Equalize

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Mais um capítulo diabético! ♥

Beijos molhados eram distribuídos em meu ombro com tanto carinho que eu já despertei sorrindo. Escutei ao longe o meu despertador anunciando o horário programado que Jenny pediu. Ainda assim estava preguiçosa, então só suspirei e virei, recusando-me a abrir os olhos.

–Vamos amor, não quero atrasar a programação.

Apenas resmunguei e permaneci daquele jeito... Até abrir os olhos em pura surpresa ao sentir a boca de Jenny em meu pescoço, dando um chupão que se eu não a tivesse empurrado definitivamente ficaria uma bela marca. Foi uma das primeiras “regras” que criamos, sem marcas evidentes pelo corpo para não termos de responder perguntas capciosas.

–Se nos flagrarem juntas e eu com um chupão no pescoço vão pensar que você abusou de minha inocência! – reclamei a empurrando.

–Inocência? Oh você fica tão inocente quando me beija e faz loucuras com minha língua!

–JENNIFER!

Ela gargalhou de forma gostosa e mais uma vez estava sobre mim, não hesitando em beijar-me encaixando perfeitamente aqueles lábios nos meus. De inicio eu estava levemente revoltada, tentando empurrá-la quase sem forças, mas ela conseguiu invadir minha boca com a língua e me fazer, como sempre, render aos seus encantos. Eu não resisti a confirmar a acusação dela de maneira prática, então a segurei pela nuca e me impus no beijo até conseguir chupar a língua dela da forma que eu sabia que ela adorava. Jenny estremeceu sobre mim e quebrou o beijo ofegante, deixando escapar um gemido baixinho.

–Se não estivéssemos correndo contra o tempo, eu realmente iria querer passar o dia todo nessa cama com você. Deus sabe as loucuras que poderia acontecer – Jenny falou ainda buscando por ar.

–Depois sou eu a estragadora de climas – resmunguei sentindo falta dos beijos.

–Vamos, eu já tomei meu banho, só falta você, eu juro que vou fazer nosso encontro valer a pena.

Apoiei-me sobre os cotovelos e estiquei meu dorso ficando um pouco erguida. Então eu tive a visão dos deuses. Jenny usava uma calça jeans apertada e de cor clara, os pés ainda estavam descalços. A blusa era branca, mas exibia parte de sua barriga e tinha a imagem da bandeira dos Estados Unidos e a Estátua da Liberdade com cores vibrantes. A maquiagem era leve, o cabelo negro como carvão estava levemente bagunçado, provavelmente minha culpa.

–Estou aprovada? – ela provocou mordendo o lábio inferior.

–M-melhor eu ir para o banheiro.

Assim que terminei de falar saltei da cama e praticamente corri até a porta que ficava próxima da cama. Ou provavelmente iria agarrá-la e convencê-la a não sair daquele quarto. Meu banho teve de ser rápido já que de cinco em cinco minutos Jenny batia na porta mandando que eu terminasse logo. O que eu detestei, mas me contive para poder deixar aquele dia o mais perfeito possível. Saí enrolada com a toalha mega felpuda do hotel, Jenny estava sentada na cama batendo o pé impacientemente, mas assim que me viu arqueou uma sobrancelha e deixou que um sorriso cafajeste brincasse em seus lábios.

–Se importa de esperar na sala ao lado? – pedi um pouco tímida – Esqueci-me de pegar uma roupa.

–Não, acho que prefiro ficar – Jenny falou com um tom debochado.

–Então espero que não se incomode de me ver nua e não fazer nada, porque como você disse, vamos nos atrasar – contra-ataquei fazendo meu melhor sorriso desafiador.

–Não se atreveria – Jenny deu de ombros ainda mantendo aquele sorrisinho.

Dei de ombros, segurei a toalha e comecei a soltar o apoio que fiz na lateral. Parte do meu corpo estava sendo exibido quando Jenny bufou alto e praticamente correu para a sala ao lado. Ri de sua reação mais do que previsível e fui até a minha mala. A parte mais demorada foi escolher uma roupa, eu queria estar bonita para aquela atriz irritante e provocadora na sala ao lado. No fim, acabei pondo um vestido verde levemente curto e soltinho na saia, de alças finas. Nos pés coloquei uma sandália com um salto mediano, usei um perfume suave e deixei meu cabelo muito bem arrumado. Assim que eu saí para a sala encontrei Jenny de costas para mim falando no celular, uma mão na cintura e enquanto a ponta de seu pé batia no chão.

–Sim, chegaremos a tempo. Ok, obrigada! – ela finalizava a ligação e antes mesmo de virar já estava gritando – Michelle, pelo amor de Deus termine logo de...

