Equilíbrio

3 Capítulo 3 -- Idia é uma onça, literalmente.




–- Mi̱téra ? -- Falei quando pulei pra sala

Ahn, pra quem não sabe, mitéra é mãe, em grego. Não me pergunte sobre minhas manias estranhas de falar em outras linguás. Não tenho absolutamente nada á esclarecer.

Ela teve uma reação típica. Deixou o telefone cair, e logo em seguida se abaixou para tentar pega-lo e esbarrou na mesa o que vez o notebook se espatifar no chão. Ela pegou o telefone e o colocou na mesa, como se nada tivesse acontecido, ela me olhou e disse :

–- Oi?

Pisquei inocentemente.

–-Está tudo bem ?

–- Sim,

–- Certeza, mesmo ? Pois, não parecia.

Não foi a intenção mais minha frase soou levemente sarcástica. Minha mãe me encarou por um tempo. Ela pode ser loira e bater em postes, mas te garanto uma coisa, de burra ela não tem nada. Ficamos nos olhando por um tempo, cada uma tentando avaliar o que a outra estava pensando.

Minha mãe foi mais rápida :

–- Chris, você não estava ouvindo na porta, certo ?

–- Depende, do que você estava falando -- Perguntei.

O rosto dela foi ficando vermelho. Bem, eu acho que ela estava ficando levemente irritada.

–- Isso daqui é um questionário ? -- Ela retrucou irônicamente.

Conheço minha mãe muito bem. Pelo tom de voz dela ela não queria que eu tivesse ouvido a conversinha dela. Provavelmente era algo importante, que ela, é claro, estava escondendo de mim.

–- Não, não é um questionário. -- Fiz cara de anjinho -- Eu ouvi você falando de alucinações e pesadelos, e fiquei preocupada. Tem certeza que está se sentindo bem ?

A expressão irritada dela foi aos poucos mudando. Talvez ela percebeu que eu só ouvi o final da conversa.

–- Estou bem, só estava falando de uma amiga minha. Que tal comermos pipoca caramelada ?

Desviando de assunto com pipoca caramelada. Típico.

[...]

Era cerca de umas 20:00 da noite e eu estava indo para a aula de karate. A rua estava deserta, o que não é muito normal nas ruas de Nova York. Estava tudo tão escuro e silêncioso que por um momento pensei que estava errando o caminho.

De repente senti um frio no pescoço. Uma sensação estranha, como se tivesse alguém me observando e seguindo.

Me virei para ver se tinha alguém atrás de mim. Nada. Absolutamente nada. Nem tinha sequer um cachorro de rua.

Obviamente é só o vento, pensei , Di immortalles, eu estou ficando paranoica.

Continuei a andar tranquilamente. e em cerca de cinco minutos já estava na minha academia de artes marciais. A acadêmia é bem grande, com letreiros neons em japonês e português. Normalmente de longe é possível ver os letreiros piscando. Hoje não era possível. Os letreiros estavam apagados.

Desde que eu tinha 11 anos e entrei naquela acadêmia nunca teve um dia sequer que a acadêmia ficou fechada. Aquilo era estranho.

Me aproximei da porta de vidro e vi que estava fechada. Mas não desisti. Bati no vidro e gritei :

–- Tem alguém aí ?

Fiquei um bom tempo batendo no vidro e gritando até que uma alma evoluída resolveu acender as luzes do interior da acadêmia e me atender.

Aos poucos indentifiquei o mestre Nakamura. Era um velhinho oriental de sessenta anos no mínimo; baixinho, enrugado e de aparência frágil. Mas não o subestime, ele pode chutar sua cara e quebrar todos os seus ossos em questão de minutinhos. Ele estava estranho, abatido. Aconteceu algo, pensei.

–- Christine, minha Tsuyoi on'nanoko , Você não está sabendo ?

Pisquei.

–- Sabendo do que ?

–- A parte superior da acadêmia pegou fogo. Acham que foi acidente de gás, mas suspeitos que foi proposital.. Todos que estavam lá em cima morreram por queimaduras ou inalação de fumaça. A acadêmia vai ser fechada.

[...]

Sai correndo de lá. Entrei em choque. Não sabia para onde estava correndo, mas qualquer lugar parecia melhor do que aquela rua escura.

