Equilibrium

38 Capítulo 37 - O Demônio e a Cobra


— O que estamos fazendo aqui? — Damien me perguntou.

Suspirei. Ele estava tão bonzinho, sem questionar. Bom demais para ser verdade.

— Um experimento científico.

Bom, por onde começo a contar?

Logo depois que mamãe saiu, fiquei fazendo o que faço de melhor: olhar o nada e contemplar o quão fodida eu estava. Como sou masoquista, perguntei para Idia:

— Mas, tipo, as chances de sobrevivência são tão baixas?

— Você me ouviu falando do filho de Ares que virou churrasco?

— Me narre o ocorrido.

— Naquela época, a gente não sabia muito bem como funcionava as runas. E ainda não sabemos muito, enfim, foi no método mais brutal mesmo.

Minha mente malvada começou a fazer bullying.

— Vocês não colocaram no rabo dele, colocaram?

Idia me encarou com a cara de quem me jogaria um travesseiro se tivesse polegares opositores.

— A gente fez um corte na coxa dele. Ele era grande e a espada era menor do que você vê nos filmes.

Acho que comecei a gargalhar.

— A Excalibur era pequenininha? — Sim, eu tinha pesquisado o que significava o nome estranho que elas falaram antes de começar a olhar para o teto.

— Então? — perguntei, quando parecia nítido que ela iria me ignorar pelo resto da noite por causa do meu mal comportamento.

— O corte cicatrizou sem precisarmos de pontos, até os arranhões antigos. Pensamos que tudo tinha dado certo. Ele caiu morto no chão e incinerou.

— E a espada?

— Destruída junto.

Fiquei quieta. Então minha mãe se sairia bem nas duas alternativas: comigo viva ou morta. Sem adaga, nem ela e nem Érebo teriam controle pleno.

Juro que tentei não me sentir usada ou pessimista. Mas, ah, definitivamente eu não iria servir de sacrifício.

Cerca de cinco minutos depois, Idia me encarava enquanto eu estava chorando pateticamente porque nem minha mãe me amava. Gatos não são animais muito consoladores, ela parecia severamente entediada.

É, ocorre.

Em dado momento, parei de chorar porque queria ir fazer xixi. No banheiro, encontrei a adaga literalmente dentro da privada. Claro que dava para advinhar que Trivia iria devolver e continuar o joguinho uma hora, mas meu, dentro da privada? Cadê o respeito por itens sagrados?

Honestamente? Senti vontade de dar descarga.

Mas no máximo, eu iria entupir o encanamento do hotel e teria mais problemas para desinfetar aquela porcaria.

Peguei um balda, taquei água sanitária e deixei aquela merda de molho, desinfetando. E então, tive uma idéia, um pouco melhor do que simplesmente dar descarga. Na pior das hipóteses, a adaga estaria 100% desinfetada.

Lavei minha deplorável cara de choro. Fiquei até feliz pela Escócia ser gelada pra cacete, dava para dizer que minhas bochechas vermelhas era só frio.

Sequei a adaga com uma das toalhas e deixei ela separada das demais. Mais tarde, eu iria substituir uma das toalhas de Vanessa por aquela — Admitam, sou muito maligna.

Fiz uma extensa pesquisa no Google e no Maps, então depois de tudo consolidado, taquei a adaga na bolsa e fui para o quarto de Damien.

Ele parecia meio desnorteado em ver a suposta reencarnação de Diana batendo na porta dele.

— Preciso de você agora.

Ele arregalou o olhos e corou.

— Pelo amor de Deus, criatura. Não pra isso — bufei — pega a chave do carro alugado, você vai dirigir para mim.

Então, meia hora depois, Damien estava estacionando do lado de fora de uma forja. Ah, sim, essas coisas ainda existem.

— Acho que Trivia me deixou um objeto amaldiçoado, vou derreter ele.

Não era mentira. Idia, sentadinha no meu colo, estava me lançando aquele olhar julgador com aqueles olhinhos azuis.

— Hum, tudo bem.

