Equalize
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Na manhã seguinte eu acordei sozinha na cama, mas com um bilhete sobre o travesseiro ao lado e uma rosa branca. Onde ela arranjou uma rosa àquela hora da manhã sempre permaneceu como um mistério para mim. No bilhete havia apenas um “Obrigada por cuidar de mim” e muitos corações mal desenhados. Definitivamente artes não era a matéria favorita dela.
Porém mesmo de um momento como aquele nada mudou entre nós. Ou melhor, não teve como mudar. Depois da grande volta do seriado, as coisas ficaram ainda mais agitadas. Quando não estava no estúdio fazendo gravação, estava em entrevistas ou em programas de rádio para promover a série e minha imagem. O meu tempo e o dos outros atores foi reduzido quase drasticamente, principalmente para Ian, Zack e Jenny, que era o triângulo amoroso principal da estória.
Minha própria estreia não poderia ter sido melhor. No segundo episódio que foi lançado Lyanna aparecia de uma maneira misteriosa e deixando bem claro que estava ali para causar confusão. No terceiro a personagem já conseguia causar intrigas entre os personagens principais além de dar uma verdadeira surra em uns mutantes baderneiros que tentaram assaltar o bar para o qual ela estava indo tocar. Depois disso iria aparecer apenas no sexto episódio, o que me deu duas semanas de “folga”. E o que o Kevin faz? Marca uma aparição em programa em Nova York! Isso sem contar que ele estava para avaliar dois contratos comigo para fazer propagada para marcas populares.
Eu estava extremamente cansada quando retornei para a Califórnia, mas mesmo assim quando tive chance de ir para o estúdio, estava lá. Na verdade estava com saudades dos garotos e principalmente da Jenny. Nossa amizade continuou a mesma, sempre que possível estávamos trocando mensagens ou nos falando pelo Skype pela noite até o sono vim. Ela me contava tudo o que acontecia e eu fazia o mesmo, em uma tentativa de sentirmos uma a outra mais perto mesmo estando em lados opostos do país. Quando nos encontrávamos era como uma festa acontecesse dentro de mim. Os fãs notavam nossa amizade, já que volta e meia estávamos postando algo nas redes sociais, seja algum comentário ou uma foto.
–Pronto meus amores, chega de tristeza, eu cheguei! – falei alto assim que entrei no estúdio de gravação e os vi nos ensaios.
–Michelle! – Oliver e Ian gritaram ao mesmo tempo.
Mas foi Zack o mais rápido e que me abraçou primeiro. Eu ri da animação deles e os cumprimentei. Até mesmo Grimer veio me receber, era uma surpresa afinal eu só deveria estar ali no dia seguinte.
–Você não me avisou nada – Jenny se aproximou de braços cruzados.
–Qual o sentido de avisar e deixar de ser surpresa? – indaguei como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
–Idiota.
Ela me abraçou apertado e eu pude inspirar o perfume gostoso que ela estava usando. Eu realmente estava morrendo de saudades daquela garota de olhos verdes. Apesar de ter interrompido um pouco os ensaios, Grimer e um produtor logo me chamaram perguntando se eu queria adiantar as coisas no estúdio de música, já que na próxima gravação seria a primeira vez que eu apareceria cantando.
–Seria ótimo, estou mesmo nervosa quanto a isso – agradeci sincera.
–Irei telefonar para a equipe e logo iremos – o produtor falou com um sorriso.
–Não se preocupe, irá dar tudo certo – Grimer tranquilizou – Você canta muito bem e aposto que irá conquistar ainda mais o público, o que é ótimo para a série. Alias, estava pensando, porque você não posta um cover no youtube?
–Postar um vídeo?
–Sim, iria chamar a atenção para você e aumentar a popularidade. Michelle, você realmente tem um dom artístico muito bom, use e abuse dele porque o mundo está esperando por pessoas como você.
