Notas iniciais
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Capítulo 108

03 de Abril de 2008

Carlisle vem em meu quarto:

— Com licença filha, posso conversar com você?

— C-claro — Tento me controlar para não ficar com medo. O que será que ele quer comigo?

— Não se preocupe, não é nade grave.

Ele tenta me acalmar e se aproxima da escrivaninha em que estou. Papai me pergunta:

— Filha, o que é isso no seu braço? – ele sabe obviamente o que é, só pediu para ver o que eu iria responder.

Abaixei a cabeça e olhei para minhas mãos. Virei-as e não percebi nada anormal.

— Não vejo nada estranho que não deveria.

— Um pouco mais para cima, criança, perto dos seus ombros.

— Ah! – digo ao perceber ao que ele se refere: as espinhas. Ele não falou diretamente para não me constranger, pois sabia que o assunto poderia me deixar encabulada. – Me desculpe pai, eu não consegui resistir e espremi, mas com muito cuidado para não tirar sangue. Se fosse por mim apenas eu não me importaria em sangrar. Ás vezes eu consigo resistir porque lembro da mamãe e sei como é difícil para ela – abaixo a cabeça constrangida.

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Eu sei que tenho que treinar a resistência também, pois eu quero ser uma boa vampira vegetariana e não ter problemas para me adaptar à dieta da família.

— Não fique assim querida, está tudo bem – ele ergue meu queixo com os dedos. O toque gelado inesperado faz meu coração disparar e a pulsação acelera. – Você não tem culpa nenhuma, eu sei como é difícil. Eu deveria saber que você também teria problema de acne, pois todos os adolescentes têm...

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Carlisle quer tirar minha culpa, mas eu TENHO culpa sim. Eu poderia ser uma exceção a essa regra, mas não sou totalmente, e ainda tenho que passar por isso. Por que temos que passar por isso? É humilhante. É degradante. No meu caso não posso colocar uma camiseta sem mangas no verão quando é quente. Isso não é justo! Mas ainda é melhor do que ter o rosto cravejado, não posso reclamar muito da sorte que me coube, muitas pessoas sofrem muito mais que eu nesse quesito.

— ...mas você não tinha no rosto como os jovens costumam apresentar.

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— Ás vezes eu tenho um ou outro também na face.

— Sim, é verdade. Mas não prejudica muito seu visual, filha. Você é muito bonita.

Eu enrubesço com o elogio inesperado. Não sei como reagir. Eu poderia agradecer, mas não disse nada apenas abaixei a cabeça novamente.

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— Ainda bem que não, eu ficaria horrível – digo algo totalmente impensado.

— Os humanos mais novos dão muito valor para a aparência, são mais vaidosos do que os adultos, eu diria. Mas é claro que alguns continuam a ser quando crescem.

E quando se tornam vampiros também, como é o caso de Rosalie, acrescento mentalmente. Ela disse que era uma humana bem vaidosa que valorizava muito sua beleza. Não só ela, mas seus pais também incentivavam esse sentimento na filha. Ela era bonita e tinha a beleza reconhecida. Isso a tornou arrogante e mimada. Mas ela se tornou mesmo a vampira mais linda ninguém pode negar, embora as preferências pessoais nos inclinem para outras conforme nosso gosto.

Eu, por exemplo, tenho tendência a preferir mesmo Esme. Ela é mais bonita no meu ponto de vista. Não apenas fisicamente, mas também sentimentalmente. Não apenas eu penso assim, papai também concorda comigo. Mamãe não apenas tem o corpo bonito, mas uma alma linda.

Sim, eu acredito que os vampiros têm alma. Embora alguns duvidem ou ajam como se não tivessem, no caso dos nômades.

— ...são fungos que provocam essas erupções na pele.

Penso sobre o que ele disse e deduzo...

— Quer dizer então que bichos vivem em mim, pai?

— Sim, pois seu corpo é quente. Mas nem todos os microorganismos que habitam em você são ‘maus’. Alguns ajudam na digestão.

Quer dizer então que quando morremos nós já temos em nosso corpo os vermes que irão nos decompor!

— Nós vampiros não adoecemos porque nenhum ser vivo suporta nossa temperatura baixa. Se bem que os vírus não são biologicamente vivos, não exatamente... – Carlisle divaga em um assusto científico.

— Mal vejo a hora de me tornar uma vampira também!

— Calma filha, não tenha tanta pressa. Parece que você enxerga isso melhor do que realmente é.

