Entrelaços

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Muito bem. Olá para você que veio aqui dar uma espiada. Olá para você também que ainda se lembra desta reles autora. Como vão? Fazem alguns meses desde a última vez e minha aparição é por conta de uma data muito importante para moi. Dia 21 de abril quer dizer alguma coisa? Feriado nacional, certo? Certo. Mas também é o dia que comemoro a conclusão de Traiçoeiro, que apesar de ter sido um tanto atacada, é até hoje meu projeto preferido. Fazem dois anos desde o último capítulo postado e a vida mudou tanto desde então. Eis que vi, alguns comentários na época (e outros de uns meses atrás) sobre uma continuação... É, não venho com uma continuação, porque uma autora precisa saber a hora de parar, MAS, por que não uma one-shot para que soubessem como está nosso casal? Assim surgiu Entrelaços, quando em um dia de nostalgia CS, fui dar uma olhada em como eles estavam. E decidi mostrar para vocês que ainda se lembram e amam essa história. Entrelaços é inteiramente para vocês e espero que gostem dessa breve visita.
Falei demais e agora irei deixá-los ler. Espero que gostem.
Boa leitura.

"E cruzam-se as linhas no fino tear do destino.

Tuas mãos nas minhas.”

Guilherme de Almeida

—Terá que fazer um pouco melhor do que isso que quiser ter chance, maninha. – Charles provocou a irmã caçula ao se defender de um golpe de espada que ela desferira contra ele.

Eu e Killian observávamos Charles auxiliar Grace nos treinos da mesma forma que fizera com Althea. Mas agora apenas ele instruía a irmã mais nova, sem a ajuda do pai que já não possuía os movimentos ágeis de antes.

Olhei para o rosto enrugado de Jones, que admirava nossos filhos como se fossem a melhor coisa que seus olhos azuis já tinham visto. Uns bons anos já haviam se passado... Vinte anos para ser exata desde que fomos agraciados com a paz de uma vida doméstica para nós dois, com três filhos muito bem criados, sendo que nossa mais velha, Althea, já se encontrava longe do lar tinha quase dois anos, desde que fora chamada para sua jornada.

Dois anos sem uma notícia angustiava tanto o meu coração quanto o de Jones, todavia, tentávamos esconder o melhor possível de Charles e Grace para que não se preocupassem tanto e desviassem o foco dos treinos.

—O que está olhando, senhora Jones? – aquele tom provocativo que Killian sempre usara, indagou fitando-me de rabo de olhos.

—Estou pensando em como agora está velho de verdade, senhor. – respondi, deitando a cabeça em seu ombro.

Killian suspirou pesaroso.

—Contra fatos não há argumentos... Infelizmente não posso mais te mostrar quem é o velho.

—Não se sinta mal, Jones. Você ainda dá um bom caldo. – confortei-o.

Ele sorriu divertido.

—Sempre me esforço para agradar minha senhora. – atalhou como um fiel súdito. – Grace está melhorando a cada dia. – comentou ao indicar com o queixo nossa caçula que com um movimento ágil abriu o escudo, defendendo-se de um ataque do irmão, enquanto rolava para longe.

—Nós estamos criando nossas filhas bem para se defenderem, Killy. Não se preocupe. Elas não serão donzelas indefesas como a mãe delas.

Killian me olhou de maneira cética.

—Você nunca foi indefesa, Emma. Apenas não sabia a força que tinha... Se tinha alguém indefeso nessa relação era eu.

—Claro. – retorqui com sarcasmo. — Porque era eu que ficava tentando-o a cada segundo, insistindo para que se entregasse para mim mesmo sem ter interesse de se casar. — debochei.

Ele deu um sorriso de quem não se envergonhava de nada.

—Você pode não ter ficado insistindo em uma relação fora do laços sagrados do matrimônio, mas que me tentava, ah, isso você fazia! Aquele jeitinho todo cheio de meiguice e inocência, tinha um poder sobre mim… — Jones me avaliou. — Na verdade, tem até hoje. — concluiu. — Mas mesmo sem “supostamente” saber se defender, venceu os caras maus e ainda voltou para mim.

—Se estamos juntos, foi tudo graças a você que não desistiu, quando eu já tinha.

Killian entrelaçou sua mão enrugada na minha e analisou nossos dedos.

—Eu nunca desistiria de ter você de volta, Emma. Nunca. Você me deu os maiores tesouros que esse pirata nunca imaginou que iria encontrar... Antes de nós conhecermos, nunca imaginei que esse seria o meu final. – indicou nós dois e nossos filhos com o gancho. – Depois que você entrou na minha vida e me convenceu de que eu poderia ter tudo isso, não consegui imaginar outra coisa para mim: envelhecer ao seu lado.

Aquela sensação deliciosa em meu estômago se agitou, como sempre acontecia desde a primeira vez que vi Jones. Eu o amava e a cada dia era capaz de me apaixonar por aquele homem a ponto de ter borboletas na barriga agitando suas asinhas rapidamente.

Sem pensar duas vezes, beijei-o, apenas porque era algo que eu nunca me cansava de fazer.

—Eu amo você, Jones... – murmurei ao abrir os olhos e encontrar aquela imensidão azul cheia de ternura e amor me fitando de volta.

—Isso não foi nem um pouco justo, Charles! — Grace gritou ao abandonar a espada e o escudo, os olhos apertados. — Seu desgraçado, traiçoeiro… — ela começou a xingar, o rosto vermelho enquanto tentava abrir os olhos. — Seu merda, vá para o raio que o parta!

Charles ria tanto que se inclinou para a frente. A expressão no rosto de Killian se tornou ainda mais encantada ao observar a filha mais nova.

—Eu a ensinei direitinho. — comentou orgulhoso -Não nega que é minha filha.

—Você não deveria sentir orgulho por Grace ter a boca mais suja que um marinheiro. — pontuei sem de fato estar brava.

Jones achara essencial como parte do treinamento de nossas filhas ensiná-las a xingar como homens do mar. Ele acreditava que um bom xingamento trazia mais força na hora da luta, pois deixaria a raiva mais aparente... Ou para descontar a raiva quando não pudesse usar a força física em alguém.

Segundo meu experiente marido um bom xingamento servia para as duas ocasiões.

—Mãe! — Charles gritou enquanto ria. Levantei-me assustada e vi Grace correr a toda com a lança empunhada com as duas mãos acima da cabeça. Seus olhos vermelhos ainda lacrimejavam formando lágrimas. — Ela ficou doida.

—Agora não adianta gritar pela mamãe, seu covarde! — retrucou Grace furiosa.

Jones se divertia com a cena. Para ele era incrivelmente engraçado presenciar duas pessoas que se amavam tanto, brigar daquela forma.

