Equilibrium
12 Capítulo 11 - Gallus gallus
Apesar de Layla me chamar de mamute com uma relativa frequência, eu não sou burra.
Assim que as luzes apagaram, pensei "Ihhh, lasqueira", meu estômago parou de roncar e meus pés se ativaram bem rápido na direção da porta.
Tá, eu sei que eu estava acompanhada por um garoto que reduzia pessoas a pó, uma ruiva que controlava mentes, uma espécie de feiticeira que eu tinha medo de descobrir o que podia fazer e ainda tinha uma gata que virava onça gigante no carro. Mas, mesmo assim, não gosto de tentar o destino. Vai saber o que podia sair de um portal, talvez só um monstrinho de quinta categoria ou podia sair o exército dos infernos inteirinho — E cá entre nós, considerando minha sorte, isso não era tão improvável.
— Acho bom dar o fora daqui — Não foi uma das minhas frases mais brilhantes, admito.
— Perdeu a fome? — Alec zombou.
Nem olhei para ele e continuei indo para fora do restaurante. Apesar de toda a pose de corajosos, ninguém ficou lá dentro.
Vocês não tem idéia do alívio que senti quando saí do lugar. Por um instante, quando abri a porta, pensei que ela iria estar travada igual em filme de terror.
— Uai, quanta pressa — Idia falou quando todo mundo entrou no carro.
— Portal sendo aberto no restaurante — Layla arfou. Talvez eu tenha subestimado minhas passadas quando falei "andei".
— Eita.
Alec ligou o carro bem rapidinho para um ser tão corajoso. E aí ele acelerou pra caramba no meio da rodovia.
— O limite de velocidade — falei, suavemente.
Eu não podia ver, mas tinha certeza que ele tinha revirado os olhos.
Me encostei totalmente no banco e engoli um suspiro, eu não podia me dar o luxo de parecer aliviada porque iria parecer mais ainda que tinha ficado assustada no restaurante. Ah, mas sejamos sinceros, quem não sente pelo menos um leve arrepio quando as luzes começam a surtar a lá Supernatural?
Talvez nem tivesse motivo para tanto, podia ser um monstrinho chumbrega qualquer. Essa linha de pensamento me desagradava, dava uma sensação de "Shame, shame, shame".
Para falar a verdade, eu estava até começando a ficar decepcionada. Quem surgiu no portal nem teve a presença de espírito de nos seguir.
Mesmo assim, aquilo era péssimo. Um portal só podia ser aberto se estivéssemos sendo rastreados, porque é realmente impossível que Trivia previsse em qual maldito restaurantezinho iríamos parar. Se estávamos sendo rastreados, ela tinha algum informante no Campus. Se bobear, ela podia até ter alguns enviados seguindo nosso carro. E aquilo era culpa de Alec, ou melhor, da anta que financiou um carro tão chamativo para ele.
— Agora que tudo isso passou — Vanessa disse, se virando no banco da frente para me encarar — Tenho que falar que a culpa é toda sua. Custava muito esperar para chegar no aeroporto e ir comer? Custava, hein?
Levantei minhas mãos.
— E Trivia iria abrir um portal no aeroporto — Layla falou, conclusiva.
Vanessa emudeceu a contragosto. Eu praticamente conseguia ver o cérebro dela girando para arranjar um motivo para me culpar e discursar em cima de mim durante a viagem inteira. Já falei que a paixão de Vanessa é reclamar? Igualzinha a um professor de matemática idoso que eu tinha, será que é mal de matemáticos, essa alma de velho?
— Pelo menos no aeroporto seria mais protegido. Tem outros descendentes de deuses lá, aposto que alguém poderia cessar o portal.
É, e aí a gente podia viver no aeroporto pelo resto das nossas vidas.
— Mudando de assunto para algo mais importante — Alec disse bem seriamente e se virou para me encarar — Você costuma incorporar o Papa Léguas com muita frequência, Christine?
Vanessa gargalhou e Layla mordeu a parte interna da bochecha, a traidora. Poxa, ele nem foi tão engraçado.
— Olha para a estrada — falei.
Alec virou o focinho zombeteiro para frente enquanto Idia se remexia no meu colo.
— Você saiu correndo? — A gata perguntou. Eu não sabia ler expressões faciais felinas para poder dizendo se ela estava zombando ou decepcionada.
— Tenho senso de preservação, a propósito — disse — E na próxima, acho bom os corajosos ficarem lá para ver o que sai do portal. Ninguém reclamou de me seguir.
— Vai ver a armadilha era para a raposinha fujona sair correndo sozinha pela porta e ser presa — Vanessa falou, falsamente doce.
— Talvez — falei no meu tom mais sombrio que eu podia reunir — Não vimos o que saiu do portal. Inclusive, aquilo pode estar dentro de um de nós.
Eu diria que o clima ficou estranhamente quieto dentro do carro.
Há algo filosoficamente perturbador em fugir de algo que está dentro do seu carro, se deslocando na mesma velocidade e a espreita para dar o bote.
— Isso não teve muita graça, Chris — Layla parecia indiferente, mas eu sei que ela tinha pânico de filme de terror.
— Você seria uma vilã terrível e criativa — Alec parecia pensativo — Acho que sinto dó da pobre Trivia.
Pensei em soltar uma gargalhada bem encapetada, mas tinha medo de Alec surtar e perder o controle do carro. Aí eu seria uma capetinha no pós vida.
— Hum, tem alguma coisa nos seguindo — Alec cortou o silêncio.
— Ainda bem — Layla murmurou bem baixinho.
