Equilibrium

35 Capítulo 34 - Dia dos mortos


Quando um dia começa ruim, você pode ter certeza que o resto vai a ladeira abaixo.

Só recapitulando, a porra da adaga tinha sumido. Como? Só os deuses sabiam e olhe lá. Era inacreditável, mas até o padrão de fita adesiva estava igual eu tinha deixado. A adaga só tinha sumido, o que fazia todo sentido, porque seria bem difícil alguém me mover para nfora da cama, girar o colchão, abrir as fitas, pegar a adaga e me colocar de volta.

Se bobear, aquilo era uma ilusão de adaga posta pra me sacanear.

No fim, decidi que destestava magia. Detestava mesmo. Nos livros da Agatha Christie, dava para ler e reler até pegar algum indício, uma provazinha. Já na minha triste realidade, nada vazia sentido. As leis da física literalmente tinham sido mandadas para a puta que pariu.

Derrubei o colchão com tudo na minha cama.

— O que você está fazendo? — Idia estava parada na porta.

— Nada.

— Então por que a expressão de ódio? — ela olhou para o colchão sem revestimento — A adaga…

Joguei o travesseiro com tudo nela. Aquela coisinha era esperta demais para o seu próprio bem.

— Fale baixo, pelos deuses.

— Então realmente...?

O único indício que aquilo preocupou Idia foi uma piscada rápida. Bom para ela, se reagisse exageradamente, eu começaria a suspeitar que não era minha gata.

Sentei a bunda na cama. Não tinha nada a perder, se Idia fosse Trivia, só iria achar engraçado e de qualquer forma, ela não iria contar para os outros e gerar uma rebelião porque estava presa no papel de gata leal.

Peguei o meu caderno da gaveta e escrevi:

"Não é a primeira vez que isso ocorre."

— Quando?

"Sumiu de dentro do meu roupão enquanto estava interrogando. Apareceu do nada na cama."

— Algum determinante em comum?

Virei a folha.

"Você estava perto nas duas vezes. "

Idia ficou imóvel, me encarando com aquele olhar penetrante felino. Por alguns segundos, pensei: Agora que ela me mata porque descobri tudo.

— Sua mãe não teria mandado Trivia para servir de guarda-costas particular para você. Te conheço desde antes de você nascer, tive um milhão de oportunidades de rasgar duas garganta com as unhas e aqui está você, inteira.

Revirei os olhos e dei uma risada.

— Mas pode ter substituída em algum momento. Vamos lá, vou ligar para minha mãe e pedir para ela fazer uma conferência em você.

— Ela não pode, isso é interferência direta.

O que já tinham me dito sobre interferência direta? Ah, sim, deuses ficavam mortais temporariamente enquanto se metiam em assuntos mortais.

Então, subitamente, descobri o que Trivia queria.

— Idia, querida, você é um anjo.

Se vocês pararem para pensar, ela já tinha tudo: A adaga que roubou de mim, a outra que podia usar — Thanatos certamente entregaria a dele —, ou seja, ela podia soltar a sacerdotisa e ter domínio completo sobre a balança. Então por que arriscar ficar entregando e sumindo com a adaga?

Parece sem senso, certo? Pura tortura psicológica seria banal demais. Mas eventualmente, como minha magia era mais zerada que a carga do meu celular, uma hora eu iria cansar e recorrer para a minha mãe. E aí estava a chave do negócio, deuses se tornam momentaneamente mortais enquanto interferem em questões de humanos diretamente. Então, na hora que ela interfirisse, Érebo iria dar o bote.

Saber disso facilitava, pelo menos impedia a chace de cair diretamente na armadilha. Mas por outro lado, fazia bater outro desespero: Até quando Trivia iria esperar até eu cair no truque?



No fundo, eu sabia que iria dar merda de algum jeito. Mas, mesmo assim, tentei forçar meu cérebro a sintetizar otimismo e fui ver se minha câmera tinha capturado alguma coisa. Para começar, todo mundo que cruzava meu caminho me olhava esquisito, provavelmente me achavam pirada por tentar comunicação com Trivia. Pobres iludidos, me irritava a pouca fé que eles tinham em mim.

