Entrelaços
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Notas iniciais
– Manu, você tem certeza que não é melhor ligar avisando?
– Não Filipe, eu não quero! É uma surpresa, o que tem de mais em uma filha voltar pra casa de surpresa?
– Nada Manuela, absolutamente nada, a não ser que essa filha seja você!
– Você ta exagerando. — Disse a garota, dando de ombros.
– Sete anos, você saiu de lá há sete anos! E eu sei que faz mais de dois que você não dá noticia alguma pra os seus pais, eles devem achar até que você ta morta.
– Mais um motivo pra eu chegar de surpresa, assim eles comprovam que eu estou viva, linda e saudável. — Finalizou a loira enquanto tratava de aumentar a velocidade do carro o qual conduzia.
Os óculos escuros escondiam os olhos cor verde avelã, que naquele dia em especial adotaram um tom mais escuro que o habitual, os cabelos longos, mesmo presos em um rabo de cavalo, brilhavam intensamente com a exposição ao sol. Mais alguns minutos e ela estaria lá, de volta a cidade natal, o lugar onde havia deixado tantas coisas inacabadas. Manuela adotou uma expressão séria e isso não passou despercebido aos olhos de Filipe, que logo retomou o dialogo:
– Eu posso saber no que é que a senhorita tanto pensa?
– Não é nada, Filipe.
– Eu te conheço Manu, é algo relacionado ao seu motivo de voltar pra cidade?
– Não é isso, é que faz tanto tempo.. e eu ainda me culpo tanto pelo que aconteceu.
– A gente já conversou tanto sobre isso, não foi culpa sua! Você não podia fazer nada Manuela.
– Exatamente! Eu não pude fazer nada. — Falou a garota, tentando conter as lágrimas que se formavam nos olhos.
– Ninguém podia fazer nada, agora para de pensar nisso, ta bem? logo a gente tá chegando, você devia tá feliz por que vai ver os seus pais.
– Você tem razão, melhor parar de pensar.
A viajem seguiu tranquila e ambos permaneceram em silêncio até o fim do percurso. Manuela estacionou o carro frente ao enorme portão branco que se encontrava na entrada da casa dos Monteiro e logo pode reconhecer o segurança que se aproximava cada vez mais de seu veículo, ele a olhava incrédulo.
– Menina Manuela, é mesmo a senhorita? — Falou o homem alto e grisalho.
– Sou eu sim Eduardo. — Disse, já saindo do carro para abraçar o homem.
– Manu, é melhor você entrar com o Eduardo, deixa que eu estaciono. — Foi a vez de Filipe se pronunciar percebendo a situação.
– Obrigada Filipe.
– Vai logo garota! Ou vai passar mais sete anos aqui fora?
Eduardo era segurança dos Monteiro desde a infância de Manuela, e o apego por aquele homem era incrivelmente forte, ela sentia falta de sua vida antiga e principalmente das pessoas que a cercavam. A loira retirou os óculos e entrou lentamente na casa, não conteve as lagrimas ao avistar sua mãe e num fio de voz conseguiu falar:
– Mãe!
A mulher alta e loira virou-se ainda sem acreditar no que ouvia, e sem conter as lágrimas, correu para abraçar a filha que não via a tanto tempo.
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– Você não acha esse vestido um pouco vulgar pra uma festa de noivado? — Disse a garota, observando o próprio reflexo, seus longos cabelos negros contrastavam com a pele pálida e os atentos olhos azuis observavam intrigados a roupa a qual vestia.
– Claro que não, você está deslumbrante!
– Não mãe, eu pareço uma prostituta com essa coisa!
– Não exagere Isabela, é uma festa de noivado, não é o casamento ainda.
– Já que o noivo não é do meu agrado, pensei que ao menos o vestido eu pudesse escolher.
– Não vamos ter essa conversa de novo, você sabe o quanto esse casamento é importante para os negócios da família.
– Então creio que esse vestido é perfeito para a ocasião, já que o principal intuito do casamento é o dinheiro e os meus próprios pais me tratam como mercadoria.
– Não seja incompreensível, e não fale assim comigo! Você sabe muito bem que isso tem que ser feito, não venha com objeções agora.
– Claro, esqueci o quanto a minha opinião é importante!
– Já chega, Isabela! Vá pra sua casa e descanse, cuide de mudar esse humor até a festa de amanhã.
Isabela resolveu não continuar a discussão e depois de se vestir saiu rumo a seu apartamento, aquele era o único lugar em que ela não tinha que ser a garota perfeita. Tudo que ela conseguia pensar era em como tinha se deixado tornar alguém tão manipulável a ponto de se casar por negócios e que provavelmente o Marcos, seu futuro noivo, estaria naquele momento com uma prostituta qualquer; alguém tão jovem e tão infeliz, definitivamente esse não era o plano, Isabela foi interrompida de seus pensamentos ao ouvir o toque de seu telefone.
– Amanda, parece que você adivinha quando eu preciso de você.
– Isa, é exatamente por isso que eu sou a sua melhor amiga, aconteceu alguma coisa?
