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28 Capítulo 28


Notas iniciais
Vou ser sincera com vocês, esse capítulo e o próximo foram o que praticamente criaram essa fic. Tudo o que foi criado, todos os momentos, foram porque eu pensei nesses dois capítulos. O próximo é ainda mais importante para mim >.

O melhor de Jenny já ter concluído o seu filme, era que ela teve o resto do tempo livre. Bem, não tão livre, ela ainda tinha de ir para alguns lugares para fazer entrevistas e aparições, mas coisas bem simples. E o que ela fazia nas horas vagas? Ia ficar comigo, nem que fosse para ficar apenas observando o final da gravação do filme. Eu estava nas nuvens, minha namorada perto de mim no final de meu primeiro grande trabalho tinha vantagens que eu nem saberia como começar a enumerar. Claro, havia uns pormenores que incomodava. Como quando eu estava estressada demais e Jenny carente, ou quando minha TPM fora de hora atacava e acabava sobrando para ela, já que era a que sempre estava por perto. Pequenas brigas, longas discussões, noites de amor no sexo das pazes. Bem, eu poderia muito bem me acostumar a isso, não é?

Aquele era um dos dias que eu estava cansada. Entrei em meu ônibus-trailer sentindo dor em todo o meu corpo. As gravações poderiam estar com seus dias contados, mas a intensidade parecia ter triplicado. Fazer um filme de drama e ação não era nada fácil. Ou você ficava abalada física ou mentalmente. Ou os dois juntos, que era quando as coisas realmente complicavam. Escutei a televisão de meu “quarto” ligada, ao seguir para lá não foi nenhum pouco surpreendente encontrar Jenny deitada em minha cama, com uma roupa confortável e um balde vazio de pipoca. Bastou um olhar dela para mim para que ela soubesse o meu estado. Então ela apenas abriu os braços em uma oferta praticamente irrecusável, eu apenas tirei meu tênis e me joguei na cama, me aconchegando prontamente dela.

–Parece mais fácil quando apenas assistimos ao filme – comentei e suspirei cansada – Sinto que poderia fazer o papel da Bela Adormecida agora. Apagar por um bom tempo.

–Só se eu for seu príncipe encantado – Jenny acrescentou começando a mexer em meu cabelo em um carinho que me deixava relaxada.

–Você não parece um príncipe encantado – ri baixo.

–Porque não?! – Jenny indagou parecendo ofendida.

–Está mais para o lobo mal isso sim – respondi com um sorriso torto, erguendo o meu olhar para o dela – Você sabe o que diz a lenda, ele te olha, te cheira e bem, te come!

A gargalhada dela foi tão única e gostosa que me fez rir junto, esquecendo rapidamente o dia cheio que eu tive. Ela me encheu de beijos e mordidas, me abraçando e me fazendo sentir amada de todas as formas. Depois de um tempo, consegui levantar da cama para tomar banho e jantar pizza, o prato principal dos meus jantares na última semana. Jenny não me acompanhou, alegando que me amava, mas não morreria de fome me esperando. Ficamos conversando, sentadas uma do lado da outra na cama enquanto eu terminava de comer o último pedaço de pizza.

–Amanhã vamos participar daquele programa – ela lembrou olhando para a televisão, mas sem realmente assistir.

–Sim, mais um – soltei um suspiro resignado – Ainda fico me perguntando o que mais eles querem saber sobre nós.

–Eles são famintos por nossa fama e você é muito acessível, já disse isso – Jenny disse incomodada.

–Não comece de novo! – implorei e me afastei um pouco – Já quase brigamos sério por causa disso!

Os jornalistas podiam ser legais as vezes... Mas em outros eram verdadeiros monstros. Sem contar nos tabloides que inventavam histórias com o mínimo de informação possível. Chegaram a dizer que o meu relacionamento fácil com as pessoas era porque eu as seduziam e fizeram uma lista infame de meus possíveis amantes. Ainda mais que todos sabiam que eu era sem rótulos quanto a relacionamentos, então eles não hesitavam em até por pessoas da produção do filme e do seriado. Isso obviamente deixou Jenny puta da vida, ela respondeu duramente na rede social fazendo acusações sem se importar com o peso de suas palavras. Isso atiçou ainda mais o assunto e eu tentei amenizar um pouco as coisas também fazendo uma publicação, deixando bastante claro que eu era apenas da Jenny e dela sempre iria ser, por enquanto esse pra sempre nós permitimos existir. Então amenizou um pouco, mas ela ainda tinha um pé atrás nessa história toda. Não pela ideia de que eu tivesse amantes, até brincamos um pouco com isso, o problema todo era na minha relação sempre politicamente correta com os paparazzi que ela não tinha paciência.

