Entrevista Imperial
1 Capítulo único
Notas iniciais
Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1962
Júlio estava tão absorto em seus pensamentos que mal percebeu que chegara à Quinta da Boa Vista, onde estava localizado o grande Palácio de São Cristóvão. O homem alto, magro e de cabelos pretos e olhos azuis estava vestindo um belo terno azul-petróleo com listas prateadas. Carregava o paletó no colo para que não amarrotasse, e a cada cinco segundos coçava o rosto recém-barbeado. Aquele terno alugado não era sua vestimenta comum de trabalho, mas era belo e bem adequado à ocasião.
O Marinho, editor-chefe d’O Globo, fizera questão de disponibilizar um carro oficial do jornal para levar o repórter até o palácio do Imperador, por isso o enviou em um Aero-Willys preto, com motorista uniformizado e tudo. Não era todo dia que algum veículo de circulação nacional conseguia uma entrevista com aquele que era o chefe do Estado brasileiro e o homem mais poderoso da América Latina.
Júlio sabia que não fora escolhido exclusivamente por mérito próprio. Tinha trinta e dois anos de idade, e só sete de jornal. Era uma boa experiência, mas não mais do que tinham vários colegas. Na realidade, todos esperavam que o Marinho escolhesse o chefe do departamento de política, Marcos Cerrado, mas por causa de alguma intriga pessoal com o funcionário ele mudou de ideia de última hora, indicando o próprio Julho para fazer a entrevista. “Pelo menos eu tenho um bom conhecimento sobre essa crise dos mísseis em Cuba”, ele pensou.
O carro do jornal parou em frente aos enormes portões que guardavam a frente do Palácio.
— Bom dia, senhor. – O soldado que estava de guarda cumprimentou o jornalista. Era forte como um touro, mas vestia uma roupa cerimonial azul e vermelha que o deixava um tanto ridículo.– Posso ver sua identificação e suas credenciais, por favor¿
— Claro, claro... – Júlio respondeu, enquanto apalpava os bolsos.
Estava um tanto atrapalhado com aquela roupa, até que se lembrou de ter deixado tudo no bolso do paletó. Entregou a identidade e o cartão da imprensa ao soldado, que verificou tudo e sinalizou positivamente para um outro que estava mais perto dos portões.
— Um membro da Guarda Imperial espera pelo senhor nas escadas do Palácio. – disse o militar. Ele então lhe devolveu os documentos e voltou para a guarda.
O Palácio era rodeado por um enorme jardim, sendo este entrecortado por duas trilhas de paralelepípedos e duas fileiras de garagens abrigavam os carros dos mais altos membros do governo. Estacionaram na vaga mais distante da entrada do palácio, no canto da pista da esquerda e à sombra de um enorme jequitibá. O motorista d’O Globo abriu a porta para Júlio e ele se levantou, ainda um pouco desajeitado e muito nervoso, enquanto vestia o paletó e pegava sua pasta de couro.
— Você pretende ficar por aqui ou vem me buscar mais tarde¿ — perguntou ao motorista.
— Vou ficar, senhor. Aguardarei o senhor aqui fora.
— Pois bem. – Júlio respirou fundo. – Deseje-me sorte. – disse com um sorriso sem graça para aquele homem que mal conhecia.
O aceno de cabeça do motorista foi a deixa para que o jornalista desse meia volta e seguisse para as escadas da entrada principal. Conforme avisara o guarda do, um soldado da Guarda Nacional vinha em sua direção. Vestia um uniforme verde-oliva, coturnos pretos e boina preta. Assemelhava-se a um militar do Exército, mas a ausência de estampas camufladas e o broche da casa de Bragança que carregava na boina o caracterizavam como um membro da seleta guarda oficial do Imperador.
— O senhor deve ser o jornalista do Globo. – disse o militar, estendendo a mão. O homem era alto e forte, tinha um olhar firme e cabelos negros bem aparados, com algumas marcas grisalhas. – Capitão Armando Souza, da Guarda Imperial.
— Muito prazer, capitão. – Júlio trocou a pasta de mão para cumprimentar o homem. – Júlio Rosas. Tenho uma entrevista com o Imperador às dez horas.
