Entropia
1 Nenhum túmulo
Notas iniciais

Houve uma série de condições para James Buchanan Barnes aceitar o convite indiscreto para habitar a antiga Torre dos Vingadores. A proposta não demorou a vir depois da aparição pública do suposto grupo selecionado por Valentina de Fontaine, os Novos Vingadores, e o primeiro instinto de Bucky foi negar. Só de ter sido fotografado e anunciado como aliado ao lado dela, sua recente carreira política estava fadada à ruínas: sofrendo exoneração voluntária ou não, seria impossível reconquistar esse tipo de confiança pública — ainda mais quando ele próprio estivera envolvido no processo de impeachment de Val.
Mas Bucky Barnes não era assim tão despreparado, ingênuo ou tolo.
Quando convenceu Alexei, Yelena, John e Ava a entrar com uma minivan no saguão do prédio, não era só pra extravasar sua sede de destruição sobre qualquer coisa que representasse a podridão de Valentina. Ele havia se antecedido o suficiente com o golpe mais barato do último século: conseguiu gravar a conversa entre eles e aquela demônia, antes que o Sentinela pudesse envergonhá-los com uma surra. É por isso que não tinha se oposto à descer o elevador e sequer se incomodou tanto com o surto de Yelena na rua; afinal, apesar de terem perdido a batalha, a guerra seria vencida com uma nova prova no Congresso.
Até que o Vácuo englobou Manhattan.
Não foi simples encontrar Yelena e Bob naquela confusão. Até chegar aos dois, passaram por cômodos bem desconfortáveis: traumas de Ava, medos de Walker, surtos de Alexei e, é claro, o seu próprio passado. Num futuro próximo, tinha que agradecer de algum modo à sua psicóloga e mandar lembranças aos cientistas wakandanos responsáveis por sua terapia experimental. Revisitar o próprio passado, como Bucky ou como Soldado Invernal, não era uma novidade, pelo contrário; por muitos meses, era até involuntário. Agora, existia certa sobriedade para lidar com isso. Não era menos doloroso, mas de algum modo, ele sofria menos.
Era uma habilidade muito bem-vinda para os próximos meses ou anos, afinal, quem o perdoaria por parecer — e, talvez, realmente ser — um grande traidor? Novos Vingadores, ele pensava de novo e de novo. Que piada de mau gosto.
O fato é que a aparição pública complicou as coisas e, entre a grande euforia do anúncio desses novos heróis, só soltar aquela gravação se tornou um objetivo incerto. Gary, seu parceiro na política, tinha sido tremendamente ofuscado e o processo perdeu grande apoio. Ele não retornou suas tentativas de contato. Portanto, os planos mudaram. Bucky arquitetava objetivos próprios ao entregar seu pedido de exoneração e, enfim, aceitar o convite para morar na Torre dos Vingadores.
Sua primeira exigência foi permissão para levar sua gata, Alpine.
A demanda foi recebida com espanto. Bucky Barnes, ex-combatente e antigo inimigo dos EUA, tinha um bichinho de estimação em casa? Sim. E ele exigiu todas as regalias que um felino poderia desejar: acomodações no andar dos dormitórios, acompanhamento veterinário mensal, alimentação personalizada e vitalícia, brinquedinhos e equipamentos para recreação, e um cômodo próprio ao lado do quarto de Bucky, com direito à placa: Alpine "Pearl" Barnes. Felizmente, Alpine tinha personalidade tranquila e não se interessava pelo porquinho-da-índia que Yelena logo tratou de trazer para Torre. O pobre se chamava Quiabo.
Bob o adorava.
A exigência com maior peso, porém, foi uma decidida em grupo. Ao menos aquilo tinha sido mais fácil de decidir do que o jantar para seis pessoas, ainda mais de sexta-feira a noite: foi consenso de que Valentina não poderia tê-los em suas mãos assim tão fácil, então todos reinvindicaram liberdade e apoio logístico/material para missões próprias. Nada de um novo Acordo de Sokovia, em que eles estariam totalmente presos a políticos e interesses internacionais de moral duvidosa. Não. Os Novos Vingadores, Thunderbolts ou seja lá o nome que viesse, não tinham um grande leque de poderes sobre-humanos, mas exigiam livre ação onde consideram necessário se todos os seis entrassem em um consenso.
Valentina de Fontaine resistiu a esse ponto o quanto pôde.
