Notas iniciais
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Capítulo 117

01 de julho de 2008

Desde ontem eu estou de férias da escola. Será praticamente um mês de descanso, pois as aulas do segundo semestre recomeçam dia 21. Cada vez fica mais perto o dia da minha transformação, a minha mudança de mortal para praticamente imortal. Estou ansiosa para deixar esse corpo frágil e indefeso e me tornar um ser forte e duro como uma estátua. Trocar o calor pelo frio e a vulnerabilidade peça invulnerabilidade.

Nunca me incomodei muito com o inverno, mas pelo que eu entendi mamãe e papai não se sentem frios. Eles são frios apenas para nós humanos, mas podem sentir a exata temperatura dos objetos. Claro, meus pais perceberam quando eu estava com febre. Vampiros não podem sentir sensações dentro de si, mas podem perceber alterações exteriores. Eles não sentem dor e isso é bom, porque eu não gosto dessa sensação que nós humanos somos obrigados a ter. Isso não é coisa de Deus, aposto que no Éden não tinham que passar por isso.

Sei que a transformação não vai ser indolor por mais morfina que papai me dê. Sentir dor uma última vez para depois nunca mais sentir é um preço justo a se pagar pela virtual imortalidade. É um sacrifício que eu estou disposta a fazer para obter o tão almejado prêmio. Não morrer, não ter medo da morte, não é uma maldição, é um presente. Vou se eternamente grata à mamãe, literalmente.

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Estamos em Londres agora pegamos um vôo ontem e agora um táxi. Papai coordena o motorista que nos leva até o hotel. Agora já está anoitecendo e então vamos só amanhã conhecer onde meu pai Carlisle nasceu e viveu a maior parte da vida humana. Deixo-o guiar o motorista porque eu não teria coragem de falar com um inglês de verdade e eu nem sei para onde vamos. Eu e Esme ficamos apenas observando papai conduzir a conversa e eu fico maravilhada com a beleza da cidade mesmo de noite.

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São tantas luzes! Tantos lugares para conhecer! Mas é melhor deixar para ver quando estiver dia, com a luz do sol é mais fácil apreciar tudo. Vamos para um hotel e ficaremos em dois quartos um duplo e um de solteiro. Eu vou dormir, mas meus pais não precisam. Eles só alugaram mais um quarto para não chamarem atenção desnecessária, mas talvez eles usem a cama para fazer outra coisa...

Não é permitido no hotel, mas ninguém vai perceber nada se eles quiserem fazer. Até eu que durmo no quarto ao lado nem ouço nada, talvez meus irmãos tenham escutado alguma coisa porque eles têm audição melhor do que a minha. Mas mesmo se eu puder ouvir quando não for mais humana não acharei nada estranho, meus pais não estão fazendo nada errado.

Descemos do táxi e entramos no hotel, subimos para nosso quarto conjugado. É especialmente para hospedar famílias de três pessoas como a nossa. Não trouxemos muita coisa apenas uma mochila coube tudo que eu quis ou tinha que trazer.

— Bem vinda à Londres – papai repete para mim. Ele disse a mesma frase assim que desembarcamos no aeroporto.

— Obrigada papai – digo novamente.

— Você está bem, filha? Eu e sua mãe estaremos no quarto ao lado se precisar.

— Sim, pai.

— Amanhã vamos levar você para conhecer onde eu morava. Claro que agora não há mais nada daquela época, mas ainda sei onde era. Não haveria mais depois de tanto tempo, nem mesmo se Londres não tivesse sido bombardeada pelos alemães durante a segunda guerra mundial.

— Tudo bem, pai – para mim será interessante conhecer o lugar e tentar imaginar como era no século XVII.

— Boa noite, querida.

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— Boa noite, meu amor – diz Esme para mim e beijando o alto da minha cabeça.

— Boa noite, pai. Boa noite, mãe.

...XXX...

No dia seguinte, Carlisle alugou um carro para nos levar até lá. Não era uma Mercedes, mas era quase tão imponente e belo quanto o automóvel de papai. Hoje não era propriamente um dia ensolarado apesar de estarmos em pleno verão europeu. É bom que não esteja tão claro para que meus pais não pudessem sair comigo. Eu nem cogitei a ideia, mas obviamente eles não me deixariam sair sozinha, pois eu poderia me perder ou algo pior poderia acontecer comigo. Eles sabem dos perigos de uma cidade tão grande quanto Londres, que não é apenas mais uma capital de algum estado ou departamento, ela é a capital do país.

A cidade cresceu tanto durante os séculos XVII e XVIII que mais do que uma metrópole, podemos dizer que é uma megalópole. Bem diferente de quando Carlisle viveu aqui. É quase irreconhecível. Também porque a cidade teve que ser em grande parte reconstruída depois do incêndio em 1666 pouco depois de papai ter deixado a ilha, e dos bombardeios nazistas no século XX.

