Entrelinhas

1 Capítulo Único


Era seu quinto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, fora nomeada monitora e tinha as melhores notas de sua turma, mesmo tendo nascido trouxa e nunca sequer ter imaginado que existia qualquer uma das matérias que agora estudava. Dirigia-se ao dormitório quando Gina lhe dissera que a Vice-diretora da escola e diretora da Grifinória a aguardava em sua sala.

Nunca era uma sensação tranquilizadora saber que Minerva Mcgonagall desejava falar-lhe. No terceiro ano a professora de Transfiguração lhe permitira usar um Vira-tempo um artefato perigosíssimo se usado errado, além de ser necessário uma permissão expressa do Ministério da Magia para que um bruxo menor de idade pudesse tê-lo sob seu domínio, e a professora Mcgonagall se arriscou por ela, nunca esqueceria aquele gesto, lhe marcara para sempre aquele voto de confiança.

Bateu três vezes na simples e nada altiva porta de carvalho a sua frente, uma voz séria e polida vinda de dentro do aposento ordenou sua entrada.

—Srta. Granger, que bom que veio. -A encarava por cima dos óculos quadrados. -Sente-se, por favor. -Apontou a cadeira a sua frente.

—Obrigada, professora. -Sentou-se rigidamente. -Aconteceu alguma coisa?

—Bom, por enquanto, não. -Apertou o xale de estampa escocesa ainda mais ao corpo. -Mas quero me antecipar a eventuais, problemas, que possam vir a aparecer. -A mulher a encarou profundamente, suspirou e perguntou. -Srta Granger, seus pais são trouxas não?

—A senhora sabe que sim, professora Mcgonagall. -Estava confusa, a chefe da Grifinória sabia que ela nascera trouxa, até conversara com seus pais quando no terceiro ano estava em posse de um Vira-tempo. -Há algum problema nisso?

—De minha parte, nenhuma, você sabe disso. -Seus olhos mudaram de expressão. -Mas para a mulher que de hoje em diante lecionará Defesa Contra as Artes das Trevas, sim. -Ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas se encarando, era difícil explicar a sincronia que tinham. -Ela fará de tudo para prejudicar aqueles que nasceram trouxas, e a senhorita em especial, tem mais agravantes para ser perseguida com mais afinco.

—Eu? Não entendo, por que ela faria isso?

—Porque... Porque... -A mulher assoou um lenço xadrez. -Porque é a melhor amiga de Harry Potter e porque Dolores Umbrigde sabe que coloquei minha reputação em risco quando me responsabilizei pela senhorita, quando estava em posse do Vira-tempo.

—Entendo professora. -Sabia que Minerva Mcgonagall não dava alertas sem fundamentos. -Me, me desculpe por todo esse transtorno. Nunca foi minha intenção.

Não sabia o que dizer ou pensar, inúmeras coisas terríveis passaram por sua mente, encarar os rígidos e penetrantes olhos diantes de si causava um mix de temor e cumplicidade. O mais estranho em todas as conversas que tivera com a diretora de sua Casa é que o silêncio falava mais do que qualquer coisa que tivessem conversado.

—Hermione... -A mulher de óculos curvou levemente o corpo em direção a escrivaninha que as separavam, as pontas do xale impecavelmente sobreposto as roupas bruxas encostava no tampo do móvel. -Com Umbrigde todo cuidado é pouco e toda cautela é necessária, preste atenção... -Seu olhar era duro, mas a jovem só conseguia se concentrar no perfume meticulosamente adocicado da mulher de xadrez. -Temo que coisas ruins passem a acontecer em Hogwarts, tanto para alunos quanto para professores...

—Mas Minerva... -A professora ergueu a mão em um pedido de silêncio, e lançou-lhe um olhar de repreensão. -Quero dizer, professora.

—Por isso independente do que aconteça não chame a atenção de Umbrigde, me prometa Herm... Srta Granger. -O olhar da mais velha suavizara, mas para Hermione essa expressão era ainda mais aterrorizante, entendera a mensagem.

—Como quiser professora. -Baixou os olhos não podia mais sustentar olhar dela.

—Por hora, não tenho mais nada a lhe dizer.

Ao terminar a frase, um gato cinza com quadrados ao redor dos olhos surgiu em cima do móvel, ao tempo que a mulher atrás do mesmo sumira. Hermione não conseguiu segurar o sorriso. Afagou o gato cinzento atrás das orelhas quando este pulou em seu colo, o felino a encarou por instantes antes de saltar em direção à saída. Ao abrir a porta da sala o gato encostara a cabeça em sua perna, e se pôs a andar altivamente a sua frente pelos silenciosos corredores do castelo.

—Hihihihi. -Uma risada infantil soou a suas costas, ao virar-se em direção ao som, a nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas a olhava com uma prancheta em mãos. -Com licença mocinha, mas a senhorita não deveria estar em seu dormitório? -Hermione sequer pode responder a mulher com cara de sapo continuou seu monólogo. -Grifinória não é? E ainda por cima monitora. -Falava para si mesma.

