Envolvendo mãos
1 único
Já não se lembrava de como tudo começou. De como os olhos castanhos, o cabelo ondulado, o uniforme diferente por conta de sua altura, o quanto era bruta e ainda gentil... Ami não se lembrava mais de quando começou a ver Makoto com outros olhos.
Quando entrara para o grupo, imaginou que seria como a Rei; lidaria com a parte ofensiva com o seu poder trovão supremo — que, particularmente, Mercury achava um charme —, enquanto Ami continuaria com a defensiva. No entanto, diferente de Rei, Makoto tinha uma força física surpreendente. E igualmente a Ami, Makoto era paciente e gentil.
As duas passaram a ser muito amigas por serem as cabeças do grupo, como dizia Luna, mas Ami desejava algo a mais e se perguntava, olhando para os céus e prostrada no parapeito do terraço, se sua amiga poderia sentir o mesmo.
Andavam de mãos dadas, sentia a espessura mais áspera daquela garota que praticava artes marciais, mas que tinha um espírito acolhedor como de uma família, como um colo de mãe.
E Ami chorava, não conseguia se conter nem mesmo estando a sós com Makoto, que emprestava o seu colo como travesseiro para chorar e tudo terminar em desculpas. Makoto acreditava que Ami estava sofrendo por amor, mas não fazia ideia de quem era.
Naquele dia, Makoto fez jus à sua fama de delinquente e matou aula no terraço da escola, encontrando-se com a amiga de cabelos curtos e azulados, encostada no parapeito. Chamou por ela, mas não teve resposta, provavelmente Ami estava em outro mundo, ou melhor, pensando na pessoa que amava.
— Ora, nunca pensei que você mataria aula um dia. — Disse já perto da amiga.
Ami levou um susto e depois de piscar seus olhos, se dirigiu a Makoto. — É... nem eu... menti que precisava ir para enfermaria, mas algo fez com que eu viesse aqui... e você, não acha que suas notas estão ruins para isso?
Não havia maldade na voz de Ami, era surpreendente o quão sincera ela era e dizia coisas inconvenientes sem ter a intenção de machucar. — É... eu até que gosto desse jeitinho seu...
Makoto acabou expressando em palavras o que pensou e quando voltou a olhar pra sua amiga, notou que ela estava corada. Ami não era de ficar daquele jeito, então imaginou que ela poderia estar realmente doente.
— C-como assim? Que jeitinho?
— Ah, bem... — Ela coçava a nuca muito sem graça. — Eu acho que nós duas somos muito parecidas, mas mesmo assim há algumas diferenças... sinto que somos as mais responsáveis, sabe? Usagi e Rei dão muito trabalho a Luna por brigarem constantemente. E nisso tudo sobra nós duas, que ironicamente, nos damos muito bem.
— E onde a gente se difere?
— Como posso explicar... — Makoto levou o dedo indicador para o queixo e passou a pensar. — Você é muito honesta nas palavras, acho que muita gente pode achar que é um defeito, mas não é.
De repente Ami teve uma súbita clareza. — Ah, acho que entendi! Seria como o seu jeito forte e bruto?
De novo, Ami sendo muito sincera e Makoto não sabendo lidar.
— Bem. — Pigarreou. — Mas ser forte e bruto definitivamente não é nada legal.
Makoto sentia muita vergonha desse seu lado.
Ami pegou as mãos ásperas da amiga e começou a tatear, sentindo bem a espessura de cada dedo. — Muito diferentes da minha. Somos mesmo diferentes.
Por algum motivo, Makoto não sentiu vergonha de si mesma com essas palavras, na verdade, estava corada com o contato tão direto de Ami.
— Você ser forte e bruta... é algo só seu... eu gosto muito, sabe?
Ami continuou segurando aquelas mãos maiores que as suas e ficou nas pontas dos pés para depois fechar os olhos, aguardando pacientemente como ela sempre foi. O coração de Makoto batia forte ao entender que a pessoa que sua amiga amava era ela.
As duas passaram a se beijar, enquanto seus cabelos e suas saias plissadas esvoaçavam no vento e o céu azul com nuvens servia de cenário daquele gesto casto.
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