Equilibrium
22 Capítulo 21 - Deuses e mortais
Gosto de alardear que fui feita de trouxa poucas vezes na minha vida.
Definitivamente, Layla tinha me feito de trouxa. A janela do quarto estava aberta, então, me ocorreu que a critaura simplesmente pulou a janela como uma adolescente fugindo dos pais.
— Ela quer morrer — Idia falou categoricamente — Não sei porque ainda me surpreendo com a estupidez dos jovens.
Vanessa suspirou e deixou o quarto. Olhei para Idia.
— Você pode me dar um pouquinho de privacidade?
A gata saiu.
Então, comecei a socar meu travesseiro. Se eu fosse uma criatura fodona de filme de ação, o alvo seria a parede, mas meu lado racional gritava que o travesseiro tinha chances menores de arrebentar minha mão. Acho que aquele foi momento que perdi o controle, ter que bancar a garota legal para Hermes a tarde inteira — e a noção de que teria que fazer isso por mais tempo — estava me sufocando. Além disso, havia outros pesos no meu pescoço: Duas profecias ridículas, ausência de poderes e uma realidade nova da qual eu não sabia praticamente nada.
Agora, analisando essa cena, consigo perceber que eu devia estar parecendo patética enquanto socava um travesseiro e soluçava, ou melhor, soando, já que a privacidade auditiva da casa era nula. E também foi muito tosco, eu poderia ter usado esse tempo caçando Layla pelas ruas, arrastado ela para casa e amarrado ela no banheiro com uma caixinha de areia da Idia cheia.
Mas cá entre nós, o prêmio de maluca do dia ia para Layla. O mais curioso é que ela era a criatura mais certinha que conheci, normalmente, ela que me impedia de fazer loucuras, como por exemplo, colocar tachinhas na cadeira da diretora. Layla é o tipo de criatura que você quer que seus filhos sejam: educada, inteligente, nunca se meteu em confusão, ficava em casa lendo a noite e nunca usou drogas.
E então, ela decidiu escolher o pré-Apocalipse para ter a crise de adolescente rebelde.
Pô, ela fugiu do quarto como se eu fosse a mãe chata de filmes teens.
Era indignante.
Enfim, depois de um tempo, me acalmei. Já era tarde demais para interceptar ela pelo caminho e eu não poderia arrastar ela ds festa pelos cabelos porque Hermes iria sacar que tinha conseguido me irritar. Se ele captasse isso, iria fazer pior, iria convidar Layla para todas as festas do mundo ou iria arranjar um emprego de degustadora de vinhos envenenados para ela. Talvez, pensei, se eu fingisse indiferença, a brincadeira dele iria perder a graça e ele voltaria a atenção para um alvo novo.
Pobre próximo alvo, mas não sendo eu, estava bom.
Era difícil ficar parada. A imaginação é uma coisa horrenda, toda hora me vinha imagens de Layla sendo atacada por uma besta de Trivia no banheiro, morrendo envenanada porque estava bêbada demais para lembrar da profecia ou algum grupo de descendentes de deuses colocando algo na bebida dela. Tudo isso poderia estar acontecendo enquanto eu estava esparramada na cama, lendo tranquilamente.
As horas foram se passando. Uma hora da manhã, duas, três. Dormir era impossível, me remexi tanto na cama que quase chutei a gata. Tentei mexer no celular, mas lembrei que a luz não iria fazer bênçãos para minha melatonina. Aí, decidi me entupir de comida, devia ter algo na geladeira que aplacasse minha ansiedade.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei quando vi Vanessa esparramada no sofá da sala, jogando um videogame com uma falta de ânimo evidente.
Dentre as criaturas da casa, posso dizer que Vanessa tinha as menores tendências para insônia. Enquanto estudavamos juntas, ela gostava de dizer que era mais inteligente e bonita que eu porque ela dormia — Uma calúnia terrível, se me permitem dizer.
— Não está vendo? Estou jogando.
— Parece que está fazendo carinho no console.
Ela revirou os olhos.
— Pelo amor dos deuses… Só me deixa jogar essa porcaria em paz.
Provavelmente inspirada no meu comentário, ela apertou o treco com mais força. Desnecessário dizer que o botão afundou.
— Quanta violência.
De repente, me entediei de irritar a pobre criatura ruiva. Minha criatividade me abandonou e não consegui pensar em nada, então, voltei ao plano original de vasculhar a geladeira.
Comer algo sem ser testado poderia ser meu ato supremo de burrice do dia e eu só lembrei disso quando minha cara estava dentro da geladeira. Vai que Alec decidisse colocar chumbinho nas uvas para se vingar de mim usando ele como provador? Puff, profecia completa.
Então, como a criatura inteligente que sou, peguei as uvas, lavei na pia, sentei do lado de Vanessa e ofereci uma.
A pobre coitada estava tão distraída olhando a TV apagada que comeu uma.
Acho que ela só notou minha sacanagem quando reparou que eu estava demorando para comer, afinal, estava avaliando se iria ter algum efeito nela.
