Entregue-se a mim
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Capítulo 4
Depois dos meus tios perguntarem novamente se eu iria ficar nos Estados Unidos, eu não suportava mais dizer que ainda não sabia e vê a decepção em seus olhos. Então, como a fraca que sou, concordei em me mudar para aqui. E, bem, pelo menos eles ficarão muito felizes.
Não sei como eu iria olhar para Christian depois de tudo o que quase fizemos ontem. Hipoteticamente falando, é claro – penso revirando os olhos.
Como está surpreendentemente calor em Seattle hoje, eu troco minhas usuais roupas longas por legging abaixo do joelho preta e top de ginástica da mesma cor. Além dos mesmos tênis preto com detalhes roxo de sempre.
– Mesmo que você esteja muito atraente assim, eu acho bom você me disser que ainda não está pronta e vai colocar o resto de sua roupa, Anastasia. – Diz Christian assim que me vê.
– Na verdade eu costumo correr assim na Itália, só por que estava muito frio que eu usava aquelas roupas. – Digo revirando os olhos. Ele me olha de um jeito que quase me faz querer voltar correndo para a casa de Tio Alaric gritando Socorro!
– Ah, Anastasia. Não me tente a ver o quão rápido eu posso te colocar sobre os meus joelhos. – Engasgo diante de seu comentário.
– Nada que você faça vai me fazer trocar de roupa. E afinal você não tem o direito de me dá ordens! – Digo demonstrando uma coragem que eu não tenho e fecho a porta da mansão.
– Ontem quando você estava debaixo de mim, implorando por meus toques, eu poderia te pedir pra pular de um prédio e você o faria. – Diz ele sorridente.
– Você está iludido se acha que quem estava comandando ontem era você. – Falo teimosamente, Christian me olha com uma sobrancelha erguida de modo desafiador. – Tudo bem, tudo bem! Eu faria o que você quisesse, mas antes eu perguntaria a altura. – Ele ri com o meu comentário me irritando ainda mais. – E eu não estava implorando por nada.
– Ainda. – Ele responde essa única palavra de uma maneira que não deixa espaço para dúvidas e eu só me imagino implorando por ele usando uma lingerie preta, ajoelhada, garantindo que eu farei tudo o que Christian mandar. Eu poderia dizer que a cena não me agrada e mentir para proteger o meu orgulho, mas... Na verdade é exatamente isso que eu iria fazer.
Começamos a correr e de repente um pensamento surge na minha cabeça, o que me faz dá um grito super animado. Christian me olha como se eu tivesse duas cabeças, mas eu ignoro.
– Adivinha só quem vai se mudar definitivamente para Seattle? – Seus olhos brilham e antes que ele possa falar qualquer coisa, eu prossigo dizendo: — Sou eu!
– Isso é maravilhoso, Anastasia! Você vai continuar na casa dos Kavanagh?
– Essa semana mesmo eu quero dá uma olhada em alguns apartamentos.
– Pra falar a verdade, eu conheço uma ótima agencia imobiliária.
– Seria incrível se você pudesse contatá-los.
– Tudo bem. Segunda-feira nós iremos olhar os imóveis. – Já ia agradecê-lo quando suas palavras me atingem.
– Você disse nós?
– Sim. Eu vou com você, quero saber a situação que a sua futura casa irá está.
– Sua preocupação torna impossível negar sua companhia. – Digo obviamente sarcástica.
– Eu tenho a leve impressão que a minha preocupação não é a única coisa atraente na minha companhia.
– Como você disse: apenas uma leve impressão. – Falo não cedendo ao seu comentário sugestivo.
– Hoje eu iria te levar para jantar em Portland, mas agora há mais um motivo para você não recusar minha proposta. Nós temos que comemorar! – Fico surpreendida ao saber que ele quer me levar para jantar, ainda mais em Portland, mas no final acabo aceitando.
Mais tarde...
Eu estou nervosa. O que é ridículo se considerarmos que eu já fui em vários encontros. Tudo bem que em nenhum Christian Grey era o meu acompanhante. Eu termino de passar o meu batom rosado e fico pronta. Eu estou usando um vestido azul marinho pouco acima do joelho, de manga longa constituída por tiras caídas e um decote longo que não me permitiu usar sutiã, mas pelo menos o vestido tem bojo.
Alguém toca a campainha e, ao abrir a porta, me surpreendo ao ver um charmoso Christian de terno azul escuro, barba feita e cabelos levemente bagunçados em claro sinal de nervosismo.
– An... oi.
