Epílogo
1 Único
Notas iniciais
Cinco anos se passaram desde que ele me disse aquelas palavras. Elas ainda pesam dolorosamente em meu peito. Estou perfeitamente convencido de que essa dor será eterna, porque o verdadeiro amor segue uma pessoa até o túmulo.
“Não podemos mais ficar juntos, eu não consigo. Eu gosto mais de você como um amigo do que como um amor. Me desculpe. Seja feliz, um dia a gente se vê”
Um ano se passou sem que eu o visse. O pior ano de todos, que se passou quase como uma grande noite de bebedeira. Um ano em uma noite. Uma noite em alguns flashes de memória. Foi triste, foi difícil, foi masoquista. Meu figado me odiou por um ano inteiro e meu cérebro mais ainda. Quase me esqueci o que era o sol e as noites pareciam não ter fim. Eu estava sozinho. Não veio ninguém me ouvir, me ajudar e me fazer mudar. Ninguém.
Eu costumava dizer a mim mesmo que eu era forte e que não precisava de coisas como o amor pra ser feliz. Acho que era porque eu nunca realmente havia me apaixonado. E é aquela coisa: do jeito que chega, vai. Ele entrou em minha vida tão rapidamente e tão rapidamente me deixou. Tudo o que restou foi o amor que ele tirou da gaveta trancada e não guardou de volta, deixou espalhado por todos os cantos.
Mas a vida da voltas e um dia, depois de um ano inteiro, eu senti saudades das estrelas. Era tarde da noite quando eu saí de casa. Eu respirei fundo. Passei a fazer isso todas as noites. E ainda assim, tudo parecia uma grande noite de bebedeira. Eu dormia tarde e acordava com pessoas estranhas ao meu lado e muitas vezes perguntava “Qual é mesmo seu nome?”. Eu voltei à vida que tinha antes de conhecer meu primeiro e único amor, mas ainda assim não era a mesma coisa. Era como se eu tivesse sempre usando um colar enorme de chumbo.
Tentei encontrar alguém que me devolvesse a vida e por muitas vezes pensei ter conseguido. Mas tudo se acabava tão rápido quanto havia começado, como era de se esperar. E eu cometia os mesmos erros, como se nunca tivesse aprendido as lições que você tentou me ensinar. Talvez seja por isso que você se foi, imagino. Afinal, quem aguenta ter que repetir mil vezes uma mesma coisa? Eu finalmente te entendi e pela primeira vez pedi às estrelas que você me perdoasse por tudo o que te causei.
Me desculpa.
***
Mais quatro anos se passaram e eu continuei vivendo como se não fosse morrer, mas morria um pouco mais a cada dia. Eu desejava a morte, mas era medroso demais para ir atrás dela. Medroso ou esperançoso, nesse caso não dá para apontar a diferença.
Eu me arrependia de estar vivo todas as manhãs e assim eu ficava até o por do sol. Então veio o dia em que eu me cansei, porque até o ferro pode ser quebrado com o tempo.
Acordei cedo numa manhã em que o único corpo na cama era o meu. Tomei um banho gelado e um belo café da manhã. Passei o dia arrumando meu apartamento e escrevi uma carta – eu sabia que ela não seria vista por outros olhos durante um longo tempo, então a deixei segura em cima da mesa de centro da sala de estar. Quando o sol começou a se por, coloquei minha melhor roupa e arrumei meu cabelo. Nos bolsos do casaco, coloquei apenas meu iPhone, algum dinheiro, uma caixa de remédios e outra de cigarros. Saí de casa, comprei uma garrafa grande do meu whiskey favorito, a maior que encontrei, e fui para a estação de trem.
Eu não sentia absolutamente nada. Era como se eu estivesse no modo automático. Andei até a plataforma e esperei o trem. Então escutei uma risada. Eu já conhecia aquele som e quando dei por mim, havia virado a cabeça para a direita. Então eu o vi. Depois de quatro anos, eu o vi ali, agarrado ao braço de outro homem. Os dois estavam rindo e conversando. E ele estava lindo, ainda mais belo do que eu me lembrava. Meu coração batia pesadamente e senti uma ardência subir em meus olhos. Então ele ergueu a cabeça e seu olhar se encontrou com o meu. Por instinto, voltei a posição anterior e torci para que ele não tivesse me notado. Alguns segundos se passaram e tudo o que eu consegui pensar, de olhos fechados, foi “pelo menos eu o vi uma última vez”.
