Equalize
30 Capítulo 30
Notas iniciais
Acordei com uma leve dor de cabeça, provavelmente devido a tantas emoções e pelo choro que antecedeu meu sono. Esfreguei os olhos e respirei fundo, virei meu corpo esperando abraçar ao corpo branco de minha namorada... Quando encontrei o espaço ao meu lado vazio. Abri finalmente meus olhos e ergui um pouco a cabeça, franzi o cenho em confusão, afinal eram raras às vezes em que eu acordava e não a encontrava na cama.
–Jenn? – chamei, a voz saindo mais baixa e rouca do que eu imaginava.
Ela apareceu, equilibrando uma bandeja de prata nas mãos, usando a mesma roupa com que foi dormir e me presenteando com um lindo sorriso. Um daqueles que me deixava absorta e perdida por saber que aquele era o meu sorriso. Jenny aproximou e sentou ao meu lado, só então eu pude finalmente entender o que era aquilo. Pela primeira vez Jenny estava me dando café da manhã na cama.
–Hoje é alguma data importante? – questionei desconfiada – Você nunca fez algo assim antes, tem até uma rosa!
Sim, no canto da bandeja havia uma linda rosa branca! Ali havia de tudo um pouco, torradas, geleia de morango, suco de maracujá – meu favorito – e pãezinhos com recheio, além de algumas frutas cortadas em cubinhos. Jenny depositou a bandeja sobre meu colo, envolveu meu pescoço com seus braços e me deu um longo e carinhoso selinho.
–Agora eu tenho certeza que alguma coisa está acontecendo – falei atordoada com tanta atenção.
–Sim, está – Jenny sorriu de lado – Eu estou amando você.
–Ok, geralmente eu sou a melosa da relação – semicerrei os olhos ficando mais desconfiada – O que você quer?
–Não posso ser romântica mais? – Jenny fez um bico magoado e deu de ombros – Só acordei percebendo que tenho a mulher mais incrível do meu lado e que deveria mimá-la um pouco, só por ser tão incrível assim.
–Olha só, isso tudo e a gente nem transou – brinquei para tentar disfarçar meu rosto corado e o sorriso idiota que surgia em meus lábios – Jenny, eu nem sei o que dizer!
–Não precisa, apenas vamos comer.
Ela sentou melhor ao meu lado, envolvendo meu corpo com seu braço como sempre fazia. Jenny pegou um morango e levou até minha boca, não hesitei em mordiscar a fruta que me era oferecida. Ela logo levou a outra metade a própria boca e ficamos daquele jeito por longos minutos, com uma conversa bem calma e tranquila, carinhos bobos e olhares repletos de significados. Eu poderia passar o resto de minha vida daquele jeito.
–Amor, vamos postar o vídeo? – pedi quando terminamos.
–Vamos – Jenny pegou a bandeja e colocou ao lado da cama, se esticou um pouco mais e pegou o meu notebook, ela o tinha colocado na cômoda ao lado da cama – Sabe, eu não sei como vai ser a repercussão desse vídeo, pode ser algo pequeno ou algo grande – ela colocou o notebook na cama e deitou de bruços, assim logo a imitei para ficar deitada ao seu lado – Podem até dizer que fizemos isso para chamar a atenção, aumentar a fama sabe?
–Isso seria bem idiota – comentei jogando a senha do meu notebook para desbloqueá-lo – Mas infelizmente há pessoas idiotas no mundo, tipo, as de verdade.
–Existem os idiotas de mentirinha?
–Sim, você é uma de mentirinha, é idiota às vezes, mas não aquele tipo de idiota insuportável, mas o engraçado – ela revirou os olhos e riu – Vou postar o vídeo em minha conta do youtube, ai depois postamos em nossas redes sociais?
–Pode ser – Jenny concordou.
Enquanto o vídeo carregava, o que demorou bastante já que ficou bastante grandinho, eu e Jenny ficamos vendo alguns seriados. Eu sentia muita falta de Eternal, até mesmo de interpretar Lyanna. Não devo mentir e dizer que aprendi muito com a personagem, com seu jeito desinibido e corajoso de se expressar. Sinceramente? Não acho que teria feito o vídeo se não fosse por ter aprendido essas coisas com ela. Era engraçado de pensar que foi um personagem fictício que me deu essa coragem, mas quantas outras pessoas não reais retratadas pelos livros e filmes não nos ensinava uma coisa ou duas?