Ele tinha engolido facilmente ou era a Trivia? Supus que se fosse Trivia, aquele seria o momento que ela tentaria me parar. Damien colocou a mão no bolso, me afastei para trás e as unhas de Idia começaram a brilhar.

Então, ele sacou o celular.

— Posso esperar no carro? Está tendo kvk no meu jogo…

Voltei a respirar.

— É claro — Eu iria mandar ele ficar no carro de qualquer jeito.

Ah, graças à alguma força divina, ele não era do tipo que fazia perguntas. Vanessa iria querer saber até a composição molecular do objeto.

Sai do carro e fui até a lojinha do ferreiro. Felizmente, eu estava na Escócia, onde essa vibe medieval gerava grana.

Vocês querem a descrição? Sempre acho as descrições entendiantes quando leio, mas para quem gosta, aí vai: A iluminação era péssima, essas luzes meio amareladas, simulando tochas. As paredes eram de pedra, o chão também. Ah, e era quente pra cacete — mas não devia ficar surpresa, era uma forja.

Atrás do balcão de madeira, tinha um cara que só posso definir como um hipster quarentão de academia.

— Boa noite — falei em inglês porque meu escocês era nulo. Por causa disso, deixei meu celular ativado no Google tradutor que funcionava via áudio para o caso do ferreiro só falar escocês.

— Boa noite, o que a senhorita gostaria?

Sorri angelicalmente e tirei a adaga da bolsa.

— Eu quero derreter isso daqui.

Ele piscou.

— Mas é um lindo trabalho artístico.

— Não importa, quero que você derreta, misture com uma quantidade adicional de prata na quantidade de 10:1 e faça cerca de 100 chapas de metal.

Ele me olhou como se eu fosse pirada. Deveria parecer.

Mas veja só, a idéia era genial. Se a chave para abrir o lugar era a adaga, provavelmente, havia uma fechadura, certo? Bom, a adaga não teria mais o formato original e para o caso da prata dela servir como sensor, estaria diluída com outra prata comum e dividida em 100 partes espalhadas pelo mundo.

Eu queria ver Érebo conseguir separar prata mágica e prata comum mesmo se conseguisse pegar as 100.

O resultado ideal era perfeito: adaga destruída com Christine intacta.

— E, ah, eu quero ver o procedimento.

O cara murmurou alguma coisa em escocês baixo demais para o tradutor captar. Aposto que foi:"cada maluco que aparece".

Como vocês podem prever, deu tudo errado. O escocês colocou a adaga em uma espécie de pote que parecia ser feito de cimento e colocou um montante de prata no outro. Depois, tacou as duas vasilhas em uma espécie de "forno".

Aí, fiquei esperando. Ele tirou o primeiro pote e a prata estava derretida, parecia até lava. E o outro, bem, a adaga estava intacta.

O homem estava com cara de alguém que tinha bugado o cérebro.

Saquei o celular.

— Damien, vou precisar que você venha aqui.



Não consegui dormir na madrugada daquela noite. Não de remorso, Damien me assegurou que ele iria substituir a memória do cara por alguma lembrança inofensiva de uma noite monótona e isso não iria gerar danos. Mas, de qualquer forma, foi decepcionante. Eu tinha criado expectativa que aquilo iria funcionar.

O pior de tudo era se sentir trouxa. É claro que uma adaga mágica teria seguro divino contra danos. Aliás, eu devia agradecer por aquela merda não ter disparado alguma maldição na anta que tentou destruir ela.

Como vocês podem ver, agir no desespero não dá certo.

Fiquei olhando para o teto, esperando um estalo ou uma inspiração divina. Repassei tudo que sabia sobre adaga e mitologias. Idia, aquela corna, tinha saído para fazer massacre em massa, então nem tinha como me ajudar a ter alguma ideia.

Lá pelas três da manhã, ouvi um estralo na direção do meu armário.

Foi aí que a coisa toda desandou. Podia ser só alguma coisa aleatória que caiu ou impressão minha. Ou era alguma coisa querendo me matar. Ou Trivia me espionando.

