Equilibrium

4 Capítulo 3 - Minha mãe me arremesa de um penhasco


— Não vamos parar na delegacia.

Estreitei os olhos.

— Isso não faz parte do procedimento quando ocorre uma tentativa de sequestro?

Ela revirou os olhos.

— Isso não é da conta da polícia.

Ah, era tudo o que me faltava. Além de possível esquizofrenia ou loucura, minha mãe, a minha santa mãe certinha, estava com problemas que não podiam ser informados à polícia. A semana parecia melhorar em progressão geométrica.

— Ok, isso é algum tipo de pegadinha?

Não custava nada perguntar. Uma vez, comprei um pedaço de dedo de plástico bastante realista, corante vermelho e simulei como se tivesse arrancado meu próprio dedo enquanto cortava batatas. É desnecessário informar que minha mãe quase infartou, então, suspeitei que isso fosse um tipo de troco. Ela era vingativa, talvez isso fosse genético.

— Não é pegadinha — uma voz falou debaixo do banco.

E aí minha gata, Idia, saiu de lá, pulou no no banco do meu lado e começou a lamber as patas.

Fixei o olhar na janela. Que período ruim para começar a alucinar. Se bem que a maioria dos loucos começam a alucinar quando ficam nervosos, então até que fazia sentido.

— Ela vai ficar tentando me ignorar — A gata falou, olhando pra minha mãe.

— Christine, diga oi para Idia.

Fechei os olhos.

— Alucinação coletiva. O dia só melhora — bufei.

A gata pulou para o banco da frente e ficou do lado da minha mãe.

— Eu falei que criar ela igual o mini Newton iria deixar ela cética demais — Idia soltou um chiado felino desgostoso — Acho que se o Kraken aparecer na praia, ela vai dizer que é um polvo que sofreu mutação.

Revirei os olhos.

— O certo é lula. Elas alcançam maiores tamanhos e os tentáculos dela têm partes pontiagudas, então cai melhor no mito do Kraken. E não precisa de mutações, elas já são grandes suficientes para assustar no estágio normal.

— Ah, então as lulas têm tamanho de uma ilha e cem tentáculos em estágio normal?

Cem tentáculos é só um pouquinho exagerado. Lulas têm 8 braços e mais dois tentáculos auxiliares, mas tentar discutir isso com uma gata falante é um tanto inútil.

— Algumas podem passar dos 15 metros — Peguei o celular e dei uma olhadinha no Google — É maior que umas ilhas mequetrefes por aí.

Bom, pelo menos ninguém pode dizer que espalho fake news. Nem para gatas falantes.

Minha mãe se virou pra trás, me encarando e ignorando totalmente o volante.

— Parece que você melhorou. Até está conversando com sua supostas alucinação.

Nesse momento, o caminho fez uma curva e o volante rotacionou suavemente sem ninguém encostando nele. Assombroso.

— O voltante…

— Ele vai ficar bem — ela estralou os dedos e apoiou as mãos no apoio do banco, me encarando — Acho que a gente tem que conversar.

É, eu também achava.

— Em primeiro lugar, você não está doida.

— Consolador.

Eu estava bancando a irônica, mas estava com expectativa. Existe um senso comum idiota que diz que algumas pessoas enlouquecem de tanto estudar e alguns professores falavam isso pra mim. Tudo o que eu não queria era virar Christine, a garota que parou no manicômio.

Ela riu.

— Lamento que eu tenha te mantido no escuro todos esses anos, mas foi necessário. Então, eu sou Nix, Nut, Ninlil, Lilith ou Noite, como você preferir. Nós, deuses, estamos há milênios pela terra e ocasionalmente temos filhos, aí eles procriam por aí com outros filhos de deuses e acabam gerandos duas espécies novas.

Eu ergui a mão.

— Você está me levando para o Acampamento Meio Sangue? — É, expectativa de leitor de Percy Jackson é de lascar. Eu passei minha adolescência lendo Young Adult, isso é algo difícil de se livrar, esse desejo por mais magia na vida. Querer sair da normalidade.

Conselho da titia Chris: Fique feliz com sua normalidade. As coisas não são tão utópicas assim.

Agora, quase não consigo acreditar como os olhinhos brilhando de expectativa naquela hora. Que vergonhoso. Que pata mais iludível.

— É mais ou menos assim. É lá que treinamos os descendentes de deuses, os marem e os vrykolakas. Os marem, manipulam a realidade, tudo no plano físico, o nome deles vem de manubrium rem. Já os vrykolakas, manipulam assuntos referentes a mente e alma. Você vai ver isso depois, não se preocupe. Você provavelmente vai ser marem, todos os meus filhos são.

— Eu tenho irmãos? — Ah, minha delícia de ser filha única podia acabar.

Idia soltou um miado felino que parecia uma risada.

— Mortais vivos, não. Uma penca de deuses por aí, sim.

Ah, que beleza. Sem almoço em família então.

Minha mãe estacionou o carro. Estávamos na frente da praia.

— Bom, vamos abrir um portal — a gata cantarolou.

— Para onde vamos? Como vamos? Se você é uma deusa, por que não abriu o portal logo que me achou no shopping — estreitei os olhos.

Spoiler: até hoje, ela nunca me explicou o motivo físico de como ela abria portais. Aparentemente, ela não gostaria que mortais fossem parar acidentalmente em Niflheim (mais do que o normalmente ocorre. É, pasme, ocorre uma penca de coisas estranhas).