— Certo, ainda são nove. – o oficial respondeu olhando para um relógio prateado que carregava no braço esquerdo. – Pode vir por aqui, por favor.
Como a vaga onde Júlio estacionada era a mais distante, ainda havia uns vinte metros de jardim para percorrer antes de chegar às escadas do palácio. Alguns passos à direita de si, o jornalista reparou, havia uma augusta estátua de um homem alto e barbudo.
— Com licença, capitão.
— Sim.
— Teria eu um minuto para observar a estátua de D Pedro II¿
— Ah, claro. Fique à vontade.
Ele então se aproximou da enorme estátua, e prontamente buscou sua máquina fotográfica na pasta. Sobre uma grande pedra mármore na qual haviam algumas gravações, aquele tido como o “Magnânimo” se portava de forma serena, como se fosse um idoso qualquer. Com a postura levemente curvada e um livro a tiracolo, o Imperador não usava coroa nem nenhum dos trajes típicos da monarquia do século XIX. Na realidade, a estátua de metal não retratava um monarca, mas um homem intelectual, com um sobretudo simples e uma longa barba de pensador.
Logo abaixo, na peça de mármore, estavam gravadas algumas as principais frases de D Pedro II, como “Se eu não fosse Imperador, seria professor”, ou sua mais famosa e decisiva declaração: “Cai o Imperador, mas não cai o Império. ”
Em 1889, conforme diziam os livros de História, um golpe de Estado promovido por um grupo de militares ameaçara instaurar uma república no Brasil. O movimento republicano se dividira neste momento: alguns apoiaram o golpe, esperançosos, mas outros tiveram certo receio, pois preferiam uma transição democrática. O Marechal Deodoro da Fonseca proclamara a República na manhã do dia 15 de Novembro, à noite enviara a ordem de exílio para toda a Família Imperial. Dada a imediata recusa de D Pedro II, o marechal mandou aprisionar todos eles.
“Cai o Imperador, mas não cai o Império”, teria dito o monarca, enquanto era vigiado em sua prisão domiciliar. Com esta declaração pretendia dizer que estava disposto a abdicar do poder, desde que a integridade do Brasil fosse mantida, e que a ditadura militar recém-instaurada desse lugar a um regime democrático. Enquanto os diretores da nova república decidiam se Pedro d’Alcântara deveria ser exilado ou fuzilado, o próprio presidente Deodoro da Fonseca fora até a casa do monarca deposto para negociar.
Ficou acordado que D Pedro II abdicaria do trono, passando-o para a sua filha Isabel, mas que esta não teria poder algum no governo. Além disso, deveria ser feito um plebiscito popular para decidir se o país continuaria como um império ou se viraria uma república. Para Deodoro o acordo estava ótimo, mas, nos dias subsequentes, mostrou-se impossível convencer o Parlamento a aceita-lo. Enquanto os conservadores exigiam a volta da Monarquia como era, os radicais exigiam a implantação imediata de uma república. Duas semanas depois, as discussões chegariam ao fim: não por um acordo, mas por uma investida da Armada, que tomou o Rio de Janeiro e aprisionou todos os golpistas republicanos.
D Pedro II foi novamente empossado de seu poder, e o Parlamento foi dissolvido para que se fizessem novas eleições. A nova legislatura, a pedido do monarca, autorizou o perdão oficial para a maioria dos republicanos envolvidos no golpe, bem como o tal plebiscito anteriormente acordado. A Monarquia ganhou com 70% dos votos, mesmo que todos soubessem que só 13% da população votara. De qualquer forma, as instituições voltaram aos eixos. Os poderes do monarca foram revisados depois disso, para que Dona Isabel tivesse bem menos influência política que seu pai ou seu avô. Fora neste momento, concordavam os historiadores, que o país passou a ser de fato uma monarquia parlamentarista.