Quando o vídeo carregou, Jenny começou a postá-lo em suas redes, aproveitei para poder tomar um rápido banho e afastar um pouco daquela preguiça. Quando voltei, Jenny terminava de ver suas atualizações, dando-me o notebook para fazer as minhas postagens.
–Sabe, eu estive pensando em algo – comentei quando terminava de fazer minha última atualização – Que se um dia eu for me casar, eu vou querer me casar com você.
–O que é isso do nada? Meu coração disparou aqui, vou ter um infarto! – Jenny falou completamente dramática e incrivelmente bonita com as bochechas muito vermelhas – Está falando sério? Casaria comigo?
–Não por agora, é muito cedo – disse ficando drasticamente tímida, abaixei meu olhar e fiquei mexendo meus dedos – Mas eu quero me casar um dia e não consigo pensar em outra pessoa que não seja você. Sabe, não é fácil ser sua namorada. Tem a distância, tem essa coisa toda de você ser a princesinha de Hollywood, a fama, a mídia... Mas tudo que vale a pena não é fácil, até mesmo para casais normais, eles também enfrentam algum tipo de problema. Se for pra enfrentar essas coisas todas, eu prefiro que seja com você e por você.
–Antes de te conhecer eu tinha medo de ficar do jeito que eu estou – Jenny comentou e ergueu meu rosto – De me derreter, ficar aos pés de uma mulher, de fazer meu mundo o dela e isso me prender. Mas... Eu nunca me senti tão bem em minha vida. Então Michelle Lopez, um dia iremos nos casar, não tem mais volta. Nem que eu tenha de te sequestrar no dia de nosso casamento!
–Ah você já está virando expert nesse lance de sequestro já! – eu ri e me joguei em seus braços, a derrubando na cama.
–No momento eu acho que podemos ensaiar a nossa noite de núpcias, o que acha? – Jenny perguntou ao mesmo tempo em que deslizava as mãos por minhas costas.
–Acho que é uma ideia genial – respondi com um sorriso malicioso, mordendo o lábio inferior dela ao compasso que ela apertava minha bunda, arrancando um gemido baixo meu – Eu nunca me canso de você.
–Eu nunca irei me cansar.
Ela me beijou com urgência, mas sem desespero. Um beijo que eu sabia que ela ansiava nesses últimos três dias turbulentos. Eu me entreguei prontamente, sem medo algum de todas as emoções fortes que tomavam conta de meu corpo, mente e alma. Nada se comparava a quando estava com Jenny Summers daquela forma. Não importava quantas vezes fizéssemos amor, sexo, uma transa casual, sempre seria intenso, gostoso e surpreendente.
(•••)
Meu celular tocava estridente ao lado da cama, mas eu me recusava a sair dos braços de Jenny apenas para atendê-lo. Ele perdeu a chamada, relaxei novamente abraçando o corpo de minha mulher e pude sentir os braços dela ao meu redor. Já estava para me entregar novamente ao sono quando aquele toque irritante retornou.
–Amor, seu maldito celular – Jenny resmungou rouca de sono.
–Inferno! – bufei baixo, erguendo o meu torso nu até conseguir agarrar o aparelho – Só podia ser o Kevin para atrapalhar – revirei os olhos e sentei na cama atendendo a chamada – Kev, eu estava dormindo!
–São apenas oito horas da noite! – Kevin se defendeu – Não me culpe se você passou o dia todo dando para sua namorada – ele disparou e eu sorri, era a verdade – E por isso deve estar perdendo a bomba que você lançou! Como você pode ter feito uma coisa dessas sem me avisar?! Estou profundamente magoado por ter sido deixado de fora!
–Do que está falando? – minha mente sonolenta não processava tanta informação.
–Do vídeo! – Kevin quase gritou do outro lado da linha.
–O que tem o vídeo? – perguntei alarmada, acordando completamente a mim e a Jenny que sentava ao meu lado.
–Ele está estourando! Ligue a televisão e veja, será fácil ver um canal que o esteja comentando sobre. A sua rede social e a de Jenny está sobrecarregada de tantas mensagens e re-postagens!
–Jenny, ligue a TV! – pedi para Jenny que estava em sua aparência Samara da vida – Kevin está dizendo que o vídeo está estourando na rede e na televisão.