— Niflheim, uma das 3 dimensões. É um mundo de névoa, um tanto hostil em algumas partes, mas potencializa o poder dos descendentes de deuses, então uma grande maioria prefere ficar por lá. Lá fica o Campus, onde há uma espécie de treinamento para os mais jovens. E, não, não irei dar a chave do Nobel de Física pra você. Se vira.

Outro spoiler: Eu e Alexander ( Vocês não conhecem ainda) estamos tentando resolver a questão dos portais e dimensões até hoje. É, somos fracassados da física moderna, mas para meu crédito, desconfio que nem mamãe sabe muito bem o porquê.

Pelo menos, digo isso a mim mesma pra dormir bem a noite.

— E dois: em qualquer outro lugar, eu abriria um portal na região paralela a região da terra onde abri o portal. Ou seja, estaria ainda a quilômetros do Campus e em uma região nevoenta, sem estrada pavimentada e com algumas surpresinhas.

Olha, a partir da palavra surpresinhas, comecei a desconfiar que a coisa não era tão boa assim. Mas, sabe, aquela empolgação de praticamente receber sua carta de Hogwarts sufocou todas as minhas suspeitas.

Andamos pela praia e começamos a subir as falésias. Estava quase escurecendo, o vento jogava meu cabelo e areia nos meus olhos, mas eu estava satisfeita como um gatinho ronronante.

No topo da falésia, minha mãe balançou as mãos e disse:

— Pronto, chegamos.

Aí todas as minhas suspeitas de alucinação coletiva começaram a voltar. O sol estava no poente, o céu estava alaranjado, as fichas pareciam ter um tom de marrom mais vivo. Abaixo de nós, só tinha uma queda livre com pedras pontiagudas cercadas por ondas turbulentas. Mais bonito que o usual da praia, aparentemente mágico, mas ainda não parecia outra dimensão.

— Abri o portal, é lá embaixo — Ela apontou direto para o penhasco.

Ah, vocês sabem como eu fiquei animadíssima. Olhei para as ondas lá embaixo, olhei para minha mãe e virei na direção do carro.

— Nem lascando. Eu definitivamente não vou pular de um penhasco para um portal. Aliás, eu nem consigo ver o bendito portal e nem tenho uma explicação de como ele é feito.

— Não tem explicações. Na natureza, sobrevive quem se adapta primeiro, não os mais fortes e inteligentes, muito menos os frescurentos.

Olha, era um argumento bem frágil esse. Eu podia passar dois dias contra argumentando e fazendo uma dissertação.

— Nenhuma quantidade de adaptação vai me fazer sobreviver uma queda direto em rochas — grite e apressei o passo em direção à praia.

Minha mãe suspirou alto.

— Ok, vamos mandar a Idia primeiro. Aí você vê.

— Você não vai jogar minha gata de um penhasco — Aí eu comecei a voltar.

Pobre Ií, gatinha chata, arruinava sofás, livros, mordia meus pés, dormia no meu cabelo, mas não merecia morrer sendo arremessada em um monte de rochas.

Idia olhou para mim com o olhar perversos que só um gato consegue fazer e pulou do penhasco.

Quase infartei de vez. Fui para a beirada e não pude nem ver sinal do corpo da gata. Arfei. Idia era uma constante na minha vida, minha mãe tinha ela antes de eu nascer. Ah, é, se aquilo que tinha pulado era minha gata invés de uma alucinação.

De repente, minha mãe me empurrou. Como eu estava na beirada, observando a tragicidade da gata, eu caí pra frente.

Fechei meus olhos na queda. Só conseguia pensar como essa morte era patética. Arremessada em um penhasco pela mãe. Se bem que a falésia não era tão alta assim para ser considerada penhasco, mas as rochas lá embaixo não eram tão bonitinhas.

Senti um frio de gelar os ossos e depois um impacto nos meus joelhos e nas minhas mãos. Abri lentamente os olhos.

— Ora, ora, alguém sobreviveu — Idia disse, intacta e lambendo as patas.

Me sentei e olhei ao redor. Eu estava em um lugar com grama cor de musgo e cheio de neblina. No horizonte, tinha um dragão.

Na mitologia nórdica, Niflheim era um dos mundos paralelos, coberto de névoa e guardado por um dragão gigante. Prestando mais atenção, não era um dragão de verdade, mas a melhor obra arquitetônica que vi na minha vida.

Era enorme, maior que muitos arranha- céus por aí, feito de pedra pura. Parecia que uma montanha tinha sido escavada e esculpida. Com a névoa e o brilho de rocha polida, não é de se estranhar que alguém confundisse aquilo com um dragão real, enorme e guardando uma dimensão paralela.

O Nidhogg, o dragão da mitologia nórdica que guardava um mundo de neblina era feito de pedra.

— Gostou, criaturinha? — Minha mãe perguntou. Pelo visto ela não tinha caído tão vergonhosamente como eu — Alguns mortais tem vislumbres desses mundos e usam nas mitologias deles.

Fazia um sentindo absurdo.

Nós caminhamos até os portões do Campus. Quando chegamos perto, o portão se abriu magicamente. Nem fiquei surprerndida, portões abrindo sozinhos não são nada demais para quem atravessou um portal.

Mais de perto, a base onde o dragão se apoiava parecia as raízes de uma árvore, percorrendo um monte de direções. No centro do pseudotronco, havia uma porta de bronze.

— Bem-vinda ao interior de Nidhogg, Christine.



Notas finais
Gostaram? Resolvi dar up e mais lógica aos cenários.