Júlio fotografou a estátua de quatro ângulos diferentes e seguiu em frente ao lado do capitão. As escadas do palácio terminavam em um grande e belo corredor, com carpete vermelho no chão, lustres no teto e pinturas épicas nas paredes. Mesmo estando um pouco cego por ter acabado de sair da luz do sol, Júlio pôde apreciar as cenas ali retratadas, boa parte delas pintadas por Pedro Américo: o grito do Ipiranga, a assinatura da Independência, a outorga da Constituição de 1824, a coroação de D Pedro II, a assinatura da Lei Áurea... enfim, todas as cenas históricas protagonizadas pela família que habitava aquele palácio há cento e quarenta anos.
Os dois homens viraram à esquerda e depois à direita, até que chegaram a um tipo de sala de espera, com diversos sofás, poltronas e garrafas de café. Havia duas portas ali: uma simples – por onde haviam entrado – e uma grande e alta, de madeira vermelha e repleta de entalhes. Perto dela estava uma jovem loira dos olhos azuis, bem vestida e sentada atrás de um balcão com vários livros de registros.
— Bom dia, Marta. – disse o capitão, olhando para a jovem.
— Bom dia, Capitão. – ela respondeu com uma voz doce.
— Este é Júlio Rosas, o jornalista que vai entrevistar Sua Majestade. – ele então olhou para o jornalista – Júlio, esta é Marta, secretária do Imperador. Ali é a sala de audiências, onde Sua Majestade o receberá em breve. Pode se sentar e tomar um café. Fique à vontade.
— Certo, obrigado. – respondeu, enquanto via o militar sair.
Júlio se sentou e procurou servir um pouco de café. Não dormira bem na noite anterior, não só pela expectativa desse momento, mas também por causa da briga que tivera com sua esposa. Observou mais algumas pinturas que existiam ali, mas logo se entediou. Quando viu o relógio, ainda faltava meia hora para a entrevista. Ele então reparou que a secretária também não estava fazendo nada de especial, então resolveu puxar assunto com ela.
— Me desculpe... Marta, não é mesmo¿
— Sim, senhor. – Ela respondeu, sem focar nos olhos dele.
— Marta, eu tenho a impressão de já ter visto seu rosto em algum lugar. Você já apareceu no jornal alguma vez¿
— Bom, eu... – disse como se tivesse vergonha disso – Eu sou filha de Dona Ana de Orleans e Bragança. Talvez o senhor já tenha me visto em alguma reportagem sobre a Família Imperial.
— Ah, sim. – Júlio respondeu com um ar fingido. Ele nunca vira o rosto da moça, nem sequer imaginaria que ela era parente do Imperador... se bem que faria sentido, dada a função que ela ocupava. “Até que ela é bem bonita”, Júlio pensou. “Se eu fosse solteiro e dez anos mais jovem, chamaria ela para sair”.– Bom, então você é sobrinha-neta de Sua Majestade... devo chama-la de Alteza¿
— Oh, não, por favor. – Ela respondeu embaraçada. – Não gosto desses pronomes monárquicos.
— Algum problema com a Monarquia¿ — ele perguntou com um sorriso capcioso.
— Er... – ela desviou o olhar novamente, deixando bem claro que não estava com vontade de conversar.
— Fique tranquila, nada disso vai para o Jornal. – o sorriso foi conciliador desta vez.
— Bom, eu não diria que meu tio não faz um bom trabalho, mas de fato eu prefiro a república. Sinto que seria muito melhor se o povo pudesse eleger seu chefe máximo, e que também não precisasse esperar uma vida inteira para trocá-lo.
“Uma princesa republicana”, Júlio pensou. “Isso é no mínimo interessante.”
Ele se preparava para puxar outro assunto quando um estrondo abriu as grandes portas da sala de audiências do Imperador. O grupo de homens de terno que então apareceu deve ter sido a maior concentração de poderosos que Júlio jamais vira ou veria na vida.
Uma mão com um relógio de ouro saiu de dentro da sala e ficou segurando a porta para que os demais passassem. O primeiro a ficar totalmente visível foi Ulysses Guimarães, o presidente da Câmara dos Deputados. Com seu rosto magro e cabeça calva, vinha discutindo qualquer coisa com o segundo homem, que vinha logo atrás dele. Este era Tancredo Neves, o presidente do Senado. Lá estavam os homens mais poderoso do Legislativo, o primeiro do Partido Liberal e o outro do Trabalhista, provavelmente discutindo sobre um possível consenso entre os partidos no Parlamento em nome de um bom andamento na aprovação de leis e medidas.