E Charles e Grace brigavam. Ao mesmo tempo que não viviam um sem o outro. Charles era superprotetor com a irmã mais nova na mesma proporção que adorava irritá-la. Claro que ele amava Althea, mas a relação deles era completamente diferente.

Althea e Charles aprenderam a lutar juntos. Ele era apenas dois anos mais velho que a irmã do meio. E Althea sempre fora muito mais independente do que Grace. Althea era mais centrada, mais consciente de qual seria seu futuro e o levava a sério. E como era paciente minha menina que teve que ir embora… Apesar de Althea ser fisicamente parecida com o pai, eu via muito de mim nela…

Enquanto Grace, apesar de se parecer muito comigo, sua personalidade era idêntica à de Jones. Pavio curto, sarcástica e muito intensa.

—Grace, não! – gritei ao vê-la atirar a lança em direção a Charles, que se abaixou por pouco antes de ser atingido. Aproximei-me deles, ignorando Killian que pedia para que eu os deixasse e corri até conseguir entrar na frente dela. — Você não pode se descontrolar dessa forma. Em uma batalha se fizer isso, você estará morta em dois tempos.

—Mas ele jogou terra nos meus olhos! — protestou.

—E você acha que seus inimigos irão jogar limpo o tempo todo? — inquiri com seriedade. — Grace, logo sua hora chegará da mesma forma que a minha chegou e que a da sua irmã também e você não será capaz de defender nem a si mesma, quem dirá o seu guerreiro.

—Bom... Então nisso eu serei igual a senhora. – retrucou, livrando-se do meu toque ao dar um passo para trás.

—O que quer dizer, Grace?

Ela olhou para mim com deboche.

—A senhora quase matou meu pai e a si mesma no processo. E agora exige disciplina e controle da minha parte?

—Eu exijo de você o que eu não tive. – atalhei, a voz dura. – O que não fui capaz de fazer. Assim como estou te dando o que nunca ninguém deu a mim para que me tornasse uma boa guerreira.

Grace abaixou a cabeça como se estivesse exausta demais e suspirou.

—E se eu não quiser ir embora como Althea teve que ir? E se eu quiser ficar aqui com a senhora e o papai? — perguntou. — Eu não quero ser a donzela ninguém. Eu quero só continuar sendo Grace Swan-Jones... Eu não quero nada disso. E se eu não quero nada disso, por que cargas d’água eu tenho que fazer?

Reprimi um suspiro longo e a puxei para baixo do meu braço, envolvendo seus ombros. Grace nunca achara atraente a ideia de se afastar de nós, principalmente de Killian, que não gostava também de ter que deixar suas menininhas irem para longe dele, onde não poderia protegê-las.

—Já tivemos essa conversa, Grace...

—Sim, sim. – resmungou. – Destino, descendente das Valquírias... Mas que culpa tenho eu? – perguntou. – Althea está longe tem dois anos e não sabemos se ela está viva ou se está vivendo com as Valquírias nos salões e servindo aos deuses. Eu não quero isso para mim! Eu quero ir a bailes e passar a tarde conversando besteiras com garotas da minha idade e não lutando com o meu irmão. Eu nem tenho amigas! – exclamou com agonia. – Eu sinto tanta inveja das filhas de Belle. – confessou. – Elas são tão lindas e educadas.

—E você também é linda e educada. – Jones retrucou, aproximando-se. – Por que acha que não é nada disso?

Grace olhou de forma cética para ele.

—Para começo de conversa, a minha boca é mais suja que a do Smee. – pontuou ao levantar um dedo. – A maior parte das minhas vestimentas são calças e não vestidos. – ergueu outro dedo esguio. – Eu tenho mais cicatrizes do que posso contar e minhas mãos são calejadas por conta de todo treinamento pesado que preciso ter. Eu não sou uma garota, sabe?

—Não você não é. – eu concordei. – Você é uma guerreira e deveria agradecer por nós estarmos ensinando-a se defender. Não tem ideia, Grace, de como é se ver em uma situação de risco e não saber como agir, porque foi criada atrás de fortalezas e tratada como algo que a qualquer momento poderia quebrar.

Killian a puxou para os braços, envolvendo-a com força e Grace descansou a cabeça no peito do pai, demonstrando o quanto se sentia segura naquele abraço.

—Também não me agrada a ideia de que tenha que aprender a lutar, porque um belo dia terá que ir embora. Não me agrada saber que não poderei protegê-la para sempre... Mas deve sentir muito orgulho do herdou de sua mãe, Grace... Se não fosse ela, eu provavelmente não teria durado muito mais.

—Ela quase o matou quando fez o que fez tentando protegê-lo. – murmurou exasperada.

Jones hesitou.

—Isso é bem verdade... Mas eu sei que ela fez isso pensando no melhor para mim, como sempre fez desde o início. Mesmo quando eu infernizava sua vida, sua mãe estava ali, pensando em maneiras de aliviar meu sofrimento e em formas de me fazer enxergar como a vida é linda e vale a pena... Ela achou que era esse motivo que havíamos nos conhecido e quando a hora surgiu, imaginou que eu conseguiria sem ela ao meu lado. – Killian sorriu e olhou para mim. – Sua mãe sempre acreditou que eu poderia fazer isso sozinho, que ela só estava ali para me mostrar o modo de fazer, o caminho a seguir. E provavelmente Emma estava certa e eu conseguiria, porém... Eu já me encontrava perdidamente apaixonado por essa mulher teimosa... Sua mãe me salvou com o amor dela, Grace. Não em um campo de batalhas. Nós fomos diferentes. Ela tinha que me salvar de mim mesmo... E por várias vezes eu a machuquei por estar machucado demais para deixar o amor dela entrar. Por várias vezes eu quase a perdi, por achar que não precisava ser salvo.

—Não gosto de ouvi-lo dizer isso. – Grace murmurou com desaprovação.

—Mas é verdade. Antes de sua mãe aparecer, eu estava perdido em sombras, Grace.

Cerrei o maxilar e olhei para longe. Lembrar daquele começo sempre me causava uma dor incômoda por saber que Killian viveu tanto tempo sem se sentir vivo. Vazio daquela forma.

—Ela trouxe a luz mais brilhante para minha vida. E me presenteou com as maiores riquezas que tenho na vida, seus irmãos e você, minha piratinha... Pense que esse dom, essa obrigação, é para salvar a vida de alguém. É apenas para o bem... E depois que tudo acabar, você poderá se dedicar aos bailes e conversas fiadas.

Grace o apertou mais.

—Eu amo você, papai.

—Também amo você, piratinha... Acho que deveria pedir desculpas a sua mãe. Você foi um bocado dura com ela.

Nossa filha assentiu e o soltou para vir se aconchegar em meus braços.