É claro que ela ansiava por ter uma equipe própria. Era até vexatória essa sua sede. Ter só o Sentinela em suas mãos foi nada mais do que um fiasco, mas que grande beleza ter aqueles seis que haviam acabado de salvar o mundo apenas com a força de vontade — e da amizade? Bucky podia criticar muitas coisas em Valentina, menos seu rápido raciocínio. Detestava isso nela. Mas ele era paciente também. Para aceitar essa exigência, negociaram: Os Novos Vingadores participariam de missões públicas e missões secretas organizadas por Valentina; daí sim poderiam solicitar suporte para o que precisassem. No entanto, todas as missões do tipo seriam estritamente confidenciais e, caso tal missão ameaçasse o cargo ou a reputação de Valentina, eles estariam por conta própria — e teriam que dar adeus à qualquer apoio futuro dela. Tchau, tchau, Novos Vingadores!
Bucky se questionava quem seriam os pobres coitados que os substituiriam caso tal coisa acontecesse. Os Novos Novos Vingadores?
Por enquanto, pouco importava. Nas próximas missões que fizessem ao seu comando, ele recolheria o máximo de informações e provas para que, assim que expusesse Valentina de Fontaine com aquela primeira gravação, sua morte política fosse irrevogável. Impossível que uma mulher dessas não tivesse inimigos, não quando tinha tantas metas obscuras e métodos ainda piores; mais impossível ainda era que ela não deixasse mais rastros. Aquela base com incinerador não era a única fonte de sua imoralidade.
Tempo livre e liberdade de ir e vir pareciam exigências simplórias para qualquer contrato, mas Bucky não queria ser pego em detalhes burocráticos no papel ao lidar com a diaba, mesmo que fosse para desobedecê-la sempre que conveniente. Ele não era ingênuo ao pensar que isso seria realmente cumprido de forma transparente, mas Valentina contava com sua discrição — já tinha destruído o único aspecto da vida que ele ainda tentava alguma coisa, a política. Então não era difícil para ela assumir que ele não faria nada absurdo nesse tempo livre; e é claro, era fácil para ele discernir quem estava o vigiando quando saísse da Torre dos Vingadores.
Assim como agora.
Quinta-feira à noite, dia de sair com a moto. Só Sam Wilson sabia do nome bobo que tinha dado à moto, Shadowfax, mesmo nome do cavalo de Gandalf. E fazia dois meses que Bucky morava na Torre, sem contato com Sam e atualmente dividido entre uma rotina ora "pacata", ora em campo.
Passaram uma semana no Ártico, mapeando ações da IMA na calota polar do Hemisfério Norte. Bucky não sabia o que era pior: o clima, John Walker reclamando, Alexei bebendo ou a grave disputa geopolítica bem além daqueles malucos vestidos de amarelo da IMA — Ideias Mecânicas Avançadas. Já que vários Estados disputavam a soberania do Ártico — Canadá, Groenlândia, Rússia — não era inteligente se fazer notar ali, muito menos como uma equipe de base estadunidense. Estranhamente, Val parecia menos interessada na possibilidade ou de congelamento global ou derretimento da calota polar do que ele julgava razoável. Apenas se ocuparam em localizar a base da IMA e aprender sua rotina, para então extrair seus dados do servidor local. Mel, a secretária ignorante ao fato de também ser outra criminosa, felizmente tinha a língua solta e acabou por deixar escapar que procuravam alguma informação que remetesse à Latvéria. Com Fantasma presente, foi simples roubar os dados inteiros através de um dispositivo, só levaram mais dias para se deslocar até o ponto de extração por aeronave.
A sorte colocou um urso polar no caminho deles.
E é claro, isso foi melhor do que a missão que escolheram fazer em seguida. Val aprovou à contragosto, reforçando as condições de que se algo viesse à público, não estavam apenas por conta própria como também terminantemente demitidos. Afinal, era contra a opinião de muitos jornais. Isso não os impediu de passar duas longas semanas na Palestina, articulando ações junto com heróis da região.
