Equilibrium
33 Capítulo 32 - Sorriso
Acho que a parte mais decadente do dia é que quase fiz cosplay de Jason Grace. Mas relevem, não tinha comido direito naquele dia e bem, tinha uma vrykolaka obstruindo meu fluxo respiratório com muita determinação. E relembrando com detalhes, acho que aquela besta me fez bater a cabeça na parede. Fazia sentido que minha visão estivesse escurecendo.
É difícil expressar o quão p da vida eu estava. Com Vanessa, é claro, com Trivia, com os dois mamutes que estavam olhando a cena com cara de estupefaros, com minha mãe. Enfim, se tivesse tempo para procurar, dava para arranjar um motivo para ter raiva de cada um ali.
Sobretudo, raiva de mim. Existe um fator curioso sobre mim, consigo definir minha vida em gráficos matemáticos.
Antes de tudo isso, juro que a maioria era um gráfico cartesiano y=0. Nesse caso, o x seria o tempo e o y, as emoções. Normalmente, eu ficava no meio do gráfico, nem positivo e nem negativo. Escola, olimpíadas, alguma série de livros ou da Netflix. Monótono, mas não necessariamente ruim.
Minto, tinha alguns ápices positivos: aprontar com alguma vítima, ganhar algum competição, feriados. Mas era quase uma ausência de emoção. Eu sabia que as pegadinhas não iriam dar problema porque minha mãe achava engraçadinho. Depois que você faz muitas competições, você se acostuma. Feriados? Dormir, emocionante só no mundo onírico.
Aí, eu pensava: Poxa, bem que uma adrenalinazinha não seria tão ruim. Se dessa para voltar no tempo, iria ir para uma montanha russa e me sentir satisfeita.
Mas pelo visto, alguma entidade pérfida pensou: Quer adrenalina, praga? Tomaaa!
E aí, pronto. Minha vida virou a porcaria de um gráfico sinusoides. Curvas positivas seguidas de curvas negativas. Descubro que sou filha de uma deusa e também descubro ausência de poderes. Pego a maldita adaga 1 para ser roubada de mim no dia seguinte.
No fim, essa autoculpa parecia coisa de hindo (É hindo mesmo?) que acredita em karma. Parecia tão pseudocientifico que dava vontade de socar minha própria cara. Por outro lado, existiam deuses, então meu ceticismo estava indo direto para a puta que pariu.
Aliás, acho que falei essas últimas palavras para Vanessa enquanto as patinhas dela estavam na minha garganta.
— Solta ela, você não quer matá-la acidentalmente — Alec disse e empurrou o braço daquela besta violenta.
Na verdade, ele estava errado. Aposto um rim que tudo que ela queria naquele momento era me esganar.
— Você não tem ideia — ela ainda tinha audácia de parecer abalada. Parecia até que a vítima de estrangulamento era a criatura — Ela é sociopata. Chorou como se importasse de verdade. Teve a audácia de sugerir que eu te matasse porque era vingança minha.
E assim, eu, a pobre vítima estrangulada, virei a sociopata cruel.
Alec me encarou como se estivesse me analisando. Como a irmã, provavelmente iria pensar o pior. Sam, a toupeira, estava paradinho do lado da porta, ainda com cara de ser chocado. Definitivamente o pior guarda-costas do mundo. Eu iria preencher um formulário de queixa e deixar na mesinha de Ilithya.
No fim, acho que a ruiva teve o estalo que o irmão supostamente morto estava inteiro. Aí os dois monstrinhos se abraçaram.
Fofinho, né? Não muito. Aproveitei que a praga ruiva estava distraída e soquei a orelha dela. Raramente sou impulsiva, mas aquilo era demais. Quase fui esganada igual uma galinha por causa de neurose. Pensando agora, aquilo deve ter dado um eco desgraçado na cabeça dela. Mas não sinto muita pena. Merecido.
Alec segurou ela com mais força, o que provavelmente salvou a beleza da minha cara.
— Pelo saco de Júpiter, não acredito que você fez isso — Sam murmurou.
— C'est la vie — falei, indo para o meu quarto — E "pelo anel de Júpiter" iria soar como uma exclamação melhor.
Graças a alguma entidade superior, Layla não estava no quarto. Eu queria mostrar minha garganta e gritar "Lembra quando você disse que shippava ChrisxVanessa? Olha que vaca tóxica ela é!". Mas seria um porre explicar o meu pescoço vermelho por dois motivos:
1- Iria ter que explicar toda aquela história de Alec-pode-ser-Trivia, que eu omiti cuidadosamente dela.
2- Teria que admitir que apanhei. Vergonhoso, nunca pensei que seria agredida nessa vida fora de um tatame, ainda mais por alguém que conheço desde pequena. E só apanhei porque ela sabia que meus poderes eram nulos. A pior parte de tudo era que qualquer um naquela casa podia me usar como saco de pancada facilmente.
