Equilibrium
45 Capítulo 45 - La sirena
Fiquei paralisada, queimando por dentro com a minha própria impotência. Ela não tinha apenas matado minha melhor amiga, também tinha fingido ser ela. Me fez chorar por ela, dormiu na mesma cama que eu, me fez fazer Alec ser provador de comida. O que mais me doía é que eu não tinha notado. Que tipo de pessoa egocêntrica não nota que sua melhor amiga foi substituída por um monstro?
E lá, estava eu, descobrindo por acidente. Dezenas de livros da Agatha Christie, um QI supostamente alto e um ego maior ainda, e só tinha descoberto por ocasionalidade. Se não estivesse no lugar certo e na hora certa, passaria décadas sem nem sonhar a resposta. E Vanessa estava certa no fim. Se eu tivesse matado todos naquele hotel, Trivia ainda estaria solta por aí, certamente rindo muito da minha cara.
Não sei quanto tempo fiquei lá, esperando o exército marchar para longe. A única coisa que conseguia no início pensar era: Trouxa, trouxa, trouxa. Depois, o pragmatismo tomou conta. Eu iria dar um jeito de pegar o maldito colar e faria Trivia se arrepender do dia que decidiu reencarnar de novo.
Quero que meus inimigos apodreçam.
Parecia um bom desejo. Ideal pra ela, se decompor em vida até finalmente morrer. Meu lado cruel ficava satisfeito em imaginar ela tentando conter a putrefação até virar uma pilha de ossos.
Lentamente, senti a fúria diminuir. Diminuir anormalmente. Olhei para Vanessa, com a mão no meu ombro e com um olhar culpado.
Pare de usar seus poderes em mim, disparei.
Você estava a dois passos de perder a cabeça. Fique tranquila, depois que pegarmos o colar, deixo você ficar babando igual um cachorro raivoso por dois dias.
O hilário de ter sua raiva amortecida por um vrykolaka é que você não virá subitamente um ursinho carinhoso paciente e dócil. As coisas só pareciam bem claras e racionais. Vanessa parecia claramente bastante filha da puta e eu sabia que não dava para fazer nada contra ela. Naquele momento, pelo menos.
Também sabia que talvez enfiasse a mão na cara da ruiva caso minha raiva não estivesse controlada. Vanessa sempre foi rápida em me julgar como fraca em qualquer situação, nunca teve uma grama de consideração por mim, nem quando estava em luto. Só por isso, merecia o nariz esmagado.
Arruinaria o seu nariz também.
Eu não dava a mínima.
Por fim, o exército passou. Quando era seguro o suficiente, Idia começou a descer e acompanhamos ela. Do outro lado da estrada pisoteada por sei lá quantas dezenas de pés, tinha uma espécie de muro metálico — talvez cobre, sei lá, interrompido apenas por um portão.
O portão era estilo grego. Havia duas colunas gregas apoiando uma estrutura triangular acima e tudo era feito do mesmo material do muro. O único sinal de alerta era dois corpos em agonia esculpidos nas colunas, um feminino e um masculino, ambos com as bocas abertas de horror e expressão deformada.
Achei bastante agourento.
Me aproximei do portão e olhei o cenário de dentro. Achei mais agourento ainda: defuntos recentes, defuntos que eram só ossinhos brancos, defuntos com armas na mão, alguns com as próprias armas no pescoço. Algumas espécies de dirigíveis com defuntos dentro — Pela mente de Vanessa, descobri que essa foi uma incursão planejada por uma família de descendentes de Hefesto que visavam explodir o domo com bombas temporizadas e também tinham achado que haviam criado uma máquina invulnerável à "magia local". Pelo visto, não tinha sido sucesso.
Se bobear, a areia ao redor do domo prateado e brilhante era feita com ossinhos decompostos de uns trouxas que foram lá. Comecei a me perguntar se esse plano era uma boa ideia mesmo.
Meio que tinha certeza que cada um daqueles defuntinhos pensou que seria o ser especial que pegaria o colar de dentro do domo. Ou eles tinham poderes inéditos ou tinham criado novo ou estavam muito desesperados.
Claramente, eu fazia parte do grupo dos desesperados.