Sabotaram tanques. Explodiram drones. Dinamitaram bloqueios, incluindo aqueles que impediam acesso a poços e a ajuda humanitária. Desde que serviu na Segunda Guerra, Bucky jamais tinha visto uma situação tão deplorável, tão desumana. Seu árabe enferrujado ainda tinha sido útil para se comunicar com crianças, enquanto muitos adultos conseguiam conversar em inglês, tanto que continuavam a produzir vídeos e apelos nas redes sociais. O grupo apenas evitou aparições em tais publicações on-line e evitou contato com o resto da imprensa que ainda existia ali. Bucky já suplicava pelo fim do genocídio no Congresso e tinha fortes suspeitas de que nenhum projeto seu tenha ido pra frente por conta disso. Era bom realmente fazer algo para variar, mas ele julgava insuficiente. Sooraya Qadir, afegã e mutante, tinha sido o primeiro contato que conseguiram para adentrar a região sem levantar polêmica. Talvez, pensava Bucky, fosse necessário levantar polêmica, de fato. Mas manter Val satisfeita poderia garantir auxílio contínuo e não apenas um espetáculo. Não era necessário mais nada para forças internacionais tomarem atitude, nenhum crime pior. Nações inteiras somente decidiam deixar de agir.
Quando retornaram, ele enviou um relatório à Val com a exigência de envio contínuo de suprimentos e assistência aos contatos locais. Ela respondeu uma semana depois do retorno deles a Nova York, apenas informando que iria calcular se seria viável.
E era por isso que ele tinha arrancado com a moto da Torre.
Parou no bar de sempre, dúzias e dúzias de quarteirões de distância; aquele que tinha uma porta dos fundos que lhe permitia sair sem que o vigia contratado por Val pudesse ver, já que sempre ficava uns trinta metros de distância. Cumprimentou o bartender, recarregou um cantil de bolso com whisky e se foi para uma caminhada na cidade.
Entre esquinas e becos, Bucky já tinha bebido uns cinco goles e imaginado ao menos sete formas de matar Valentina. Mas, isso ainda não resolvia a questão de ajuda humanitária à Gaza ou o cessar fogo. De repente, ele não se viu tão longe assim de política, pois jogava um jogo ainda muito perigoso: não bastava querer fazer o bem por métodos corretos; tinha ainda que usar da persuasão e provavelmente negociar o inegociável.
Que vida.
Sentou-se em um banco perto de um parque. Não lembrava-se qual era aquele, já que tinha vivido mais no Brooklyn e não em Manhattan; e mesmo assim, muito tinha mudado desde então. Pensou em tudo. Em nada. Em como tentar seguir em frente era inútil, inútil. Não conseguia deixar de ouvir o adeus de Steve em sua cabeça, sabendo que ele estava bem e aquilo tanto o aliviava quanto o enojava; não conseguia deixar de entender que agora Sam tinha raiva dele e não havia como se explicar; não conseguia deixar de se sentir sozinho. Pensava no por quê. Não lhe vinha respostas.
Mas lhe veio a visão de um gato adiante. Preto. A noite ainda não havia chegado com toda força naquela estação, então o lusco-fusco dos postes do parque reforçaram a luz dourada do fim do entardecer. De repente, Bucky se fixou nos olhos amarelos do animal. Estendeu a mão direita, tentando chamá-lo junto com um sussurro baixo. Não era hora ou lugar para ficar sozinho. Ele chamou de novo, vendo que havia captado a curiosidade do gato. Talvez estivesse com fome. Talvez ele também tenha tido um dia ruim. Talvez apenas Bucky precisasse daquela interação doce.
Foi acometido pela assombração do mesmo gesto para outro gato preto, mas quem tinha tentando captar a atenção do felino em questão tinha sido aquela moça, amiga de Steve. Wanda. Foi em Berlim, em 2016. Ele estava mais confuso na época, era perseguido e, estranhamente, parecia menos infeliz do que se sentia agora. No entanto, não tinha como saber disso naquele momento. Ele já se sentia bem miserável lá atrás. Se não entendia como Steve tinha conseguido um fusca azul para uma fuga, entendia menos ainda como tinha conseguido mais aliados para aquela situação. E enquanto esperavam Clint Barton e Sam Wilson organizarem os próprios equipamentos, Bucky e Wanda conversaram um pouco.
Ela tinha estendido a mão para um gato no estacionamento do aeroporto, debaixo de um carro adiante. Buscou algum snack na van, abriu e jogou na direção do felino de pelagem preta e lustrosa. O cheiro forte de mini-salame preencheu o ar por alguns instantes e Bucky continuou a encarar em silêncio. O que ela estava fazendo ali? Era jovem. Bem, tinha um aspecto um tanto sério, mas ainda era jovem e não merecia ser arrastada para um problema que não era seu. Também não tinha cara de quem tem super-força e sequer tem alguma armadura mirabolante, apenas vestia vermelho. Repetiu o pensamento: O que ela estava fazendo ali?