—Desculpe, mamãe. Eu sou grata por tudo o que a senhora faz pelo meu bem... Eu acho que só estou muito cansada e nervosa.

—Tudo bem, minha vida. – beijei sua testa. – Vamos encerrar os treinamentos pelo resto da semana, o que acha? Então iremos com sua avó escolher vestidos novos e agir como mulheres normais. – prometi para ela, sentindo sua risada reverberar.

Charles me cutucou e apontou com o queixo para a trilha que levava até o campo de treinamento. A postura dele se tornou rígida e o semblante preocupado ao ver a avó e o avô correndo pelo caminho irregular, com seus passos vacilantes e não tão firmes como antes.

Grace ergueu a cabeça para o observar os avós e seu corpo já ficou em alerta caso precisasse sair correndo em socorro deles.

Meus pais, já não eram os governantes do reino, cargo passado com muita animação para mim e Jones, porém ainda se encontravam até que muito fortes apesar da idade, com a língua afiada e debochada que os dois tinham, quando queriam provocar.

E vê-los correndo por aquele terreno, sendo que nos últimos tempos eles conseguiam cair até mesmo em um lugar plano, fez meu coração gelar ao pensar no acidente que aconteceria a qualquer momento.

—Emma! – Branca gritou com urgência, a voz enfraquecida. – Emma!

—Mãe, o que aconteceu? – corri até ela, que estava com o rosto enrugado todo corado pelo esforço. Não demorou muito para que meu pai chegasse até ela. David exibia um sorriso provocativo que dirigiu a Killian.

Tinha isso também. Meu pai nunca perdoara Jones por ter desvirtuado sua filha antes do casamento. Os dois se davam bem, porém David nunca perdia a chance de provocar meu marido sempre que possível. Quando Althea foi embora, Killian ficara um mês inteiro sem dirigir a palavra ao meu pai, após uma provocação.

—Ela voltou.

—O quê?! – grasnei, apertando as mãos delicadas de minha mãe.

—Althea está de volta. – informou.

Senti meu coração ficar leve e procurei Jones que já estava ao meu lado, abraçando-me com olhos embargados ao mesmo tempo que ria, um riso incrédulo de felicidade.

Meu pai também riu com júbilo, como se sentisse que finalmente estava recebendo uma recompensa que esperara por muito tempo.

—E ela não está sozinha. – David acrescentou com animação.

—Como... Como ficaram sabendo? – questionei, ainda sem acreditar e busquei o conforto de Killian, porque sentia que precisaria de um apoio.

Branca abriu o meu sorriso preferido, em que seus olhos se tornavam duas fendas brilhantes pelas lágrimas de felicidade e emoção.

—Os guardas informaram que alguém ultrapassou a fronteira... Alguém igual nós! Só pode ser ela, Emma! – pontuou com veemência, o pé direito bateu imperceptivelmente no chão, como sempre acontecia quando ela queria provar seu ponto.

—Althea! – Grace gritou com animação e assombro ao apontar para a mulher que vinha pela trilha a passos apressados, os cabelos negros identificando-a.

—Mamãe! – gritou ao nos avistar. –Papai!

Jones soltou um longo suspiro de alívio, enquanto murmurava uma prece com os olhos fechado. Abri os braços e corri ao encontro de minha menina que me envolveu com força, o rosto escondido em meu pescoço, enquanto se desmanchava em lágrimas. Senti-a tremer em meu abraço e a apertei com toda a força que eu podia, como para guardá-la dentro de mim e fazê-la esquecer todo o horror que deve ter visto naquele tempo longe de casa.

—Você voltou para mim. – falei, chorando também.

—Eu disse que voltaria, mamãe. Eu senti tanta saudades. Foi muito difícil... Eu achei que morreria... – deu uma pausa, afastando-se o suficiente para me olhar nos olhos. – Eu morri de medo, mamãe.

—Eu sei, minha linda. – engoli o soluço, acariciando o rosto dela. – Mas você conseguiu.

Althea pareceu envergonhada.

—Nós conseguimos. – murmurou. – Ele está aqui.

—Estou ansiosa para conhecê-lo... Vá dar um abraço em seu pai antes que ele comece a achar que não gosta dele.

Ela soltou uma risadinha trêmula de nervoso e de má vontade libertei-a do meu abraço para que que Killian pudesse matar a saudade da filha.

Ele passara noites em claro logo depois que Althea teve que ir embora.

—Pai. – chamou, a voz com toda a saudade do mundo e eu vi que apenas essa palavra desestruturou Killian como se fosse a primeira vez que ela o chamava dessa forma.

Ele deu uns passos vacilantes, claramente segurando o choro e a observou bem, os olhos azuis atentos, como se checasse que sua filha estava inteira, absorvendo cada mudança que acontecera. A cicatriz que começava no ombro e se perdia dentro da blusa que usava. Os olhos azuis como os dele, mais maduros ao mesmo tempo que mais suave. A postura relaxada de quem sabia que não havia mais perigos para enfrentar na vida.

—Eu cumpri... – Althea começou sem graça e pigarreou. – Parcialmente minha promessa, papai. – contou. A expressão de Jones ficou confusa. – Eu prometi que voltaria para casa... E voltei.

—Eu sempre soube que conseguiria cumprir essa promessa... Tão forte minha menina... Eu a amo tanto, princesinha. – Killian finalmente abraçou-a e deu um beijo demorado em sua têmpora, enquanto sussurrava algo incompreensível, que apenas nossa filha conseguia ouvir.

Ouvi um barulho vindo das florestas e virei a cabeça atenta, assim como meus pais que procuraram a origem do som. Um homem com roupas simples, descia a trilha com cuidado, segurando um pacotinho nos braços pequeno demais para o seu tamanho.

—Então, papai... – ouvi Thea começando, claramente nervosa. David abriu um sorriso de pura alegria ao se dar conta do que sairia da boca da neta a seguir e Branca balançou a cabeça em clara decepção com a atitude infantil do marido idoso. – Eu sei que... Havia me pedido para esperar... Mas existem certas coisas que... Simplesmente acontecem... – ela tossiu, constrangida. – Entre um homem e uma mulher, que o senhor, certamente entende... Serem impossíveis de controlar.

Killian limitou-se a encará-la com seriedade. Percebi que ele fazia um trabalho hercúleo para deixá-la terminar, mas estava claro em seus olhos que ele já imaginava o que viria a seguir.

—Como deve imaginar... Eu conheci meu guerreiro... E lutamos juntos... Assim como tivemos uma filha juntos também. – contou, suavizando a voz, como se ao fazer isso, conseguisse suavizar a forma que o amado e ciumento pai receberia a notícia. – Nós tivemos que esperá-la nascer antes de voltar para casa. Foi uma gravidez um pouco conturbada, mas nós duas estamos bem e ela é linda. – concluiu, a voz emocionada que apenas mães possuíam ao falar de seus filhos. – Por favor, não fique triste e nem bravo comigo, papai. – pediu.