— Vamos lá? — Vanessa tirou duas cordas da mochila e pasmem, parecia animada.
Enfim, qualquer coisa que pudesse render fama a animava. Ah, como aquilo me irritava.
Ela amarrou a corda na cintura dela com vários nós e depois amarrou a outra corda na Idia. Entregou a ponta da corda pra mim.
— Faça de acordo com o combinado.
Senti uma vontade abrupta de retrucar dizendo que iria soltar a corda e mandar as duas pra puta que pariu. Mas, nah, decidi poupar a discussão fútil.
— Boa sorte, meninas.
Peguei e comecei a pensar se eu teria força pra puxar as duas caso desse muito errado. Esperava que sim. Foi essa a estratégia de Damien, Sam e Mare. Amarrar alguém na corda, esperar se a pessoa chegava no domo e puxar caso parecesse que estava beirando a um ataque cardíaco ou suicídio bizarro.
Se deu certo pra eles, daria para gente, não é?, tentei ser positivista.
Não.
Vanessa deu um passo dentro do portal.
Minha visão começou a escurecer. Não, não, não, pensei. Era muita burrice da minha parte ter pensado que ficar para trás teria me livrado dos efeitos sendo que eu tinha uma ligação mental com Vanessa. Eu conseguia sentir o plano indo para o ralo. Deuses, até Idia, velha pra caramba — devia ter uma quantidade decente de séculos, pelo menos — não tinha reparado nessa gafe. Por isso que não gosto de planos abruptos, quanto mais rápido, maior a chance de dar merda.
Pelo menos tive tempo de sentar no chão antes de tudo apagar, o que certamente evitou o meu traumatismo craniano.
Então eu não era mais eu. Olhando para baixo, estava sentada numa arquibancada. Eu tinha pezinhos brancos, estava usando um shortinho florido e minhas unhas eram laranja néon. Então era aquilo: aparentemente possuí uma criança brega.
Tinha uma mulher na minha frente lutando com hologramas. Eu não conseguia ver muita coisa dela de tão rápido que se movia. A roupa era preta e o cabelo também. Na mão esquerda, ela segurava uma faca de um tipo que eu nunca vi antes. Era uma triadaga de fios totalmente torcidos em espiral, então quando acertva no holograma, parecia o buraco de uma bala. Só os deuses sabiam que estrago isso geraria em um ser com órgãos internos.
A propósito, para fins de pesquisa do leitor, hoje sei o tipo de faca que era e vou deixar aqui pra vocês verem mais tarde. Uma jagdkommando tri-dagger.
Os hologramas eram humanóides azuis brilhantes e se desfaziam quando o golpe da faca encontrava um local vital. Tinham cinco lutando com a mulher e cada vez que um caia, aparecia outro. Era impressionante observar aquela moça lutando, parecer mais rápida que a média dos vrykolakas. Alguma coisa sobre ela me parecia familiar.
Por fim, os hologramas não levantaram mais. Ela pulou a cordinha que fechava o ringue do campo de treinamento e olhou para o alto, onde Raphael mexia em uma máquina no topo da arquibancada.
— Não acho que ainda tá rápido suficiente — comentou.
— Pô, tenta não humilhar o nosso trabalho.
— Talvez funcione para as crianças?
O coitado estava com cara de quem queria pular da arquibancada.
— É o primeiro teste, vamos tentar ter mais fé.
Para a mulher, o combate com os hologramas parecia uma brincadeira, mas a única coisa que a menina assistindo conseguia pensar era: "Quero ser igual ela quando crescer".
Eles ficaram discutindo um monte de coisa sobre configurações, aparelhos, sobre a cor dos hologramas ser feia, níveis de velocidade. A criaturinha que era eu se esticou na bancada sabendo que aquilo não ia terminar tão cedo. Soltei um bocejo.
A mulher de preto riu e começou a andar na minha direção. O cabelo dela era ondulado e absurdamente preto. Olhos azuis tão claros que poderiam parecer brancos. Entre as descendentes de deuses que já vi — exceto eu, ego a parte — talvez fosse a mais bonita. Sabia de onde tinha visto ela, a mulher do retrato da casa que pegou fogo na Irlanda.
