir até a biblioteca central ver uns livros... Agora nunca vou chegar a tempo.

—Não é minha culpa que você dormiu demais. -Respondi entregando-lhe seu copo. — Quem é que deveria ser a mais velha, uh?

—Ok, você está certa... Mas a mamãe devia saber que eu não era responsável o suficiente para cuidar de mim, quem dirá de você.

Lise tinha se mudado para Argentina para fazer faculdade, e eu vim, junto para terminar o ensino médio. Nossos pais acharam que seria uma boa ideia que eu me mudasse da Colômbia, considerando a instabilidade política.

* * *

Ao meio-dia eu sai para passear na volta do apartamento, já que minha irmã iria tentar retirar o tal livro... Enquanto caminhava pelas ruas, sentia alguém me seguindo, mas sempre que olhava para trás. Não havia ninguém. Crash. Um galho se partiu logo atrás de mim.

—Quem está aí? — Gritei para o nada. — Tem alguém aí? Apareça! — Eu estava tremendo, eu sabia que tinha alguém. Respirei fundo e fechei meus olhos. Quando os abri de novo me sentia mais tranquila e retomei o passeio.

Já era noite quando retornei para o apartamento. Larguei minhas chaves na mesa e peguei algo pra comer da geladeira. Do fundo do corredor vinha uma música alta, reconheci como uma da playlist de minha irmã. Caminhei até o quarto dela e abri a porta. Para minha surpresa, a cama estava vazia, assim como o resto do quarto. Em cima do balcão, estava o computador dela, A música vinha dali. Abri a porta do banheiro, achando que talvez ela estivesse lá, mas ele também se encontrava vazio.

Senti duas mãos frias em meus ombros.

—AH!!!!!!!!!!!! — Eu gritei e me virei. Lise estava lá rindo.

—Nossa, Milla. O que deu em você hoje? — Sua voz mostrava ironia, porém seu rosto demonstrava preocupação.

Ela se sentou na cama e fez sinal para imitá-la.

—Tudo começou ontem. Eu estava quase dormindo, mas dai eu ouvi um barulho. Tipo os que as câmeras fazem ao tirar fotos. Daí, hoje na rua, achei que tinha alguém me seguindo.

Ela sorriu e me abraçou.

—Está tudo bem. É só sua cabecinha criativa. — Ela se levantou. — Agora é hora de jantar. Que tal panquecas?

Eu sorri e a segui para cozinha.

* * *

Sexta seguinte eu fiquei em casa sozinha. Lise decidiu ir para uma festa com um cara que ela tinha conhecido na internet. Preparei um sanduíche para mim e liguei a TV. Estava quase terminando o episódio quando vi uma sombra passar pelo corredor. Me levantei e fui ver o que era. Não havia ninguém. Voltei para o sofá. Um barulho de passos, também vindo do corredor, chamou minha atenção, mas de novo, não havia ninguém.

Abri a porta do quarto lateral, que eu e Lise usávamos como depósito. Alguém se sentava no sofá. Dei um grito e liguei as luzes. A pessoa havia sumido. Apaguei as luzes e dei um paço para fora. Ouvi o som de uma respiração pesada. Me virei, e a pessoa havia voltado para o sofá. Tateei a parede procurando o interruptor, mas quando acendi as luzes, o sofá voltou a ficar vazio.

Em pânico, peguei meu celular e liguei para minha irmã. Ela atendeu depois de três toques.

—Mana, eai? Como é que ta? -O barulho de fundo era alto. Música e conversas.

—Lise, você está bêbada? Bem isso não importa agora. Tem alguém aqui em casa. No quartinho. Eu vi!!!!

—Relaxa, Mil. Essas tuas paranóias de novo? Já disse que não tem ninguém. Para de me atrapalhar.

Ela desligou. Eu tentei ligar para a polícia, mas o sinal havia sumido. Corri para a sacada, buscando melhor conexão, mas não obtive nada. Fechei meus olhos e respirei fundo. Comecei a contar até dez. Antes de chegar a cinco, senti uma dor na minha cabeça e apaguei.

* * *

Acordei no meu quarto por volta das 8 da manhã. Não me lembrava como havia chegado lá. Fui no banheiro e me olhei no espelho, mas não vi nenhuma marca de onde havia recebido uma batida. Minha irmã dormia no chão da sala, ainda com as roupas de festa e seus sapatos jogados no chão da sala. Passei por ela silenciosamente e segui para a cozinha.

Sai de casa antes de Lise se levantar. Cuidei que ficar em lugares cheios, com medo de seja lá o que eu vi ontem de noite. Não queria voltar para casa, mas quando o sol começou a se pôr, não vi outra opção. Ficar na rua me parecia ainda mais perigoso.

