Entrelinhas Do Destino
5 Planto
Notas iniciais
Ainda olho no olho, o mesmo horizonte, a mesma hora, o mesmo minuto.
Ele a olha e se lembra que nunca esteve tão perto como agora, a distância era mínima. Não se atreveu a meter-se a besta, sabia que não estava de frente a qualquer uma, aquela era Lana, o derradeiro mar que banhava o sertão.
Ele tremia e se perguntava o porquê disso, e ela lá, pairando o olhar sobre ele, sem conceder-lhe um único pronome, verbo, substantivo, nem mesmo uma sílaba.
Em meio a esta situação, ele ficava cada vez mais encabulado, inseguro e sem ação, enquanto ela só continuava a observar aquele marasmo.
Gotas e mais gotas de cristais, respingos e mais respingos daquela preciosidade, seus corpos agora eram relicários transbordados por gotas de chuva. Nunca acorreu nada do tipo, não com aqueles dois, não na mesma frequência, não no mesmo ambiente, e não no mesmo encantamento.
*
Às nove e meia da manhã de um dia parcialmente nublado com chuviscos, lá estava Alberto, sua cólera se torna visível a qualquer um que se atrevesse acalmar a sua adrenalina ou atravessar seu caminho, verdadeira e nitidamente nervoso com algum fato que lhe aconteceu.
Queria ele que estivesse nervoso apenas por ter brigado com sua mulher, mas ela já não estava mais nesse mundo para isso ser possível. Por trás do volante guiava-se à perdição, isso era parcialmente uma tradição ou uma legislação. Naquele dia ele acharia um novo caminho, sem saber ou sem dar importância ao fato de que estamos sempre sujeitos ao último adeus, que sempre traz consigo a dor, aflição e desespero. Ao morto, nem suas póstumas memórias vão dizer sua origem, somente os que ainda perambulam em solo firme e concreto recordarão do tal finado e, mesmo assim, não saberão de seus pensamentos mais profundos, talvez nem mesmo dos mais superficiais.
Cento e dez, cento e vinte, cento e sessenta, duzentos quilômetros por hora, sempre era mais emocionante depois dos duzentos... e mais perigoso também. Uma brusca freada numa rodovia úmida e sendo alvo de minúsculas gotas d'água... 160, 120, 80, 40, 20 e... ufa, se safou! Por pouco não era cortada sua vida como um tecelão corta um tecido. O carro girou uma, duas, três vezes e não lançou-se contra um outro carro por pouco. O carro estava no acostamento, e sabe lá como foi parar ali. Sendo assim, Alberto recostou sua cabeça no volante e, por segundos, sentiu suas entranhas bem próximas a garganta, seu ódio evacuado e seu orgulho sendo despido e jogado contra a atmosfera.
Estava trêmulo, suava frio, era bombardeado por suas recordações, seu passado. A culpa lhe preencheu, o céu não era o mesmo que via quando era um menino, de quando era jovem e sentava-se, olhando para cima, deslumbrado com a beleza e grandiosidade daquele céu, a vida há muito já não era a mesma. Alberto estava desalmado, cheio de proteções, vazio de amor. Fechou os olhos, com o suor frio ainda escorrendo pelo seu rosto e a respiração finalmente voltando ao normal. Tarde e noite, idas e vindas, seu juízo partiu. Alberto adormeceu, inconsciente.
“Trim! Trim! Trim!” Esbravejava o despertador, comumente chamado de vida. “Acorde filho, acorde! Ainda não é hora de partir.”
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