Notas iniciais
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Capítulo 123

16 de Outubro de 2008 — Thursday (quinta-feira)

Hoje é aniversario de 113 anos de mamãe, mas ela diz para as pessoas que está completando apenas 32. Só quem faz parte do segredo sabe realmente a idade que ela tem. Não sei qual será o dia em que Esme vai me transformar, tenho certeza que ainda nessa semana, pois não vou passar mais um aniversário como humana.

Não que eu vá mudar muito da noite para o dia, mas eu não quero passar mais tempo correndo risco de morrer por ser humana. Não quero que Esme e Carlisle fiquem com medo de me perder.

Será que vou passar o dia me retorcendo? Eu já tomei minha decisão e estou pronta para a mudança. Não que eu esteja com medo, mas nunca gostei de sentir dor, por isso eu quero muita morfina para se possível não sentir nada, nenhuma dor.

...XXX...

17 de outubro de 2008

Friday

Esta foi a minha última semana como humana. Mamãe disse que me daria seu veneno para eu tomar hoje. Eu acreditei nela. O que mais eu poderia fazer? Espero que ela cumpra a promessa. Eu pressinto que ela vai.

Durante essa semana teve prova de todas as matérias e eu estudei mais para aquelas em que eu não vou muito bem que são Física, Química e Matemática. Eu acho que vou tirar uma boa nota na prova de Educação Física, ainda bem que foi teórica e não prática. Eu levaria bomba se fosse prática.

Eu não me sinto abrindo mão de nada, pois não havia mais nada que a humanidade e o fato de permanecer humana poderia me dar. Aliás, é exatamente por isso que eu estava dando às costas para a mortalidade. Adeus mundo cruel! Você me mostrou o pior que as pessoas podem ser. Agora tenho direito de tentar a felicidade onde e como eu acho que vou conseguir. Eu tenho certeza que com minha nova família eu serei feliz como mereço e quero.

Me despedi no final da aula de sexta-feira de meus colegas mais próximos. Eles ao menos não me desprezavam e me davam algum valor. Às vezes eu sentia que até esses ‘amigos’ me queriam por perto apenas por causa de meu conhecimento. Mas infelizmente para eles a inteligência não é algo que se absorva por osmose e por isso nem adiantava ficar perto de mim pensando que iria conseguir ficar mais esperto/a.

Mas, por outro lado, penso, eu sou assim, a sabedoria faz parte de meu ser, de quem eu sou. Não consigo me imaginar ser de outro jeito. Eu sou assim, intelectual, tímida e reservada. Mais introvertida do que falante. Não tenho facilidade para fazer amigos, não sei me abrir, baixar a guarda. É difícil para eu ceder a intimidade necessária à amizade. Por isso meus ‘amigos’, que eu chamo de amigos, são mais corretamente definidos como colegas próximos.

Exatamente por sentarmos perto geograficamente na sala de aula temos mais contato, mas apenas algum, estritamente o necessário. Se estamos na frente perto do professor é porque queremos aprender, não bagunçar, por isso não conversamos muito. Ao menos eu penso, talvez eles não concordem exatamente comigo. Eu sou mais fechada e esse jeito de ser era o mais adequado para alguém como eu.

Ninguém me conhece tão bem, eu não permito. Esme só me conheceu melhor porque foi minha psicóloga, mas até me abrir com ela foi complicado. Eu sou complexa. Agora para mim era difícil fazer amigos e depois da transformação será ainda mais, meus amigos serão meus irmãos e irmãs. Só poderei compartilhar meus anseios com minha família. E eles por sua vez só comigo.

Voltando para casa eu observo tudo ao meu redor, cada mínimo detalhe que eu não tinha percebido antes, pois quero guardar na memória as lembranças do Brasil. Meus pais me disseram que a memória de vampiro é perfeita, mesmo que eu não me lembre no início quando for jovem na nova vida, eu vou ter essas recordações da minha cidade natal mais tarde para me fazer relembrar.

...XXX...

Chegando em casa Esme vem ao meu encontro:

— Bem-vinda de volta, querida!

— Obrigada, mãe – lhe dou um beijo no rosto.

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— Você está bem?

— Sim, estou ótima.

Mamãe me analisa cuidadosamente, mas nem meu olhar e nenhuma parte de meu corpo indica qualquer dúvida ou hesitação. Eu sei o que eu quero e estou pronta para o destino que escolhi.

— Vamos entrar – ela me acompanha com o braço sobre meu ombro.

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Sinto um pouco mais seu peso, ela não deve estar tendo tanto cuidado comigo como antes. Eu sei como os vampiros podem ser e eu quero ser uma vampira também apesar disso.