– Anastasia. — Ele cumprimenta me avaliando. Fico surpresa quando ele me beija, de forma longa e profunda, me fazendo encostar minhas costas na porta a procura de apoio. Quando ele se afasta, ainda com a respiração acelerada, assim como a minha, diz: – Você está linda.
– E ela também está na minha casa. – Olho para a direção da voz e vejo Tio Alaric com um olhar nem um pouco agradável abraçando a cintura de Tia Elen.
– Sr. e Sra. Kavanagh. – Christian acena, e se vira para mim: — Vamos?
– Claro. – Vou fechar a porta quando escuto:
– Não que eu queira que vocês façam algo longe da minha casa. Na verdade, por que vocês não jantam conosco?
– Alaric! Deixe as crianças se divertirem. – Diz Tia Elen me salvando de um jantar vergonhoso.
Finalmente no carro de Christian, ele fala:
– Temos que nos apressar e ir o mais rápido possível para o heliporto, uma tempestade está prevista para daqui algumas horas.
– Heliporto?
– Sim, vamos de helicóptero.
Fico animada com a ideia de voar pela primeira vez em um helicóptero.
Chegando lá, eu me surpreendo ao notar que é Christian quem vai pilotar.
– Tem certeza que você sabe o que está fazendo? – Pergunto pela milésima vez, já dentro do helicóptero, ou melhor, Charlie Tango. Ele revira os olhos.
– Sim, eu sei. Mas mudando de assunto, você ama muito seus tios, não é?
– Você não deveria se concentrar unicamente em pilotar? – Digo já imaginando onde essa conversa vai chegar.
– Pode ter certeza de uma coisa, Senhorita Steele, eu sou muito bom em controlar coisas e fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. – Ele diz enquanto uma de suas mãos segura o que eu acho ser o volante e a outra alisa perigosamente a minha perna. Pigarreio.
– Aham, eles são incríveis.
– Elliot não me falou nada da sua família, eles vão vim para o casamento?
– Ah, minha mãe morreu quando era uma criança. – Momentaneamente ele pausa sua caricia em minha perna.
– O que aconteceu?
– Câncer de pulmão foi o que aconteceu. E ela nunca fumou nem meio cigarro. – Sussurro essa última parte tentando mascarar minha inconformidade mesmo anos depois.
– Sinto muito, ninguém merece passar por isso. – Pelo menos dessa vez não preciso conter as lágrimas, já que eu não tenho mais nenhuma. – E seu pai como passou por tudo isso?
– Ele... Ele resistiu. Não era como se ele pudesse desistir com as contas do tratamento e uma criança para cuidar.
– Ele parece ser um bom homem.
– Ele era. Dois anos depois de tudo isso acontecer, ele viajou para a Europa a trabalho e puff! Nunca mais voltou. – Christian tem uma cara confusa.
– Você procurou ele?
– Na época eu tinha só 7 anos. Mas meus tios ligaram pra ele, para colegas de trabalho, para a empresa, para a polícia... Mas ninguém sabia onde ele estava, era como se tivesse evaporado. – Ele aperta levemente minha coxa em sinal de compreensão.
Assim que pousamos, Christian instrui um homem chamado Stefan e vamos para o restaurante em um belíssimo volvo prateado. Depois de cerca de 1 hora chegamos a um elegante restaurante.
– Nossa como demorou. – Comento distraída com a beleza exótica da entrada.
– Verdade, o heliporto é muito longe.
A recepcionista nos guia para longe das mesas no espaçoso salão, entramos por uma porta e subimos algumas escadas. Quando ela abre uma grande porta de ferro, me deparo com uma imagem linda: o céu azul repleto de estrelas, o terraço rodeado por flores e uma mesa arredondada com duas cadeiras.
– Você fez isso? – Pergunto chocada.
– Precisávamos comemorar em grande estilo. – Diz ele piscando um olho. Christian me ajuda a sentar e se senta na outra cadeira. Um garçom que estava próximo da mesa já serve o prato de entrada, me surpreendendo. Assim que provo um tipo de sopa, dou um sorriso satisfeito.
– Então o que você faz na Itália, Anastasia?
– Eu tenho uma editora. Eu amo o meu trabalho, ajudar as pessoas a divulgarem suas obras é incrível. E mesmo que eu deixe minha assistente cuidando de tudo lá, eu sempre irei ter que conferir como as coisas estão. Aliás, eu quero abrir outra editora em Seattle.
– Sério? Você realmente parece gostar do que faz.
– Muito. Eu sei que vai dá trabalho, mas valerá a pena.