O dilema de ter meu cérebro é que ele gosta de ramificar tudo em n possibilidades do que fazer.

Possibilidade 1: Tento sair correndo, a coisa se agita, é mais rápida que eu e me mata no caminho.

2: Tento sair do quarto e descubro que tem algo pior do lado de fora.

3: Ando discretamente até a fonte do barulho, saco a adaga rapidamente e faço um corte horizontal na altura da minha cintura (o que provavelmente mataria qualquer ser maior ou um pouco menor que eu. Desde que fosse bípdde).

E essa última gerava vários desfechos. O ser poderia me atacar quando eu andasse na direção. Ou poderia ser mais rápido quando eu sacasse a adaga.

4: Tento sair correndo igual uma condenada, faço um escândalo, acordo todo mundo e no fim era só uma coisinha que caiu. Viro chacota pela eternidade.

5: Fico deitada igual uma cagona. E aí a criatura dá o bote eventualmente.

No fim, fui uma criatura esperta. Peguei meu celular e mandei mensagem para todo mundo. "Oi, acho que tem algo do meu quarto".

Se não tivesse nada, iria dizer que era pegadinha.

A coisa começou a ficar preocupante quando a mensagem não foi enviada. Aparentemente, minha internet tinha sido pifada. E cá entre nós, era muito suspeito.

Pensei: Bem, é agora que morro. Vou cair atirando, pelo menos.

Eu ficava com minhas adagas sequestradas do Campus na minha blusa de frio. E felizmente, estava com elas na hora. Levantei e fui na direção do armário como se fosse buscar alguma coisa.

Cheguei até lá e abri uma gaveta. O armário não era grande para caber algo potencialmente ameaçador, então, para eu ter chegado naquele nível de proximidade, a coisa só poderia ter ido para o lado esquerdo, já que a parede estava no lado direito.

Peguei meu carregador da gaveta. "Veja, coisa, só sou um anjinho inofensivo que quer o carregador"

Me virei subitamente, como se tivesse esquecido algo e saquei a adaga, já fazendo um arco horizontal.

E então, a adaga virou uma série de mariposas.

— Boa noite, Christine, querida — Hermes apareceu na minha frente, sorridente.

Na hora, não consegui medir se uma divindade invisível no seu quarto é pior ou melhor que Trivia tentando te matar.

Pior, concluí alguns instantes depois.

— Boa noite, o que foi? — Tentei ser até educada. Minha vontade era dar um coice no saco do infeliz, mas eu estava ali, sem possibilidade de comunicação com meio exterior e com uma criatura que podia me transformar em um monte de mariposinha.

Na hora, tentei ser positivista. As vezes, ele só estava lá porque ficou ressentido porque tentei tapear ele. Esperançosamente, só queria me dar um cagaço e ir embora. Algo do tipo "não mexa com Hermes, mortal".

Mas, céus, quando tem um cara escondido no seu quarto, é difícil ser positivista.

— Nada demais — ele disse — Você é um serzinho bastante esperto.

Ele tentou encostar a mão no meu rosto, mas recuei. Hermes franziu as sobrancelhas.

Puta merda, a coisa não estava indo bem.

— Tá bastante tarde, né? — falei — Foi legal te ver, mas acho que vou dormir agora.

— Eu poderia afastar seu sono.

— Tô afim de só dormir mesmo.

— Por quê?

Vocês tem que entender. Deuses são bonitos, ok, mas eles trazem um mol de problemas para os mortais que trepam com eles. E nunca é boa ideia ter qualquer tipo de relacionamento com alguém que detém mais poder do que você, eventualmente, a coisa vai começar a lascar para o seu lado.

E ainda estava p da vida com Hermes porque ele me tacou no Mayombe para Trivia arrancar meu pescoço. E desde a primeira vez que vi o infeliz, senti uma certa "repulsa"

E é claro, não dava para listar qualquer um desses motivos sem correr o risco de alguma coisa ocorrer comigo. Se ele tivesse tanto medo da minha mãe, ele não estaria invisível no meu quarto. Eu não podia arriscar.