David bateu palmas ao soltar um “eu sabia!” com triunfo ao mesmo tempo que Althea olhava com aflição para o rosto de Killian que havia perdido a cor. Charles e eu nos aproximamos dele, para se caso ele precisasse de apoio.

Jones fechou os olhos e sacudiu a cabeça, como se para se livrar das palavras.

—Você... Você o quê? – inquiriu incerto, a voz engasgada.

Althea sorriu e segurou em sua mão.

—Eu tive uma filha, papai... E mal posso esperar para que a conheça.

Meu pai exibia um sorriso debochado para meu marido.

—Ah! – exclamou. – Como a vingança é realmente doce.

Branca bateu em seu braço com toda a força que uma senhora de sua idade possuía para tentar conter o contentamento de meu pai.

Killian deu dois passos para trás, virando-se de costas para nós, o choque estampado em seu rosto. Ele balançou a cabeça e passou a mão pelos cabelos.

Nisso o homem saiu silenciosamente de seu esconderijo atrás de uma das árvores e se juntou ao grupo. Minha menina sorriu para ele de um jeito todo amoroso que eu conhecia muito bem.

Encarei o rapaz com atenção, os traços familiares em minha memória e ao me pegar observando-o, o guerreiro sorriu em reconhecimento e fez uma leve mesura, que fez meu coração parar por um segundo ao ver as duas covinhas adoráveis em suas bochechas.

—Como você teve uma filha se você é uma criança, Althea? — Jones perguntou exasperado ao se virar. – Uma criança cuidando de outra criança! – explodiu incrédulo.

—Roland? – indaguei, ignorando a cena de meu marido.

—Sra. Jones... Fazem alguns muitos anos. – respondeu sem graça.

As orbes azuis de Killian se fixaram no rosto do rapaz, finalmente notando-o ali.

—Roland? O filho de Robin?

—Eu mesmo, senhor Jones.

—MAS VOCÊ É OUTRA CRIANÇA! Eu... Eu... – ele gaguejou, indicando com a mão algo como a altura que Roland tinha a última vez que o viu. – Meu Deus, Emma. Meu coração! – exclamou levando a mão ao peito. – Chegou a minha hora, eu posso sentir. Já vejo a luz...

—Papai. – Grace chamou preocupada ao correr para amparar o pai, enquanto eu revirava os olhos.

—Para de drama, Jones. – pedi. – Está assustando o menino.

Killian cerrou os olhos como me acusasse.

—Um menino não... – ele mexeu a boca formando “foderia” sem som. – A minha filha... Grace, prometa-me que você nunca vai ir atrás de seu guerreiro. – suplicou.

—Killian! – minha mãe e eu chamamos sua atenção.

—Tudo bem... Mas prometa-me que quando o encontrar, irá apresentá-lo para mim antes de abrir as pernas para ele?

—Papai! – Althea gritou o rosto vermelho como se todo o sangue do corpo tivesse ido parar em suas bochechas.

Grace assentiu, como se algo no semblante do pai a deixasse assustada e Jones assentiu satisfeito. Killian apertou o ombro de Charles e pediu um tempo sozinho, levando nosso filho consigo, que o seguiu, uma expressão melancólica ao olhar a irmã que acabara de chegar e que não conseguira nem ao menos abraçar.

[...]

Killian andava de um lado para o outro em sua cabine, tecendo xingamentos e ameaça para o futuro marido de nossa filha. Charles me contara aonde o pai havia se refugiado, após uma ameaça de que eu planejaria um chá da tarde com todas as moças solteiras do reino e o deixaria como anfitrião. Bastou isso para sua lealdade para com o pai caísse por terra e ele o dedurasse.

—Eu não quero saber, eu vou matá-lo por ter desvirtuado a nossa filha. – rosnou.

Olhei para a cama da cabine e fui me esparramar nela.

—Se bem me lembro eu fui desvirtuada nesta cama. – comentei calmante. Jones me encarou brevemente.

—Você era diferente.

—Diferente como?

—Não tinha pais.

—Eu tenho pais! – protestei.

Killian coçou a testa com o gancho.

—Mas não sabíamos se estavam vivos. E eu já havia a pedido em casamento. Você que recusou, não venha comparar o nosso caso com o de Althea. A filha da boa mãe sabia muito bem que estávamos vivos... E como eu implorei para ela que aguentasse para que eu pudesse dar a benção. Era só isso que eu queria, dar a minha maldita benção... Você sabe que eu pedi a benção para o Sr. Mills quando fui procurá-la no condado?

Neguei com a cabeça.

—Pois bem, eu pedi... Eu nunca vou poder ser um pai normal e entrar com suas filhas na igreja ou dar a minha benção ou mimá-las durante a gravidez, porque aparentemente eu sou um nada para elas, assim como meus pedidos.

—Não diga isso, Jones. Nossas meninas o amam. Althea ama tanto você, Killy... E precisa ver como está chateada por você ter sumido o dia todo.

—Sabe o que eu acho? — quis saber. — Pouco.

Estiquei a mão, convidando-o a se deitar comigo. Com certa relutância, Killian se deitou e eu me ajeitei em seu peito.

—Nossa neta é linda, Killian. – contei. – Tão sorridente, mesmo sem um dentinho na boca. Não se prive de momentos raros porque está com o orgulho ferido. – pedi.

Jones suspirou.

—Não estou pronto ainda, Emma. É demais. Demais pensar em nossa filha cuidando da filha dela... Preciso prender Grace para que ela não me decepcione também.

—Althea não o decepcionou, Killian. Pare de dizer isso. Você deveria estar feliz porque ela está bem e não agindo como um rapazote... Teremos um jantar para comemorar o noivado dos dois, porque diferente do que acredita, Althea não se casou ainda pensando em você.

—Ah, grande coisa. – soltou com sarcasmo. – Na hora de fazer a criança não pensou em mim, muito engraçado... Não importa agora também. Casa se quiser, se não quiser também, a vida é dela. – deu de ombros, deixando transparecer certa mágoa. – Agora entendo o Dave, preciso pedir desculpas a ele.

Ficamos deitados em silêncio. Ali, naquela cabine, era um dos meus lugares preferidos no mundo. Era como ser mandada de volta ao passado, onde tudo começou. Eu me sentia nostálgica ali... Em alguns momentos morria de saudade de como um dia tudo fora, do nosso início.