Na cozinha, quase dei pulinhos de alegria. Debaixo do meu recado, estava escrito: Olá, Christine ♥

Felizmente, não estava escrito com sangue, era caneta mesmo.

Fui totalmente empolgada para pegar o celular. Estava intocado no cantinho dele e ainda tinha carga. A esperança dobrou.

Aí fiquei pulando partes do vídeo até chegar ao momento que a mensagem estava escrita. Voltei um pouquinho atrás e fiquei aguardando alguém aparecer.

Então, o papel sumiu e depois apareceu escrito. Tentei acelerar o vídeo para ver se alguém tinha visto o papel antes de sumir, mas nada.

Previsível, porque a vida nunca é fácil.



— Sam, eu preciso que você me faça uma coisa — Falei e fiz ele dar um pulinho.

A criatura estranha estava olhando a janela totalmente absorto, o que não fazia muito sentido porque a paisagem era bem sem graça. Em resumo, era neve, neve e + neve ao quadrado. Durante a viagem, ouvi Vanessa falar que a casa ficava em algum ponto intermediário entre a dimensão dos humanos e Nilfheim. Parecia uma paisagem monótona, mas devia ter alguma vantagem técnica em ter uma casa lá em vez de ter uma mansão no Caribe.

— O que? — Ele parecia desconfiado. Cogitei até dizer alguma coisa absurda para ver se ele faria. Então, eu preciso que você roube todas as cuecas de Alec e entupa a privada do banheiro da Vanessa com elas. Bom, mas estava com sono demais para isso.

— É só dar uma olhada em Thanatos — disse — Minha mãe deu um roteiro padrão do dia dele. É só escolher um lugar, só um lugar, porque se ele te ver muitas vezes, vai desconfiar e te transformar em uma múmia.

— Ok, não quero ter o cérebro extraído pelo nariz.

— E você vai observar se ocorre algo suspeito. Se ele fala com alguém e, principalmente, se alguém daqui chega até ele.

E assim, passei por Whatsapp a rotina de Thanatos.

Quando tive certeza que ele saiu da casa, fui até Vanessa. A criatura estava esparramada no carpete felpudo de uma sala e lendo alguma coisa no celular.

Olhei ao redor.

— Olha seu Whatsapp.

Ela revirou os olhos.

"Vá seguir o Sam. Mandei ele ir ficar de olho no Thanatos. Quero que você observe para ver se ele não interage com a praga ou faz algo suspeito".

"Isso é a manifestação da sua vontade interior de contratar dois detetives para um seguir o outro?".

"Talvez"

"Eu tenho escolha?"

"Vou suspeitar mais se você não for. E você não quer passar o dia mofando a bunda parada".

"OK".

"Um pouco de pressa seria bom".

E finalmente, ela desgrudou a bunda no sofá.

Eu sinto que devo explicar o porquê da minha escolha. Bom, vejamos lá, a adaga sumir intocada me deixou com suspeita que Sam tivesse algo a ver. O cara abria portais para pessoas passar, o que o impedia de abrir um pequeno para uma adaga? Bem, e escolhi Vanessa porque estava p da vida com ela e achei que a criatura merecia se lascar se Trivia a descobrisse seguindo. E fora, que já que iria ficar entocada em casa, estaria livre da cara de merda dela.



Um pouco antes da merda acontecer, eu estava tranquilamente esparramada no sofá e vendo vídeos idiotas de gente se lascando no facebook. Alec estava deitado no outro sofá e dormindo profundamente. Aparentemente, até ele capotava de sono alguma hora. Obviamente, perdi a atenção no vídeo e estava imaginando umas cem formas de acordar ele. Água no ouvido? Hmm, parecia muito simples. Jogar água gelada? Demoraria muito pra gelar um balde direiro. Eu tinha que arranjar alguma aranha…

Como vocês podem ver, nem estava me importando com o fato dele ser um vrykolaka que invocava chamas que destruiam almas. Afinal, eu ria na cara do perigo.

— Você está sentindo um cheiro estranho? — Damien perguntou, saindo da cozinha.

— Nada.

— Cheiro de coisa podre.

Encarei ele. Tadinho, tava pirando, pensei. Realmente a pele morta deixou todos traumatizados.