Assim que ela virou o corpo sua voz morreu. Eu sorri um pouco sem jeito e não pude evitar abaixar o olhar timidamente, já que ela me encarava de um jeito tão intenso que eu não saberia como lidar. Existiam certos momentos que Jenny me olhava de forma tão encantadora que me fazia sentir especial, me sentir verdadeiramente bonita. Esse era um desses momentos.

–Você é tão linda – Jenny falou em um tom baixo, aproximando-se de mim – Acho que nunca me cansaria de ficar olhando você – quando perto o suficiente, tocou meu queixo me fazendo fitar aquele mar esverdeado que eram seus olhos – E eu fico fascinada em como seus olhos mudam um pouco de cor.

–Não vamos falar da cor de nossos olhos, é injusto quando o seu é como uma imensidão esverdeada e toda vez que eu os olhos, sinto-me afogar de uma maneira que não quero ser salva.

Eu falava aquilo sem planejar e nem ao menos ponderar. Era como se a cada batida de meu coração ele lançasse palavras pela minha garganta que saiam sem controle algum pelos meus lábios. Eu tinha um leve medo dela me achar uma garota boba e até mesmo ingênua demais falando essas coisas estupidamente românticas. Jenny era uma grande atriz, popular e com infames casos já que nunca se firmou com alguém por muito tempo. Foi inevitável não me sentir insegura perante aquela mulher a minha frente, desviei o olhar do dela e senti meu corpo gelar levemente.

–Ei, ei, o que foi? – Jenny segurou meu rosto e me fez olhá-la mais uma vez – O que está passando por essa sua cabeça?

–Nada demais, desculpe, foi só algumas besteiras e...

–Sem desculpas, conte-me Michelle.

–É que... Eu... Você... – passei a mão pelo meu cabelo e afastei um pouco, ficar tão perto dela não me ajudava a pensar direito – Eu não sou tão inocente quanto pareço, mas é que perto de você certas coisas acontecem sem que eu possa controlar, inclusive o que eu falo. Eu... Eu não quero que pense que sou apenas uma tola garota apaixonada que fala coisas fofas que podem dar diabetes.

–Eu seria uma diabética feliz então – Jenny pegou minha mão e colocou sobre o peito – Ou uma pessoa com problemas cardíacos severos, porque quando você diz coisas assim meu coração dispara tanto que acho que um dia morrerei por sua culpa.

Eu podia sentir tudo o que ela estava falando na palma de minha mão. Era verdade que o coração dela estava muito acelerado, eu só não sabia dizer qual era mais rápido, o meu ou o dela. Antes que pudesse falar alguma coisa, Jenny beijou-me de uma forma tão carinhosa e delicada que destruiu qualquer barreira que eu ousasse construir. Era tão especial todas as vezes que nossas bocas se encontravam que não existia um beijo mediano ou ruim, mas sim único e só nossos.

–Eu nunca fiquei assim por uma garota – a escutei falar, sua respiração ainda batendo contra meus lábios – Eu nunca quis fazer alguém feliz de verdade, de querer cuidar e manter sempre por perto. Nem mesmo a Claire me deixou assim, Michelle.

Aquilo me fez arfar e explodir de alegria por dentro. Eu estava superando a garota que a traumatizou tanto. Foi inevitável o sorriso que cresceu em meu rosto, definitivamente eu estava disposta a transformar aquele dia no melhor de todos. Apenas para fazê-la tão feliz quanto estava me fazendo só naquele momento.

–Não íamos nos atrasar? – comentei arqueando uma sobrancelha.

–Você que fica me distraindo! – Jenny resmungou e se afastou para pegar sua bolsa.

–Agora a culpa é minha? – me fingi de ofendida, mas o meu sorriso ainda continuava, na verdade duvidava que ele fosse sair tão cedo.

–Claro, a culpa sempre vai ser sua por ter me roubado tudo. Meu coração, meus pensamentos, futuramente meu corpo. Só espero que roube meu corpo em um futuro bem próximo.

Jenny aproximou de mim, deu um tapa descarado em minha bunda e saiu porta a fora sem me esperar. Mordi o lábio prendendo o riso, o que foi quase inútil, e logo apressei o passo para poder acompanha-la. Dentro do elevador, ela me entregou óculos escuros e tirou de dentro da bolsa um boné branco. Tudo para que nós não chamássemos a atenção. Por sorte, ela havia alugado um carro e conseguido colocar na garagem do hotel, o que nos poupava de termos de sair pela entrada principal que nesse momento deveria estar bem movimentada.

–Para onde vamos? – finalmente lembrei-me de perguntar, assim que Jenny estava nas ruas de Miami.