Não sei por que, talvez foi inconsciente, mas fui parar na praia. Perto das rochas altas,onde dava para observar o mar embaixo, era um lugar lindo, mas eu estava tão fora de mim que nem percebi esse fato, só simplesmente me sentia segura ali. Sei que escalar rochas á noite é perigoso mas não liguei. Fui para o ponto mais alto do lugar.

Estava cerca de seis metros do mar. Se eu tropeçasse ou caísse eu me esmagaria nas rochas. Embora o lugar fosse perigoso, eu estranhamente me sentia segura lá.

Sentei de vagar na rocha e olhei para baixo. As ondas ricocheteavam nas pedras e produziam um som ameaçador. Era perigoso, mas bonito.

Acho que devia me sentir triste. A maior parte das pessoas que treinavam na parte superior da acadêmia eram meus parceiros de luta, eu conhecia detalhadamente todos lá. Mas eu não me sentia trite, me sentia chocada, era como se alguém me tivesse acordado com um balde de água fria na cara. Se eu tivesse ido á tarde na academia, como havia planejado...Pelo menos o acidente do poste teve alguma utilidade, me atrasou. Se não tivesse atrasado...

De um modo estranho tudo parecia interligado. O grifo, o telefonema e o acidente na acadêmia. Por um instante me lembrei como minha mãe parecia apavorada no telefonema. Ela realmente estava preocupada com algo, e eu, irritada por ela estar me escondendo algo, nem percebi isso. E se ela estivesse falando escondido para não me assustar mais que o necessário?

O ataque do grifo também era suspeito. Não era uma alucinação. Alucinações não machucam.

O acidente também parecia ligado á isso. Parecia uma emboscada. Aconteceu em um dia que eu devia estar lá. Mas não estava ... felizmente.

E se alguém tivesse mandando o grifo atrás de mim, e se depois disso mandou colocar fogo na acadêmia para tentar me matar. Impossível que fosse mera coincidência.

Olhei pro céu e para todas as constelações. Conheço todas elas, minha mãe havia me ensinado quando era pequena. Não sei por que, mas as estrelas me distraíram tanto que acabei cochilando...

[...]

Quando acordei, olhei no relógio. Era meia-noite.

Caramba, minha mãe devia estar explodindo de preocupação. Me arrumei melhor que pude, tirei a areia do cabelo e dos jeans e saí da praia mais rápido que pude.

Assim que tirei meus pés da areia na praia voltei a sentir aquela sensação esquisita. Pensei em ligar para minha mãer vir me buscar, mas o que ela iria pensar ao ver sua filha á meia-noite na praia coberta de areia, e além disso, estava sem meu celular.

Brilhante, Christine, para que você tem celular ? Para ficar em casa na prateleira , pensei.

As ruas estavam todas escuras. Era só isso que me faltava. Todos os postes queimarem repentinamente.

De repente comecei a ouvir uns ruídos estranhos, como pequenos passos. Só falta ser mais outros grifo, pensei. Mas quando olhei para os telhados vi que era uma gato. Ou melhor, uma gata que conheço muito bem. Idia.

Mas o que aquela gatinha estava fazendo tão longe de casa ?

–- Íi ? -- Perguntei

A gainha siamesa miou em resposta e pulou no chão, aterrissando bem ao meu lado.

De novo ouvi aquele som estranho. Olhei para o telhado, e não tinha nenhum gato. Mas dessa vez o som não parecia vir do telhado. Parecia vir debaixo do chão.

Ouvi um estralo no asfalto. E pouco depois começaram a aparecer rachaduras. Pera aí, não tem terremotos em Nova York.

Aparentemente, parecia que as placas tectonicas não sabiam que não tinha terremoto em Nova York. As rachaduras aumentaram de tamanho e começaram a se mover na minha direção.

Quer saber? Eu não vou ficar parada esperando, pensei.

Então tomei uma decisão muito corajosa: Peguei Idia no colo e comecei a correr.

Sinceramente, vocês não pensaram que eu iria ficara parada lá, certo ?

Já estava quase na outra rua, bem pertinho de voltar para minha casa, e o chão tremeu com tanta força que quase quebrei o queixo no asfalto e quase esmaguei a Idia.