Jenny demorou a encontrar o controle da televisão, mas logo achou e ligou o aparelho que estava bem à frente de nossa cama. Ela precisou mudar apenas duas vezes, então encontramos um programa de notícias que estava apenas começando a comentar sobre o vídeo. Era um casal de jornalistas, atrás deles estava a foto minha e da Jenny, uma em que estávamos abraçadas e sorrindo para a câmera.
–Hoje aconteceu algo fenomenal – a mulher jornalista começou – As atrizes Jenny Summers e a Michelle Lopez postaram um vídeo que está tendo repercussões a nível internacional!
–Elas duas estão discutindo um velho e atual tabu sobre homossexualidade – o homem completou – Falando sobre questões antigas que ainda permanecem como uma sombra em uma sociedade tão moderna como a nossa. Dá ultima vez que eu vi, o vídeo estava sendo repostado com legendas que traduzem o recado que essas duas querem passar.
–Há vídeos sendo feitos em agradecimento e outros completando a mensagem que elas querem passar. Nosso repórter John Roberts entrevistou algumas pessoas que já assistiram ao vídeo. Vejamos o que elas tem a dizer sobre!
Meu coração estava disparado. Afinal, era algo que eu tinha exposto até a alma! O vídeo continha palavras que a muito tempo me atormentavam, mesmo que eu soubessem que eram erradas, que eu estava certa. Mas quando elas são ditas repetidas vezes por alguém que deveria cuidar e proteger você... Eram cruéis o suficiente para às vezes me fazer acreditar nelas. O vídeo mostrou o jornalista aparecendo em um bar alternativo, lá havia duas garotas, uma bem menininha e a outra no estilo masculino, além de um rapaz que gritava em seu estilo que era gay.
–Boa noite Sandra! Estou aqui no Pulse, um lugar famoso por seu público alternativo! Ao meu lado temos um lindo casal de duas garotas e um rapaz gay. Então pessoal, o que vocês acharam dessa atitude de Jenny e Michelle? – John indagou sentando ao lado do rapaz.
–A Jenny é muito diva! Mas eu posso apostar que a ideia foi da Michelle! – o garoto falou confiante, sua voz era levemente fina, mas não afetada – Dava para ver no programa o quanto ela estava abalada e forte ao mesmo tempo, permitindo que aquela mulher terminasse as loucuras que estavam dizendo.
–Michelle, eu amo você! – a garota menininha exclamou de uma maneira apaixonada – Só não mais que a minha mulher do meu lado, mas nossa! O que ela fez foi incrível! É preciso muita coragem para se expor dessa maneira e discutir um assunto que não deveria ser delicado, mas acaba sendo.
–Muita coisa do que ela disse eu acabei passando – a mais “macho” comentou, seu timbre era ainda mais forte, o que a deixava ainda mais parecendo um garoto – Para garotas como eu, que tem um estilo bem determinado, é uma complicação a mais. Ser julgado pelos vizinhos que nem ao menos sabem minha história, ser chamada por nomes horríveis por ser assim. Michelle e Jenny, eu me senti muito bem representada por vocês duas!
–E toooodo mundo viu como a Jenny estava babando na Michelle no vídeo – o gay falou exagerando muito na voz, o que me fez rir e Jenny bufar – O jeito todo carinhoso, a pequena declaração, no fundo essa mulher bravinha se derrete toda por essa brasileira!
–Desculpa amor, acabei revelando o seu disfarce, todo mundo já sabe que você é uma boba – comentei sem conseguir resistir.
–Bom, boba por você é claro, eles que fiquem pensando que eu sou mansa com todo mundo – Jenny revirou os olhos e mordeu meu braço de maneira suave, estava demorando para as mordidas voltarem! – Mas você viu? Aposto que muita gente se identificou com o que dissemos.
–Sandra, eu soube que muitos pais estão protestando contra o vídeo – John continuou e eu fiquei um pouco tensa novamente – Deixo vocês com essa discussão!
A televisão voltou a focar no casal de jornalistas do programa. Eles fizeram um pequeno apanhado do protesto que algumas igrejas e pessoas estavam fazendo sobre o vídeo. Estavam acusando de que estávamos incentivando o homossexualismo, desvirtuando as crianças e outras coisas mais absurdas. O programa mudou de assunto e eu soltei um longo suspiro. Era óbvio que não seria um vídeo que iria mudar o mundo, mas eu encontrava-me feliz pelo depoimento daquelas duas garotas, de pelo menos uma boa parte terem entendido o que eu estava tentando transpassar.