–É uma surpresa, é óbvio – ela respondeu sorrindo travessa – Tive de cobrar bastantes favores por causa disso, teremos um acesso exclusivo pelo local para não chamar a atenção.

–Nenhuma dica? Vamos, estou curiosa!

–Nenhuma, confie em mim e no meu bom gosto.

–Agora estou em dúvida se devo ficar com medo ou não.

Recebi uma beliscada na cintura pelo que eu falei, mas estava rindo mesmo assim. Nunca nos cansaríamos daquelas brincadeiras, era uma das minhas coisas favoritas em nossa relação. Lembrava-me que além de tudo, éramos amigas que podiam brincar uma com a outra. Tentei arrancar algo dela durante o caminho, mas Jenny se manteve fiel à ideia de ser uma surpresa. Eu não conhecia Miami, então não poderia tentar adivinhar por causa do caminho. Ao menos sempre que passávamos por algo importante, Jenny servia como guia turística e falava sobre o que estávamos vendo.

Quando nos aproximamos do lugar, foi impossível manter o segredo por muito mais tempo. Até porque, o Miami Seaquarium era enorme! Jenny lançou um rápido olhar para mim e sorriu ao perceber o quanto eu estava empolgada. Ela sabia que eu adorava animais marinhos e me trouxe justamente para um aquário com atrações que eu nem poderia imaginar. Entramos pela lateral, estacionando em vagas que pareciam ser vips. Ali do lado de fora já nos esperavam duas garotas com o uniforme do lugar.

–Vamos dizer que eu tenho contato com o gerente daqui e que ele é muito meu fã – Jenny explicou com um sorriso orgulhoso – A essa hora já está acontecendo alguns shows, teremos acesso a uma área reservada e vamos inverter os horários.

–Vamos nadar com os golfinhos? Eu sei que aqui tem golfinhos, por favor, diz que vamos ver os golfinhos de perto! – eu implorava que nem uma criança.

–Se é o que você quer, claro que sim.

Eu saltei em seus braços a abraçando apertado, lutando bravamente contra o impulso de beijá-la na frente daquelas duas garotas. Jenny também me garantiu que a equipe seria muito discreta e não vazaria informações, ao que parecia, ela já tinha feito isso antes. Primeiro fomos ver o show das focas, infelizmente já havia começado e tivemos de ficar em um lugar afastado e não perto como eu realmente queria. Porém tivemos um ótimo atendimento, foi onde eu fiz o meu café da manhã comendo besteiras como donuts e bebendo refrigerante. O lugar era como um camarote, acima da arquibancada onde estavam as famílias e outros visitantes. Logo depois veio o show da baleia orca e foi uma das coisas mais lindas que eu já vi na minha vida. Até porque eu adorava o filme Free Willy, sempre me emocionava no final quando a baleia fazia aquele salto incrível sobre o garotinho.

Depois disso fomos almoçar em um lugar reservado, não no restaurante, pois não havia um lugar menos visível e seriamos facilmente reconhecidas. Porém isso não teve muita importância, fomos servidas de uma comida tipicamente mexicana que eu havia adorado, além de rir muito quando desafiei Jenny a colocar pimenta e ela quase morreu duas vezes. Primeiro porque ardia demais e segundo porque ela quase engasgou bebendo água. Nos restava um pouco de tempo, as duas meninas sempre nos acompanhava servindo como guias e nos aconselhava para onde ir, além de servir meio que como seguranças, verificando o caminho a frente. Compramos souvenir, blusas e Jenny insistiu em me presentear com uma tartaruga de pelúcia que prontamente eu chamei de Otto.

Quando as meninas finalmente falaram que poderíamos ir para os golfinhos, eu praticamente saltitei no mesmo lugar. Tudo bem, eu havia começado o dia pensando que faria daquela branquela a pessoa feliz. Mas ela tinha me levado para o melhor lugar onde poderia ter pensado. Tivemos de comprar roupa de banho já que não levamos nada, mas dinheiro era o de menos naquele momento. Pela primeira vez eu não estava me importando com o quanto estava gastando com aquele dia.

Foram apenas trinta minutos com os golfinhos. Mas provavelmente foram os minutos mais felizes de minha vida. Eles eram extremamente divertidos e atenciosos, havia mergulhado tanto e quase chorado para sair da água que Jenny já estava me chamando de Ariel, a princesa sereia da Disney. Nossa última parada foi passear pelos aquários, estávamos andando uma do lado da outra, vendo os peixes quando uma das meninas finalmente se manifestou.

–Perdão o atrevimento, mas não aguento mais. É tão bonito ver vocês duas juntas que fica difícil acreditar que não estão juntas.