Destranquei a porta e entrei na sala. Lise estava em seu laptop.

—Oi. — Eu disse baixinho me sentando na outra cadeira.

—Oi… fiquei preocupada quando não te achei em casa. Tentei ligar, mas você não levou o celular. O que aconteceu ontem a noite?

—Não sei. Tinha alguém em nosso depósito, Meu celular estava sem sinal. E, eu não sei…. acho que alguém me atacou.

—Não quis dizer sobre o que você ACHA que aconteceu. Mas sobre o que realmente aconteceu. — Ela fechou seu laptop veio em minha direção e olhou nos meus olhos. -Acho que seria bom você consultar um psicólogo.

—Você acha que eu estou louca?- Não podia acreditar. Logo Lise, ela que sempre me apoiou em tudo. Agora quando eu realmente precisava dela, ela decide ignorar o que eu digo? — Aquilo foi real! Eu vi!. — Eu comecei a chorar e me levantei da mesa.

—Ei, espera. — Lise me seguiu até meu quarto, mas fechei a porta antes que ela entrasse.

Me deitei na cama e esperei o sono vir.

* * *

Um barulho me acordou no meio da noite. Havia um vulto no quarto, eu tentei gritar, mas não conseguia, era como se minha voz tivesse sido roubada. A pessoa se moveu em minha direção, não tinha uma forma exata, era apenas uma grande mancha preta com um formato humanóide. Eu tentei me mover, mas, novamente, eu não conseguia. Paralisada, não tinha o que fazer além de observar enquanto ela se aproximava de mim.

O vulto colocou suas mãos em meu pescoço, e apertou. Eu continuava tentando lutar. Suas mãos apertaram mais, e pontos pretos começaram a surgir em minha visão. Sentia meus pulmões gritando por oxigênio. Achei que iria morrer. Tudo ficou preto, e eu já não enxergava mais.

Quando recobrei meus sentidos, ainda era noite. Não conseguia voltar a dormir, mas era inútil falar com Lise, Ela achava que eu tinha enlouquecido. Coloquei um casaco e uma bota e sai para caminhar dentro do próprio condomínio.

Me sentei a beira da piscina e observei as estrelas. No reflexo da água, mostrava alguém atrás de mim, mas quando me virei, não consegui ver ninguém. Mesmo com medo, fiquei sentada até o sol nascer.

Quando voltei pro apartamento, minha irmã estava no sofá da sala falando com alguém no telefone.

—Eu não sei o que está acontecendo. Ela começou a pirar semana passada. Eu achei que tava tudo bem, mas ontem ela voltou com essa história. — Ela pausou, e a pessoa do outro lada da linha disse algo que não ouvi. — Quando eu acordei, o quarto estava destruído, e ela não estava em lugar nenhum.

—Voltei. — Eu anunciei para o nada.

—Sim, é ela. — Lise se voltou para mim. — Estou falando com a mãe. Ela acha que seria melhor se você buscasse ajuda médica.

—Eu já disse que não sou LOUCA!!! Alguém tentou me matar essa noite!

Lise desligou o telefone,

—Milla!!! A porta ficou trancada a noite inteira. Você destruiu seu quarto! Sabe o pânico que me surgiu ao levantar e não encontrar você em lugar algum??

—A pessoa deve estar escondida aqui dentro! Ela deve ter bagunçado tudo para me fazer parecer louca! Tem alguém aqui. Essa pessoa me segue! Lis, eu estou tentando te ajudar!

—E eu também! Você não vê que isso lhe faz mal? Nessa casa só tem eu e você, não tem um maluco escondido no armário!

Enquanto ela gritava, um vulto apareceu vindo da cozinha, trazendo consigo uma faca. Eu gritei, tentei avisar, mas Lise não me ouviu. O vulto a acertou na barriga e voou sangue para cima do desconhecido. Minha irmã caiu no chão, os olhos semi-fechados, seu assassino parado atrás dela. Comecei a chorar. Se apenas ela tivesse me ouvido. Minha visão ficou turva, e quando se ajeitou, eu segurava a faca. O sangue estava em mim. Eu estava parada sobre corpo de minha irmã.

Eu havia matado minha irmã.

* * *

Gritei e arranhei meus arredores. Estava na cama do hospital psiquiátrico.

Continuei a grita, mais alto do que antes.

Uma enfermeira apareceu. Com um sorriso tranquilizador, ela estendeu a mão e pegou meu braço. Tirou uma injeção do bolso e me aplicou.

Eu apaguei.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!