– Nada demais, tirando a parte que amanhã eu vou pra o matadouro!
– Se você odeia tanto o Marcos, porque insiste com essa coisa de noivado? Você tem 21 anos, não pode deixar seus pais te manipularem a vida toda!
– Eu sei, mas no começo eu achei que era uma boa ideia, pensei que ia ser o melhor.
– Isa, o Marcos é um cafajeste, você sempre soube disso!
– Tá Amanda, eu sabia, mas, eu não queria contrariar o meu pai.
– Eu tenho certeza que se você conversasse com ele, ele entenderia bem, seu pai te ama Isa.
– Eu sei, mas acho que já é tarde, o noivado é amanhã.
– Disse bem, o noivado, não o casamento! Dá tempo de pular fora desse barco furado.
– Eu venho pensado nisso a semana inteira, mas, se eu desistir isso poderia prejudicar o acordo com a empresa do pai dele.
– Toma um banho, tenta relaxar e pensa bem no que você vai fazer.
– Tudo bem, boa noite Mandy e obrigada!
– Espera Isa, você já soube que ela voltou?
– Ela quem?
– A Manuela, chegou hoje na cidade e parece que veio pra ficar.
Nesse instante Isabela sentiu o corpo estremecer, fazia tantos anos que não ouvia nem a pronuncia daquele nome, quanto mais alguém fazendo menção a ela.
– Isabella, você ta ai? — Questionou Amanda ao estranhar o silencio que se instalou do outro lado da linha.
– Es-estou sim. — Falou ainda tentando se recompor do que sentira.
– É ela Isa, a Manuela Monteiro! Parece que ela passou uns tempos fora do país e agora resolveu voltar pra casa dos pais.
– Isso não pode ser verdade, eu pensei que.. ela não tem o direito de voltar assim! — Falou alterando a voz.
– Calma Isabela, que bicho te mordeu? Pensei que ia gostar da noticia.
– É que.. ela foi embora de repente e, eu não a vejo ela desde.. desde o enterro do David. — Isabela falava pausadamente, tentando conter o furacão de emoções que tomava conta de si.
– Acho melhor você ir descansar, sua cabeça deve ta cheia e o dia amanhã vai ser longo.
– Você tem razão, é melhor eu descansar mesmo, até amanhã Amanda, tenha uma boa noite.
A ligação foi encerrada e Isabel[a mal podia conter o que se instalou dentro do peito, pensou em David e foi inundada pela falta que o irmão fazia; ela e Manuela foram criadas quase como irmãs e apesar da raiva que alimentava por ela ter ido embora, no fundo a saudade e o amor que sentia falavam mais alto.
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MANUELA
Já era noite, Filipe já tinha ido pra casa dos pais e lá estava eu, deitada na minha antiga cama, vendo todas aquelas lembranças reviverem na minha mente. Confesso que fiquei surpresa ao ver o meu antigo quarto praticamente intacto, coo tudo exatamente onde eu havia deixado, até o meu antigo diário se encontrava na primeira gaveta do criado-mudo. Não pude evitar de lembrar dos últimos anos longe daquele lugar onde eu me sentia tão segura e acolhida, primeiro o período fora do país , e nos anos que se seguiram, a faculdade; Há uma mês atrás eu reencontrei o Filipe, um grande amigo de infância, em uma palestra e resolvi voltar pra cidade com ele; fazia algun tempo que eu havia concluído o curso de direito e depois da prova final, já não tinha problema em exercer a profissão onde eu bem entendesse. Não tinha mais sentido permanecer afastada, um ano na Austrália e mais seis do outro lado do país já era mais que tempo o suficiente, depois da morte do David aquela foi a primeira vez que eu realmente me senti pronta pra voltar pra casa, com muita relutância consegui fazer o Filipe guardar segredo de meu retorno, mas, como todo bom amigo, ele concordou em me ajudar.
Minha cabeça estava quase transbordando de tantos pensamentos, apesar de o dia ter seguido tranquilo após a minha chegada, com exceção da parte em que meu pai quase infartou ao me ver sentada no sofá da sala. Muita coisa tinha mudado por aqui, e outras pareciam ter continuado exatamente iguais, se não fossem as evidentes mudanças físicas a meu redor, tanto na casa quanto nas pessoas, eu me sentiria ainda em 2006.
Levantei da cama e adentrei meu closet em busca de objetos antigos, peguei a caixinha de musica e após dar corda, o som do objeto começou a ressoar pelo local, avistei uma foto no fundo da gaveta e lá estávamos nós, três adolescentes sorridentes sentados em um balanço de madeira na frente da casa dos Ribeiro, o rapaz loiro de olhos azul turquesa, a garota com olhos da mesma cor e cabelos castanhos, e a seu lado eu, os cabelos loiros tingidos de azul nas pontas e um piercing ridículo no nariz. "Onde eu estava com a cabeça quando coloquei aquela coisa?" ri de meu próprio pensamento. No verso da foto me deparei com as seguintes observações:
"Os três mosqueteiros! Isso soa meio masculino, não? então pra resumir: Eu e as duas garotas mais gatas do universo! Isso é meio exagerando, então, droga, esquece, não sou bom nessas coisas, eu só amo muito vocês duas e pronto! — David R."