Engoli em seco e dei um sorriso tímido. O produtor, que eu lembrei se chamar Samuel, não tardou a aparecer e me levar até a parte de produção de áudio do estúdio. Ao chegar lá conheci algumas pessoas e ficamos quase meia hora decidindo qual música eu iria cantar naquele episódio. Não poderia ser qualquer uma, pois teria de se encaixar na personalidade de Lyanna ao mesmo tempo em que combinasse com o timbre de minha voz. No fim optamos por uma diva e que sempre era garantia de sucesso. Naquele episódio eu iria cantar Rolling in the Deep de Adele. Levamos mais uma hora planejando como seria a apresentação, pois isso iria influenciar diretamente na minha forma de cantar já que obviamente não seria a música inteira.
No fim apenas depois de uma hora e meia eu estava dentro da cabine acústica para fazer os primeiros ensaios. Fui acompanhada de perto pelo meu professor de canto para me ajudar a ajustar o timbre e o tom. Ao mesmo tempo o coreógrafo, sim, até isso eu tinha nesses momentos, me ajudava nas posições e gestos que seria bom eu fazer enquanto cantava. Afinal Lyanna era uma mulher do tipo fatal, então eu teria de esbanjar charme e sedução enquanto cantava. Naquele momento eu descobrir o quanto era difícil atuar enquanto cantava.
Quando dei por mim era tão tarde que eu achei melhor ir para o meu ônibus-trailer e não voltar para casa, já que logo pela manhã eu estaria ensaiando no local de gravação. Assim que me aproximei do veículo franzi o cenho ao ver tudo aceso lá dentro. Alguém teria invadido? Ainda cautelosa e me aproximando devagar, abri a porta tentando não fazer barulho, o que foi plenamente em vão já que ela sempre produzia um som chatinho de metal sendo arrastado. Do meu quarto saiu Jenny, usando a minha blusona que ela fez questão de carregar quando dormiu lá em minha casa.
–Isso é invasão domiciliar, se eu te denunciar você vai presa – falei finalmente relaxando e fechando a porta atrás de mim.
–Isso se chama saudade.
Então ela correu em minha direção e se jogou em meus braços, me abraçando tão apertado que eu quase reclamei. Quase. Eu ri daquela reação fofa e nada pude fazer além de retribuir já que eu também estava com tanta saudade dela que sinceramente às vezes doía. Ela se separou com um enorme e tolo sorriso.
–Eu trouxe pizza e filme – Jenny anunciou.
–Oh God, eu estou morrendo de fome.
Aproximei do balcão pequeno da cozinha e olhei a pizza. Obviamente ela tinha lembrado que a minha predileta era de quatro queijos. Peguei uma fatia com a mão mesmo e me joguei no sofá, devorando o pedaço em questão de minutos. Lambi meus dedos e lutei contra a vontade de pegar outra fatia, então optei por beber água.
–Não vai comer mais? – Jenny perguntou estranhando.
–Eu tenho tendência a engordar – tentei explicar – Se não fossem as aulas de autodefesa que faço praticamente todas as manhãs quando não estou gravando, eu teria de estar fazendo academia para me manter no peso.
–Ah entendo, meus pêsames, vou fazer a bondade de comer o resto então. É desperdício se for para o lixo.
–Você vai morrer gorda.
Jenny deu de ombros e eu aproveitei o momento para tomar um longo e relaxante banho, vestindo um conjunto de dormir curto porque era uma noite quente na Califórnia. Assim que eu saí do banheiro, encontrei com Jenny na cama e assim que ela me viu engasgou com a água que bebia. Fui para perto dela para tentar ajuda-la, mas ela ergueu a mão em um pedido mudo para eu parar.
–Você... – ela buscou ar e tossiu um pouco – Não tinha algo com mais pano para vestir não?
–Está quente e você está em meu trailer. Então eu escolho como me vestir – respondi e me joguei ao lado dela – Qual filme você trouxe?