Kevin estava gritando loucamente no meu celular, só então lembrei que a ligação ainda estava aberta. Ele questionou se eu queria marcar algum tipo de entrevista para falar sobre o vídeo. Eu recusei. Tudo o que precisava falar já estava dito naquele vídeo. As consequências eu aguentaria de qualquer forma, sabia que seriam positivas ou negativas, afinal de contas somos humanos, nenhum iria pensar igual ao outro por mais similar que seja as ideias. Porém antes de encerrar a ligação, meu agente falou de algo importante.
–Os organizadores do Amor Livre entraram em contato, questionaram se seria possível uma aparição de vocês duas no evento. Também estão entrando em contato com outros artistas que são assumidos ou que apoiam a causa.
–Qual seria o tipo de participação? Entrevista? Aparição? – questionei mordendo o lábio, eu tinha colocado no autofalante para que Jenny também escutasse – Eu não sei se seria tão bom expor ainda mais a minha imagem com o filme tão perto do lançamento. Daqui duas semanas já é a première.
–Apenas participar, poderão fazer o que quiserem. Eles irão mandar uma programação bem completa das coisas. Eu estou indo, aproveito para comunicar que meu sábado será dedicado apenas a isso – Kevin falou – Eu não vou perder o show do Rick Martin de jeito nenhum!
–Podemos ir – Jenny comentou sorrindo – Soube que muitos famosos vão... Zachary Quinto estará lá, aliás...
–OMG! – quase pulei da cama – O SPOCK! – era um dos personagens principais de Star Trek, meu lado nerd foi a loucura – Kevin, nós vamos!
Jenny riu de minha animação e Kevin logo disse que iria tratar das coisas. Eu estava borbulhando de animação. Era como se todo o peso do mundo tivesse saído de minhas costas e eu estivesse me programando para ir para um parque de diversões.
–Mô! Posso revelar algo bobo? – disse depois de pular na cama diversas vezes, caindo sentada bem perto de Jenny que ria do meu jeito idiota de expressar alegria – Tipo, eu nunca fui para um evento sobre essas coisas.
–Nem em uma parada gay você já foi? – Jenny arqueou as sobrancelhas surpresa.
–Não – admiti fazendo beicinho – É legal não é?
–Bom, antes de minha fama começar a atrapalhar muita coisa, eu gostava dessas coisas. Conhecia muita gente divertida, com situações parecidas com a minha e não vou mentir, é um bom espaço para se pegar as garotinhas.
–Ai como você é cachorra! – bati o travesseiro nela.
–Era! Agora é pegar só uma mulher – Jenny se defendeu prontamente – Mas esse evento está muito bem organizado e muita gente importante vai aparecer. Eu posso apostar que a Ellen DeGeneres vai está lá com sua esposa, a Portia de Rossi.
–Meu Deus, eu adoro a Ellen! Será que eu vou poder tirar foto com ela? E pegar autógrafo? Isso se eu não enfartar antes!
Meu lado fangirl estava indo ao delírio. Jenny apenas ria e se divertia, me observando como se fosse algo divertido. O que poderia ser, já que eu começava a andar de um lado para o outro, especulando as coisas, me animando antecipadamente. Houve um momento em que ela me parou, abraçou e me beijou. Mas não foi um beijo desses simples e inocentes, foi um que me pegou de surpresa ao tirar todo o meu fôlego, um que mexeu com todos os meus sentidos e me deixou completamente desnorteada quando teve fim.
–Eu amo você – ela declarou em um tom apaixonado.
–Ok – foi tudo o que eu consegui pronunciar, eu já disse que estava fora de orbita?
–Só isso? Não deveria dizer que me ama também? – Jenny mordiscou meu lábio inferior me fazendo suspirar.
–Nesse minuto eu estou lutando pra me lembrar de como respira, não faz pergunta difícil – pedi em um fio de voz.
–Não precisa lembrar, você vai perder o fôlego novamente.
Como prometeu, Jenny tornou a me beijar de uma maneira sôfrega, uma que me deu a chance de mostrar no beijo as palavras que eu não conseguia dizer. Que eu a amava, amava com todo o meu ser.
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