— Eu te deixo nervosa, James?
— Não. — Ela o encarou de soslaio, com aquele seu olho verde de peso. E então ele decidiu falar a verdade: — Digo, eu só não entendo. Por que esse esforço para ajudar? Amanhã, talvez não importe muito.
— Está falando por você ou pelo gato?
O sorriso sem graça de Bucky foi inevitável.
— Talvez pelos dois.
— Você conhece Sokovia, certo? As guerras que aconteceram por lá. As bombas. A fome.
— Sim.
— Se todos, dentro e fora de Sokovia, ajudassem por um só dia, talvez eu e meu irmão pudéssemos ter vivido bem todos os dias. — Wanda inspirou fundo, dando uma pausa. E então virou seu rosto para ele. Apesar da juventude óbvia de seu semblante, não mais do que trinta anos, havia uma seriedade antiga no fundo de seus olhos, quase cansada. — Entende?
Ele assentiu. E sentiu-se grato, talvez tanto por si quanto pelo bichano adiante. E como se lesse pensamentos, Wanda riu e respondeu:
— De nada, James. Sabe, — Ela mexeu os ombros e ele só conseguia focar no fato dela chamar pelo primeiro nome. — Eu e você podemos ser amigos. Você é o único que consegue falar comigo no meu dialeto.
— Ah.
Outra pausa.
— Você nem tinha percebido?
— Não. Mas não precisa ser ruim, eu acho. — Bucky se apressou em dizer, pois ela parecia um tanto decepcionada. Quem sabe por não ter sido uma escolha consciente dele já que, como era informação um tanto pública, seu treinamento e lavagem cerebral incluíam dúzias de idiomas. Um tópico sensível e triste. E mesmo conhecendo-a há tão pouco tempo, não queria chateá-la; não quando estavam tendo uma conversa amena e normal. Fazia anos que ele não tinha uma conversa assim. — Falamos a mesma língua sem esforço. Mesmo que eu eu não perceba de cara.
Foi a vez dela sorrir.
— Sim. E você me parece uma pessoa confortável com silêncio. Uma qualidade rara. Acho que é uma espécie de gentileza sua, James. Aqui, — Wanda ofereceu o pacotinho para ele. — Tente alimentar o gatinho também.
Depois, só conversara com ela brevemente em Wakanda. Não havia muito tempo para bater-papo, não enquanto aquele sintozóide estivesse em perigo e o resto do mundo também. E blip, cinco anos se passaram em um estalar de dedos para eles. A última notícia que tivera de Wanda desde então era que…
Ela tinha falecido.
Uma pessoa passou entre ele e o gato ao adentrar o parque, assustando o bichano, que se escondeu entre as plantas. Deixou Bucky à sós com os pensamentos do aqui e agora. Em um silêncio que, desta vez, não lhe soava tão confortável. Só solitário. Com um suspiro, ele tirou o cantil do bolso interno da jaqueta e deu outro gole, dessa vez mais longo. O soro de supersoldado continuava potente sobre seu metabolismo, evitando que se embebedasse de fato. Horrível. Até os vícios lhe haviam sido retirados.
Pensou um pouco mais em Wanda. As condições da morte dela eram bem estranhas. Ninguém soube lhe explicar direito, sequer Sam Wilson tinha comentado muito do caso. Não teria prestado atenção e perdido algum ponto importante? Existia algum segredo? Felizmente, ele estava praticamente do lado de uma biblioteca. Não queria ser tão óbvio ao pesquisar no Wi-FI da Torre e temia cultivar alguma desconfiança em Valentina, mas Bucky sabia que podia confiar em uma biblioteca pública que ficava aberta vinte e quatro horas.
Depois de pegar uma senha de autorização de uso dos computadores, enfim jogou o nome de Wanda num buscador na internet para ver o que tinha perdido sobre ela depois de 2018.
Foi acometido por diversas notícias de Westview, que até então ele só sabia por cima. Fofocas sobre uma possível aparição na Romênia e depois em Katmandu, no Nepal. E então, nada. Só a notícia de sua morte, confirmada pelo líder de um templo, o bibliotecário e mestre Wong, e também por... Stephen Strange.
Nenhum túmulo.
E, aparentemente, ninguém para lamentar sua morte.
Fale com o autor