–Além do mais, foi você quem aceitou participar do programa – acusei ajeitando meu travesseiro para deitar.

–É algo mais sério – Jenny tentou se defender – Vai ter participação do público e logo terá aquelas passeatas ao Amor Livre, é um incentivo para se falar desse assunto.

–Você quer apenas exibir nós duas juntas e esfregar na cara deles que eu sou sua – resmunguei.

–Isso também – Jenny deu de ombros dando um sorriso convencido – Porque não unir o útil ao agradável?

Revirei os olhos e deitei melhor na cama, me cobrindo e tentando relaxar na cama. Jenny espreguiçou e voltou a atenção para a televisão. Era nesses momentos que eu me sentia como se estivesse casada com aquela mulher. Ficávamos o máximo possível juntas, falávamos do trabalho, brigávamos por causa disso, discutíamos como um casal normal e ao mesmo tempo éramos capazes de ter momentos como aquele de fazer nada. Depois de um tempo Jenny desistiu da televisão e a desligou, ajeitou-se na cama e ficou me olhando. Arqueei uma sobrancelha em dúvida e ela resmungou antes de me puxar para deitar ao seu lado, bem juntinho.

–Jenny, está calor! – reclamei baixinho, mas sem me afastar – E você é quente.

–Eu sei que sou quente – Jenny riu e abaixou mais ainda a temperatura do ar.

–Não, você realmente tem um corpo quente, o que é engraçado já que você é branquela como uma vampira e vampiros são frios – comparei e me aconcheguei ao corpo dela.

–Mas eu durmo melhor com você assim, então que você se acostume.

–Como fui me apaixonar por uma pessoa mandona como você? – fingi resmungar – E chata, possessiva, mimada, orgulhosa e metida.

–Ow! – Jenny riu e me apertou contra seu corpo – Mas é assim que eu sei que você me ama de verdade, sabe todos os meus defeitos e ainda está aqui em meus braços – sorri boba e fechei os olhos, começando a deixar o sono me dominar – Mitch – Jenny chamou e eu apenas produzir um som nasal – Você quer cancelar a entrevista? Eu meio que estou me sentindo culpada por ter pressionado você a aceitar.

Era verdade. Eu estava concentrada nas gravações e geralmente ficava acabada depois delas. Então veio Jenny com aquela conversa de participar de um programa de televisão, mais sério e em um horário nobre. Um em que a plateia poderia participar ativamente da entrevista, fazendo perguntas desde as mais inteligentes até as mais sem noção. Eu adorava esse programa, já que apenas artistas importantes ou no auge da fama iam até lá e eram colocados em situações um pouco delicadas às vezes. Não eram raras as vezes em que acontecia um barraco ou outro, mas era nesses momentos que a audiência pipocava nas alturas.

–Não, vamos participar – disse em um sussurro – eu vou humilhar você como vingança.

–O que está planejando, sua diabólica?

–Vou dizer que você ronca, solta flatulências e come de mão – debochei com um sorriso de canto.

Jenny gargalhou tanto que o corpo sacudiu. Ela nem ao menos conseguiu se defender, ficou rindo bobamente me fazendo rir consequentemente. Era realmente gostoso conviver com aquela mulher, uma hora nós estávamos discutindo, outra vivendo um momento muito normal e depois rindo feitas duas idiotas.

(•••)

Contive o meu terceiro bocejo e dessa vez tornei o copo cheio de energético o bebendo em goladas consecutivas. Eu precisava disso para poder aguentar a participação no programa depois de um dia cansativo como o que eu havia tido. Estava no camarim, uma mulher mexia em meu cabelo enquanto eu lutava para repor minhas energias.

–Deixe-me fazer sua maquiagem – Jenny apareceu a minha frente com um kit de maquiagem na mão – Esse já é seu segundo copo amor, já está bom ok? Você irá precisar dormir depois daqui.

–Eu preciso ficar acordada até isso tudo acabar – concertei a fala.

Eu podia perceber que Jenny estava se sentindo culpada por estar me dando mais um trabalho ao qual poderia ser evitado. Ela cobria as minhas olheiras com corretivo e alguns truques que ela conhecia. Meu cabelo logo estava pronto e a cabelereira se afastava com um sorriso bobo no rosto.

–Vocês duas realmente formam um casal bonito de se ver – ela comentou e obviamente eu e Jenny sorriamos em resposta – Agora que já acabei meu trabalho, posso admitir que eu sou fã de carteirinha de “Jennelle”.

