Entremeios

7 Instante decisivo


Notas iniciais
Jemma relembra uma conversa com Bobbi e dá um novo passo em seu relacionamento com Fitz.

Enquanto praticava tiro ao alvo, descarregando sua fúria, as lembranças das últimas semanas voltaram a lhe atormentar. Desta vez, rememorou a conversa que teve com a agente Morse há poucos dias, naquela mesma sala, em circunstâncias similares às atuais. Naquele dia, ela também estava furiosa e acabou dizendo o que não devia... Repassou a conversa em sua mente após um último disparo, acertando bem no alvo.

*

Bobbi ouviu o barulho inconfundível de gatilhos sendo disparados e tiros atingindo o alvo. Aproximou-se sorrateiramente de uma das salas de treinamento da base da SHIELD, surpreendendo-se ao se deparar com Jemma.

— Eu não imaginava que encontraria você aperfeiçoando suas habilidades em atirar – disse, recostada no batente da porta com os braços cruzados em frente ao corpo.

Jemma parou seu treinamento, virando-se para encarar Bobbi com uma sobrancelha arqueada.

— Por quê? Porque eu sou a típica donzela em apuros sempre salva pelos homens? – seu tom saiu ainda mais pungente do que o planejado.

Bobbi chegou mais perto, as mãos espalmadas para frente, como se clamasse por calma.

— Opa! Jemma, eu não falei com esse intento. E eu já vi você arriscando a própria pele na HYDRA e tenho conhecimento de suas habilidades de sobrevivência em um planeta alienígena. Na maior parte do tempo, sobreviveu por si própria. Não se subestime.

A bioquímica deu um sorriso cáustico.

— Não sou eu quem me subestima. São os outros. Sempre acreditando que eu preciso de ajuda e não posso fazer nada sozinha.

— Eu não sou uma dessas pessoas.

— Não? Você estava lá para me salvar quando me descobriram na Hydra.

— Oh, okay! – Bobbi replicou no mesmo tom irônico que sua interlocutora usava – me desculpe por te salvar. Foi mal mesmo.

Jemma cerrou os olhos, respirando fundo, notando o quanto estava sendo ingrata e imatura.

— Não é nada com você, Bobbi. Me desculpe... Eu só estou chateada.

A outra ponderou por um instante antes de tornar a falar.

— Olhe, acho ótimo que esteja praticando atirar. É um ótimo exercício de autodefesa.

— Não só isso. Eu sou a única mulher na SHIELD que não é capaz de matar com as próprias mãos. Então funciona como uma ótima estratégia de ataque também.

Bobbi franziu o cenho, notando a ira contida nos olhos e nas palavras de Jemma.

— Um conselho... Não é a melhor das ideias praticar quando se está furiosa.

Jemma relaxou os ombros e suspirou, baixando a guarda pela primeira vez desde que Bobbi adentrara o recinto.

— Não é só isso que está te incomodando, não é? – perguntou, ligeiramente intrigada.

Jemma não precisou responder. Estava visível em seu semblante tempestuoso.

Bobbi pousou uma mão sobre o ombro da bioquímica, em sinal de alento.

— Nem imagino o quanto deve estar sendo difícil pra você... Mas precisa descobrir o que sente. Se não está naquela tênue linha entre amor e gratidão.

— Não é apenas gratidão o que sinto por Fitz – tratou de explanar, imprimindo uma segurança admirável em suas palavras.

— Eu não estou falando do Fitz – Bobbi lhe assegurou e Jemma se viu, de repente, sem palavras – Jemma, eu sei que passou por muita coisa... As circunstâncias no outro planeta eram totalmente distintas... Mas eu também vi tudo o que o Fitz passou.

Jemma, que havia desviado o rosto, ergueu o olhar para encará-la.

— Ele me ajudou na minha recuperação durante esse meio tempo. E eu o acobertei diversas vezes de modo que ele pudesse ir atrás de pistas para encontrá-la...

— Não deveria ter feito isso – Jemma disse, resoluta – eu soube o quanto ele se arriscou...