— Não é você, sou eu — Clichê, mas podia funcionar — As coisas, Trivia e tudo mais, está me exaurindo. Só quero ficar em paz. Quem sabe em outra ocasião — Tipo, em 31 de fevereiro.

Não era exatamente uma mentira. Pensei que ele iria sumir, mas ele se aproximou mais. Dei outro passo para trás.

— Isso poderia te ajudar a relaxar.

— Obrigada, mas não.

Minha paciência estava caindo enquanto meu desespero estava aumentando progressivamente. Talvez fosse esse o meio de me aterrorizar que ele tinha escolhido.

Ele conseguiu capturar uma mecha do meu cabelo entre os dedos. Recuei para trás até a raiz doer.

— Não, caralho! Não quero, qual é seu problema cognitivo de entender o que estou dizendo?

I— Não consigo entender porque uma mortal recusa um deus.

Ah, ele estava puto. Aquilo feriu o ego dele e todas nós sabemos como ego de macho é frágil.

— Vou ser sincera — Não tinha nada mais a perder mesmo, o ser já estava p da vida comigo — Todo mortal que se envolve com deuses se lasca. Então, obrigada, não quero.

— Você é diferente das outras mortais. É mais esperta.

Ri.

— Sou esperta e por isso sei que deuses são problemas. Cara, você é bonito, você consegue outra coitada disposta. Vai lá, tenta ir atrás de Afrodite ou sei lá, alguma ninfa. Aposto que tem um mol de divinidades mais bonitas e interessantes por aí.

Naqueles instantes, meu desespero estava atingindo níveis estratosféricos. Sempre tive o máximo de cuidado para não aparentar qualquer interesse "nesse sentido" em Hermes justamente para evitar um imortal me perseguindo.

— Me recuso a ser rejeitado por uma mortal.

Ergui as mãos para o alto.

— Não há o que você possa fazer. Não quero deuses, já tenho problemas o suficiente, não preciso de mais.

E pela segunda vez naquela semana, minhas costas estalaram contra a parede e tinha uma mão no meu pescoço. E aquilo foi mil vezes mais aterrorizante do que a vez que Vanessa fez.

— Sempre há algo a se fazer — Ele não estava apertando meu pescoço, só deixou lá, como uma ameaça. Posso esmagar sua traqueia ou quebrar seu pescoço, o que você prefere, Christine?. Os olhos dele estavam brilhando e eu queria arrancar eles.

— Minha mãe vai matar você — ameaçei. Primordiais são capazes de arrancar a imortalidade de deuses, praticamente os bichos-papões dos deuses.

O desgraçado riu.

— Primordiais ficam mais vulneráveis quando estão removendo a imortalidade de um deus. É uma via de duas mãos. Não sei se ela arriscaria por você, mas se arriscasse, seria o momento ideal para Érebo…

— De qualquer forma, você seria uma divindade morta demais para ver o desfecho — Bravata pura da minha parte, parecia que todas as minhas armas estavam virando mariposas.

Ele passou um dedo pela minha bochecha.

— Você é realmente uma criaturinha audaciosa.

Por dois segundos ele não descobriu a dimensão da minha audácia. Lembram que roubei duas adagas do Campus? Tentei enfiar a segunda no saco dele, mas infelizmente, ela se esfarelou em pó.

Então, ele apertou meu pescoço. Fiquei feliz, tinha deixado ele tão puto que ele só ia me matar.

A porta abriu e Layla e Idia entraram.

— Chris, sua gata está ensopada e o secador não está… — Ela congelou quando viu a cena.

Hermes me largou e se afastou. Idia estava com os olhos brilhando em prateado, sem dizer nada. Então, o ser sumiu, por "vergonha" — só a vergonha dos descobertos — ou por medo, não sei.

— Idia, preciso da sua ajuda para matar um deus.

Enfim, eu iria fazer a maior idiotice da minha vida.

Notas finais
Oi, podem me matar pelo atraso. Mas logo vou estar de férias, vou escrever mais, prometo. Me mandem um alô para eu saber se não desistiram de mim pela demora hahah