Então, coloquei uma blusa de frio com gola. Felizmente, como estavamos indo para a Escócia, onde ninguém acharia estranho cachecóis e blusas. Assim, muito resignadamente, comecei a arrumar minhas malas.
Um pouco mais tarde, Layla entrou no quarto e começou a arrumar as coisas como se nada tivesse acontecido. Aparentemente, ela não sabia de nada, o que era um alívio. Sagrada seja a Netflix por fornecer distrativo.
— Você devia dobrar suas roupas em vez de só tacar na mala — Ela parecia exasperada comigo — Essa mala não vai fechar nunca.
— Claro que fecha!
E para provar, sentei na mala com tudo. E naquele ângulo, vi Alexander se encostando no batente da porta.
A propósito, a mala fechou. Minha bunda serve para algo além de ser saco de pancadas.
— O que você quer?
A vida é realmente engraçada. Naquela tarde mesmo, eu estava chorando porque achava que a criatura estava morta. Mas depois, com ele aparentemente vivo e após ter sido estrangulada pela praga psicótica da irmã dela, a cara dele não era mais tão emocionante. No fim, só gostamos realmente de alguém quando vira presunto mesmo.
Ele estava com a expressão presunçosa igual a de um gato que capturou seis passarinhos.
— Eu tenho uma idéia para descobrir quem ela é.
— Fale, criatura.
— Ela pode mimetizar aparência, memórias, talvez. Mas ela consegue mimetizar a psiquê de alguém? Se ela conseguisse, se tornaria literalmente a pessoa?
Fechei os olhos e pedi por paciência divina.
— Criatura, eu consigo filosofar o suficiente por conta própria sem você ficar me trazendo mais encosto.
Layla me lançou um olhar de censura. Se fosse a pobre Christine com esses papos, ela iria me chamar de chata. Enfim, as vantagens de ser um cara bonito.
— Tanto faz, aposto que Trivia consegue mimetizar tanto assim. É a alternativa mais fácil — Só uma pequena pausa para dizer que nada é fácil nessa vida — Por isso, poderiamos fazer algum teste psicológico. Considerando o histórico de genocídio dela, ela deve ter pelo menos um desvio de personalidade.
Pensei em erguer a mão e protestar, dizendo que todo mundo naquela casa devia ter algum desvio. Mas mudei de ideia, muito desportista.
— Qual teste? Rorschach? — ergui as sobrancelhas — Ela vai ver ogivas atômicas e vai dizer que viu coelhinhos dançando quadrilha.
Ele revirou os olhos.
— Eu não sou a toupeira que você pensa. Estava pensando em teste palográfico.
Fiquei com cara de paisagem porque não fazia a menor ideia do que era aquela merda.
— Teste do Detran? — Layla soltou uma risada arfante.
Se até Layla estava rindo, era porque a coisa definitivamente era uma chacota. Ei, vamos fazer Trivia desenhar ums pauzinhos.
— A gente vai colocar como suspeito quem desenhar pauzinho torto? — perguntei, fazendo a minha melhor cara de zombaria.
Layla explodiu em gargalhadas.
— Vocês podem parar de rir? Profissionais usam esse teste — O vrykolaka parecia querer enfiar a cabeça na parede.
Limpei as lágrimas dos olhos.
— Obrigado, Alec. Foi muito gentil da sua parte me fazer rir nesse dia tão trágico. Agora preciso arrumar minhas malas.
Ele passou a mão no cabelo.
— Christine, é sério. Realmente não sei o que faço para entrar seriedade na sua cabeça.
— Tente começar falando coisas que pareçam sérias.
— Puta merda, profissinais usam esse exame!
Levantei a mão.
— Usavam lobotomia um tempo atrás.
Layla riu de novo. Ele encarou Layla.
— Eu tinha esperanças que você não fosse possuida por uma hiena.
A garota deu os ombros.
— Mas todo mundo passa nesse teste, certo? — E verdade seja dita, até quem não devia passar, vulgo esses motoristas acéfalos por aí, passavam no teste. Aquilo não dava um selo de qualidade.
— Vou fingir que vocês nunca ouviram sobre gente comprando carteira — O olhar dele voltou a ficar zombeteiro — Mas aí entra a questão, nem todos passam. Damien não passou.
Aí ele conseguiu minha curiosidade. Que tipo de anta não passa no psicotécnico? Pô, como você consegue ser reprovado em desenhar palitinhos?
Suspirei, resignada.
— Talvez eu faça o teste só para ver como ele conseguiu a proeza de ser reprovado.
Mais tarde, fomos para o aeroporto. Se a minha linha de narração fosse Tolkiana, dava para narrar em detalhes as roupas jogadas na mala, as discussões sobre quem iria lavar a louça e etc. Mas acho isso entediante, se eu, que estou escrevendo, acho chato, só me resta imaginar a opinião de quem está lendo. Para vocês terem ideia, chego até suspeitar que minhas reflexões são monótonas — E de vez em quando, nos meus dias mais narcisistas, acho vocês privilegiados por poderem ver meu precioso fluxo de pensamentos.