— Akira?
Era a voz dele, suave e baixa como uma carícia. Eu senti a dor dos ultimos anos esfaqueando meu peito de uma só vez. Me virei e esbocei um meio sorriso a ele.
— Olá. Há quanto tempo, hn?
Ele sorriu de volta, fazendo uma careta fofa.
— Há quantos anos você não dorme? Está com olheiras horriveis. – e riu baixo. Me perguntei como ele conseguia ser tão natural.
Uma silhueta formou-se atrás dele, um pouco mais baixa que eu e ainda assim, mais alta que ele. – Esse é o Hiro, lembra-se dele?
— Como esquecer? – direcionei o olhar ao moreno e fiz uma leve reverência com a cabeça.
— Para onde vai? – o menor me perguntou, já se agarrando novamente ao braço do companheiro.
— Kanagawa.
— Então vai pegar o próximo trem, certo? Nós também, mas desceremos depois de você. Podemos te acompanhar?
A viagem era curta, mas eles ficaram comigo o tempo inteiro, sentados à minha frente. Eu quase não falava, apenas escutava as histórias animadas do baixinho. Olhando-o daquele jeito, meu meio sorriso não sumiu. Ele estava feliz e isso me deixou bem, de certa forma. Quando o trem parou, me levantei.
— Foi bom te ver, Ryuki. Se cuida.
— Digo o mesmo, ne!
— Sayonara.
Ignorei completamente a existencia da terceira pessoa no grupo e saí do trem. Já eram oito horas da noite e eu senti fome. Cresci em Kanagawa, então já conhecia cada canto da cidade. Fui direto à lanchonete que costumava ir quando jovem com os amigos e fiquei surpreso ao ver que ainda havia no cardápio meu lanche favorito. Mas as pessoas eram diferentes e eu não conhecia nenhum rosto. Na verdade, lá também não havia mais ninguém para mim. Não tive curiosidade de saber se meu velho pai ainda estava vivo e morando na mesma casa, mas eu esperava que, se estivesse morto, estivesse queimando no inferno e, se vivo, estivesse sofrendo o sentimento de ser velho e solitário.
Assim como seu filho.
Passei a noite caminhando e vendo o que a cidade se tornara desde minha ultima visita. Tudo parecia ter crescido e melhorado, menos eu.
Havia um ponto no subúrbio da cidade que eu já havia favoritado há anos e que decidi que seria o lugar onde eu terminaria a noite. Caminhei devagar até lá, o topo de uma colina onde era possivel ver as luzes da cidade e o brilho das estrelas e da lua. Era uma paisagem maravilhosa. Sentei-me no gramado e coloquei meus fones de ouvido, deixando minha música favorita no repeat. Abri a garrafa de whiskey e tomei um gole. Abri a caixa de remédios. Fiquei parado por alguns segundos, encarando as pequenas pílulas. Senti meu celular vibrando.
“Foi bom ter te encontrado hoje, Akira. Obrigado por ter conversado comigo, eu estava com saudades. Vamos marcar de nos encontrar qualquer dia, hn? Desculpa se te acordei! Boa noite.
-De: Chibi (00h30am – 01.16.2015)”
Meu riso ao ler tais palavras fez contraste com as lágrimas que começaram a escorrer de meus olhos. Eu não respondi a mensagem. Continuei ouvindo minha música e olhando as estrelas. Respirei fundo, sentindo a brisa da madrugada e levei o pote de remédios à boca. Joguei alguns na lingua e os engoli com um grande gole de whiskey direto da garrafa. Repeti aquilo três vezes até que não sobrasse nenhuma pílula. Então fiquei esperando, enquanto terminava a garrafa de álcool e fumava o último cigarro da caixa. Cantando baixo, virei o último gole de whiskey e deitei na grama. Traguei o cigarro uma última vez e apaguei-o em meu pulso esquerdo. Senti uma dor boa. Vi as estrelas pela última vez e fechei os olhos.
Estendi os braços na grama e dormi pela última vez ouvindo uma última música.
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