Eu deveria ter me levantado e saído correndo, mas não. A curiosidade foi maior. Me virei pra ver o que era.

Felizmente descobri que não era um terremoto. E infelizmente descobri que era uma cobra.

Você deve estar se perguntando como uma cobrinha pode causar um estrago desses, certo? Te lamento informar, mas não era uma cobrinha. Era uma cobrona. A bichinha devia ter no mínimo, uns dois metros de largura e o combrimento dela se estendia por toda a rua.

Bem, eu nunca tive medo de cobra, mas tenho certeza que seria uma excelente hora para começar á ter.

O formato da cabeça da cobra era a de uma naja. Ela era inteiramente branca e tinha olhos dourados. Seria um lindo animal se não tivesse presas do tamanho do meu braço.

Idia começou a me arranhar no meu colo. Tinha certeza do que isso significava " Eu não estava correndo rápido demais e a gatinha queria fugir"

Meu braço estava sangrando posso dos arranhões. Fui obrigada a colocar a gata no chão.

Sinceramente, eu esperava que a gata corresse o mais longe possível da cobra. Mas ao contrário, ela se aproximou da cobra e rugiu.

Ahn? Rugiu ?

Gatos começaram a rugir ou fiquei louca, provavelmente.

Idia não só rugiu. Ela começou a brilhar. Era uma luz branca, não, mais escura, eu acho. Prateada.

Ela começou á aumentar de tamanho. De repente, ela passou de uma gatinha pequena, á um animal prateado de cerca de três metros de comprimento. Aos poucos a textura prateada foi sumindo, dando origem á uma malha dourada com manchas negras. Os olhos perderam o brilho prateado e ficaram azuis cristais, exatamente da cor dos olhos de Idia.

É meio estranho ver sua gatinha de estimação virar uma onça. As vezes eu chamava Idia de "onçinha" por causa de seu comportamento irritado, mas, bem, eu não esperava que ela realmente fosse uma Onça. Isso é se aquilo fosse uma onça, pois ela era o dobro do tamanho de uma onça normal.

Idia rugiu novamente, mas dessa vez foi um rugido potente. Tão alto que ecoou pela cidade inteira provavelmente, fez os vidros das janelas de carros e casas se estilhaçarem e as estruturas tremerem.

Minha gata é uma destruidora de ruas, não é fofa demais ?

A cobra foi esperta, recuou uns dois metros e sibilou. Idia pulou cerca de dez metros e agarrou-se com as unhas no pescoço da cobra branca.

Uma vez, quando era pequena, eu vi um vídeo na internet de um cara abrindo uma cabra no meio. Só posso dizer uma coisa : Ver isso ao vivo, com imagem ampliada e com uma onça e uma cobra gigante, não deixa a vista mais agradável.

Resumindo : Tinha uma cobra gigante aberta na rua igual um peixe. O cheiro e a cena não foram os dos melhores.

Idia se aproximou de mim, mas estranhamente eu não senti medo, embora a onça estivesse coberta de sangue, o que a deixava mais aterrorizante.

–- Corre para sua casa e conte para sua mãe. Vá rápido, por que isso só é um filhotinho e mãe está vindo.

Bem, se aquilo era um filhote, eu não queria conhecer a mãe.

[...]

O fato foi que eu corri igual uma doida. Quase fui atropelada três vezes, tropecei nas calçadas, e estava toda arranhada.

Quando finalmente cheguei em casa, o portão estava trancado. Normalmente eu gritaria para minha mãe abrir o portão, mas estava tão desesperada que acabei pulando mesmo.

Lá dentro minha mãe estava na sala comendo salgadinhos junto com Layla, enquanto elas brigavam para escolher o tema do filme:

–- Eu quero romance! -- Layla falou

Minha mãe fez cara de nojo.

–- Isso é enjoativo. Vou colocar um de ação.

Só foi eu entrar na casa que elas pararam a briguinha. Confesso, eu não devia estar com uma boa aparência. Com os braços sangrado por causo de unhadas, o cabelo cheio de areia e bagunçado e toda esfolada.


–- O que aconteceu ? -- Layla perguntou com os olhos arregalados.

Minha mãe se levantou do sofá num pulo.

–- Precisamos conversar. -- Ela falou e me puxou para o quarto.