—Eu a desejei desde o primeiro instante, quando eu a observava por causa daquele maldito trabalho. Fiquei louco no nosso primeiro beijo, bem ali, naquela porta. – indicou com o gancho. – Aceitei que a amava pouco tempo depois... Morri de culpa quando a perdi, por não tê-la protegido. – Killian suspirou. – Jurei que faria tudo para agradá-la se eu pudesse tê-la de volta... E isso eu vou fazer, Emma. Vou ir e agir como o homem adulto que sabemos que não sou. – brincou. – Conversar com o rapaz que eu conheci e considerei como um filho quando pequeno e que agora está dormindo com a minha filha.

—Viu só como não é tão ruim se colocado dessa forma? – perguntei ao afagar seu rosto. – São os entrelaços da vida, Killian. A nossa vida está toda entrelaçada desse modo... Nós conhecemos Roland e nos encantamos por ele.

—Depois que eu o conheci, tive certeza que queria ser pai. – confessou.

—Está vendo? Nós o conhecemos, porque era necessário, para que Althea nascesse. Nada é por acaso. Nós não descobrimos depois que seu pai, o conde, conhecera minha mãe em um baile antes dela conhecer meu pai? – lembrei. – Isso era o destino mostrando que estávamos entrelaçados e mais para frente estaríamos aqui, juntos.

—Pergunto-me se já conheci o guerreiro de Grace. – balbuciou, os olhos fechados.

—Nunca saberemos, Killian, até que chegue o momento. – ele suspirou com aceitação e me virei, ficando por cima dele. – Você é o homem mais maravilhoso desse mundo, Killy. E eu o amo e fico feliz em saber que será você que irei amar em todas as outras vidas que eu venha a ter.

—Eu a amo tanto, tanto. – ele me beijou, com a mesma vontade de quando era jovem. Jones realmente se esforçava. – Ainda bem que teremos outras, porque uma vida só não é suficiente para amá-la. Vamos agora, que apesar de dizer o contrário, eu estou doido para conhecer minha neta. Eu sou avô, dá para acreditar? – questionou todo orgulhoso ao se levantar da cama e estender seu gancho para me ajudar. – Landon vai adorar saber disso.

Revirei os olhos, aceitando sua ajuda para me levantar.

—Você quer dizer que vai adorar se gabar para Landon que agora é avô?

Jones ergueu uma única sobrancelha.

—É óbvio.

—É óbvio. — murmurei. — E o deixará saber de seu faniquito?

Ele me encarou como se eu fosse louca.

—Eu não tive um faniquito… Eu apenas fiquei muito surpreso ao ponto de quase morrer do coração. — justificou-se. — Não era você que estava com pressa para que fossemos logo? — estalou a língua, como sempre fazia quando não queria dar o braço a torcer.

[...]

O jantar foi um momento um tanto tenso, em que Killian tentava esconder o encantamento pela nossa neta para não estragar a encenação que insistia em fazer. Manteve uma certa carranca durante todo o tempo, mas conversou sem atacar ninguém, tanto com palavras quanto com o seu gancho, contudo era perceptível como estava um pouco magoado pelo fato de não ser mais o homem que sua filha olhava com tanta devoção.

Precisei chutar Jones, quando um Roland muito sem jeito pediu sua benção para poder se casar com Althea e recebeu como resposta uma crise de riso dele, seguido de um “Minha benção não é de grande importância agora, não? O que irá fazer se eu disser não?”

—Como a senhora conseguiu passar por isso? – indaguei para minha mãe em um sussurro.

Branca sorriu, levando a taça de vinho a boca.

—Seu pai teve tempo com você antes de Killian aparecer. Ele pôde mimá-la... – murmurou quase sem mexer os lábios. – Deixe seu marido fazer a cena, ele não conseguirá manter por muito tempo, Emma. É visível que ele gosta muito da rapaz... Sem falar que ele ama Althea e posso ver que está doido para estragar a neta. – observou com divertimento. – Essa reação é completamente normal no sexo oposto quando percebem que apareceu outro homem para dividir a atenção. – piscou para mim e voltou sua atenção para a comida em seu prato.

Olhei para Althea que tinha uma expressão triste no rosto ao olhar para o pai que rebatia alguma coisa que Charles havia dito e sorriu para Grace que tagarelava ao seu lado.

Após o jantar fomos todos para a sala, como de costume, onde ficávamos uma ou duas horas antes de nos recolhermos. Meu pai e Charles logo se entretiveram com uma partida de xadrez, minha mãe se jogou em um dos sofás com a bisneta nos braços. Jones estava sentado em uma poltrona perto da grande janela que dava para o reino todo, Althea sorriu ao vê-lo ali, sozinho e se adiantou para o pai, que fingiu não ter notado que se aproximava, porém parou quando Grace cortou sua frente com um livro em mãos e se aninhou no colo do pai como uma criança para que continuassem a leitura. Aquele era um hábito que Jones mantivera de ler para os filhos e que mesmo depois de grandes, as meninas ainda gostavam de fazer, de ouvir a cadência da voz do pai ao ler.

Althea se virou para porta e parou ao me ver encostada nela. Indiquei que viesse comigo e ela me seguiu para o corredor, onde logo se jogou nos meus braços aos soluços.

—Papai me odeia. – conseguiu dizer após um tempo. – Ele mal suporta olhar para mim. É todo sorriso para Grace, agora eu, é como se fosse uma estranha.

—Ele não a odeia, Althea. Seu pai é um tonto que está enciumado. Apenas isso. Dê um tempo para que ele se acostume que você não é mais a garotinha dele.

Ela soluçou mais uma vez.

—Mas eu ainda sinto que sou a garotinha dele, mamãe. Eu... Eu não quero que... Que ele me odeie. Eu queria que... Papai ficasse feliz, por eu estar feliz... Por eu estar viva! – exclamou. – Porém parece que... Ele preferia que eu nunca tivesse voltado.

Apertei-a em meus braços.

—Nunca mais diga isso, Althea. Seu pai a ama e ele está feliz por você, por você ter voltado... Seu avô David teve quase a mesma reação de seu pai. – comentei.

Ela me olhou, os olhos azuis brilhantes.

—Seu avô ficou doido de ciúmes quando Killian veio para o palácio... Ah, como ele infernizava a vida de seu pai. David sumia com Charles, porque não queria falar comigo nem com Jones pelo que havíamos feito antes do casamento, porém saía se gabando que tinha um neto para quem encontrasse no caminho. – contei, tirando um sorriso dela. – Seu pai está fazendo quase a mesma coisa. Ele escreveu uma carta para seu tio Landon contando que já é avô. – falei como se fosse um segredo. – E está completamente apaixonado por Evie, logo você e Grace irão perder o trono, melhor se acostumar com isso.

O rosto de Althea se acendeu e um pouco daquela infelicidade sumiu de seu semblante.

[...]

Dois dias depois, Althea surgiu com afobação em meu escritório, puxando-me pela mão e pedindo silêncio, até que chegamos no quarto de criança que um dia pertencera a ela. Ela colocou o indicador sobre os lábios e indicou a fresta da porta.