–Mas qual a sua favorita? – perguntei curiosa e para distrair a minha mente.

Jenny arqueou a sobrancelha ao escutar a minha pergunta, obrigou-me a fechar os olhos para aplicar a sombra.

–Ah bem, não me leve a mal, mas o jeitão da Jenny é excitante até mesmo para as garotas heteros – a mulher respondeu.

–Não levo a mal – comentei rindo – Eu também acho o maior tesão quando ela faz aquela carinha brava para os paparazzi.

–Bom saber que podem discutir essas coisas quando eu estou bem aqui – Jenny reclamou.

Eu e a cabelereira rimos e Jenny revirou os olhos. Jenny terminou com minha maquiagem e eu realmente me senti uma estrela de televisão novamente, sem minha cara de cansaço que estava se tornando habitual. Continuei conversando com a cabelereira enquanto Jenny fazia a própria maquiagem, ela adorava essas coisas. Acabei descobrindo que aquela mulher tinha um filho que era gay e que a força que o filho teve para se assumir a fez repensar algumas coisas. Hoje ela estava saindo com uma colega de trabalho, finalmente começando a superar a separação com o marido.

–Você descobriu a vida da mulher em quinze minutos – Jenny comentou enquanto seguíamos para os bastidores – Você deveria ser detetive ou jornalista nas outras vidas.

–Sou apenas simpática.

Ela não pode contra argumentar, logo nos avisaram que tínhamos de ir para o palco. Este era bem despojado, parecendo uma sala de estar comum a qualquer outra casa americana. Eu pedi para Jenny para ficarmos sentadas sobre o tapete e assim ela o fez, sentando no tecido felpudo e ficando com a as costas apoiadas no sofá. A entrevistadora amou a nossa mudança do tradicional e logo estava nos imitando, sentando com as pernas cruzadas em índio a poucos metros de distância. Anunciaram que logo estaríamos no ar.

Foi tudo como o de costume. A entrevistadora, chamada Naomi, fez uma pequena introdução falando um pouco sobre mim e Jenny, comentando fatos importantes de como tudo começou entre nós duas. Nos cumprimentou, fez perguntas básicas de como estávamos e logo o jogo estava com a plateia. Uma menina morena logo estava com o microfone e de pé para que pudesse ser vista por todos.

–Oi, eu sou Kate Wilson e gostaria de fazer uma pergunta para Michelle – ela falou um pouco tímida – Você até pouco tempo atrás era uma completa desconhecida nas telas, porém tem um talento muito grande e que te fez crescer rapidamente. Estou ansiosa para o seu filme! Mas o que eu quero saber é se isso não gera algum tipo de medo ou insegurança?

–Oi Kate – disse simpática e passei a língua pelos lábios, era difícil admitir certas coisas em rede nacional – Na verdade eu sou bastante insegura.

–Não brinca! – Naomi interrompeu surpresa – Você parece ser bastante confiante.

–Eu sou uma atriz – brinquei falando o óbvio e ri tentando disfarçar o incomodo – Mas voltando a pergunta. Faz muito pouco tempo que eu comecei a fortalecer minha autoestima, meu pai foi uma peça fundamental para isso, antes dele eu não era nem um terço do que eu sou hoje. Então há muitos momentos ainda que me aterrorizam e me deixam insegura. Por mais que seja comum receber nãos nesse meu ramo, é uma coisa dura ainda de ser escutada.

–E o que te faz aguentar isso tudo? – Naomi indagou calmamente – Sabemos que muitos artistas se perdem nesse mundo, a pressão, a fama, a atenção demasiada...

–Não é fácil, apesar de ser incrível – admiti e fiz apenas alguns segundos de silêncio – Eu uso de minha fraqueza para fortalecer minha força. Se estou insegura sobre algo, eu trabalho mais duro ainda até ter certeza de que posso fazer o melhor de mim. Eu raramente uso dublês, porque quero provar pra mim mesma que eu sou capaz ou que fiz o que eu pude. Isso me gera machucados, cansaço, frustrações... Mas ao mesmo tempo é onde posso alcançar minhas maiores vitórias, mesmo que seja por coisas pequenas.

–Eu posso interromper? – Jenny pediu e eu a fitei – Bem eu já interrompi mesmo. Eu só queria acrescentar que esse ser aqui do meu lado tem um dom muito bonito. Ela consegue conversar com todo mundo independente de qualquer coisa e consegue absorver o melhor delas. Basta eu piscar os olhos e Mitch não está mais do meu lado, está curiosa ao lado de alguém aprendendo alguma coisa.

