Entrelaços

1 Capítulo Um


O despertador tocou no mesmo horário de todo dia, mas por menos pior que seja, era sexta-feira. Relutei em desligá-lo e aproveitar mais alguns minutos na cama antes de ir para minha tortura diária.

Não quero nem um pouco estar naquele escritório hoje e nem em qualquer outro dia que estivesse vivo, aquilo me faz mal. Fui diagnosticado com depressão assim que terminei a faculdade. Minha psiquiatra me recomendou uma série de remédios que talvez me ajudasse a sair desse marasmo em que me encontrava, mas era só um talvez. Nunca acreditei que alguns comprimidos pudessem ajudar a me sentir melhor, eu não tinha capacidade para isso, eu nasci para sentir essa tristeza.

Olhei no relógio e eram seis e meia da manhã, levantei da cama, respirei fundo e fui tomar banho. Meus cabelos pareciam estar pior nessa manhã, odiava passar em frente ao espelho que tinha no meu quarto. Ele sempre me mostra um alguém que eu já estou cansado de sentir, um alguém que é incapaz de sentir feliz nessa vida. Estava com o rosto amarrotado ainda por ter acabado de acordar, meus cachos castanhos claros estanham desgrenhados e por pouco não formava um black power sobre minha cabeça, meus olhos acompanhavam a tonalidade do meu cabelo, minha barba estava por fazer e eu não estava disposto a faze-la essa semana. Tomei um banho lento e aconchegante, não queria ir ao trabalho hoje. Sou gerente comercial de uma empresa na qual era localizada no Centro do Rio de Janeiro, um trabalho desgastante e que não me trazia prazer algum. Vesti uma calça jeans e uma camisa social de cor rosa claro, era sexta-feira e a empresa possuía o costume do casual friday na qual os funcionários não precisavam se vestir socialmente como nos outros dias da semana, o que era um alívio. Abandonei a gravata no fundo da gaveta, peguei as chaves do carro e fui para o trabalho. Como sempre e para meu desespero,sempre havia um vizinho à espera do elevador quando eu saísse e para meu azar, dessa vez, tinham duas mulheres que eram minhas vizinhas de apartamento.

- Bom dia — disseram

- Bom dia — respondi entre os lábios

O elevador chegou, abri a porta e esperei que as duas entrassem e logo em seguida entrei.

- Está calor hoje não é? — perguntou uma das mulheres e rindo visivelmente constrangida. Não entendi o motivo para se sentir envergonhada

Olhei para ela e só então percebi que as duas estavam de biquíni com uma canga amarrada na cintura.

- Um pouco — respondi fitando a porta do elevador

Chegamos no térreo e a porta se abriu, as duas saíram e disse:

- Tenha um bom dia

- Você também — respondeu a outra

Pareci ouvir um murmúrio como se elas tivesse me chamado de ‘’estranho’’ enquanto a porta do elevador se fechava para que eu descesse ao subsolo do prédio, onde ficam os carros. Ignorei. São vestígios da depressão, acho que as pessoas me acham uma anormalidade, e no fundo, eu sou. Tenho tudo o que uma pessoa precisa para emitir sorrisos para a vida, para que ela lhe retribuísse da melhor forma. Exerço um cargo na qual podia manter um padrão de vida razoável, moro em um dos bairros tradicionais do Rio de Janeiro: Copacabana. Em um apartamento que havia comprado, possuo um carro do ano, faço viagens ao exterior regularmente, mas nada disso pudesse fazer com que eu emitisse um sorriso. Eu sou infeliz, e faço questão de dizer isso a mim mesmo a cada dia que passa.

Enquanto dirigia para o trabalho pela Avenida Atlântica, vislumbrei as ondas do mar quebrando na areia, as pessoas caminhando, correndo ou praticando algum esporte na orla e essa era a única coisa que me faz sentir menos pior, não gosto de dizer que sou feliz, porque isso não existe: pedalar aos fins de semana.

Enquanto pedalo, sinto que tudo que existe dentro de mim diminui gradativamente, o vento que bate no meu rosto faz que eu me sinta livre, mas ao voltar para casa, tudo aquilo some e a sombra negra de tristeza me consome de volta.

Meus funcionários na empresa já haviam chegado no escritório. Passei por eles dando bom dia e indo direto para minha sala. Sentei na minha cadeira, liguei o computador, abri a minha caixa de e-mails e fui lendo um a um. Nada demais havia acontecido.

Chamei Marilene, uma das minha funcionárias e designei as tarefas para ela daquele dia, ela sutilmente torceu os lábios em desaprovação antes de sair da sala.

Respirei fundo. Eu sei que meus funcionários não me suportam, mas quem gostaria de ter um chefe que não é feliz e que não consegue fazer mais ninguém feliz? Não poderia culpá-los por estarem insatisfeitos. Eu ouço os comentários que fazem entre eles, mas não posso demití-los por dizer a verdade. Como Joana disse uma outra vez, eu era apenas uma pessoa incapaz de ser competente na arte de ser feliz.

Quero logo que esse dia acabe e que eu consiga me sentir menos pior amanhã, enquanto estiver pedalando, respirei fundo de novo e fui encarar meu último dia de tortura da semana.

Notas finais
Espero que gostem ;)
Por favor, comentem, critiquem, digam o que precisa ser melhorado.
Caso encontrem erros de ortografia, lingustico, por favor me informem!