Era um de suspense policial. Nós adorávamos essas coisas, pois apostávamos quem estaria certa nas pistas. Jenny que já conhecia tudo em meu trailer logo foi colocar o DVD enquanto eu mexia em meu celular para olhar as redes sociais. Estava sorrindo divertida de um comentário que a Shay fez em uma foto minha quando Jenny roubou meu celular de minhas mãos. Assim que viu do que se tratava olhou-me um pouco brava, fechou a cara, jogou o celular em minha direção e deitou ao meu lado mais afastada que o normal.
–É só um comentário – tentei argumentar.
–Fique de conversa com a sua Shay – ela falou emburrada.
–Mas agora eu quero ficar com a minha Jenny – fui aproximando devagarinho dela.
–Não, vai procurar saber se ela também compra pizza para você.
–Não quero, gosto de sua pizza.
–Ou então vai lá assistir filme com ela, deve ser mais divertido.
Olhei para ela, para o bicão que se formou em seus lábios e tive uma tremenda batalha interna para não beijá-la naquele momento.
–Então tá – disse simplesmente e ameacei levantar.
–Nem pense nisso! – Jenny me puxou de vez para a cama, praticamente me derrubando – Não se atreva a sair daqui ou pegar esse celular.
Eu ri alto e logo gritei quando senti uma mordida forte em meu ombro.
–Ai sua animal! – reclamei prontamente.
–Isso é por rir de mim hunf – Jenny disse ainda com um tom bravinho.
Olhei para ela, tão perto, tão fofa brava daquele jeito. Foi então que eu decidi elevar o nível da brincadeira e ver no que iria dar. Inclinei o rosto e dei um demorado selinho no canto da boca de Jenny. Eu acho que ela tinha até parado de respirar com aquilo.
–E isso é para você deixar de ter ciúme – murmurei com carinho e dei uma suave mordida na bochecha dela – Estou onde quero estar.
Então mesmo que com o coração na mão e com o corpo em adrenalina por ter ousado tanto, peguei o controle e apertei o play para iniciar o filme. Escutei e senti quando Jenny suspirou, logo ela estava se ajeitando e me puxando para me acomodar em seus braços. Sorri toda boba com aquilo e percebi que não poderia pedir mais nada daquele momento. Já me bastava estar ali, nos braços dela, sentindo aquele calor gostoso e a presença da mulher pela qual eu estava me apaixonando. Não passou trinta minutos para estarmos dando nossas primeiras teorias sobre o assassino do filme, na metade já tínhamos certeza de quem era e aquilo fez o filme perder a graça.
–Eu tenho de ir dormir em meu trailer – Jenny resmungou, mas ao invés de se mexer apenas me abraçou mais forte – Eu realmente senti sua falta.
–Você esteve comigo a maior parte do tempo – comentei lembrando que se eu demorasse mais de dez minutos para responder uma mensagem dela Jenny já começava a reclamar.
–Não é a mesma coisa – o tom de voz dela abaixou drasticamente – As mensagens não tem o seu cheiro, o seu calor, não passam corretamente a vibração de seu riso.
–Por que você tem de ir pro seu trailer mesmo?
–Amanhã as filmagens serão abertas, alguns fotógrafos irão aparecer para divulgar e tudo o mais. Se eles me pegarem saindo daqui usando sua roupa, já estarão planejando nosso casamento.
Ri divertida e com vários resmungos me afastei para que Jenny fosse embora, ela ainda parou e sorriu para mim, presenteando-me com uma imagem linda dela usando a minha blusona, o cabelo negro bagunçado e com um jeito todo meigo. Tive de conter mil suspiros enquanto ela partia. Deitei ali na cama, sem conseguir sair de perto do lugar onde ela estava antes, abraçando ao travesseiro que ainda continha fortemente o cheiro dela. Foi naquele momento que eu percebi a verdade nua e crua.
Eu estava fodidamente apaixonada por Jenny Summers.
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