"Acho que agora é minha vez de falar da trindade profana, afinal, vocês são tão essenciais quanto qualquer parte do meu corpo, menos o apêndice, que não serve pra nada, enfim, é isso. Irmãos Ribeiro, eu amo vocês com todas as minhas forças! Tá, isso foi puro exagero, mas vocês sabem que é de coração. — Manuela M."
" Porque eu tenho que ser a ultima? Não achei justo! Apesar de você, meu querido irmão ser um completo idiota e a Manu ser a pessoa mais irritante do universo, eu cultivo um carinho bem especifico por vocês dois, principalmente quando vocês não me enchem o saco e não estão se pegando.- Isabela R."
Ao terminar de ler eu já não sabia se ria do que escrevemos ou se me esvaia em lágrimas como nas tantas outras vezes, aquelas lembranças atingiam em cheio o meu peito mesmo depois de tantos anos. Era um misto de saudades, culpa e tristeza! Saudades dos velhos tempos, de ter David e Isabela ali do lado pra contar pra tudo, culpa por ter descoberto algumas verdades muito tarde e por ter abandonado a Isa depois disso, tristeza por não ter conseguido fazer nada pra impedir a morte de David e não ter conseguido cumprir a promessa que o tinha feito.
De fato, era Isabela o motivo de minha volta, não dei explicações e nem ao menos me despedi, além de não ter tido a decência de ligar por todos esses anos. Eu a amava, mas depois do que descobri não fui forte o suficiente pra cumprir a promessa que fiz ao David de cuidar dela. Fujir quando ela mais precisou de mim não era algo que refletia lembranças boas, onde será que a Isabela estaria agora? Foram tantas perguntas de minha mãe depois que eu cheguei que nem ousei mudar de assunto. Amanhã mesmo eu procuraria ela, estava decidido, eu faria o que fosse preciso pra concertar as coisas com ela.
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Os raios de sol que atravessavam minha janela fizeram o favor de me acordar antes que o despertador tocasse, levantei relutante e depois de um longo banho desci pra tomar café da manhã junto aos meus pais. E então aquele esperado dialogo não pode ser evitado:
– Mãe, a senhora tem noticias da Isabela Ribeiro? — Perguntei apreensiva.
– Oh, a Isabela! Ela é o assunto do momento Manuela, se tornou uma mulher deslumbrante.. — tomou mais um gole de seu café e continuou — A festa de noivado dela é hoje, não se fala em outra coisa na cidade.
– Noivado? Ela não pode se casar. — Falei confusa.
– Ora, e porque não? Ela não é mais aquela garotinha que você conheceu. — Foi a vez de meu pai se pronunciar.
– Lembra do seu primo Marcos? É com ele que ela vai casar, você deveria nos acompanhar a festa, tenho certeza que eles ficariam felizes com a sua presença. — Acrescentou minha mãe.
– Acho melhor não mãe, não consigo entender, o Marcos é uns 10 anos mais velho que ela, o que ela viu naquele cara? — Falava ainda incrédula nas recentes informações.
– Negócios, Manuela! Sabe como nossas famílias são importantes uma pra outra, tanto nos negócios quanto na vida pessoal, o Marcos soube usar bem a sua persuasão pra conseguir um casamento como esse. — Falou meu pai, tentando esclarecer minhas dúvidas.
– Mauricio, uma moça como a Isabela não aceitaria um casamento por motivos como esse, tenho certeza que ela deve realmente gostar do Marcos!
– Concordo com a mamãe, tenho certeza que a Isa não faria algo contra sua vontade e muito menos concordaria com o que o senhor insinua.
– Temo lhe informar que você passou tempo demais fora pra achar que ainda conhece alguém dessa cidade. — Falou seco.
– Se me dão licença, preciso sair agora, senhor Mauricio e dona Letícia, tenham um bom dia! — Falei enquanto levantava da cadeira, meu pai sabia exatamente como me atingir em cheio.
– Mauricio, olha só o que você fez! Manu, espera, pra onde você vai?
– Não se preocupe mamãe, vou passar o dia fora, preciso visitar um velho amigo!
A essa altura do campeonato eu já tinha desistido de tentar ver ou conversar com Isabela, ainda não conseguia acreditar que ela ia ficar noiva do idiota do Marcos, definitivamente eu me arrependia com todas as minhas forças de ter ido embora, mas, o que eu podia fazer agora? Absolutamente nada, ela devia mesmo gostar dele e eu não tinha nada a ver com essa história, apesar de achar que ela merecia alguém melhor. Um turbilhão de pensamentos invadiu minha mente e eu só pensava em lugar pra ir, talvez lá eu pudesse organizar um pouco a minha cabeça, peguei a chaves do carro e então segui para o meu destino.
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