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3 Capítulo 3
Notas iniciais
Volume no máximo. Sentada no ônibus com seus fones no ouvido, Karina aproveita para pensar um pouco na vida. Como poderia convencer seu pai a deixá-la lutar no exame de amanhã?
Karina estava tão focada nos seus pensamentos que nem percebeu que alguém se aproximou e a abraçou.
— Tá maluco? — Karina reagiu ao repentino afeto.
— E aí, Esquentadinha?
— Não é possível. Até aqui você me persegue? — Karina disse.
“Era só o que me faltava o insuportável do Pedro enchendo o meu saco até na volta para casa.", a menina pensou.
— Eita, gatinha! Fica calma. Foi só um abraço.
— Não dá pra ficar na moral, não? Você no seu espaço e eu no meu?
— Não posso falar contigo, que você já vem mostrando as garras e me atacando. — Pedro fez uma garra com a mão e “miou" silenciosamente para Karina.
— Eu já tenho que te aturar rondando a academia agora que está na turma de música. Ainda vou ter que ficar ouvindo você me azucrinar no ônibus também?
— Essa é a sua última oportunidade de aproveitar uma viagem de busão com o Pedrão aqui. Eu e Johnny trocamos de turno no colégio agora que eu entrei para turma do Nando Rocha.
— Bom pra você. — Karina ironizou o menino.
— Puxa, só estou querendo ser legal. Passar o tempo até chegar em casa. — Pedro fez "beicinho" para a garota. — Tá escutando o que?
— Com você falando pra caraca, o silêncio é que não é.
— Ih, grossa!
Pedro se levantou e foi se sentar em outro banco lá atrás no ônibus deixando Karina novamente sozinha com sua música e pensamentos.
Quando ônibus se aproximou do ponto perto da casa dos dois, Karina levantou, puxou a cigarra e foi para porta de saída. Ela viu que Pedro dormia. "Esse garoto vai passar do ponto.", ela pensou. Karina se aproximou de Pedro e cutucou o braço do garoto.
— QUE? — Ele acordou desesperado.
— Vai saltar aqui? — Karina perguntou.
— Ih...vou sim.
O ônibus parou no ponto, abriu a porta traseira e os dois saltaram.
— Obrigado, Karina.
— Tá. — Ela disse já de costas para o garoto.
Pedro admirava Karina enquanto ela se distanciava. "Que bundinha!", ele pensou. Depois que viu que a menina já havia entrado em casa, Pedro foi para o Perfeitão, o restaurante dos pais.
Karina, quando entrou em casa, encontrou com sua irmã assistindo televisão na sala.
— Oi, K! Já chegou do colégio?
— Não. Cheguei da Lua. Não tá vendo minha roupa de astronauta?
— Nossa, já chega na grosseria.
— É que hoje eu não estou num dia bom.
— Você nunca está num dia bom.
— Bianca, não enche. Já tive que aguentar um monte de aula chata, o insuportável do Pedro daqui da frente no ônibus e era só o que me faltava ter que aguentar você também.
— O Pedro? Filho dos donos do restaurante?
— É. Aquele sem noção.
— Ele faz aula comigo lá na Ribalta. Ele é engraçado...e bonitinho também.
— Não chega só o Duca não, Bianca?
— Tô falando pra você, bobinha.
— Cruzes, Bi! Viu porque não dá para conversar com você ? Só sabe falar bobagens.
— Quem sabe se você tivesse um namorado não seria tão estressada.
— Não preciso de ninguém não. Para desestressar é só lutar. Se o seu Gael não fosse tão cabeça dura eu podia ir no exame amanhã.
— E quem disse que ele precisa saber?
— Acho que eu não estou te entendendo Bianca.
— K, seu maior sonho não é lutar?
— Isso já é óbvio pra todo mundo.
— Então porque está deixando alguém interferir? Eu sei que ele é nosso pai, mas, poxa, tem vezes que ele não tem sensibilidade para entender a gente. Quando eu quis estudar na Ribalta, deixei que o papai me barrar? Não. Eu fiz o teste assim mesmo.
— Mas o papai apareceu no meio do seu teste para te arrastar a força de lá. Já pensou se ele faz isso comigo na frente de todo mundo da academia? Eu ia morrer de vergonha.
— Você acha mesmo que ele ia fazer um escândalo como o do meu teste na academia dele? Com um monte de conhecidos?
— Não sei.
— Eu não entendo muito de Muay Thai, mas acho você muito boa. O Duca mesmo já me disse também que você melhorou muito nos últimos meses. Você merece essa chance, K. Pensa nisso.
Bianca deu um beijo na testa de Karina e foi para o quarto, deixando a irmã pensativa na sala. Será que Bianca estava certa? Será que Karina tinha tanto medo da reação de Gael que deixava ele ficar entre ela e seu grande sonho? Bianca estava certa em uma coisa: Karina deveria arriscar. E ela já tinha decidido. Amanhã ela iria no exame e iria ganhar o grau vermelho.
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