O sistema de voto distrital, que vigorava no Brasil desde 1853, só permitia que dois ou três partidos coexistissem no Parlamento. Nos tempos de D. Pedro II, havia uma competição fajuta entre os Liberais e os Conservadores, mas este último perdeu força durante o reinado de Dona Isabel I. Ao longo dos anos 1920, os movimentos sindicais e as forças de esquerda se uniram e formaram o Trabalhista, que, com um poder rápido e avassalador, expurgou os conservadores do Parlamento e empurrou os liberais para a direita, tornando-se assim a nova esquerda.
Depois deles apareceu Carlos Lacerda, o Presidente do Conselho de Ministros. “Este é um homem que eu gostaria de entrevistar”, pensou Júlio. Lacerda era o líder do Partido Liberal na Câmara há seis anos, e, em 1961, finalmente fora escolhido para formar o gabinete de governo. Em teoria, cada um dos ministros era nomeado pelo Imperador, mas todos sabiam que o poder verdadeiro estava nas mãos do partido majoritário.
Lacerda iniciara sua vida política como jornalista, assim como vários colegas de Júlio pretendiam fazer. Desde a década de 1940, se tornada inimigo declarado de Getúlio Vargas, do Partido Trabalhista, e com sua ferrenha oposição conseguira sucesso dentro do Liberal.
Vargas, por sua vez, já era um cão velho da política mesmo antes de Júlio nascer. Iniciara sua carreira de deputado estadual ainda em 1909, pelo Partido Republicano, e por várias vezes se elegeu Presidente do Conselho Rio-grandense. Antevendo o sucesso do movimento trabalhista, filiou-se ao partido de esquerda assim que ele surgiu, subindo para a política da capital do país. Em 1930, quando o Brasil entrou em uma profunda crise econômica, o partido de Vargas foi eleito com 60% das cadeiras do Parlamento, e Getúlio se tornou Presidente do Conselho de Ministros.
Nunca ficara claro qual era a ideologia política de Getúlio Vargas. Mesmo representando os sindicalistas, também criava políticas de proteção aos patrões, buscando estar sempre na posição de juiz dos conflitos entre classes. Tudo isso contribuiu para que tanto os comunistas quanto os liberais o acusassem de simpatizar com o regime fascista europeu. De fato, ele tinha boas intenções com o chanceler Adolf Hitler antes d’o mesmo se tornar ditador, e sempre fora admirador do regime de Mussolini na Itália. Os boatos eram fortes, mas o povo continuava reelegendo o partido a cada dois anos, pois suas medidas vinham amenizando a situação dos pobres perante a depressão econômica.
No primeiro ano do quinto mandato de Vargas, iniciou-se a Segunda Guerra Mundial. O Partido Liberal, que então detinha 43% das cadeiras no Parlamento, exigiu a deposição do presidente do conselho, alegando que ele colocaria o Brasil na guerra ao lado das potências fascistas do Eixo. Pesando a situação, o então Imperador D. Pedro III decidiu executar esta deposição e nomear o também trabalhista, porém mais moderado Tancredo Neves para ocupar o cargo até as próximas eleições. Em 1940, o Partido Liberal recuperou a maioria das cadeiras.
Apesar da deposição, Vargas ainda viria a ocupar o cargo máximo do Executivo mais vezes, ao longo dos anos 40 e 50, mas desta vez dando voz ao Partido Republicano. Durante esta segunda fase, focou em reformas trabalhistas e na diminuição dos poderes constitucionais do monarca, além de transformar o país em um Estado Laico. Chegou ainda a promulgar dois referendos pelo fim da Monarquia: um em 1944, que foi vetado por D. Pedro III, e outro em 1949, já no reinado de D. João I, que foi sancionado, mas perdeu contra os 68% do povo que eram a favor da manutenção do regime monárquico.