— Você é uma praga impossível — ela murmurou.
Diria que tenho senso de autopreservação, apenas isso.
— Você está preocupada com Layla — mudei de assunto.
Essa era a única explicação racional para o comportamento fora da curva. Vanessa raramente era hostil com Layla, normalmente, girava em torno na indiferença total. Tenho que dizer que eu não esperava isso.
— Deuses são filhos da puta, Christine — ela soltou uma risada amarga — Não que pareça que você saiba disso, pavoneando por aí com aquilo e um tonel de pó de mico.
Me senti particularmente ofendida.
— Hermes não é meu amiguinho. Mas é útil que ele pense isso, mais fácil de pegar a adaga.
— Vou fingir que você é capaz de tapear um cara que tem milênios.
Como sempre, não havia muita fé em mim. C'est la vie.
— No máximo, vamos terminar sem as duas adagas — ela continuou — e com ele machucando ou matando Layla por diversão.
— Ele não seria burro suficiente para isso — Uma coisa era ser negligente e um envenenamento ou outra coisa ocorrer sobre a supervisão dele. Outra coisa era ter papel ativo.
Eu era a filha de Nix, uma das deusas que poderiam transformar a imortalidade de outros deuses em papel. Ele não seria estúpido de fazer minha mãe prestar uma atenção indesejada nele.
— Quer ouvir uma história de como deuses não se importam com mortais? — ela perguntou.
Se tinha uma coisa comum na mitologia grega, eram mortais se lascando por causa de deuses. Morrendo em guerras iniciadas por deuses, virando árvores, ursa, cervo, aranha. Enfim, um zoológico poderia ser constituído pelos pobres coitados.
— Minha avó era uma garota bonita. Diziam que ela era a mais bonita de toda a Renascença tão bonita que Botticelli usou ela de inspiração mesmo depois de morta. E sabe por que ela morreu?
— Qual? — Por que era gritantemente óbvio que tinha sido um deus.
— Apolo. Como ela já tinha um amante, ele achou que seria fácil. Mas ela realmente gostava do amante mortal dela e mesmo ele sendo um deus, preferiu um mortal do que ele.
Pisquei. Isso não iria acabar bem.
— Então ele motivou alguns humanos contra o amante dela. Não que os humanos sejam santos, eles já tinham idéia de fazer algo do tipo, Apolo só deu a faísca final. Mataram ele em uma catedral. Após alguns meses, Apolo pensou que ela iria querer ele, já que o outro estava morto — Vanessa fechou os dedos — Ela não quis, então ele estuprou ela em cima do túmulo do amante morto dela.
Ela fez uma pausa na história. Eu não sabia o que dizer e nem se algo poderia ser dito.
— Ela entrou em depressão e piorou quando descobriu que estava grávida. Meses depois, duas meninas nasceram, uma delas albina. Ela não aguentava olhar para as crianças e um dia perdeu o controle. Pulou da janela mais alta da casa de campo do marido. Encontraram ela quebrada e as duas meninas estavam inteiras. A menina aparentemente normal era minha mãe. Minha mãe e minha tia tiveram uma infância horrível, minha tia tem cicatrizes até hoje, tudo porque um deus decidiu que iria arruinar a vida de uma mortal que rejeitou ele.
Durante o fim da história, fiquei encarando o tapete. Nunca mais acharia as representações de Apolo, douradas e vívidas, bonitas.
— Então, pense, Christine. O que Hermes, o deus da trapaça, vai fazer com ela se sentir que está sendo tapeado?
Depois daquilo, meu plano de fazer a indiferente foi direto para o ralo. Eu iria ir naquela festa, iria enrolar Hermes um pouquinho para não dar na cara e iria arrastar Layla dali. Minha sanidade acabaria evaporando se eu ficasse em casa. Enquanto caçava as roupas no meu guarda-roupa, meus pensamentos começaram a divagar por um monte de coisas estranhas: Como Vanessa tinha o mesmo formato oval do rosto da Vênus de Botticelli e sobre loureiros.
Idia, como uma gata autêntica, só me olhava com cara de paisagem.
Olhe, foi um saco achar uma roupa que fosse considerada de festa noturna no meu guarda roupa. Só tinha roupas de praia e coisas para o frio da Escócia. Depois de meio milênio, achei um vestido preto, curto e levemente rodado. Como o decote era legal — as alças cruzavam ele em X — iria servir.
Juro que pensei em pegar um salto. Foi tentador, mas aí lembrei que eu poderia acabar o resto da noite correndo igual uma condenada de volta para a casa. Armas também eram um problema, só os deuses sabiam o que poderia me aparecer até o fim da noite e o vestido era curto demais para esconder algo. Mas, cá entre nós, onde eu iria esconder, naquelas meias-cinto esquisitas de filmes? A única forma de esconder adagas é em blusas de frio com bolsos e eu iria morrer assada porque aquilo era Sicília.