— Fitz estava irredutível. Não havia nada que eu pudesse fazer para dissuadi-lo. Eu peço... Que tente compreender o lado dele – ela levantou os ombros, de maneira humilde – como eu disse, eu vi o que ele passou.

— Bobbi, Fitz não é a única vítima aqui – ela rebateu irritada com aquele colóquio.

— Eu sei! Eu sei que vocês três são vítimas nisso...

— Então por que eu estou me sentindo culpada? Da forma como você coloca, a impressão que dá é que tudo o que fiz foi com intenção de ferir o Fitz – Jemma a interrompeu bruscamente.

— Jemma...

— Você acha que eu estava feliz do outro lado? Eu estava tentando sobreviver da melhor maneira possível. Eu estava devastada porque nunca mais iria voltar, porque nunca mais veria a minha família, vocês e... Principalmente o Fitz – seus olhos se turvaram de lágrimas de repente – Will era minha última esperança, o único motivo que me restara para tentar fugir de uma vida miserável, de privações, dia após dia...

— Eu não estou dizendo...

— Eu sei que o Fitz sofreu. E jamais desejei isso. Pelo contrário. Todas as noites naquele planeta, eu pensava nele, desejando que ele tivesse melhor sorte do que eu e que pudesse ter uma vida plena e feliz. Mas me matava um pouco, a cada minuto, lembrar que eu já não tinha mais um futuro com ele.

Bobbi a ouvia em silêncio, tomada pela compaixão.

— Eu não estava simplesmente vivendo uma vida feliz e maravilhosa ao lado de Will enquanto Fitz arriscava sua pele e esgotava recursos para me encontrar.

— Não foi o que eu sugeri – Bobbi apressou-se em retificar – Só estou dizendo que... – ela inalou profundamente antes de prosseguir – tome sua decisão baseada no que realmente quer, em quem realmente ama... Não por gratidão.

— Bobbi, eu aprecio seus conselhos sobre autodefesa, treinamento de campo e tudo mais. Mas, me desculpe... Não acho que seja a pessoa mais indicada para dar algum conselho sobre a minha vida amorosa quando está dormindo com seu ex-marido – Jemma não conseguiu reprimir suas palavras destiladas de escárnio e a sátira contundente em seu semblante.

Atônita e ligeiramente boquiaberta, Bobbi fitou sua interlocutora por um longo momento. A perplexidade tomara conta de seu rosto.

— Wow! – ela finalmente disse, rindo sem humor – eu acho que mereci isso.

Jemma se arrependeu naquele exato instante do que falara, cerrando os olhos, levando uma das mãos à boca, ainda segurando a arma com a outra mão.

— Me desculpe, eu não queria...

— Tudo bem, Jemma. Você está certa – a outra respondeu, resignada – olhe só para mim. Não sou a pessoa mais confiável para falar sobre relacionamentos quando me casei e me divorciei duas vezes da mesma pessoa.

Bobbi deu de ombros, sentindo-se derrotada. Simmons não soube o que dizer para contornar a situação, de modo que apenas observou a agente Morse lhe dar as costas, rumando para a porta da sala.

— Me perdoe, Bobbi! Eu realmente não quis… — Jemma gritou.

Já próxima à saída da sala, Bobbi se virou uma última vez em sua direção.

— Não há motivos para se desculpar – disse com um sorriso artificial.

— Eu estou... Frustrada, chateada... Quis descarregar isso em você, o alvo mais próximo. Eu fui injusta… Me perdoe.

— Simmons, ao invés de tentar descarregar sua frustração atirando ou discutindo... Simplesmente faça o que acha que deve fazer, okay? – concluiu com um olhar complacente, saindo pela porta.

*

Era quase como se ela visse toda a cena se desenrolar novamente diante de si. Era como se Bobbi tivesse acabado de sair da sala... A bioquímica refletiu sobre aquelas últimas palavras proferidas pela agente Morse por um minuto antes de soltar a arma e agarrar seu casaco, deixando a sala de treinamento, decidida.

*

Hunter avistou Jemma caminhando a passos apressados pelo corredor.

— Oi, Jem... – ele tentou, mas ela não lhe deu atenção. Não por hostilidade ou qualquer outra coisa. Ela simplesmente parecia tão determinada a chegar ao seu destino que sequer lhe viu ou ouviu.