Aí a minha racionalidade voltou e suprimiu meus pensamentos cruéis. Trivia, a praga que era, podia ter mandado outra coisa morta e meu olfato capenga não notou nada.

— Chama o pessoal, melhor dar uma olhada.

E muito tristemente, acordei Alec com uma almofadada básica.

O fato é que minha neurose aumentou quando Alec também sentiu cheiro de podre. Mary, Layla e eu não sentimos nada, o que devia servir de consolo, mas os vrykolakas tendiam a ter sentidos mais evoluídos. Idia, por dua vez, disse que estava sentindo algo estranho.

— Acho que o cheiro está vindo de lá fora — Alec apontou.

Ainda bem, né. Seria bem pior se estivesse vindo de debaixo do sofá.

E aí fomos todos para fora olhar. Por um tempo, pensei em ficar dentro de casa olhando pela jabela, mas vai que era truque de Trivia para me pegar sozinha?

Para todos os lados, só tinha neve e mais neve. O céu ainda estava nublado, então até achei que todo aquele branco iria me cegar.

— Acho que não tem nada — falei.

— Cheiro está pior aqui.

E de repente, as coisas desandaram. Um treco com uma coloração que só posso descrever como "bolor" de coisa estragada veio correndo muito rápida na nossa direção. Foi muito rápido, mas deu para notar que ele surgiu da lateral esquerda do cenário. Chamas negras se espalharam rapidamente na coisa, mas pude ver que tinha forma humanóide.

Um cadáver.

— Acho que é minha deixa para voltar para casa.

— Sou obrigada a concordar — Layla falou.

Pois é, ninguém gosta de necromancia.

E então, apareceu outro. Dessa vez, notei que na lateral esquerda do cenário havia resquícios de névoa, o que era bem difícil de notar por causa de todo o branco. Provavelmente, era lá que estava o encontro das dimensões.

O defunto 2 era mais lento, então, consegui ver detalhes. Estava inchado e arroxeado como um corpo afogado, os dedos estavam faltando — Comido por peixes? —, os olhos estavam brancos e metade do cabelo tinha ido para o saco. Em resumo, estava no top 10 de coisas mais horríveis que já vi na vida.

Mare gesticulou com as mãos, fazendo um gesto cortante. O cadáver se partiu em dois e parou. Quase fiquei admirada com a habilidade de Mare, mas o cadáver se mexendo mesmo partido ao meio chamou minha atenção.

Sério, as duas metades da coisa estacam se arrastando na nossa direção. Mare moveu as mãos novamente e novamente, praticamente picotando o treco, mas ele continuou. Alec, por fim, colocou fogo nele. Idia, naquele momento, decidiu que a forma de onça gigante era mais apropriada que a de gata.

— Isso é resistente à magia comum — Damien disse.

Sério? Nem tinhamos notado.

Comecei a me desesperar. Se um treco desse me atacasse enquanto eu estava sozinha, eu estaria fodida. Facas iriam ter um efeito risível naquilo. Comecei até a pensar em como Diana conseguiu vencer exércitos com aquilo. Acho que foi nesse ponto que comecei a ter medo mesmo de Trivia.

A partir da névoa, começou a surgir mais. Muito mais. Figuras humanoides, a maioria lenta e com ossos aparecendo, outras, ossos brancos e descarnados se arrastando no chão. A pior parte era algumas que definitivamente não eram defuntos de humanos. Quadrúpedes enormes e peludos, répteis escamosos e podres. Aparentemente, até os monstros do outro lado morriam também. Eram muito, eu nem conseguia contar.

Eu nem deveria ter pensado em exército de mortos.

Alec suspirou e se ajoelhou no chão. Quando ele apoiou a mão no chão, uma fileira de chamas negras partiu em direção dos mortos. O feixe se dividiu em dois laterais, esquerdo e direito, e se dispersou em todo aquele exército literalmente tirado inferno. Tudo aquilo virando pó, as chamas percorrendo o ar e ondulando, contrastando contra o branco do seu, chegava até a ser bonito. As chamas se extinguiram e só havia pó espalhado ao vento.

Alec se levantou e estava com a cara de ser mais convencido do mundo.

— Admitam, eu sou incrível.

Trivia discordava. Da névoa, surgiu mais corpos.



Notas finais
Acham que Alec aguenta o tranco?