— Idia, na sua sabedoria felina, você sabe onde posso esconder uma arma? — perguntei e torci para ela não falar algo bem deselegante.
Ela me olhou como se eu fosse louca.
— Eu sou a arma.
A gata brilhou levemente e se desfez em névoa colorida, mais especificamente, azul, marrom claro e marrom escuro, as cores de uma gata siamesa. Após isso, a névoa começou a tender para o prateado e depoir para o dourado e preto.
E puff, tinha uma jararaca na minha cama.
— Ok, não nego que vai ser um bracelete legal.
É em cada situação que me meto. Mas juro, não é tão ruim ter uma cobra enrolada do braço até o ombro. É geladinho. E Idia estava confeccionada para ficar bem artística, dourada e com um padrão de manchas pretas intrincadas.
Se a situação não fosse tão desesperadora, eu tiraria foto.
Taquei um batom vinho quase preto e pronto, eu estava apresentável para uma festa da divinidade da trapaça. Nem usei maquiagem nos olhos, achei que a cobra já chamava a atenção o suficiente.
Só faltava um detalhe: Alexander. Seria uma forma mais suave de convencer Layla a voltar para casa do que arrastar ela pelos cabelos. E os poderes dele não me seriam inúteis.
Como a porta do quarto dele estava semiaberta, só entrei mesmo. Eu teria levado um susto se não tivesse visto minha gata virar uma jararaca naquela noite, então, qualquer coisa depois disso pegava o rank 2.
Alec estava deitado, a luz do poste iluminava o contorno dele bem fracamente. Até onde eu podia enxergar, ele estava encarando o teto. Bem, aí estava o problema: o aro dourado envolta das pupilas dele estava incandescente. Ou, em uma metáfora mais ilustratativa, estava brilhanto igual os olhos do demônio maior do Supernatural — Azazael? Azazel? Bem, vocês devem saber de quem eu estou falando.
Enfim, assustador pra caramba.
Engoli minha vontade de perguntar se ele necessitava de um exorcismo, isso não iria deixar ele muito cooperativo.
— Eu preciso na sua ajuda — falei e acendi a luz.
Ele me lançou um olhar malicioso. Abriu a boca para falar algo que sem dúvida eu iria considerar atrevido e então fechou a boca. Ah, ele viu a cobra.
— Eu não sei o telefone do controle das zoonoses, talvez Nessa tenha.
— Idia, diz oi para a criatura — fiz carinho na cabeça da jararaca.
— Oi, criatura — Idia falou com aquela voz sibilante.
Alec fechou os olhos.
— Ah, deuses. Por que acho que a ajuda não vai ser algo tão simples quanto matar uma barata?
Lembrei vagamente de uma vez que uma barata entrou pelas calças da Vanessa e ele ficou estático. Nah, Alec nunca foi muito útil para matar baratas.
— Não é nada demais. Aposto que você até vai gostar — Ele ergueu uma única sobrancelha nesse trecho — Só preciso da sua ajuda para tirar Layla da festa de Hermes. Você pode curtir um pouco da festa, desde que fique de olho nela e depois é só convencer ela a voltar para casa.
— Não pense que sou um ser egoísta, não posso ir poque vou ser inútil. Tomei 3 calmantes agora mesmo, vou apagar em cerca de uma hora. Tente falar com Nessa.
Ah, ele não iria apagar. Eu tinha substituído os calmantes dele por farinha quando estava aprontando com Hermes — Eu queria colocar outros medicamentos especiais, mas Layla implorou pela alma dele, que certamente desceria pela descarga caso ele tomasse 3 comprimidos.
Me encostei na parede do quarto dele e encarei minhas unhas.
— Talvez você não caia morto de sono.
Talvez Alec tenha captado o sentido disso porque ele sentou na cama e pareceu levemente irritado.
— O que você fez?
— Nada demais, eu resolvo seu problema se você resolver o meu.
Ele se levantou em um salto e pegou o pote de calmantes. Abriu a janela e jogou todos os comprimidos.
Três segundos depois, ele estava parado na minha frente. Continuei mexendo nas minhas unhas
Alec ergueu meu queixo de leve e me forçou a encarar ele.
— O que você fez? — perguntou mais baixo dessa vez.
Encarei os olhos azuis e dourados dele e senti um arrepio quando lembrei da forma deles no escuro.
Ah, ele achava que eu tinha trocado os comprimidos por algum tipo de veneno. O tipo de coisa que esperam de mim, pelo visto.
Segurei os dois pulsos dele com as pontas das minhas unhas.
— Nada pior do que tentar dissolver meu cabelo.
Idia lentamente começou a deslizar na direção dele. Como um menino esperto, ele recuou e começou a desenvolver noções de espaço pessoal.
— Então, além de convencer Layla, talvez eu precise dos seus poderes. Não pense como um favor para mim, aposto que você se contorceria em remorso eterno se soubesse que algo aconteceu com ela enquanto você estava deitadinho olhando para o teto.
Ele me encarou, inexpressivo.
— Quem você quer que eu mate?
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