Equilíbrio
3 Sabedoria dos espelhos.
Notas iniciais
Havia uma movimentação estranha ao seu redor. Sentia o descompasso de seu batimento cardíaco se desfazer enquanto tentava se localizar. Ao contrário do que imaginava, não havia adrenalina alguma a ser sentida – apenas uma calmaria absoluta que enevoava sua mente e acalmava seu corpo diante de uma situação-problema na qual nunca se colocara anteriormente.
Abriu os olhos e viu-se refletida em um imenso espelho. Estava deitada em um chão reflexivo e frágil, podia perceber pela imagem acima de si. Fitou-se por cerca de dois minutos, tentando entender como conseguira adquirir tantas olheiras em tão pouco tempo ou como havia emagrecido tanto em apenas duas semanas. Seu corpo estava sujo de poeira e sangue, seu e outrem. As roupas – meros trapos de pano bege doados pelas criaturas demoníacas a que servia – estavam rasgadas em locais estrategicamente programados, como as costas ou as coxas.
O torpor que agia sobre si parecia fazê-la mover-se involuntariamente, pois, ainda com o olhar na sua própria figura espelhada, levantava-se lentamente até se pôr de pé. Sentia o material gélido contra sua pele, mas as sensações trazidas pelo tato eram completamente ignoradas. Sua atenção voltava-se para o alto, onde podia ver-se pela primeira vez em duas semanas – ou talvez em toda a vida, afinal, não se lembrava nem de seu nome quando despertara naquele terreno de terror.
Abaixou a cabeça, olhando ao redor. Milhares de outras de si estavam olhando-a de volta e aquela sensação deu-lhe um arrepio súbito. Sua mente lhe levou a livros de ficção científica e filmes sobre clonagem, o que sempre acabava dando extremamente errado para o criador e o modelo original – não à toa sentiu-se preocupada com a situação; não queria morrer pelas mãos de uma cópia física sua.
“Não deveria sentir medo de espelhos, Phantasos.”, sussurrou uma voz das profundezas – mais provavelmente do além, afinal, não era possível ver seu dono em lugar algum. A nomenclatura que fora utilizada para chama-la soou desconhecida aos seus ouvidos. Como uma alcunha, não sincronizava seus pensamentos àquele nome. Como algum personagem, pouco menos.
“Eu sinto medo é do que eles refletem.”, escutou-se dizendo, embora sua mente não houvesse pedido confirmação alguma para soltar a palavra. Sentiu-se invadida, naquele instante. Era como se seus piores segredos estivessem vazando por seus lábios sem permissão de seu corpo ou de seu próprio ser; como se estivessem abstraindo de si informações que só ela poderia ter. “Sinto medo do que o refletido pode vir a ser.”
“E o que ele pode ser?”, retrucou a voz, em tom curioso. Parecia interessar-se por aquilo, mas havia uma ponta de melancolia em seu timbre. Talvez não fosse aquela a resposta esperada. “Afinal, o que ele é?”
Virou os orbes ao seu redor. Só via a si e a procura pelo homem – afinal, era fácil descobrir se algo era masculino ou feminino em um aspecto tão nítido de diferenciação – era inútil, percebia.
“O refletido é chamado, atualmente, por Sofia Mirr–...”, sua fala foi interrompida pela risada histérica do rapaz. Algo naquilo fez todos os espelhos se quebrarem, jogando-a em plena escuridão. Foi ali que soube: estava sonhando. Como não percebi isto antes?, criticou-se, já sentindo o pânico atingir-lhe pesadamente.
“Sofia Mirrors não deveria temer a própria imagem, afinal, se traduzirmos o nome ao pé da letra, temos sabedoria e espelhos.”, o tom veio a ser mais grave e isso lhe causou seu segundo arrepio. Parecia outra voz, como se a anteriormente fosse mecanizada ou computadorizada. Aplicou-se em se acalmar, mas todas as suas tentativas eram falhas. “Sabedoria dos espelhos, não é mesmo?”
A pergunta foi acompanhada com um pedaço de vidro polido, metalizado e ornamentado veio em sua direção, aumentando com o passar do tempo e a aproximação. Os detalhes em dourado ao redor do metal reflexivo pareciam se mover sempre em círculos, criando um ciclo hipnótico. Quando parou, veio a o fazer logo à sua frente. Pôde se ver pela última vez, antes de presenciar a pior cena de sua vida.
“Eu diria que, realmente, eles são muito sábios. Afinal, eles são capazes de lhe mostrar suas falhas,...”, ele falou, parecendo vir do lado de dentro daquele objeto, e então se viu nua na figura. Verificou se ainda encontrava-se vestida e as roupas que utilizava trouxeram-lhe uma paz estranha. “...suas imperfeições,...”, fitava cada pedaço de seu corpo, procurando um ponto específico quase que involuntariamente. “...seus defeitos irreversíveis,...”, viu, logo abaixo de seu queixo, algo soltando-se de sua pele; parecia vermelho como sangue, mas era parcialmente fixo e não se movia. Levou às mãos até ali, esquecendo-se que era apenas uma visão e que não estava acontecendo realmente. “...e seus demônios interiores.”
Foi então que se viu sendo puxada para dentro do espelho, arrancada de sua própria visão e enviada em direção ao ponto vermelho em seu pescoço. Em questão de segundos, o que vinha a ser seu pescoço era a boca aberta de um demônio arrebatadoramente assustador. Seus dentes eram pontiagudos e sua língua bifurcada parecia querer engoli-la por inteiro. Existiam chifres quebradiços, aos quais tentou se prender antes de se perder na escuridão da bocarra monstruosa.
Não havia como fugir, pois, embora fosse apenas um sonho, não lembrava-se o que deveria fazer para torna-lo lúcido.

Acordou com o coração batendo em taquicardia, ainda sentindo-se pressionada contra a cama dura. Sua cabeça doía com a pressão de seu sangue fazia ao correr por seu corpo com tamanha velocidade. Sentia sua respiração ofegante e ruidosa incomodando-a a cada instante. Tentou se acalmar. Respirou profundamente três vezes, mas ainda ofegava quando o tutor de pedra adentrou sua cela, quase quebrando as grades ao abri-las bruscamente.
“Levante, Sofia. Você tem de cavar.”, Bill bradou, em tom autoritário, embora parecesse mais tranquilo do que estivera na noite anterior. Ele puxou seu pé para fora do espaço que utilizava para dormir e obrigou-a a se levantar – uma forma basicamente impossível de se ver depois do trauma que havia adquirido durante o seu sonho, cujo nunca contaria a ninguém.
“Qual a necessidade em cavar?”, perguntou, quase em um sussurro, enquanto espreguiçava-se antes de sair pelas portas de sua solitária e ter suas mãos algemadas às do homem-gárgula. Sua fala fora quase inaudível, mas, de alguma forma, a audição do rapaz pôde captá-la.
“Cavar lhe mantêm calada, cansada e obediente.”, replicou ele, parecendo calmo em relação à sua resposta. Sofia pensou um pouco e desistiu de tentar fazer uma tréplica sobre aquele assunto. Desistiu também de lançar um olhar determinante para o seu instrumento de trabalho, como fizera todos os dias até aquele no caminho que os levaria ao buraco, aquele que mais parecia uma cova.
Afinal, o metal utilizado podia refletir a faixa de seus olhos enquanto os fitava fixamente. E não queria rever, nunca mais, aquele olhar venenoso, aquelas pupilas verticais e aquelas íris avermelhadas em seu reflexo.
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