Durante todo esse tempo, Carlos Lacerda fora um ferrenho opositor das ideias de Getúlio Vargas. Cada nova lei aprovada, cada novo decreto sancionado era um problema para o país. Dedicava páginas inteiras do seu jornal, o “Tribuna”, a difamar e desacreditar tanto o presidente do Conselho quanto o seu partido, exibindo desde casos de corrupção até detalhes biográficos sórdidos, apesar de politicamente irrelevantes.
O nono e último mandato de Vargas chegou ao fim em 1956, quando o mesmo já tinha setenta e quatro anos de idade, e uma longa história na política brasileira. Nas eleições que se seguiram, o Partido Liberal venceu com 53% das cadeiras, e Getúlio foi nomeado senador vitalício do Império, um cargo de prestígio mas sem poder, só pela ampla popularidade que alcançara. Desde então os Liberais haviam vencido todas as eleições, e boa parte das nacionalizações e regulamentações trabalhistas feitas por GV estavam sendo desfeitas. Carlos Lacerda, agora como Presidente do Conselho, tinha um ar de vencedor.
Atualmente, aquele senhor alto, de cabeça quadrada e óculos espessos era o homem mais poderoso do país. Na maioria esmagadora dos casos envolvendo política, era a ele que a mídia procurava, e não ao Imperador. A situação de hoje era extraordinária, afinal se tratava de política externa. A crise dos mísseis em Cuba não era assunto do Gabinete, o próprio Presidente declarara, mas sim dos diplomatas e do monarca. Dizia-se que todos os membros da Casa Imperial eram formados em Relações Internacionais, e que todos os diplomatas estavam sob seu comando “para um bom andamento da política externa do país. ”
Júlio se levantou quando o trio passou por ele, buscando expressar um mínimo de respeito com os homens responsáveis pela direção do governo. Pensou em dizer alguma coisa, mas as palavras não vieram, então simplesmente os olhou. O único que notou sua presença, porém, foi Tancredo Neves, que simplesmente fez um aceno de cabeça e voltou aos assuntos com o deputado Guimarães. O Imperador não apareceu do lado de fora, pelo menos não claramente. Júlio vira um vulto, um braço de terno cumprimentando os homens que saíam, mas não o homem inteiro.
Sentou-se quando os três homens saíram pela outra porta da sala de espera, cada um rumo à sua atividade, e esperou alguns minutos até que um interfone na mesa da secretária tocou.
— Sim, senhor. – ela disse. – vou manda-lo entrar. – então olhou para Júlio, que sentiu um frio na espinha com o momento. – Senhor Rosas, Sua Majestade o aguarda.
— Pois bem. – ele respondeu. – obrigado.
Levantou-se e olhou para o relógio, constatando que já haviam passado dez minutos da hora marcada para a entrevista. “Tudo bem”, ele pensou irônico. “Sua Majestade nunca se atrasa, fui eu que me adiantei.”
A sala de visitas do Imperador era simplesmente esplêndida. O chão de mármore translúcido fazia os sapatos estalarem a cada passo, e as janelas altas dispensavam o uso de lâmpadas ou ventiladores. Um felpudo vermelho-claro ocupava o centro da sala, e sobre ele havia uma mesa de madeira nobre com detalhes dourados. Sobre a mesa estava uma jarra de prata e duas taças de cristal, e em torno da mesma havia um sofá de dois lugares e duas poltronas, todos acolchoados com uma cobertura verde, a cor da Casa de Bragança, e alguns detalhes dourados. Os dragões da Independência e o brasão do Império estavam presentes em todo lugar: as cortinas, quadros nas paredes, a toalha da mesa e até um broche na lapela do terno monarca estampavam o poder da Casa Imperial.
— Bom dia, Majestade. – Júlio disse ainda da porta, fazendo uma leve reverência com a cabeça, como fora anteriormente orientado.
— Bom dia, meu jovem. – o monarca respondeu do outro lado da sala.