Conversa vai, conversa vem e já estamos na sobremesa. Assim que o garçom serve, minha boca enche d’água. Experimento a deliciosa sobremesa e gemo de prazer.
– É sério, se quiser me conquistar mantenha sempre um pouco de mouse de maracujá com morango por perto e eu não sairei do seu lado. – Falo comendo mais uma grande colher do mouse, nem um pouco educado, mas danem-se os modos. Quando digo isso, Christian me dá um sorriso vitorioso e diz:
– Bom saber que eu estou no caminho certo. – Fico vermelha e sem palavras com seu comentário.
Quando chegamos ao heliporto está chuviscando. Subimos as escadas para o térreo e encontramos Stefan com um olha desanimador.
– O helicóptero está pronto para o voo? – Pergunta Christian.
– Sinto muito, Senhor Grey, uma forte tempestade se encontra entre Portland e Seattle, todos os meios aéreos foram proibidos de voar.
Exasperado, Christian passa uma de suas mãos por seus cabelos.
– Tudo bem. – Ele se vira para mim. – Anastasia teremos que ficar em minha casa aqui em Portland.
– Ok. – Digo só imaginando dormir debaixo do mesmo teto que Grey.
Depois de 10 minutos estamos na estrada que está muito ruim e escorregadia devido a chuva que está muito forte. Mesmo Christian sendo um ótimo motorista, já era a segunda vez que quase saiamos da estrada.
– Acho melhor pararmos em algum lugar, é melhor do que corrermos o risco de morrer. — Eu digo.
– Eu vi uma placa há 1 quilometro atrás, há um hotel
há poucos metros daqui. – Assinto levemente e tento disfarçar meus tremores, belo momento para eu não trazer um sobretudo.
Uma grande seta indica que o hotel
se encontra a direita. Christian encosta no hotel, se é que a pequena casa com a tinta descascada pode ser chamada assim. Ele se vira para mim e me olha sério e enfurecido.
– Por Deus, Steele, você está congelando! – Ele me entrega seu casaco. – Melhor?
– Muito.
A recepção do hotel era basicamente um sofá com algumas revistas que pareciam ser do século passado e um balcão à frente de um homem que devia ter uns 40 anos.
– Em que posso ajudá-los? – Diz o homem com um sorriso que considero um pouco asqueroso.
– Queremos os dois melhores quartos conjugados que você tem, cada um com uma cama de casal. – Christian fala sério.
– Sinto muito mas não temos quarto conjugados. Por causa da tempestade estamos lotados, temos um quarto no primeiro andar e outro no segundo, mas já vou avisando não são de longe os melhores. – Christian faz uma careta e antes que eu possa falar alguma coisa, ele diz:
– Vamos ficar com o do primeiro andar apenas, então. – O homem dá um sorriso.
– Só aceitamos a vista.
***C.T.***
– Eu não sei como a fiscalização ainda não fechou esse lugar. – Eu falo depois de olhar o quarto que era composto basicamente por uma cama de casal, uma mesa de canto e um banheiro com um lavatório e um vaso. Christian tira o lençol da cama que realmente estava com um cheiro muito suspeito.
– Eu tenho muita sorte mesmo. Eu havia programado um jantar romântico para você e acabei te levando para esse lugar asqueroso. Se pelo menos um dos nossos celulares tivesse sinal. – Diz torcendo o nariz.
– Você não teve culpa. – Eu falo sincera ao mesmo tempo que estou tremendo dos pés à cabeça, o meu vestido está todo molhado e grudado no meu corpo.
– Precisamos tirar essas roupas molhadas. Quer tomar banho primeiro?
– Não, você pode ir logo.
Christian vai para o banheiro e fecha a porta. Cerca de 20 minutos depois eu preciso me beliscar para saber que eu não estou sonhando. Um Christian apenas com uma pequena toalha envolta na cintura aparece. Sua musculatura não poderia ser caracterizada com nada menos do que perfeita. Minha imaginação não chegou nem perto.
– Eu espero que sua imaginação tenha estado trabalhando muito a meu respeito. E eu que pensava que com esse rosto, você não era do tipo que fantasiava. – Diz ele com um fingido ar de reprovação me fazendo notar que eu falei, não pensei apenas.
– É meio difícil não fantasiar quando você está envolvido. – Murmuro entrando no banheiro sem encarar seu perigoso olhar. A última coisa que escuto é a sua bonita gargalhada.