–Todo mundo tem uma coisa ou duas para ensinar, por mais tolo que seja, por mais que nos achemos inúteis, sempre temos algo para passar para alguém. Porque os seres humanos tem algo incrível que é a capacidade de criar viver uma história, você gostando dela ou não.

Naomi abriu um enorme sorriso e Jenny passou um braço sobre meu ombro, me puxando para mais perto e me dando um beijo estalado na bochecha. Nesse momento eu me sentia uma garotinha em uma sala de aula que tinha respondido a uma pergunta da maneira correta. A próxima pessoa perguntou para Jenny qual a parte do corpo que ela mais gostava em mim, acredita que ela comentou sobre cada parte minha com aquele tom de malícia e no final não chegou a conclusão nenhuma? Isso gerou bons risos e alguns tapas de minha parte. Depois de mais três perguntas simples, um rapaz finalmente tocou no primeiro ponto delicado da noite.

–Todo mundo sabe que aconteceu algo na noite da première de seu filme Jenny – ele começou – O que aconteceu entre você e a Candice?

Jenny ficou um pouco tensa ao meu lado e eu podia dizer que ela já começava a se arrepender por aceitar fazer parte daquele programa. A olhei e entreguei o microfone como se dissesse “o problema é seu, resolva ele”.

–Eu posso dizer apenas que foi um desentendimento – Jenny respondeu simplesmente – Apesar de certas coisas ficarem subtendidas, nada aconteceu e nada aconteceria. Apenas aprendi que devo me controlar um pouco mais com as bebidas – então ela abriu um sorriso – O melhor depois foi o “sequestro”.

Mudar o foco do assunto foi uma jogada de mestre. A plateia fez barulhos como “oh” e “ah” quando Jenny tocou naquele tema que nunca foi muito bem discutido publicamente. As pessoas não sabiam o que tinham acontecido para ela agir assim, apesar de especularem bastante. Peguei o microfone e falei olhando para a plateia.

–Só para constar, eu fui mesmo sequestrada – denunciei.

–Era necessário! – Jenny disse em tom de riso ao meu lado, pegando o próprio microfone dessa vez – Bom, foi dramático, mas vamos dizer que a Mitch não ficou muito feliz com aquela noite infame. Eu só usei um pouco da criatividade para me certificar que ela não iria escapar de mim sem que eu dissesse tudo o que precisava.

–E o que foi dito? – Naomi perguntou sem esconder a sinceridade.

–Que eu não a trocaria por mulher nenhuma, que eu já tinha uma namorada incrível e que eu a amava – Jenny falou sem hesitar e fez uma breve careta – Mas bem, é complicado dizer isso quando sua garota está furiosa. O que importa é o resultado final, nada que um bom e velho sexo das pazes.

–JENNIFER!

Eu fiquei totalmente vermelha e sem jeito! Como ela tinha aquela cara de pau de falar sobre algo tão íntimo? Depois reclamava que eu dava muita abertura para os jornalistas! Ou talvez ela estivesse apenas dizendo que éramos perfeitamente felizes, em todos os quesitos, mais uma resposta silenciosa ao que estava sendo pregado contra as especulações que faziam. Ela era esperta demais, descarada, mas esperta. O programa continuou de uma maneira mais suave e divertida, sendo tenso apenas em algumas partes. Como quando perguntaram a Jenny de quem ela mais sentia ciúme e o porquê. Acredita que ela ainda tinha ciúme da Shay de PLL? Era hora da última pergunta, uma senhora de uns cinquenta anos levantou, vestindo roupas sofisticadas e de cor azul bebê.

–Boa noite – ela cumprimentou de maneira polida ao ter o microfone nas mãos – Eu sou Edith, mãe de três filhos jovens e acredito que represento uma boa parcela de mães quando eu pergunto a vocês duas: como duas garotas lindas e tão talentosas não tem vergonha do que fazem?!

A surpresa foi tão geral que demorou alguns longos segundos para o choque passar. Várias pessoas de olhos arregalados encaravam aquela mulher. Meu corpo estava congelado no lugar, aquele olhar frio e aterrorizante lembrava-me claramente a minha mãe. Jenny apertou o braço que ainda estava ao meu redor e eu podia ver seguranças indo em direção a senhora. Eu rapidamente peguei o microfone e falei apressada.

–Esperem! Deixem-na falar!

–Eu gostaria de salientar que não permitimos nenhum tipo de comportamento preconceituoso em nosso programa e...