O agente a observou enquanto ela adentrava o quarto de Fitz e fechava a porta atrás de si. Agora ele entendia a razão de ela estar com tanta pressa.

*

Exausto, Fitz passou a mão pelo rosto enquanto entrava em seu quarto. Surpreendeu-se ao encontrar Jemma por lá. Por um momento, sua presença pareceu uma ilusão causada por sua mente cansada.

— Oi, Fitz – ela disse com um sorriso retraído – a porta estava aberta... Eu decidi entrar para poder falar com você, você não estava... Então preferi esperá-lo para não corrermos o risco de nos desencontrarmos.

Ele não respondeu. Continuou a fitá-la em total surpresa.

— Tudo bem? – ela levantou os ombros, aguardando por uma reação.

— Sim! – disse, por fim – Eu... Estava discutindo com Coulson as diretrizes para a próxima missão.

Jemma arqueou as sobrancelhas, interessada.

— Dois inumanos foram atacados por hostis...

— Oh! Hydra?

— Provavelmente... Vamos investigar.

— Eu posso ir? – ela indagou, solícita.

— Claro. Na verdade, o Coulson iria falar com você de qualquer maneira, se você está disposta a voltar para o campo...

— Sim, eu sinto falta disso – Jemma tornou, caminhando discretamente em sua direção, mas ainda mantendo certa distância.

Ele apenas assentiu com a cabeça, soando ligeiramente inquieto de repente. O que não passou despercebido por Jemma.

— Eu... Vim aqui para conversarmos – ela disse, com certa hesitação, enfiando as mãos nos bolsos do trench coat, o sorriso sumindo de seu rosto.

Fitz meneou a cabeça com mais energia desta vez, cruzando os braços em frente ao corpo. Pareceu à Jemma que ele estava se fechando para ela, o que a fez vacilar um pouco em sua determinação.

— Nós... Temos um amplo histórico de palavras não ditas e conversas inacabadas e... Eu acho que está na hora de...

— Concluirmos uma – ele completou a frase iniciada por ela. E foi como nos velhos tempos. Jemma tornou a sorrir.

— Isso! – ela cobriu a pouca distância que havia entre eles, ficando suficientemente próxima para encará-lo nos olhos, de modo a não perder qualquer detalhe das expressões que se desenhavam em sua face durante aquele diálogo.

O ar tornou-se rarefeito de repente. Fitz sentiu seu coração bater em disparada no peito.

— Nós não nos falamos direito depois do que aconteceu entre nós. E eu sei que você acha que aquilo foi precipitado, que não estávamos em nosso juízo normal... Mas saiba que significou muito pra mim. Portanto, sem meias palavras, eu vou falar francamente.

— Jemma... – ele tentou, incerto de onde aquela conversa ia dar.

— Eu te amo – ela o interrompeu, falando de uma vez, sem pensar duas vezes, olhando profundamente dentro de seus olhos.

As palavras haviam escapado ao engenheiro. Fitz a encarou ainda mais surpreso do que quando a encontrou em seu quarto. Aquilo fora totalmente inesperado.

— Eu sei o que deve estar passando pela sua cabeça... Sei que me perguntou se eu amava o Will e eu respondi que sim. Mas o fato é que o que senti por ele é complexo demais para se definir. O que sinto é uma espécie de amor incondicional por tudo o que ele significou para mim do outro lado. Mas aqui... Nesse momento, nesse lugar... Eu só consigo amar você – completou, com inabalável determinação.

Como Fitz permaneceu calado, ela continuou.

— Pode ser que você não acredite em mim...

— Eu acredito! – ele a cortou, subitamente. O tom de voz enlevado, o que trouxe alívio à Jemma.

— Ótimo! – ela devolveu, os cantos de seus lábios se curvando para cima em um sorriso genuíno e sincero – Então... Quando for o momento e se sentir preparado... Eu estarei esperando por você. Prometo ser paciente – Jemma disse com simplicidade – eu sei que sempre haverá um futuro nos aguardando para vivê-lo.

Jemma esperou que Fitz dissesse algo, mas ele nada falou. Apenas continuou a fitá-la de maneira intensa; ainda admirado por sua declaração.