Papai dirige por alguns minutos até que eu digo, impaciente:

— Aonde estamos indo? — não queria incomodar mas não me aguento de curiosidade. Será que vai demorar?

— Eu não nasci propriamente na cidade, embora hoje seja parte da cidade. No meu tempo não era e ficava muito longe da capital. Era apenas uma vila.

— Vamos chegar lá ainda hoje? – pergunto afobada.

— Sim, não é tão longe. Hoje em dia podemos ir até de metrô.

Imagino nós três pegando o transporte público, seria possível é claro, eles conseguem, mas meus pais preferiram não me expor a isso.

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— Onde ficava sua casa, papai?

— Eu morava na parte oeste da cidade, hoje se chama Esher.

— Esher... quase o nome da mamãe! — eu exclamo eufórica.

— Coincidências do destino, porque no meu tempo não tinha esse nome ainda. Era apenas uma pequena vila e meu pai era o pastor da igreja local.

— Isso eu me lembro. Ele era um pastor anglicano; então você é anglicano, papai? – e se ele é eu acho que eu também sou. A única diferença entre católicos e anglicanos é apenas a aceitação da autoridade do papa, não é?

— Não exatamente. Eu era anglicano sim quando humano, mas acho que agora que eu não estou tecnicamente vivo então não tenho que ter alguma religião. Eu acredito em Deus, independente de denominação religiosa.

— Ah, achei que eu teria que me tornar anglicana... — me calo subitamente pois acho que falei asneira.

— Não há necessidade disso, filha.

— Não seria muito complicado, pois eu sou católica e a diferença é apenas quanto a figura do papa, não?

— Pode ser resumido assim. Mas você não tem de mudar de religião por minha causa. Eu jamais exigiria isso.

— Segundo o que você me disse papai, acho que o vovô não iria gostar muito de mim porque você disse que ele perseguia os católicos – ainda bem que Carlisle não é como o pai dele se fosse eu estaria ferrada.

Carlisle sorri:

— É verdade, filha. Mas acho que ele perseguiria até a mim se soubesse no que eu tinha me tornado.

É verdade, concordo. Por saber disso foi que papai não voltou para casa depois que se transformou. Ele sabia que o pai iria queimar tudo em que o monstro tocou, não iria poupar nem o próprio filho.

Mas acho que o vovô deveria ficar orgulhoso por Carlisle apesar de ser um vampiro, ser vegetariano e não se alimentar de sangue humano.

— Então ele nunca soube o que aconteceu com você?

— Não; provavelmente ele me deu como morto o que ele possivelmente queria desde que eu nasci; e até mesmo preferiria se soubesse o que tinha acontecido comigo. eu também senti repulsa por mim mesmo quando descobri no que havia me transformado. eu não queria ser um monstro.

— Você não é mal, papai. Meu ex-pai também não me queria, eu acho. Ele me detestava e também preferia que eu não tivesse nascido.

— Querida! – Esme me envolve com os braços e me aproxima de seu peito. Ela sentou comigo no banco traseiro atrás do motorista.

— Eu sei, mãe. Não disse que eu preferia estar morta, hoje não penso mais assim. Eu sei que você e papai jamais prefeririam me ver morta, não exatamente.

— Querida! – agora Carlisle protesta.

— Papai, você sabe que eu não quis ofender.

— Não estou ofendido, filha.

— Então porque reclamou?

— Eu não quero que pense em morrer, isso não é legal — parece que mamãe comentou com ele sobre as minhas tentativas de suicídio. Não estou zangada com ela por ter contado. Isso não é mais segredo e eu nem penso mais nisso.

— Está bem, papai. Mas eu sei que não estarei viva depois da mudança. Não completamente. Somos mortos-vivos.

— Sim filha, mas isso é segredo, você sabe que precisamos ser discretos e nos manter escondidos. Para todos os efeitos somos humanos e queremos que as pessoas pensem que somos iguais. Apenas mais uma família entre tantas.

— Eu sei, papai, eu sei — mas eles jamais serão normais, nem para os padrões dos vampiros, nem para os humanos.

Só conseguimos enganar os humanos, mas até que ponto eles permitem? Não dá para saber. Não os subestimamos tanto pensando que são tolos, sabemos que precisamos nos mudar quando eles começam a suspeitar que não envelhecemos.

Ao menos nós que tentamos nos camuflar entre eles e viver em sociedade não oferecemos perigo, mas o perigo vem quando outros vampiros menos civilizados se aproximam de nós. Nossa presença perto das pessoas tem esse esse efeito colateral, mesmo que não queiramos.

— Logo você também vai depender do anonimato e entenderá melhor.

— Só quero deixar bem claro que eu não sou ignorante, eu sei o que vocês são e isso não me importa. Para mim você e mamãe são as pessoas mais maravilhosas que já conheci. Não interessa se são da espécie humana ou não. Vocês são muito mais humanos que alguns seres humanos.

— Obrigado criança.