Estava distante, olhando para a janela e ofuscado pela luz. Virou-se e caminhou na direção de Júlio, permitindo ao jornalista que visse melhor o chefe do Estado brasileiro. João Maria Felipe Miguel Gabriel Rafael de Orleans de Bragança era um homem alto e forte, porém sem desviar da média brasileira de forma física. Seus cabelos eram negros e curtos como os de um militar, e seus olhos azuis faziam lembrar o bisavô, D. Pedro II. Tinha uma expressão austera e um olhar firme, lábios cerrados e a cabeça erguida, e parecia ter bem menos que seus quarenta e seis anos. Vestia um terno preto comum com gravata azul-claro e uma faixa verde com bordas douradas sobre o paletó, representando seu cargo. Carregava também um cordão com uma cruz de malta do pescoço e um broche de Bragança na lapela esquerda, totalizando assim suas vestes imperiais.
— Você deve ser o jornalista do Globo, certo¿ — perguntou enquanto estendia a mão para cumprimentar o visitante.
— Sim, Majestade. – Júlio respondeu enquanto apertava a mão do monarca. – Sou Júlio Rosas. E agradeço ao senhor pela disponibilidade em ceder esta entrevista.
— Ora, não há de quê. – fez um sorriso torto. – É mais do que uma obrigação minha esclarecer ao povo brasileira tudo quanto for possível. Por favor, sente-se. — Os dois ocuparam as poltronas um em frente ao outro, cada um de um lado da mesa. – Deseja um pouco de água¿
— Sim, por favor.
O monarca serviu as duas taças e entregou uma ao jornalista. Ambos beberam um gole e repousaram as taças sobre a mesa.
— Pois bem, pode começar suas perguntas. – D. João disse quanto se recostava na poltrona e cruzava as pernas.
— Bom... – Júlio abriu a pasta e pegou o roteiro da entrevista. “Deveria ter feito isso antes”, pensou, mas agora já estava feito. Pegou também o gravador e o pôs sobre a mesa. – Como Vossa Majestade sabe, a União Soviética enviou mísseis nucleares para Cuba recentemente. O senhor acredita que esta crise poderá dar início a uma guerra nuclear¿
— Apesar de todo o alarde que se tem feito, acredito que não. – respondeu. – Veja bem, por mais spsicopatas que sejam os políticos soviéticos, nenhum deles é suicida. É de conhecimento geral que os Estados Unidos têm um poder nuclear muito maior que o deles, o que significaria a destruição total da Rússia, caso o conflito ocorresse. Me parece, na verdade, que estes mísseis nada mais são que uma simples demonstração de força, para talvez intimidar a potência capitalista.
— Então o senhor está seguro¿ — perguntou Júlio. — Diria ao povo brasileiro que não é preciso temer¿
— Não diria isso, pois temer a guerra e a morte é um instinto natural. Eu mesmo já vi duas guerras, e nenhuma me traz boas recordações. Na realidade, eu diria ao povo que não precisa entrar em pânico. Sim, há um risco de conflito, mas é mínimo. E tremer de medo não vai adiantar nada. O mais provável é que haja uma retirada dos mísseis, ou talvez um conflito armado em menores proporções, como o que houve em 1957, na revolução de Castro.