Me virei no banco e vi um monte de passarinhos no céu azul. Seria uma cena bonitinha se os benditos não parecessem máquinas de matar, imensos e com garras douradas que brilhavam no sol. Felizmente, eles estavam um pouco longe, aí eu não conseguia ver os detalhes.
— Esses pássaros me parecem familiares — falei para Layla.
Eu iria falar que eles eram parecidos com aquele que me atacou na cozinha e assim iria ter mais assunto para reatar minha proximidade com Layla nesse mundo estranho, mas aí Vanessa me cortou:
— São seus parentes? — disse, docemente.
E assim se inaugurou o campeonato local de patadas.
— Não, mas se eles tivessem penas vermelhas, talvez fossem seus — sussurrei maldosamente — Talvez eles gostem de milho também.
Como vocês podem ver, eu e Vanessa tínhamos um convívio ótimo.
— As duas podem parar, por favor — Layla, a voz da razão disse — Que tal se matarem quando chegarmos na Sicília? Não é nem a hora nem o lugar para isso.
Surpreendente, Vanessa calou a boca. Talvez não fosse tão surpreendente, porque os bichos começaram a realmente chegar mais perto.
— Ok, eu gostaria de calcular a aceleração deles — Alec confidenciou.
— Foco, por favor — Idia imitou Layla.
Mas, olha que até era uma questão interessante. Os bichos percorreram uns bons quilômetros bem rápido e agora estavam se aproximando cada vez mais e o carro já estava quase voando. Fiquei realmente feliz por não ser meu carro, os radares da estrada deviam estar com os registros pulando.
Alguns seguindinhos depois, eu já conseguia ver mais detalhes dos bichos. Os bicos eram bem encurvados e pareciam pontudos. Eu falei a quantidade de pássaros antes? Se não mencionei, falo agora: eram pelo menos uns quinze, não tenho certeza porque ninguém fica contando passarinhos nessas horas.
Aí lembrei que não precisava me estressar, eu tinha um esquadrão de combate ótimo ali.
— Alec, meu anjo, coloca fogo naquelas coisas — solicitei.
— Sim, e depois vou deixar o fogo consumir os civis quando eles caírem em chamas bem no meio da rodovia.
Ah, sim, os humanos, que felizmente não pareciam ter notado aquelas coisas, já que não tinham estacionado e tirado selfies. Felizmente, posso dizer, não tinha trânsito no dia. Se fosse uma sexta feira em pleno horário de pico, aposto que os passarinhos iriam ter bem menos exercícios físicos naquele dia.
Vanessa, como não se manifestou, — E ela realmente gostaria de bancar a salvadora do dia, acredite em mim — não podia hipnotizar animais modificados, ou pelo menos, não conseguia com aquela distância. E definitivamente eu não iria tentar o experimento de poucos metros.
— Layla? — falei, esperançosa.
— Isso vai dar merda — Ela parecia resignada, mas se curvou para trás.
Um poste da lateral da rodovia oscilou rapidamente na direção dos bichos. Pensei que Layla iria deixar ele cair, esmagar alguns e eletrocutar uma porção, mas aí um carro passou bem embaixo do poste.
Quase, por um tris, não teria patê de carro e frango queimado. Parece engraçado agora, mas meu coração gelou na hora.
Felizmente, ela recuperou o controle e o poste caiu no lado oposto da rodovia. Os fios emitiram um barulho alto de estática, mas ela torceu os dedos e nenhum incêndio começou nas árvores do lado.
— O que posso fazer sem matar ninguém ou parar em jornal conspiracionista de alien? — Layla perguntou.
Na verdade, ela não podia fazer muita coisa. Os bichos estavam cada vez mais perto. Mas era admirável a discrição dela em momentos de urgência.
Mais perto e mais perto. Eu realmente estava começando a ficar em pânico.
— Relaxa — Alec disse — O carro é mais rápido.
Nem sei dizer qual era o valor do velocímetro, nem queria ver — O que os olhos não veem, o coração não sente. Aí minha mente traidora oensou "Ah, pronto. Não vou morrer pelos abutres para morrer quando essa anta capotar esse carro"
Aí minha mente ficou mais traidora ainda. Lembrei de uma foto de acidente de trânsito que vi no Facebook em que o rosto do cara ficou despedaçado. Depois, imaginei aqueles pássaros revirando os destroços do carro.
Para piorar, o carro não era tão rápido como aquelas coisas. Consegui ver os olhos brilhando de um pássaro bem pertinho.
— Ah, deuses, por que não sentei no banco da frente? — Layla murmurou, com os olhos de chinesa bem arregalados.
É, por que eu não sentei do banco da frente?
O pássaro mais próximo começou a inclinar para baixo, eu podia sentir que aquela criatura ardilosa queria acertar o pneu.
Aí, cheguei no liminar da sanidade.
— ATROPELA!
E pela primeira vez na vida, Alec ouviu uma sugestão minha.
O carro deu um solavanco para trás e o porta malas se chocou com um dos abutres. Aí fiquei feliz por estar usando cinto de segurança. E fiquei mais feliz ainda pelo carro ser blindado — vidros blindados comuns aguentam pássaros pesados em alta velocidade?
Ah, eu realmente amava a anta que decidiu dar um carro tão caro e reforçado para um garoto.
O vidro traseiro estava melado de sangue, mas o bicho estava caído no chão e retorcido. Subitamente, os outros abutres pararam de nos seguir e ficaram rodeando o corpo do cadáver em círculos.
Amém, pelo menos eles não eram igual abelhas: matou um e todos vem em fúria para cima.
— Deuses, que adrenalina — Os olhinhos de Layla brilhavam — Gostei, quero replay.
Peguei meu livro de psicologia comportamental e bati nela.
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