Ela passou por ele, tencionando sair do quarto quando, de súbito, sentiu a mão de Fitz puxá-la gentilmente pelo braço. De sua garganta escapou um som constrito de surpresa e todo o seu corpo se retesou. De repente, se viu envolvida pelos braços de Fitz, uma distância quase nula entre seus rostos.

— Talvez esse seja o momento – disse Fitz em um sussurro, olhando-a de maneira penetrante, antes de capturar os lábios dela nos seus. Durante o beijo, Jemma foi relaxando em seus braços e se entregando aos poucos ao desejo que crescia à medida que o beijo avançava, evoluindo para algo mais ardente… — Eu esperei tanto por isso — Fitz comentou, perdendo-se naquele desvario, enquanto deslizava o trench coat que ela usava pelos seus braços.

— Eu também — Jemma respondeu, já sem fôlego.

Eles despiam um ao outro sem demora enquanto caminhavam com passos incertos e vacilantes em direção à cama. Jemma sentiu a frieza e maciez dos lençóis da cama de Fitz em suas costas ao colidir contra o colchão. Em contrapartida, sentiu o peso bem vindo e o calor do corpo do engenheiro sobre o seu.

Um sorriso pleno estampou seu rosto enquanto ela apreciava a impetuosidade dele sobre si, genuinamente feliz por estar ali, nos braços de Fitz, o lugar ao qual pertencia. As pontas de seus dedos percorreram as costas dele, arranhando-as vez ou outra com suas unhas, mas ele não parecia realmente se importar. Os sussurros incongruentes, os arquejos que escapavam de suas gargantas e o ruído oriundo do atrito entre seus corpos eram os únicos sons a preencherem o ambiente. Eles pulsavam em total sintonia, em uma frequência precisa, seus corpos ondulando harmoniosamente, ambos completamente perdidos e entregues àquele frisson, em uma busca desesperada por prazer.

O pensamento que perpassou a mente de Jemma foi o de que estava sendo ainda melhor do que aquela primeira vez confusa entre eles. E que ela não poderia estar mais exultante ao perceber que tudo valera a pena. Era ali que toda a sua história culminava. Ela estava se sentindo realizada. Enquanto a racionalidade a abandonava e Jemma se entregava ao desejo e delírio de se sentir tão intimamente conectada a Fitz, sua boca se entreabriu, deixando escapar um gemido lento e prolongado de deleite, sua musculatura se contraindo e, então, relaxando, indicando que havia chegado ao ápice. E nunca antes havia sido tão bom.

Ela ainda comprazia-se dos espasmos e arrepios provenientes de seu orgasmo a percorrerem todo o seu corpo quando, enfim, sentiu o prazer dele invadi-la.

Ambos ainda procuravam recobrar o ritmo natural de suas respirações, quando Fitz olhou dentro dos olhos de Jemma. E ela notou que aquele brilho inconfundível que desaparecera nos últimos tempos, estava de volta. E se viu grata por isso. Ela levou as mãos ao cabelo dele, os dedos correndo por entre os fios.

— Eu te amo tanto! – Jemma teve apenas forças para sussurrar, a respiração ainda descompassada.

— Eu também te amo, Jemma – ele proferiu no mesmo tom – eu sempre te amei – concluiu antes de beijá-la novamente.

*

Ela acordou no meio da madrugada, desorientada e receosa de que sua noite com Fitz tivesse sido apenas um sonho. Mas não. Ele estava lá, logo atrás de si, dormindo profundamente e com os braços ao seu redor. Jemma ronronou um pouco e se aninhou ainda mais nos braços do único homem que verdadeiramente amava por baixo das cobertas que os acalentavam, evitando que o frio da madrugada açoitasse suas peles nuas.

De qualquer forma, o calor que o corpo de Fitz emanava em contato com o seu era o suficiente para aquecê-la.

Jemma quase não conseguia acreditar que aquela era a primeira vez que dormiam juntos. Ela esperava que fosse a primeira de inúmeras que viriam pela frente a contar daquela noite.

Notas finais
Whoa! O próximo é o último ;)