— Certo. – Júlio pigarreou e voltou ao roteiro. – Agora sobre o panorama geral da geopolítica internacional... Há oito anos, uma delegação americana esteve no Rio de Janeiro em reunião com o senhor e com o sr. Getúlio Vargas, presidente do Conselho, e logo depois o governo sancionou uma lei que punha na ilegalidade o Partido Comunista Revolucionário. Apesar disso, nunca foi constatado no Brasil uma força revolucionária com potência real para derrubar o governo e instalar o comunismo, e por isso esta medida foi vista por muitos como uma rendição à vontade dos americanos, bem como um ataque à liberdade de associação. O que Vossa Majestade teria a dizer sobre isso¿
— Bem... – o Imperador passou a mão direita sobre o rosto, como se estivesse cansado do assunto. – Não posso negar que a comissão americana veio aqui para pedir que nós perseguíssemos os comunistas, mas também não é verdade que nos curvamos às vontades deles. Veja bem, nosso Parlamento ainda tem 5 cadeiras ocupadas por partidos de extrema-esquerda, além de várias assembleias provincianas terem quantidades significativas desses representantes. O problema com o PCR é que ele se recusava a participar do processo democrático e se dedicava exclusivamente a treinar guerrilheiros e contrabandear armamentos e informações sigilosas. Já estava comprovado que recebiam recursos e auxílio de agentes da União Soviética, e que em algum momento deveriam atacar as diversas sedes de governos locais para tomar o poder. Eu sempre fui a favor da liberdade de expressão e associação, mas nosso mundo se encontra em uma situação por demais complicada. Apenas dois polos controlam o mundo, e não existe mais a possibilidade de permanecer neutro, pelo menos não para um país como o nosso, que está longe de ser uma potência internacional. Meu pai permaneceu neutro durante a Segunda Guerra, bem como minha avó fizera na Primeira. Eram situações mais simples, mas que mesmo assim despertaram certa desconfiança do bloco ocidental em relação ao nosso Império. Agora, precisamos de parcerias comerciais e de certa proteção contra possíveis ataques nucleares, ainda que esta proteção venha por meios dissuasivos. Veja bem, eu também não acredito que o PCR teria tanto poder assim, mas a ilegalização foi uma forma de garantir que nós éramos aliados dos Estados Unidos, e não na União Soviética.
— Há no meio das comunicações quem diga que uma aliança com a União Soviética não seria necessariamente ruim. Os principais argumentos são os altos índices de desenvolvimento de alguns países do bloco, como Cuba, Iugoslávia e Coreia do Norte, sendo os três maiores que muitos países do Ocidente. Será que esta aliança com os americanos não foi mais uma tentativa de preservar a Coroa do que de proteger o país¿
— É uma boa pergunta. – D. João I respondeu com um sorriso resoluto, como se gostasse de ser desafiado. – Você citou o desenvolvimento de três países, mas eu posso lhe indicar o nome de outros trinta, que, mesmo aliados aos soviéticos, estão em situação de miséria extrema, ao mesmo tempo em que mostro a prosperidade crescente dos países europeus, e também do Brasil. Não posso negar que o fato de ser um monarca me incentivou a buscar apoio dos americanos, mas isso nem de longe foi o motivo principal. Poderíamos fazer um teste: faça-se um plebiscito popular, perguntando a qual potência devemos nos aliar. Eles escolherão os Estados Unidos. A prova disso é o nosso Parlamento, eleito pelo próprio povo: maioria liberal, oposição socialdemocrata. Não há forças políticas significativas apoiando uma ditadura ou a socialização dos meios de produção. O Brasil é um país capitalista, sempre foi. E tem funcionado bem assim. Não faria sentido em hipótese alguma nós nos opormos à potência capitalista.
— Pois bem, agora voltemos um pouco no tempo. O Brasil teve um plebiscito sobre a continuidade do regime monárquico no segundo ano de reinado de Vossa Majestade, mas algum tempo antes essa mesma votação fora proposta e vetada pelo senhor seu pai. Isso significaria que a Monarquia é imposta aos brasileiros¿
— Não, de forma alguma. A primeira tentativa de plebiscito foi golpismo de Vargas, acho que até ele reconhece isso. Foi em 1944, e a guerra ainda não tinha acabado. Meu pai fizera mil esforços para evitar que o Brasil se envolvesse, e não podia deixar que um político com ideologia controversa nos colocasse no conflito. Apesar de tudo, a demissão de Vargas em 39 foi bastante impopular, o que abriu brecha para o crescimento das manifestações republicanas... Olhe, em um cenário de democracia perfeita, o meu pai deveria ter autorizado o pleito de 44, e é até possível que o povo preferisse ter o popularíssimo Vargas como presidente a Dom Pedro III como Imperador. Apesar disso, um monarca tem de sempre pensar a longo prazo. O que aquela mudança significaria¿ Aquilo não poderia dar início a uma verdadeira ditadura populista¿ As inseguranças eram muitas, e o custo daquilo para o Brasil poderia ser alto demais. Lembro-me bem desta época. Eu tinha vinte e oito anos e ocupava minha cadeira principesca no Senado. Observei bem os debates que se seguiram, e, aparentemente, a maioria dos que haviam sancionado o decreto do governo mudaram de ideia a longo prazo. Antes de meu pai morrer, ele só pediu para que eu fosse um imperador melhor do que ele foi. Em 1949, vi a chance de fazer valer a democracia como ele não pudera, e por isso autorizei o segundo plebiscito.