Rapidamente tiro minhas roupas, as estendendo junto com as de Christian em um cabide. Vejo sua cueca Box e minha suspeita de que não há nada debaixo daquela toalha se confirma. Agradeço mentalmente pela água ser quente e em menos de 15 minutos desligo o chuveiro. Pego a toalha branca estendida que aparentemente está limpa e olho para as minhas roupas molhadas e logo deixo de lado a possibilidade de colocá-las de volta. Me seco rapidamente e me embrulho na toalha, saindo do pequeno banheiro.
Christian está deitado na cama coberto por um cobertor e sua toalha jogada no chão. Ele me olha reprovador.
– Eu e você sabemos, Anastasia, que se você continuar com essa toalha molhada irá ter um resfriado. – Eu poderia ser infantil e negar até a morte, mas sei que ele está certo.
– Pelo menos se vira.
– Não há nada aí que eu já não tenha visto. – Me lembra, mas se vira mesmo assim.
Tiro a toalha, não desviando meu olhar de Christian, jogo ela no chão, apago as luzes e me deito ao seu lado, mantendo uma respeitosa distância que, assim que fecho meus olhos, Christian a torna mínima e pessoal.
– Então, essa vai para a lista dos seus piores encontros? – Ele me pergunta conspiratório. Rio.
– Talvez. Eu ainda estou pensando se você ganha do cara que me levou para conhecer sua ex-namorada e ver se ela aprovava. – Ele faz uma careta.
– Se você guardar algum tipo de rancor, é só me falar o nome completo dele. – Eu rio mais ainda.
– Okey. Não foi tão ruim assim, se ela não fosse sua ex até que poderíamos ser amigas. Mas vou manter sua oferta em mente para os próximos encontros ruins. – Na hora que eu falo essa última parte, seu sorriso se desmancha em uma careta.
– Você não terá outros encontros. – Fico furiosa.
– Só por que estamos na cama, isso não quer dizer nada. – Ele abre um sorriso. – Espera! Não foi isso que eu quis dizer! Estamos dividindo a cama e não-não...
– Não o quê? – Diz ele se aproximando e me fazendo sentir sua suave respiração em meu rosto.
– Você sabe o que eu quero dizer.
– Sei? – Diz encostando levemente seus lábios nos meus e eu poderia dizer que me afastei e... Mentir. Me aproximo mais, ele pede passagem e eu cedo. Toco seus macios cabelos e gemo quando aprofundamos o beijo. Ele se afasta para recuperarmos o fôlego e começa sua tortura na minha orelha. A essa altura do campeonato, ele já está sobre mim, colocando seu peso sobre seus musculosos braços para não me machucar. Ele volta a me beijar e uma de suas mãos segura um de meus seios. Ele se afasta para me olhar e quase sinto meu corpo pegar fogo.
– Você é perfeita. – Essa três palavras fazem o meu coração acelerar.
Sua boca vai para o meu outro seio enquanto sua mão volta a me acariciar. A boca de Christian se movimenta ritmicamente: Chupar, morder levemente, chupar... Já as suas mãos faziam círculos imaginários que me faziam perder a cabeça.
– Tão sensível. – Quando eu já não aguentava mais, eu comecei a esfregar meu corpo no seu, o atrito era ótimo, mas insuficiente. Eu precisava dele. – Não seja apressada, querida.
Aparentemente se entediando com sua tortura, a boca de Christian desce distribuindo beijos e chupadas e um delicioso rastro de fogo que me aquece em cada canto imaginável ou não do meu corpo. Quando sua boca chega no meu sexo, eu sussurro:
– Oh, sim!
– Tão molhada e lisa. Me diga, Anastasia quando você se depilou, o que, ou melhor em quem, você pensava? – Ele diz no meu ouvido, me fazendo arrepiar dos pés a cabeças. Demoro alguns segundos para me situar e quando respondo, ele parece satisfeito.
– Em você, Christian, apenas em você.
Um de seus dedos toca minha intimidade, mas eu aceno negativamente.
– Não, primeiro eu quero você dentro de mim. Eu tomo pílula. – Digo diante de sua hesitação. A princípio eu acho que ele irá argumentar, mas depois de me olhar por alguns segundos, ele balança a cabeça levemente e diz:
– Por que você tem que ser tão linda? – Ele toca no seu comprimento enquanto me olha, me fazendo sentir inveja de suas mãos. – Eu não consigo resistir à você, nunca. – Ele para seus movimentos e se posiciona onde eu quero. – Eu me pergunto se todas as vezes com você serão assim. – Abro meus olhos amplamente com suas palavras. Terão outras vezes? Mas antes que eu possa articular qualquer coisa, ele já me penetra.