Mãe.
Ela se sentou na minha frente, era incrível como qualquer movimentação dela parecia elegante. De alguma forma, sabia que aquela garotinha queria ser igual a ela quando crescesse.
— Seu aniversário é semana que vem. O que meu bebê quer?
A menininha sabia que podia pedir várias coisas. Viagens, brinquedos, talvez um cachorrinho filhote. Outro pinscher para fazer companhia ao Presidente Au Au?
A garotinha sorriu
— Quero que papai possa vir na minha festa.
Então nesse momento a expressão da mulher começou a azedar. O bom humor de Elise Kroell já era. Repetinamente, comecei a sentir raiva. Raiva de mim mesma e remorso. Isso não vinha de mim ou da menina, vinha da versão crescida dela, que sabia o que estava por vir.
Me sentia afogada em uma onda empolgação. Tentava me manter consciente, não deixando as emoções de Vanessa tomarem conta. Era difícil, cada vez me sentia mais como ela do que eu. Meus salgadinho favoritos, bolo de brigadeiro — feito com chocolate amargo , nada muito doce. Por um breve momento, fiquei mais consciente só para deboxar da situação: uma criança que não gostava de doce — com morango.
Antes de cortar o bolo, Ilithya colocou Barbie e a princesa da ilha para passar no telão. Algo pra abaixar o fogo do rabo das crianças, visto que uma já tinha quebrado o dente caindo pra fora do escorrega. Vanessa nunca conseguira entender isso, por mais física que tivesse estudado na vida, como alguém consegue ser capaz de escorregar a bunda para o lado de fora do escorregador?
Fazia tempo que não se sentia tão satisfeita. Por mais que a mãe a mimasse, que Ilithya desse todos os presentes que ela queria, que Raphael ensinasse diversos golpes, ela sentia falta dele.
Assistia o filme apoiada no braço dele. Alec, por sua vez, estava com a cabeça deitada no colo dele, tão contente que só faltava ronronar igual um filhote de gato. A mãe estava do lado dela, fingindo estar de bom humor — a menina a conhecia o suficiente para saber disso —, usando Vanessa como barreira entre eles. Ela queria se afastar, mas não daria o braço a torcer, ficar longe da filha no aniversário dela.
Mesmo com a distância, havia uma certa esperança. Eles poderiam fazer as pazes, não poderiam? E eles ficaram todos juntos para sempre, como deveria ser. A menina começou a se sentir contente consigo mesma pela ideia de fazer sua mãe convidar ele. Assim, talvez, eles conversassem em algum momento da festa e se entendessem.
O filme passa. O bolo é cortado. Coca cola — E Vanessa nunca mais vai beber coca cola na vida — e guaraná para todos. Crianças correndo, algumas mais encapetadas estavam estourando as bexigas. Ilithya olha com desaprovação e se sente muito feliz por não ter procriado e gerado monstrinhos — A menina sabe disso porque ouve ela falando isso em tom confidente para uma amiga.
Sua mãe está cortando os pedaços de bolo para uma fila de crianças, os amiguinhos da escola dela. Ela deixa o próprio bolo e seu copo de coca cola na borda da mesa e vai servir as crianças. Vanessa está sentada perto da mesa e vê tudo.
Seu pai — de onde ela herdou os cabelos vermelhos e olhos verdes, aquele que ensinou a ela o jeito certo de socar quando outras crianças a chamavam de cenourinha — se aproxima da bebida e joga um pó branco nela.
— Pai? — A menina pergunta. Ela é pequena, mas já ouviu sobre as coisas horríveis que os descendentes de deuses fazem uns para os outros.
— É só uma poção do amor — Ele sorri e as desconfianças desaparecem.
Vanessa não sabia se existia poções do amor, nunca tinha parado para pensar nisso. Mas parecia uma solução, uma esperança. E de qualquer forma, mamãe amava ele no fundo, não é?
Mais tarde com sua tia soluçando sobre o corpo caído e com os lábios arroxeados de Elise Kroell, la sirena, Vanessa soube que não devia ter criado esperança e finalmente entendeu porque a esperança era guardada em uma caixa com demônios.
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