— E o senhor autorizaria mais algum¿
— Não vejo por que haveríamos de questionar a Monarquia agora, mas sim, autorizaria. Estou seguro da eficiência do meu trabalho, bem como da dos ministros encarregados do governo. Na realidade, já há oito anos que o Partido Republicano consegue vagas no Parlamento, o que me leva a crer que o povo brasileiro está satisfeito com a nossa estabilidade e eficiência.
— Certo, agora voltando à questão do conflito. – Júlio prosseguiu. – Em caso de conflito armado leve, como o senhor descreveu anteriormente, o Brasil mandaria tropas ou algum outro tipo de auxílio aos Estados Unidos¿
— Auxílio sim, tropas não. Estou disposto a assinar o envio de certos materiais e dinheiro, desde que o Parlamento concorde e desde que não falte nada aos cofres brasileiros. Apesar disso, não pretendo enviar nem sequer um navio da Imperial Armada. O Brasil tem vencido todas as guerras das quais participou, e isso se deve ao fato de focarmos em só fazer guerra se a integridade nacional for ameaçada. Em outros casos, não participaremos.
— E quanto às negociações que vêm ocorrendo entre os presidentes das duas potências mundiais¿ O Brasil pretende enviar algum tipo de auxílio diplomático¿
— Quanto a isso... – o Imperador coçou o nariz – Acredito que não seja assunto diretamente nosso, então não. As negociações devem ocorrer apenas entre estes dois países.
— Então terminamos por aqui. – Júlio disse, dobrando a folha do roteiro da entrevista. – Agradeço a Vossa Majestade pela ótima entrevista concedida, e tenho certeza de que os leitores do Globo ficarão muito satisfeitos.
— Eu que agradeço por vir até aqui. – O Imperador respondeu com um sorriso político. – Desejo sucesso ao jornal O Globo e tudo de bom ao povo brasileiro.
— Alguma mensagem final aos leitores¿
— Sim. Povo brasileiro, nada está perdido. Tenham confiança no futuro. Depositem suas esperanças em Deus e estejam seguros de que Ele fará o melhor por todos nós. E que esta crise se acabe rápido e que nós voltemos às nossas vidas felizes.
Júlio desligou o gravador e guardou tudo na pasta. Os dois se levantaram e caminharam até a porta.
— Majestade, posso lhe fazer mais uma pergunta¿ — perguntou pouco antes de sair, com certo ar de timidez.
— Fique à vontade. – o monarca respondeu.
— Quando eu cheguei ao palácio, o senhor estava em reunião com os políticos mais poderosos do país. Eu poderia saber sobre o que conversavam¿
— Não vejo por que não. Tenho reuniões semanais com eles três, além das reuniões com o gabinete de governo, mas os assuntos são sempre corriqueiros. O tema principal desta vez foi o velho conflito entre os liberais e os trabalhistas. Lacerda quer cortar gastos públicos, mas o Neves se recusa a pôr a propostas em votação no Senado. Por outro lado, o Neves quer aumentar o número de senadores temporários, mas o Lacerda se recusa a aprovar isso, porque aumentaria o poder da esquerda no Parlamento. Meu papel aqui é facilitar as negociações entre esses lados, para que a política não fique travada.
— Interessante. E tem funcionado¿
— Até agora, sim. – ele respondeu com um meio sorriso.
— Bom, acho que é só isso. Obrigado, Majestade. – fez mais uma reverência e saiu da sala.
Júlio saiu satisfeito do Palácio de São Cristóvão. Em primeiro lugar, porque conhecera o Imperador. Mesmo que o cargo fosse mais representativo do que executivo, ele ainda era uma espécie interessante de celebridade. Em segundo, porque ele sabia que aquela entrevista alavancaria sua carreira como nada mais poderia fazer.
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