Notas iniciais
"Fonte pura e cristalina gela o osso e me guia Inocentes garotos Inocentes garotas"

Dois anos haviam se passado, os confrontos entre a mãe e o padrasto tornavam-se cada dia mais constantes e violentos. Apesar de, às vezes, existirem aqueles dias de paz e clima bom, tudo se encaminhava àquele velho e desgraçado conhecido inferno, trazendo de volta os danos psicológicos, os hematomas e a dor de sentir-se sozinha e dependente de quem mais detesta. Volta de novo aquele velho pensamento irracional de que todos que estão à sua volta são apenas almas, sendo ela, assim, a única coisa real, a única coisa com a capacidade de entender, o único no meio dos porcos sendo racional, se afundando cada vez mais no inferno.

*

Enquanto isso, na casa de Leonardo, tudo se encontrava tranquilo, a mesma monotonia, a mesma rotina, o mesmo cabelo, o mesmo rosto, o mesmo, mesmo, e mesmo assim sempre há aqueles exigindo cada vez mais desse mesmo. Mas esse mesmo queria se libertar, libertar-se da mesmice e viver algo diferente, sem ser controlado pelos pais como se fosse uma máquina.

Desesperadamente com sede de bater as asas, sair da forca e pôr o pé na estrada. Entretanto, nada será fácil para alguém que sempre se limita, mesmo tendo extrema capacidade de exercer qualquer atividade, sendo ela física ou mental. Ele não vivia num ambiente conturbado como Lana, mesmo assim o próprio ambiente o deteriorava, o oprimia, o chateava, mostrando assim que nada é mais destrutivo que a nossa mente, independente do local de vivência, independente dos traumas, independente das conquistas e derrotas, a mente sempre dá um jeito de nos inferiorizar, nos tornando bastardos.

Mas tudo a sua volta parecia melhorar quando ele parava para observar sua vizinha, com toda aquela sua rebeldia: discutia com os pais, saía quando bem entendia. No entanto, ele não a invejava, apenas encantava-se cada dia mais com a única capaz de o tirar de seu inferno pessoal.

Na escola, ele tinha outras válvulas de escape, suas amizades, que sempre o tiravam da monotonia, o levavam para o que alguns chamavam de “mau caminho”. Leonardo sempre se controlava para não ir longe demais em seus momentos de rebeldia entretanto, às vezes, somos levados pela emoção do momento sem perceber.

—E aí, Léo? – é seu amigo Lucas, que chega com a mesma cara maliciosa de sempre – Tá a fim de sair com a gente hoje?

Léo acabou aceitando, a ideia deles era fazer uma festa, na casa de um dos garotos, que morava sozinho. Leonardo conseguiu sair com a desculpa que iria estudar na casa de um amigo. A festa teve apenas bebidas alcoólicas. Mas, as festas acabaram tornando-se mais constantes e mais perigosas, além de álcool, drogas de todos os tipos, sexo e desafios perigosos. Ele não se preocupava em usar tudo o que tinha direito, trazendo uma breve sensação de liberdade e felicidade, que só durava até a manhã seguinte, quando ele acordava com a cabeça latejando, a casa toda suja e outras pessoas na mesma situação que ele, ou pior. Era deprimente todas as manhãs correr para o banheiro e ajoelhar-se no chão já todo vomitado e botar tudo pra fora, era deprimente olhar aquelas pessoas na mesma situação que ele. Será que valia mesmo a pena aquela curta sensação de liberdade se o dia seguinte era assim?