–Não – interrompi Naomi e recebi um olhar surpreso da Jenny e da apresentadora – Esse é para ser um espaço livre para perguntas, ela tem o direito de se expressar e explicar, ninguém é obrigado a aceitar as relações entre duas pessoas do mesmo sexo ou qualquer outra coisa, contanto que o respeite. Eu quero que ela termine o que tem a dizer.

Poderia ser loucura? Sim, eu não aguentava bem aquele tipo de coisa por lembrar a discriminação que minha mãe exerceu sobre mim durante todo o momento. Mas aquela senhora teve a coragem de ir até um programa ao vivo noturno para dizer aquelas palavras para mim e Jenny. Havia algo em seu olhar, algo que eu não sabia explicar, mas que me dava a certeza de que ela precisava daquele momento. Como eu disse, loucura.

–Isso não tira o mal que você me fez, Michelle Lopez – a mulher falou duramente, seu olhar era magoado – Por causa de seu exemplo, minha filha fugiu de casa! – a voz dela falhou e sua postura ficou ainda mais rígida – E o pior, fugiu com outra garota! Tudo isso porque eu não aceitei esse tipo de coisa, é errado! Deus diz isso claramente! Ela tinha tudo pela frente, estava matriculada na universidade de New York, tinha bons amigos, uma base familiar segura e poderia ter se tornando alguém importante!

–E o que isso tem a ver conosco? – Jenny indagou, seu tom sombrio.

–Ela só fez essa insanidade porque admira essa... Essa brasileira! – ela tinha desprezo na voz e isso me atingiu com tudo – Porque ela ficava assistindo e vendo suas reportagens, dizendo que você era corajosa. Isso é tudo pouca falta de vergonha! Vocês duas deveriam se envergonhar, por culpa de vocês eu não sei onde meu bebê está! Famílias estão se desfazendo com esse exemplo de vida vulgar e desmedido, onde fica o respeito e a honra? Onde está Deus nas coisas que vocês duas e tantos outros artistas desavergonhados fazem? Liberdade? Use-a como quiser contanto que não influencie mentes inocentes que vivem em uma sociedade tão pecadora quanto esta!

As lágrimas rolavam pelo rosto da senhora, ela estava mesmo acabada por tudo o que estava acontecendo. Meu corpo tremia e por mais que Jenny estivesse me segurando, eu não me sentia realmente segura naquele momento. Respirei fundo duas vezes, vi os seguranças mais próximos da mulher e finalmente tomei a coragem que precisava.

–Talvez ela volte para você se a aceitar como ela é – minha voz tremia um pouco, engoli em seco e levantei do tapete, minha vulnerabilidade era visível, mas meus olhos não desprendiam daquela senhora – Porque nessas horas, nesse momento tão delicado tudo o que os filhos mais querem é que sejamos aceitos por nossos pais.

–O que você sabe sobre isso?! – ela gritou pra mim.

–Muito mais do que a senhora pensa – abri um sorriso pequeno e triste – Minha mãe não é tão delicada quanto a senhora, suas palavras são educadas apesar de ressentidas e cheias de acusações.

–A culpa é sua! Faça minha filha voltar!

–A culpa não é minha. Talvez você só esteja procurando culpados por algo que sabe que está em você, não em sua filha ou em mim. Ela esta caminhando por seus próprios pés, tomando suas decisões. Sim, ela pode estar fazendo errado, mas vai ser o errado dela e irá aprender com isso. Você como mãe deveria apenas estar lá para ela, apoiá-la, abraça-la quando ela estiver só. Apenas isso – eu não percebia que chorava, tudo era como um borrão ao meu redor – Sei que não irá me escutar muito bem, mas também não irei escutar a senhora quando chama meu amor de coisa vergonhosa quando o seu está fazendo sua filha ir embora.

Um ataque duro, mas que também era carregado de uma mágoa pessoal. Soltei o microfone ao chão e tudo pareceu acontecer no modo automático. Jenny me segurou e levou para longe, para o camarim. Trancou a porta e me abraçou tão forte quanto era possível sem me machucar. Só então eu me permiti desabar, desabar de uma maneira vergonhosa e vulnerável. Aquela ferida nunca seria curada? Por Deus, eu estava tão cansada desse fantasma que sempre voltava para me assombrar!

Notas finais
Eu disse que muito dessa fic tem haver comigo. Bem, nem tudo aconteceu comigo, ok? E deixo claro que isso nunca foi dito para mim ou coisa parecida. Mas eu penso nas pessoas que já escutaram esse tipo de coisa, que já estiveram em situação de discriminação mesmo. E me veio essa cena na mente. Nesse mundo, se assumir homossexual é um dos desafios mais difíceis que existem, não impossível, mas não deixa de ter suas complicações, infelizmente =/