— Não pai. Apenas não encaro como uma maldição. Não é tão ruim, é claro que tem dificuldades, assim como ser humano também tem seus percalços.

— Acho que essa é a maneira certa de encarar nossa existência. Concordo com você.

— Eu sei. Eu vejo assim porque aprendi com você, pai.

— Nem sempre eu encarei dessa forma. No início eu pensava que era um monstro. Mas isso mudou quando percebi que podia sobreviver me alimentando do sangue de animais. O que para mim era muito mais humano do que matar pessoas. Se eu tivesse que fazer isso eu preferia morrer, como realmente tentei me matar quando eu descobri no que eu havia sido transformado.

— Ainda bem que você descobriu esse jeito de viver.

— Não sou o único a pensar dessa maneira. Antes de mim nossos primos também começaram a viver dessa forma mais pacífica sem se alimentar de seres humanos.

— Mesmo assim pai, sua atitude é muito admirável. Tenho orgulho de você. Ainda mais porque você se tornou um médico para ajudar as pessoas com seus conhecimentos e sentidos apurados, além de não caçá-las somente.

— Mas sobre você criança, eu vou dar um sabonete para você limpar sua pele e se livrar desses parasitas.

Me lembro que ouvi Jacob se referir aos Cullen como parasitas também. Mas eu não concordo com isso. Eles não vivem grudados em outra pessoa, não pode ser considerados parasitas.

— Obrigada, pai.

Ele anda em direção da porta do meu quarto, mas de repente vira:

— Ah, filha! Mais uma coisa.

— Sim – fico em pé também.

— Você não está se ferindo de propósito, está?

Ele sabe que estou, ele viu o machucado inflamado em meu braço.

— Não – eu digo uma meia verdade, pois eu aproveitei sim o ferimento da espinha para coçar mais e abrir com a unha.

— Isso pode causar uma infecção, querida. Você não deve se arranhar – ele sabe que eu não disse a verdade, mas não me acusou diretamente.

— Eu não vou morrer, pai, então não vejo mal em me machucar para tomar meu próprio sangue. Eu me controlo para parar. Aliás, já estou treinando para quando for uma vampira.

— Carol, isso não é certo. Os humanos não foram feitos para ingerir sangue.

— Bem no começo quando ainda não tinha descoberto o fogo o homem comia carne crua. E provavelmente sangue também.

— Talvez, mas fazendo assim filha você está parecendo com os índios canibais que comiam outros para adquirir, acreditavam, suas habilidades e força. Você não está pensando em tomar sangue humano depois, não é? Sabe que nós Cullen não atacamos as pessoas.

— Eu sei. Não acho que eu seja canibal apenas por tomar meu próprio sangue. Eu sou esperta o suficiente para não tentar tomar sangue cru de animais. Eu sei que para mim não teria mesmo utilidade e ainda poderia me causar transtorno.

Será que o fato de eu ter tomado o meu sangue vai fazer com que o sangue humano fique ainda mais irresistível para mim quando eu for uma vampira? Tomara que não.

Carlisle sorri orgulhoso:

— Certamente seu corpo não teria a mesma reação que o nosso. Nosso organismo está preparado para lidar com micróbios e outras contaminações, mas seu corpo ainda não.

— Porque vocês são frios – digo compreendendo.

— Exatamente querida. Mas não se machuque mais, você não precisa fazer isso ainda. Você não precisa de sangue para sobreviver como eu, sua mãe e seus irmãos.

— Eu prometo que vou parar com isso pai. Eu sei como isso é ruim para Esme.

— Na verdade não é tão ruim. Você é humana e seria inevitável sangrar. É inerente a ser humano, você não pode evitar e nós sabemos disso.

— Mas eu não quero sangrar desnecessariamente. Se eu posso evitar vou poupar mamãe.

— Não se culpe por causa disso, filha. Nós sabemos que seria difícil ter uma humana em casa, nós escolhemos passar por isso. Nós sabemos que podemos e faremos o possível e até o impossível para evitar machucar você. Não se preocupe com isso. Deixe conosco.

— Eu confio em vocês.

— Sabemos disso, querida. Obrigado. Espero que correspondamos.

— Eu sei que não estou superestimando vocês. Vocês dois são capazes. Obrigada a você por ter me explicado como é para vocês.

— De nada, criança.

Agora sim ele atravessa a porta e vira no corredor.

...XXX...