Quando chegamos a cozinha ela se volta para mim:

— Carol, tem certeza?

— Claro que tenho mamãe. Eu quero ficar com você e papai para sempre. Você não me quer?

Agora estou aflita que ela não me queira assim como eu a quero.

Ela responde após um segundo que pareceram horas:

— Não é isso, querida. É claro que eu quero você. Muito mais do que você pode imaginar. Mas eu me preocupo, não quero que você sofra.

— Mãe, é parte do processo. Eu tenho consciência disso. Já conversamos, eu quero mudar por vocês.

— Você nos valoriza tanto, sweetie. Não sei se merecemos – ela abaixa a cabeça.

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— Vocês merecem sim. São os melhores pais do mundo. Por vocês eu faria qualquer coisa. Eu farei essa prova de amor. Por favor, aceite.

— Você nos ama tanto assim, querida?

— Você deveria saber disso melhor do que ninguém, mamãe. Minha vida é tudo o que eu tenho, e quero dar a vocês. Para sempre – tenho certeza que eles cuidarão muito bem de mim, como eu preciso.

— Você realmente confia tanto em nós dois. Tenho medo de desapontá-la.

— Então, mãe, não me negue o que você já prometeu. Se não der certo ao menos você fez o que tinha prometido.

— Você não imagina como eu ficaria se você morrer. Não quero nem pensar nessa possibilidade.

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— Mãe, não se preocupe, você mesma me disse que as pessoas geralmente conseguem passar pela mudança. Por que eu não conseguiria? Eu sou jovem, vou suportar.

— Essa não é a única questão, querida; eu não vou suportar ver você gritando e gemendo sabendo que é minha culpa.

— Mamãe, a morfina fará com que eu não sinta nada, como fez com Bella.

— Mas não durou para sempre, e para ela teve o efeito de imobilizar enquanto ela ardia. Ela sofria mesmo sem poder gritar. Não quero que você passe por isso também.

— Me dê mais morfina então.

— Você realmente quer ser um monstro?

— Você não é um monstro Esme. Carlisle não é um monstro. Eu quero ser como vocês dois — persisto.

— Não é tão fácil como parece, filha.

— Eu sei mãe. Não quero me separar de vocês nunca. Não quero morrer, você sabe o quanto.

— Você aceita então passar pela dor agoniante só para não morrer?

— Sim, eu aceito. Principalmente para poder ficar com você e papai o maior tempo possível.

— Minha pequena guerreira!

— Vai dar certo, mãe. Eu sinto – tento ser otimista.

— Queria ter sua certeza – ela me dá um beijo na testa.

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Termino de almoçar e depois subo para meu quarto.

...XXX...

Horas depois Esme vem até meu quarto trazendo um lanche para mim: chocante (achocolatado) e um bolo pequeno tipo cupcake.

Image 6(cupcake chocolate com baunilha)

— Querida, como você está?

Acho que ela está mais nervosa do que eu.

— Eu estou bem mamãe. Por quê?

— Não quero que você pense que eu não gosto de você assim como você gosta de mim – talvez ela me ame mais, porque ela é vampira e eu ainda sou humana e só podia amá-la com toda minha capacidade humana. Quando eu for vampira também irei amá-la muito mais do que já amo. – Me desculpe meu bem se foi o que eu lhe fiz entender pela minha atitude.

— Tudo bem mãe, eu não entendi de outro jeito. Eu jamais poderia ficar magoada com você – poder eu poderia, mas se ela me rejeitasse mais do que isso apenas. – você só está preocupada comigo e isso prova que você se importa comigo e me ama muito.

— Sim, sweetie. Talvez até mais do que você imagina – ela senta na cama do meu lado e coloca a bandeja sobre o criado mudo.

— Eu estou pronta, mãe. Não se preocupe mais. Não quero que se estresse mais do que o necessário.

— É um fardo muito pesado querida.

— Eu vou suportar.

— Você não está com medo?

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— Não mãe; eu sei o que pode acontecer e estou preparada o quanto posso, por isso não tenho medo. Quando você vai me mudar, mãe?

— Logo mais querida; primeiro coma um pouco. Não quero que você fique com fome e acorde com muita sede. — Será que isso iria acontecer? Eu não iria acordar com sede porque tenho meu próprio sangue dentro de mim que serviria de alimento.

— Concordo, eu também não quero que isso possa acontecer. Já será bem difícil controlar a sede e não quero complicar ainda mais; se eu posso facilitar farei tudo que puder para ajudar.

