Episódio.

1 Capítulo Único — Olhos.


Na calmaria barulhenta do ônibus, eu procurava algo pra fazer. Já voltávamos da viagem, e agora, que já era noite, estávamos somente esperando que parassem o veículo e o motorista dissesse "podem descer!".

A pessoa sentada do meu lado esquerdo já havia escapulido para uma cadeira de trás, por motivos que não vale a pena narrar. Eu havia sobrado como sobrevivente dum bizarro acontecimento, e estava com um baita tédio.

Sem muita coisa além pra fazer, passei a observar as pessoas, quase todas ou dormindo, ou conversando, ou viajando nos paraísos de suas imaginações, inocentes ou não. Olhei para algumas dos bancos à frente do meu, e as vi em sua quietude e afeto compartilhado invejáveis. Quis estar lá, mas lembrei que não havia lugar para mim ali. Literalmente.

Então dei uma rápida olhada no pessoal atrás, e vi a pessoa que antes estava do meu lado, numa luta entre dormir e sonhar com as músicas de má índole, mas grande popularidade que tocavam desde o início da viagem naquele ônibus ou se manter acordada e viver aquele pesadelo. Não sabia quem estava vencendo, e nem me importei de saber. Deixei de prestar atenção nela e olhei para os que estavam atrás. Nada interessante também. Apenas os bagunceiros, fazendo coisas de bagunceiros. Ah, e claro, alguns coitados que tinham parado lá por serem amigos das pessoas "bagunceiras mas nem tanto", sofrendo no meio daquela gente.

Deixei-os de lado e voltei a encarar o chão do corredor. Então me veio uma ideia que pareceu óbvia, que era olhar a pessoa que estava na mesma fileira que eu, do outro lado. Virei meus olhos e encontrei os dois amigos que tinham passado a viagem inteira conversando e ouvindo música. Um deles estava de olhos fechados e com os fones, dormindo ou apenas imerso dentro de si mesmo. O outro, como eu, estava acordado e entediado. Por vezes, olhava fixamente para frente, numa agonia de chegar em casa logo. Quando cansava, voltava-se para o amigo, pensando se valia a pena acordá-lo, mas depois desistia e, olhando para trás, procurava se algum de seus outros amigos estava disponível para espantar seu tédio. Nenhum estava.

Não contei quando tempo passei encarando aquele ser vivo se mover. Apenas sei que, em algum momento, ele sentiu o peso do meu encarar e virou sua atenção para mim. Pela primeira vez em anos, não desviei meus olhos, e continuei o encarando, sem uma expressão legível no rosto. Ele, imerso ao tédio e a curiosidade, também não os desviou. Ficamos parados, encarando e tentando ler os olhos um do outro, procurando a razão de ainda não terem desviado o foco, como é costume em quase todo mundo.

E, não sei o que o rapaz viu, mas de repente ele abriu um sorriso tímido, que foi correspondido por uma baixa risada minha. Daí, desviamos olhares, e voltamos a procurar algo que nos deixasse entretidos. Só mais tarde que eu percebi que eu tinha me apaixonado por aqueles olhos.

Notas finais
Sim, só os olhos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!