E ali dentro vi Jones, sentado na poltrona e nossa neta deitada em seu peito. Ele conversava com a pequena com a voz baixa e terna, e aos poucos Evie se acalmava; o que deveria ter sido um choro, se resumindo a um resmungar. Killian sorria para a bebê, a expressão encantada do pura baba cheio de amor que havia se tornado.

Olhei para Althea e ela abafou o som do riso de felicidade com a palma da mão, o alivio estampado no rosto.

E Jones havia acordado determinado a surpreender a filha, já que na hora do jantar, ele entrou aos as gargalhadas com Roland, que deu de ombros ao encontrar o olhar questionador de Althea, continuando a conversa animada sobre navios.

—Eu me lembro da vez que o senhor me ensinou a diferença entre um navio e um barco. – Roland comentou. – Seu pai, pacientemente e sem nenhum jeito se sentou comigo no chão após eu intimá-lo e praticamente arrastá-lo pelo gancho até meu quarto de brinquedo e me contou tudo que sabia sobre navios. – recordou com nostalgia. – Sra. Jones se juntou a nós, pouco tempo depois e foi quando o capitão relaxou em minha companhia.

—Eu tinha medo de a qualquer momento você me atacar com aquelas mãozinhas minúsculas. – Killian brincou, dando uma piscadela para mim ao olhar para a filha que parecia embasbacada com a conversa casual. – Assim como eu me lembro que você perguntou se daríamos um amiguinho para você brincar! – exclamou e gargalhou ao ver o rosto de Roland se tornar vermelho. – Filho de uma boa mãe, não é que você quis realmente brincar?

—Jones! – chamei sua atenção sem conseguir conter a risada, enquanto Althea gemia de vergonha ao meu lado.

—Pai! – choramingou.

—Que coisa... Ai, se eu soubesse naquela época. – atalhou com ar pensativo. — Já escolheram a data do casamento? – quis saber, agradecendo com um aceno de cabeça o criado que servia vinho em sua taça.

—Não ainda, pai. Eu... – Althea hesitou. – Eu ainda quero sua benção para me casar... E gostaria que entrasse comigo na igreja. Por favor. – acrescentou sem jeito.

Killian sorriu para a filha com doçura, nem parecendo o homem de dois dias atrás que estava agindo com hostilidade, e ouvi Althea suspirar como sempre fazia quando o pai sorria daquela forma para ela.

—É claro que entrarei na igreja com você, princesinha. Eu seria um calhorda se não fizesse isso. Quanto a minha benção, Roland já a tem. Podem começar os preparativos... Só aguentem um pouco. Landon e Belle querem vir para esse dia. – pediu e olhou para mim, como se buscasse aprovação e se não estivéssemos tão longe um do outro, eu o teria beijado até não poder mais.

—Mamãe! – Grace gritou, derrapando ao entrar na sala de jantar, atraindo toda a atenção para ela. Charles chegou logo atrás, a expressão assassina ao olhar para a irmã. – A senhora não vai acreditar quem eu encontrei com a língua enfiada na boca da filha do tratador de cavalos lá na estrebaria! E nem menciono onde estavam as mãos...

—Grace! – Charles olhou desesperado de mim para Killian. – Eu... Eu…

— O quê?!- perguntei pasma. Era uma preocupação o fato de nunca ter visto Charles interessado em uma garota ou atazanando uma como rapazes na idade dele costumavam fazer. Ele não era o típico mulherengo como o pai era. Isso era alarmante, já que as mulheres se jogavam aos seus pés, e com razão já que meu filho era a imagem de Killian, e Charles fingia não enxergá-las. — Você estava com uma garota? Está interessado nessa garota?...

—Não está fazendo as perguntas certas, Emma. – Killian me cortou e virou o corpo em direção ao filho. – Esses tipos de encontros vem acontecendo há quanto tempo, Charlie? –questionou.

Charles olhou para qualquer lugar menos para nós que aguardávamos uma resposta.

—Quase dois anos. – murmurou, cabeça baixa. – Eu gosto dela, mas eu sei... Que deveria me casa com alguém...

—Dois anos e você não pediu a moça em casamento Charles Swan-Jones? – minha mãe se levantou indignada.

—Você sabia disso? – indaguei para Killian que assentiu.

—O menino não é discreto, Emma.

—Bom... Eu o achei muito discreto, levando em conta que só fiquei sabendo desse caso agora! E você deixou? Não conversou com ele sobre isso?

—Ele não veio até mim em busca de conselhos, nunca fiz o tipo que se mete aonde não foi chamado, Sra. Jones.

Suspirei e olhei para Charles que evitou o meu olhar a todo custo.

—Posso saber o porquê não ficamos sabendo da existência dessa moça antes?

Charles hesitou para responder.

—Achei que me proibiriam de vê-la. Que deveria encontrar alguém da realeza já que sou o herdeiro natural do trono.

Minha mãe riu e meu filho olhou surpreso para ela.

—Seu menino tolo. – falou carinhosamente. – Seu avô é um era um pastor de ovelhas, seu pai era um pirata... Você acha mesmo que damos a mínima para status social?

Meu menino olhou para mim, como se buscasse confirmação do que a avó dizia e indiquei a porta por onde ele entrou.

—Vá pedir a moça em casamento, Charles, antes que eu te dê uma surra. – mandei. Ele correu e se ajoelhou ao meu lado, dando-me um beijo.

—A senhora nunca levantou a mão para mim. – rebateu. – Je t’aime, mama.

—Je t’aime... Agora vá arranjar minha nora. – empurrei-o de leve. Charles ficou em pé e arrumou os fios negros como os do pai e sorriu para todos antes de correr porta afora.

Grace olhou para o pai, uma sobrancelha arqueada.

—Bom trabalho, minha piratinha. – elogiou. – Seu pagamento está em seu quarto. – informou e Grace bateu as mãos animada e sumiu.

—Não se mete, não é Jones? – inquiri com sarcasmo.

—Diferente de nossas meninas, nosso menino precisou de um pequeno empurrãozinho, Emma. Apenas um pequeno empurrão... Mas veja só! Teremos em breve dois filhos casados. Não precisa mais se preocupar com a solteirice do rapaz, ele só está tão apaixonado que deixou de enxergar as outras mulheres. Nada sério e algo facilmente resolvido. – concluiu erguendo a taça de vinho em um brinde.

[...]

Eu já estava deitada quando Killian apareceu em nosso quarto, já chutando os sapatos e soltando os botões da roupa, ele me olhou de forma desejosa e se jogou na cama, buscando meus lábios.

—Eu não queria já estar tão cansado. – confessou quando parou de me beijar. – Aqui está você, toda apetitosa e eu só penso em deitar e dormir... Que saudade da minha juventude.