— Obrigada sweetie.

A neblina fica tão densa que não consigo enxergar o caminho. Parece que vamos entrar na imensidão branca que está em nossa frente. Carlisle ouve meu coração acelerar de medo e diz para me tranquilizar:

— Não se assuste, querida.

— Eu e seu pai podemos ver nitidamente o asfalto– Esme me acalma.

— Eu não estou enxergando nada, pior do que quando os óculos ficam embaçados. Parece que vamos entrar na nuvem. Só vejo branco fora do carro.

— Bem vinda a Londres, filha – Carlisle repete. – a névoa da cidade veio te dar boas vindas porque não é comum nessa época do ano ocorrer uma cerração tão intensa. Estamos no verão e não no inverno – ele ascende os faróis do automóvel e um pouco da rua na nossa frente fica visível, mas bem pouco mesmo. Quase nem faz diferença o fato de ele ter acendido a luz.

Parece que ao invés de dispersar com o tempo a neblina fica cada vez mais concentrada. Carlisle liga os limpadores de pára-brisa porque está chuviscando um pouco também.

Ou as gotículas de água se condensam em contato com o vidro. Eu sei que Carlisle consegue ver bem mesmo com o vidro todo molhado, mas não queremos chamar a atenção e muito menos levar uma multa por causa disso. Se bem que pagar não seria problema, mas é bom evitar o que pode ser prevenido.

— Deve estar ficando frio – comenta Esme e coloca em meus ombros o casaco reserva que trouxe para mim.

Ela é tão mãe agindo dessa maneira e eu me sinto aconchegada e confortável em seu colo. Eu me inclino em sua direção o máximo que consigo com o sinto de segurança me prendendo.

— Não solte o sinto, querida! – diz papai me vigiando atentamente através do espelho retrovisor.

Carlisle não iria bater só para me machucar, mas eu não vou tirar o sinto para que ele não seja multado por minha causa.

— Claro que não, papai.

Indago:

— Vamos demorar muito ainda?

— Talvez sim, porque não posso acelerar por causa da neblina. Embora eu esteja vendo nitidamente não queremos chamar a atenção da polícia andando mais depressa.

— Entendo, papai. Tudo bem, demore quanto precisar.

Apoio minha cabeça no ombro de Esme e ela afaga meus cabelos — sua mão está devidamente encoberta com luvas e por isso não me incomodam. Ela também está agasalhada, não que ela precise, mas por minha causa, para que eu não sinta tanto frio ao me abraçar.

...XXX...

Alguns minutos depois chegamos. Carlisle estacionou e veio me ajudar a desembarcar. Ele indica a esquina com o olhar:

— Minha casa ficava ali onde agora é aquele prédio.

Ainda bem que o sol apareceu e dissipou um pouco a neblina e me permite enxergar melhor. Meus pais brilham um pouco, mas não há motivo para nos preocuparmos, pois não há muitas pessoas na rua.

Olho ao redor e exclamo:

— Ah! Não tem nenhuma construção daquela época – digo decepcionada.

— Como eu disse, Londres foi bombardeada durante a segunda guerra mundial e poucas construções são antigas. Algumas foram restauradas como aquela fonte.

— É do século XVII pai?

— A fonte propriamente, não. Foi construída mais tarde, no século dezoito. Eu me lembro que era um poço que ficava perto da igreja. Eu pegava água todos os dias daqui. isso me fazia pensar em minha mãe.

— Ela deve ter sido muito bonita, assim como você, pai.

— É verdade, acho que a semelhança física entre nós dois era tanta que quando eu me tornei rapaz meu pai não me chamava mais pelo meu nome, só pelo nome dele, Wiliam.

— Mas fico emocionada só em pisar no mesmo chão em que você há quatro séculos, praticamente — sorrio.

Caminho pela calçada e reflito por alguns instantes:

— Papai esse lugar também lhe traz lembranças ruins. Não quero que você fique triste. Podemos ir embora se quiser...

— Não se preocupe querida, eu estou bem – diz Carlisle entendendo a que me refiro tão indiretamente. – A perseguição ocorreu a alguns quarteirões daqui.

O tempo subitamente volta a ficar encoberto então retornamos para o hotel. À tarde meus pais me levaram para conhecer outros lugares e eu fiquei deslumbrada com a cidade. É claro que na época em que meu pai viveu não era tão glamourosa, a maioria das construções é mais recente. Mas eles querem me mostrar a cidade como ela é hoje e que eu me lembre depois dessa viagem. A revolução industrial só ocorreu anos mais tarde e Londres se tornou o que é hoje, no século XXI, uma das maiores metrópoles da Europa.

...XXX...

Notas finais
https://pt.wikipedia.org/wiki/Londres https://www.google.com.br/maps/place/Esher https://en.wikipedia.org/wiki/Royal_Borough_of_Kingston_upon_Thames https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Fire_of_London https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_inc%C3%AAndio_de_Londres