No avião, comecei a ler o pdf sobre o teste de pauzinhos — Palográfico, sei, mas fica mais engraçadinho assim. No início, fiquei bem p da vida quando vi que não tinha sites resumindo e todos os pdfs tinham umas 100 páginas. Você quer me foder, Alexander?
Para ser sincera, cogitei fazer ele ler tudo aquilo e aplicar. Não era ideia dele? Ele que se virasse. Mas aí caiu a ficha: eu poderia estar mandando Trivia aplicar o teste e escolher um bode expiatório. Já bastava o fato que a anta tinha contado sobre o teste perto de Layla. Se ela fosse a Trivia, estaria pensando como fazer pauzinhos bonitinhos.
Ok, parei.
Juro que o espírito de Sílvio Santos saiu desse corpo.
Voltando ao assunto, fiquei lendo o pdf na tranquilidade de espírito. De vez em quando, tinha pensamentos aleatórios sobre Trivia derrubar o avião, mas era neurose. E bem, a criatura estava ali, ela não iria derrubar a bunda dela junto. Se bem que considerando as circunstâncias, não dava para duvidar de nada.
De repente, senti uma queimação na nuca. Aquela clássica sensação de que você está sendo observado.
É neurose, meu lado consciente disse. Dava até para entender como os imperadores romanos ficavam loucos. Alguns dias com algumas conspirações e eu já estava me sentindo observada.
Só por via das dúvidas, me virei para trás na cadeira e analisei os outros passageiros. Não tinha nenhum conhecido meu atrás de mim, estavam todos na frente e os outros pareciam mortais aleatórios.
Viu? Neurose.
Me virei e comecei a ler o pdf de novo. Até que não era chato, analisar as pessoas é interessante. Alguns minutos depois, senti a sensação novamente.
Vou marcar um psicólogo.
Só me restava esperar não surtar completamente antes do fim de tudo aquilo. E novamente, só para dar uma checada, virei para trás. Fiz uma inspeção detalhada daquela vez e notei algo estranho.
— Layla! Layla! Layla! — Sacudi ela umas três vezes. A coitada estava cochilando no meu ombro na paz do senhor. De qualquer jeito, teria que acordar ela ou então não iria mover o braço pelo resto do dia.
— Você não acha que aquele cara no corredor esquerdo e do lado da janela tem uma vibes meio Hermes? Esse cabelo ruivo lembra quando a peste estava no baile.
Layla me olhou, bem cética.
— É só um ruivo dormindo.
Não fiquei muito convicta. Hermes era exatamente o tipo de pessoa que sairia me perseguindo depois de tudo só por pura falta do que fazer. Resolvi ser positivista e rezar para Layla estar certa, tudo o que eu precisava era um deus nos meus calcanhares.
Chegando na Escócia, estava mais frio do que o esperado. Mas parecia uma temperatura gostosinha pra dormir enrolada em cobertores até o meia dia seguinte — Ou um pouco mais. A gente iria passar aqueles dias na Escócia em uma mansão grande e com fachada antiquada. Sinceramente, à primeira vista, não reparei em muita coisa. Estava no meu estado de zumbi que queria cama.
Para minha tragédia, Alec e Vanessa estavam parados encarando a porta igual duas mamutes congeladas.
— Eu quero dormirrrr — falei — Dá para ir desobstruindo o caminho?
Layla me deu um chute na canela que doeu pra cacete.
— É a casa da mãe deles. Ela morreu quando eles eram crianças, você sabe.
— Opa.
Me julguem, mas meu sono estava obstruindo a empatia. Já era mais de meia noite e tinha lido umas 140 páginas sobre métodos psicológicos. Enfim, estava o pó da rabiola.
Felizmente, eles abriram a porta e saíram da frente.
Fui para o quarto bem alegremente. Estava esperando que tivesse uma banheira bem gostosa, era impossível que uma casa grande daquela não tivesse uma hidro. Aí eu iria tomar banho e dormir até dizer chega. Larguei as malas na porta do meu quarto e esfreguei os olhos. Bom, aquilo parecia alucinação.
Tinha um monte de pedacinhos de papel pardo rodopiando e caindo da minha cama. Aparentemente, a fonte daquilo era o próprio teto e notei que tinha um emoji de sorrisinho desenhado no papel. Não bastando aquilo de bizarrice, a adaga estava na cama.
Sim, exatamente a adaga que desapareceu. Aquela maldita adaga, lá, jogada inocentemente na minha cama e coberta de sorrisinhos.
Meu sono virou pó e saiu voando. Me aproximei cautelosamente, aquilo podia ser uma armadilha. E então, tive que me segurar para não vomitar.
Aquilo estava rodopiando porque Trivia era uma necromante.
Aquilo era pele morta.
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