—Que saudade quando você não me dava descanso. – brinquei. A verdade era que eu mesma já não tinha mais a mesma vontade de fazer amor igual quando era mais nova. Eventualmente passávamos a noite nos amando e continuava sendo tudo aquilo, mas Killian e eu encontramos nosso próprio ritmo na velhice assim como quando éramos mais novos. – Era a noite toda, de manhã antes do café... Às vezes acontecia umas escapadas no meio da tarde. Mas fico muito feliz, senhor, apenas de estar em seus braços.

—Isso sempre a saciou. – disse antes de atacar meu seio com sua boca, fechei os olhos de puro prazer ao sentir os dentes de Killian puxando meu mamilo.

—Sim. – concordei. – Mas isso foi antes de conhecer as atividades matrimoniais. – consegui retrucar. – E a forma que o homem planta a sementinha na mulher... – a frase morreu quando sua boca passou para o outro seio. – Killian Jones, se não parar agora mesmo de me provocar, você terá que arranjar forças para fazer amor comigo.

Sua mão desceu para minha coxa e se enfio no meio de minhas pernas.

—Faço tudo para agradar minha senhora. – a voz desejosa respondeu, continuando aquilo que já começara a fazer.

[...]

—Eu estava com Althea. – Jones falou após muito tempo, as velas haviam se apagado, o quarto estava no escuro e os dedos dele deslizavam na pele de minhas costas, enquanto meu pé subia e descia pela sua panturrilha peluda. – Antes de vir para cá.

—Imaginei que sim. – respondi, a voz mole. – Ela estava muito feliz por tê-lo visto com Evie e conversando com Roland... Só posso imaginar como ela deve estar agora.

—Provavelmente da mesma forma que você. – retrucou com malicia, se referindo ao fato de eu estar nua. – Mas com Roland, obviamente.

Revirei os olhos, dando um puxão de leve no pelos de seu peito.

—Pare com comentários assim que deixa Thea sem graça. – pedi. – E obrigada, Killian. – agradeci. – Por ter feito toda essa cena para meu pai se sentir vingado de alguma forma... Tudo bem que você deveria ter avisado Althea antes, mas agradeço.

Jones riu.

—Eu realmente não consigo fazer nada sem que você perceba o que há por trás.

Beijei seu peito no lugar que havia dado um puxão.

—Eu conheço bem demais, querido. Claro que a sua reação exagerada do primeiro dia não foi atuação… Nem você é tão bom ator assim, mas eu percebi que havia decidido manter o teatro quando disse que precisaria pedir desculpas ao meu pai.

—Sim, minha reação de primeira momento foi exageradamente verdadeira. — riu. — Mas quando veio me ver eu já estava bem e nas nuvens por ter uma neta, pelo nossa filha estar de volta e por Roland ser o guerreiro dela.

—Céus! Como eu amo você, Killian! Mesmo depois de anos você ainda consegue fazer com que meu peito quase exploda de tanta alegria.

Killian estalou a língua com descaso.

—Era o mínimo que podia fazer pelo velho. – atalhou e eu ergui a cabeça para encará-lo. – Não me olhe assim, Emma, eu estou velho então posso me referir a ele dessa forma... David esperou tantos anos por isso que não quis desapontá-lo. – deu de ombros. – E não se preocupe, já contei tudo para Althea.

—E como ela reagiu?

—Muito como você reagiria... Dando-me um soco de leve no peito por tê-la feito achar que eu não amava mais, o que eu retruquei que ela só poderia estar louca por achar isso, então ficou emburrada comigo, mas bastou eu abrir os braços que ela já estava me retribuindo, como se ainda fosse aquela menininha.

—Ela ainda é, Killian.

—Não... Ela perdeu esse posto para Evie. Nossa neta é a coisa mais linda... Ela gosta quando converso, fica me respondendo com aqueles barulhinhos indecifráveis e rindo para mim com aqueles olhos negros. E você viu nosso rapaz apaixonado?

Aquiesci, um sorriso se esticando em meus lábios.

—Nós conversamos por um bom tempo e ficamos de marcar um jantar com a moça e a família dela... Como se fosse existir objeções contra o casamento da mulher com o futuro rei de Mistheaven. – suspirei. – Mas Charles está nas nuvens e eu o vi saindo escondido, acredito que os dois irão comemorar o noivado esta noite.

—Tsc, tsc. – Killian se fez de desapontado. – Nossos filhos não conseguem esperar mesmo a noite de núpcias.

Dei de ombros.

—Eles têm a quem puxar... Nós não esperamos.

—Eu não estou nem um pouco pronto para quando for a vez de Grace. – confessou. – Ela é a minha parceira de crime.

—Mas pense que ela será feliz, Killy. Grace só irá se juntar ao homem que a ama verdadeiramente. Não é isso que você quer para nossos filhos? Amor verdadeiro e uma vida longa e feliz ao lado de quem eles amam? – questionei.

—Eu quero que eles tenham o que nós temos, fada.

Concordei, deixando os olhos se fecharem, completamente satisfeita.

—Se é isso que deseja, eles terão, meu amor.

[...]

Acordei no dia seguinte com os gritos histéricos de Grace, que abriu a porta com um supetão, fazendo com que Jones e eu nos sentássemos completamente despertos.

—Ai meu Deus, eu não acredito que vou ter que ir embora com essa visão. – resmungou ao apontar para a cama, o rosto e olhos vermelhos devido ao choro.

— O que aconteceu, filha? – perguntei alarmada e enrolei-me no lençol, ficando de pé.

Grace me envolveu com os braços, os soluços tão fortes que ela mal conseguia falar. Deixei-a de costas para que Jones pudesse colocar uma calça e quando já estava coberto, fiz com que nossa filha se ajeitasse na cama, ficando no meio de nós dois.

Killian afagava o cabelo de Grace, enquanto murmurava palavras na tentativa de acalmá-la, seu rosto contorcido de dor por ver a filha naquele estado tão assustado.

Depois de um tempo Althea e Charles apareceram e ficaram observando a cena da porta. Ambos com a expressão devastada e quando questionei com o olhar o que havia acontecido, meu filho ergueu uma capa de penas brancas.

Vi Jones desmoronar e se entregar ao choro junto com a filha.

[...]

Os dias que se seguiram foram acompanhados de uma atmosfera extremamente pesada. Apesar da capa ter sido entregue, Grace não precisava partir naquele instante, desse modo, minha pequena optou por intensificar os treinos e contou com a ajuda da irmã, que lhe dava dicas que ela absorvia como se sua vida dependesse disso. Charles se tornara mais carinhoso com ela, preferindo passar o tempo em companhia das irmãs do que com a noiva, que pareceu entender os motivos dele para se manter mais próximo da família. Killian e David gastavam o tempo entre mimar Grace e garantir que ela tivesse todo o necessário para iniciar sua jornada.