–Melanie, não fale isso, o chefe disse que nos demitiria! – a outra a cotovelou e ralhou usando um tom baixo, mas que pudemos escutar.

Olhei para Jenny ao mesmo tempo em que ela olhou para mim. Estávamos tão de bem uma com a outra, em um momento sublime e calmo daquele dia agitado, que eu percebi que ela pensava como eu. Já não importava esconder, ao menos naquele momento, até porque elas nada poderiam falar ou sofreriam consequências no trabalho.

–Bem, acreditem no que quiser – Jenny falou e piscou um olho de maneira travessa, mas dessa vez pegou minha mão e entrelaçou nossos dedos – Olha Michelle, é o Nemo!

Esqueci completamente das garotas assim que eu vi o peixe palhaço. Fiquei o observando e cantarolando “Continue a nadar, continue a nadar”. Quase morri com falta de ar quando Jenny começou a tentar falar beleiês, era uma coisa que deveria ser filmada e postada, mas eu sabia que morreria no segundo seguinte se fizesse uma coisa dessas.

Voltamos para o hotel quando a noite já chegava cobrindo o dia com seu manto escuro e estrelado. Eu estava cansada e tomei um longo banho, dessa vez sem ter Jenny batendo em minha porta pondo-me com os nervos a flor da pele. Ela foi para o quarto do Kevin tomar o próprio banho, sabendo que eu iria demorar séculos ali debaixo da água. Quando saí estavam os dois jogando baralho sobre a minha cama. Ele usando apenas uma camiseta e bermuda, ela uma calça de algodão e blusa de mangas curtas.

–Se o mundo fosse depender de você para economizar água estaria fodido – Kevin comentou sem nem ao menos me olhar, ele jogou as cartas sobre o colchão e saltou – BATI!

–MAS O QUE?! – Jenny quase gritou, ela odiava perder no baralho – Espera, você está trapaceando!

–Claro que não, você que não sabe perder – Kevin mostrou a língua e se aproximou para dar um beijo em meu rosto – Vou indo gata, se comporte, as nove e quarenta e cinco estaremos indo para o aeroporto, não se atrasem. Então curtam as rapidinhas ok?

–Kevin! – exclamei ficando profundamente vermelha.

–Não se preocupa mon amour, eu sei que você é a ativa da relação e que essa daí só tem jeito de ser o macho da relação – Kevin provocou ainda mais, apontando para Jenny com a cabeça.

–Por que você o contratou mesmo? – Jenny indagou depois de jogar um travesseiro no meu agente.

–Estou me perguntando isso neste exato minuto! – cruzei os braços fitando Kevin ameaçadoramente.

–Ok, agora vou mesmo, a corda apertou no meu pescoço. Beijo divas, se comportem!

Então ele praticamente correu quarto a fora. Ri balançando a cabeça negativamente e me joguei em minha cama, Jenny terminava de ajeitar o baralho e por na cômoda ao lado da cama.

–Eu pedi o nosso jantar no quarto, estou com preguicinha de sair dessa cama – Jenny falou sentando melhor no colchão, apoiando as costas na cabeceira da cama.

–Concordo plenamente, aqueles golfinhos me cansaram – disse já indo deitar pertinho dela, pousando minha cabeça sobre as coxas brancas de modo a ficar com o rosto para cima, assim poderia ficar olhando para ela a todo o momento – Obrigada mô, foi o melhor encontro de minha vida.

–Você estava mesmo feliz – Jenny comentou e começou a fazer carícias em meu cabelo – E isso me faz feliz, na verdade, me faz sentir como a dona do mundo, só porque eu fiz tudo direitinho pra você.

–E eu pensando que eu iria ser a melosa dessa relação – ri baixinho e fechei os olhos pra sentir melhor o carinho que recebia – mas devo confessar que você será traída constantemente – senti a mão dela parar de mexer em meu cabelo e acabei sorrindo com essa reação – porque eu vou abraçar o Otto todas as noites que você não estiver comigo.

–Ah ótimo, agora estou preocupada com um bicho de pelúcia. Sabia que essa cara de lerdo dele era sedutora de alguma forma.

Jenny voltou me acariciar no cabelo e logo estávamos falando de tudo sobre aquela tarde, comentando coisas que a outra não havia percebido, ou relembrando os momentos e rindo juntas. O jantar chegou e houve pouco descanso depois, pois logo tivemos de nos arrumar para voltarmos para casa.

Se aquele dia havia sido apenas uma amostra do que poderia ser meu futuro ao lado de Jenny, eu tinha uma certeza mais que absoluta de que seria com ela que eu passaria o resto de minha vida.

Notas finais
Reviews estão diminuindo, mas espero que isso não seja sinônimo de que a estória esteja ficando ruim.