—Dolores... -Uma figura séria e magra sugira ao seu lado. -Receio que a caiba a diretora da Grifinória, no caso eu, avaliar as ações dos membros de minha Casa.

—Ah! -A cara anfíbica assustou-se. -Minerva, não a tinha visto. -Parou de anotar na prancheta. -Essa linda menininha... -Fez menção de tocar o rosto de Hermione, mas Minerva postou-se a sua frente e a mão de Umbrigde parou no ar. -Estava perambulando pelos corredores do castelo em horário inadequado, devo lembrar que estou aqui a pedido do Ministro da Magia, para verificar a eficácia dos métodos de ensino desta instituição.

—Eu sei bem o que você está fazendo aqui, Dolores. -Minerva lançou a mulher um olhar de repugnância. -Hogwarts agradece seu apresso pelo regimento, mas a srta. Granger estava em minha companhia e como você mesma disse ela é monitora e da casa da Grifinória, então tinha assuntos a tratar com ela.

—Hihihihi, eu posso imaginar que tipos de assunto você tem a tratar com ela. -Seu tom era venenoso.

—Não estou entendendo onde você quer chegar Dolores. -Semicerrou os olhos.

—Até onde sei a Casa da Grifinória possui mais cinco monitores, mas estou vendo apenas a... -Um sapo refletindo sobre a vida teria a mesma expressão de Umbrigde. -Senhorita Granger, não? -Olhou a jovem dos pés a cabeça. -Claro que sim, deveria ter imaginado. A menina que você se responsabilizou pela posse do Vira-tempo. -Seus olhos estavam fixos na garota. -Você é nascida trouxa.

—Eu sou, professora.

—Minha doce criança, não foi uma pergunta. -A mulher de rosa sorriu. -Minerva sempre gostou de trouxas, seu ex-marido é um não? -As narinas da mulher de óculos se dilataram.

—Oh! -Fingiu surpresa. -Não sabia que o Ministério andava tão ciente da vida particular dos professores de Hogwarts, pensei que o assunto mais preocupante no momento fosse o retorno d' Aquele-que-não-deve-ser-nomeado.

—Mentira! -A mulher-sapo bufou. -Isso é uma mentira que aquele garoto Potter, o protegido de Dumbledoore, anda contando, nada mais. -Encerrou o assunto com tom infantil. -Só espero que a sua protegida — Deu ênfase à última palavra. -Não goste de contar mentiras, para o bem dela. -Se tentara soar ameaçadora nada mais foi do que ridícula.

—Vamos srta Granger. -Chamou Minerva lançando a Hermione um olhar entendedor. -Já é tarde e amanhã as aulas retornam.

—Aiai, Minerva. -Ouviu-se um muxoxo quando as grifinorias deram o primeiro passo. -Estou realmente desapontada com você, que Dumbledore tenha um protegido e trate-o com preferência já era de se esperar, mas você. -Acenou negativamente. -Eu não esperava de você esse tipo de comportamento. -Enfatizou a última palavra. -Hogwarts precisa de uma boa dose de disciplina, deixar nossas crianças sob a proteção de alguém com condutas tão questionáveis como Dumbledore, foi um erro. -Sorriu. -Mas não se preocupe, o Ministro colocará tudo nos eixos. -Falou com um tom de quem tenta tranquilizar alguém.

—O professor Dumbledore é um homem genial... -Hermione calou-se com um gesto de mão de Minerva.

—Alvo é, e sempre será, a melhor coisa que já aconteceu a Hogwarts. -A mulher de xadrez tremia de raiva. -Mas infelizmente, srta. Granger, a muitos falta discernimento para tal conclusão. -Deu as costas a Umbrigde e se pôs a andar.

Uma versão tomada de ira de Minerva Mcgonagall, caminhou a passou tão rápidos pelos corredores que Hermione corria para alcançá-la. Só quando estavam dois andares acima de onde haviam encontrado Umbrigde, a mais jovem resolveu falar.

—Você nunca me falou que havia sido casada.

—Não importa, foi a muito tempo.

—Por que não me disse? -Só então a mais velha parou e olhou duramente para a mais jovem.

—Por que você foi ao baile com senhor... Krum? -Aproximou-se, Hermione sentia a respiração da outra em seu rosto.

—Bem eu...

—Entenda... -Sua expressão era indecifrável. -Eu não quero explicações, não se preocupe. -Apressou-se em dizer. -Eu vivi muitas coisas, mas mesmo que você tenha sido a mais bela e sublime delas, nós não poderemos vivê-la, não de verdade. -Tocou o ombro da garota com gentileza. -Mas desejo à você, tudo de mais feliz que o mundo possa lhe oferecer.

—Não precisa se colocar em risco para me proteger.

—Resposta errada, srta. Granger. -Sorriu. -É tudo o que restou, e isso eu posso fazer.

Hermione não soube o que fazer ou falar, sentiu o toque em seu ombro cessar, e a inebriante mulher de óculos retomou seu passo apressado e sua pose impecável. Manteve-se a alguns passos atrás de Minerva, sempre estaria a passos de distância dela, sempre próxima, mas para sempre Mcgonagall seria inacessível para ela.

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