Enquanto isso, Branca e eu lutávamos para fingir que estávamos vem e que o fato de Grace ser tirada de nós assim não partia nossos corações a tal ponto que chorávamos com o medo que poderia acontecer no tempo que nossa caçula ficasse longe.

Em uma das noites, fui como de costume dar boa noite para Grace em seu quarto, mas parei do lado de fora, bisbilhotando ao encontrá-la deitada protegida nos braços de Althea, que balançava o corpo como se a ninasse.

-Você sempre quis isso? – ouvi Grace questionar e se contorcer para olhar o rosto da mais velha.

Althea suspirou e sorriu sem graça.

-Eu sempre quis o que nossos pais têm. E eu sabia que para conseguir precisaria passar por isso... Mas vale a pena, Grace. Eu sei que não quer nada disso, mas no final de tudo, irá valer a pena. Acredite em mim. Esse tipo de amor que temos a chance de viver... É a coisa mais pura que existe. É o amor que os poetas antigos tanto escreveram sobre.

-Então o que você tem com o Roland... É igual o que nossos pais têm?

-Não exatamente igual, porque somos pessoas diferentes. Cada um sente de um modo diferente... – Althea ficou pensativa. – O amor dos nossos pais foi muito intenso. Tão intenso que causou uma dor neles que nunca deveria ter existido. Por causa dessa intensidade eles quase se perderam para sempre. Eles estavam dispostos a morrerem para que o outro pudesse viver. E eu sei que nós, como donzelas-cisnes devemos dar nossa vida se extremamente necessário... Mas o que eu tenho com Roland, é simplesmente calmo. Desde o início. Nós somos muito semelhantes, então não ocorreu aquele desespero de sermos diferentes e não podermos ficar juntos, porque sentíamos que era para ser.

O semblante de Grace ficou inquieto.

-Acho que gostaria de ter um amor como o seu... Nossos pais sofreram muito antes de terem paz na vida para se amarem com calmaria. Parece que eles viviam como se cada instante fosse o último. Como se o tempo deles tivesse um prazo... Como vou saber, Thea? Como vou saber que é meu guerreiro? Como vou encontrar a minha batalha?

-Você vai sentir aqui. – Althea pousou a mão sobre o coração da irmã. – Aconteça o que acontecer, sempre escute seu coração, nunca sua mente, Grace. Pode parecer que não, mas nosso coração toma as atitudes mais sábias. Enquanto nossa mente tenta nos controlar, o coração nos liberta... E quanto sua luta, pode ser em um campo de batalha ou como a de mamãe, que foi o interior de papai. Nós nunca sabemos. Nós somos levadas para longe e de lá, devemos seguir até achar nosso caminho. Mas independentemente do que seja haverá os caras maus que você irá precisar dar uns chutes no traseiro!

Grace saiu do abraço da irmã e depositou um beijo em sua bochecha, abraçando-a forte.

-Obrigada, Thea. – disse com toda sinceridade. – Por tudo que tem feito por mim. Eu me sinto capaz de passar por isso e voltar para a casa agora. – confessou. – Eu não sou tão forte e nem tão centrada como você. Mas você faz com que eu sinta que posso conseguir.

-Você é filha dos nossos pais, Grace. Possui a força de ambos dentro de você. Então é claro que você é capaz de voltar para a gente... E vou estar ao seu lado sempre que precisar. Você é minha bonequinha, lembra?

A mais nova revirou os olhos e riu, optando por conversar amenidades com a irmã, como se para esquecer quem tinha pouco mais de uma semana para vestir a capa e ser levada para longe de mim.

Apesar do desejo de Landon e Belle de estarem no casamento tanto de Althea quanto de Charles, nós enviamos uma carta informando que teríamos que adiantar ambos, já que os irmãos queriam a presença da mais nova. Sendo assim, logo Killian e eu estávamos com dois filhos casados, dentro no mesmo espaço de tempo.

Nossa filha mais nova chorou todos os dias antes da partida, agarrada ao pai, como se Jones tivesse o poder de mantê-la ali, a salvo. Mesmo que ansiássemos poder fazer isso, tivemos que assistir impotentes nossa pequena jogar a capa nos ombros e nos fitar com olhos marejados. Ela já havia se despedido dos irmãos e avós, e pedira para que não estivessem por perto na hora, para que não fosse ainda mais difícil o ato de ir embora.

—Prometa que irá voltar para mim, piratinha. – Jones pediu, abraçando-a uma última vez. – Prometa que irá fazer o possível para voltar para casa.

—Eu prometo, papai. – garantiu, beijando seu rosto com devoção. – Prometa que irá rezar por mim.

—Sempre, piratinha. Sempre.

Abracei os dois, recordando-me de quando contei para Killian que estava grávida de Grace, como desde aquela noite, ele a amou e ansiou por ela mais que pelo outros, como se soubesse que ela teria o espirito semelhante ao seu.

—Faça seu trabalho e volte para casa, minha vida. – pedi. – Para que possamos comprar vestidos e ficar falando sobre nada o dia todo.

—Vou querer ajudar no treinamento de Evie. – balbuciou. – Alguém precisará ensiná-la a xingar como uma garota.

Killian assentiu rindo e com muito custo, consegui separá-lo de Grace. A capa se tornou parte dela, como sempre acontecia, asas para a donzela-cisne voar para longe e em um piscar de olhos, nossa menina havia desaparecido para sua jornada.

—Ela irá voltar. – Killian me consolou. Eu havia tentado me manter forte, mas doía tanto em mim quanto doía nele ver nossas filhas partir. Só podia imaginar como fora para minha mãe quando Cora me tirou dela e não pôde me auxiliar como eu auxiliei Althea e Grace. – Você tenta se manter firme como se não se abalasse por isso, mas nossos filhos sempre foram tudo o que você sonhou.

Aquiesci, abraçando-o e deixei que sua camisa recebesse minhas lágrimas.

—Ela irá voltar para gente. – repetiu.

—Eu sei, Killy. – concordei. – As mulheres Swan sempre voltam quando fazem uma promessa para você.

Jones me analisou atentamente, seu olhar parando em minha aliança.

—Sim. Com a graça de Deus, vocês sempre voltam.

Notas finais
Então foi isso e espero que tenham gostado. Assim como aproveito para agradecer mais uma vez por tudo que fizeram por mim no passado. E deixo meus votos de todo coração para que estejam bem e que a vida esteja sendo boa para vocês.

Ah, aviso também que Traiçoeiro e suas derivadas ficarão disponíveis na plataforma até o final do ano. Depois disso tenho certos planos para ela

Beijos e mais beijos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!