— Fique tranquila quanto a isso querida, eu e seu pai vamos cuidar para que você não faça nada de que venha a sentir remorso. Se quiser você pode dormir um pouco, será a última vez que você vai fechar os olhos por algum tempo — assim eu espero e acredito que será.

— Eu poderei fingir estar dormindo quando for vampira, não é, mãe?

— Sim, mas os vampiros jovens não são capazes de se controlar e não fazem nada do que fazemos para parecermos mais humanos. Eles nem piscam.

Acredito que mamãe vai me ensinar a como me comportar depois que eu for uma vampira, não quero assustar ninguém e muito menos expor nosso segredo.

— Nem consigo imaginar ficar sem piscar. Meus olhos ardem se eu fico com eles muito tempo abertos.

— O veneno lubrifica nossos olhos sem que precisemos piscar constantemente, querida. Eu poderia ficar sem piscar, mas já estou habituada a fazer isso. É melhor assim ininterruptamente do que ter que lembrar de fazer isso perto das pessoas. Isso não seria problema, mas prefiro assim, já me acostumei a piscar mesmo sem necessidade.

‘Os seres humanos certamente notariam alguém que não pisca e não sente necessidade de fazê-lo, assim como percebem alguém olhando fixamente. Eles não se sentem bem com alguém encarando por muito tempo.

Nesse aspecto eu sempre fui esquisita. Eu encarava os outros, olhava fixo, mas abaixava o rosto quando me devolviam o olhar, envergonhada.

Dou uma mordida no bolinho:

— Muito bom, mãe – digo depois de engolir.

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— Obrigada querida, eu mesmo fiz hoje mais cedo.

— Termino de comer. Não me incomodo que Esme veja, ela não tem vontade de comer o mesmo tipo de alimento que nós humanos ingerimos, porque a comida humana não lhe é apelativa. Nem me preocupo que ela possa ficar com vontade de me morder por me ver comer e também fique com fome. Na verdade, é justamente o contrário, mamãe fica muito satisfeita ao me ver apreciar o que ela preparou com tanto esmero, carinho.

Coloco a caneca de volta na bandeja quando termino de tomar e mamãe leva para lavar.

Eu me deito na cama e fico pensando:

Ela que pediu para fazer isso por mim e eu permiti, eu poderia fazer, mas ela não quer que eu me canse fazendo o que ela pode fazer sem ficar cansada e muito mais rapidamente do que eu. Não sou mal-educada, eu estou deixando ela fazer o que ela quer, não há nada de mais. É preciso saber ceder, mas é claro que é bem mais fácil quando nos faz bem. Não vou ficar explorando mamãe para sempre.

Quando eu for vampira também vou ajudá-la a limpar nossa casa. Se bem que vampiros não sujam tão frequentemente onde moram como os humanos; e eu tinha que limpar minha casa quase todos os dias. Aliás, é também por isso que Esme me dá essa mordomia. Não pedi, ela que decidiu fazer isso por mim por vontade própria. Assim eu vou ficar mal acostumada.

Pensando bem acho que mamãe tinha que fazer tudo antes quando ainda era humana e merecia ter uma folga assim como eu. Acredito que Rosalie, Alice e Bella e até mesmo os rapazes ajudem quando necessário a manter a casa em ordem. Para vampiros deve ser ainda mais necessário porque podem ver uma pequena sujeira. Tomara que não tenha nenhum vampiro maníaco por limpeza. Eu não vou ficar tão cheia de frescura assim. Espero que não.

Sei que esteticamente os vampiros valorizam muito a arte e a beleza. apreciam belos quadros e estátuas. Disso eu sempre gostei. Eles adoram musica instrumental também. Tudo que é belo e harmônico. Por isso também mamãe gosta de cuidar de suas flores no jardim e desenhar e pintar.

Meu coração se acelera ao pensar que daqui algumas horas não serei mais humana. Ainda bem que Esme não está mais aqui — se bem que acho que ela pode ouvir mesmo do primeiro andar – eu tento me controlar perto dela. Respiro e expiro lentamente para me acalmar, eu não sou uma pessoa nervosa, nunca fui, mas até a pessoa mais calma do mundo estaria apreensiva nesse momento.

Faço esse exercício movendo o abdômen e não o tórax e dá certo, muito cansada acabo adormecendo...

Foi um sono tranquilo, não tive nenhum pesadelo apesar de estar tão preocupada. Logo que eu acordei, acho que Esme deve ter percebido e veio até meu quarto...

...XXX...

Notas finais
~~ adoro a palavra esmero, é perfeita para definir Esme. significa cuidado, carinho.