– Oh, Christian. – Ele está exatamente onde eu desejei e imaginei.
– Sim, querida, geme meu nome. – Ele geme e começa a se movimentar me fazendo cravar minhas unhas em suas costas, o que o leva a falar coisas incoerentes, assim como eu.
Poderiam ter se passado segundos ou horas, já não me importava. Eu estava perdida na sensação de Christian dentro de mim, se movimentando, se afundando em mim. Quando eu achava que não poderia me sentir melhor, ele se afunda até não poder mais, me levando a um orgasmo incrível e incomparável. Depois de mais algumas estocadas, Christian também chega ao clímax. Ele me beija de uma forma carinhosa, me surpreendendo já que ele nunca havia me beijado assim, de forma tão... terna. Ele se abaixa, afundando sua cabeça em meus cabelos. Depois que nossas respirações se acalmaram, ele se levanta um pouco e me olha.
– De novo? – Eu pergunto vendo seu desejo.
– Eu espero que você não se canse fácil, por quê nós só estamos começando. – Fala e começa a se movimentar novamente.
Geórgia
Desconhecido
O despertador me acorda. Após criar coragem, me levanto lentamente da cama. Vou para o banheiro e me olho no espelho. E vejo o que vi ontem e antes de ontem e semana passada: Uma mulher de 37 anos com cabelos pretos, olhos da mesma cor, um corpo magro, com algumas curvas e... só. Rapidamente faço minha higiene pessoal, troco de roupa e vou para o meu carro. No caminho para o hospital passo em um Starbucks e logo já estou pronta para o meu turno como enfermeira. Cumprimento a recepcionista e vejo minha programação com a enfermeira chefe.
Confiro alguns pacientes, vendo seu estado, se estão confortáveis, servindo água e aumentando ou diminuindo doses dependendo de como reagiram aos medicamentos ou procedimentos. Algumas horas depois eu já sinto a adrenalina pelo meu corpo, pela movimentação constante. Essa noite tivemos apenas um caso grave de esfaqueamento o que é uma sorte e um alívio, já que normalmente o hospital é muito mais agitado.
Faço um breve pausa para comer alguma coisa e assim que volto do refeitório, passo pelo quarto dele. Entro no quarto que assim como os outros é branco e tem uma cama no centro. Olho para o homem inconsciente que deve ter cerca de 40 anos, cabelos castanho escuro um pouco encaracolados, corpo magro e esguio e barba por fazer. Ele está em coma há 19 anos. Eu lembro o dia que ele chegou, eu era apenas uma estagiária perdida. Analiso pela milionésima vez sua ficha.
Nome: DESCONHECIDO
Idade: DESCONHECIDO
Responsável: INFORMAÇÃO CONFIDENCIAL
Ocorrência: ACIDENTE DE CARRO
Estado: Estável
Abaixo estão as informações do procedimento e que ele só está vivo por causa dos aparelhos ligados ao seu lado. Eu me lembro que depois de seu caso se tornar estável, os médicos esperaram ele sair do coma e esperaram, esperaram e nada. Apenas silêncio. O médico responsável não teve outra saída a não ser desligar as máquinas, haviam filas e filas de pessoas pelos corredores esperando um quarto desocupar, ele não poderia manter alguém que ninguém se responsabilizava ou que ninguém sabia se um dia iria acordar. Mas eu senti algo. Eu sabia que isso era errado, sabia, que em algum lugar, alguém, provavelmente uma mulher e filhos, estava procurando por ele, então eu me tornei sua responsável, conversei com a diretoria do hospital, me responsabilizei pelo custo de mantê-lo aqui, não era como se eles pudessem fazer alguma coisa, a maioria ficou até feliz, era uma pessoa que ainda respirava. Mas passaram-se anos, eu continuei a pagar pelos custos, e nada dele acordar. Mais de uma vez tentaram me persuadir a parar de pagar, a utilizar esse dinheiro em um investimento como um carro ou uma casa melhor, mas eu ainda tinha esperança. Suspiro auditivamente e delicadamente toco suas mãos.
– Você não vai acordar, não é mesmo? – Sussurro e logo me viro, mas algo me impede, um leve, quase inexistente aperto na minha mão. Alarmada, olho para o paciente, que devagar abria seus olhos, ele piscou muitas vezes para se acostumar com a luminosidade. Acho que estou delirando. Acho que estou delirando. Ele se vira para me olhar e logo olha ao redor do pequeno quarto.
– Onde-onde estou? – Pergunta e mesmo que sua voz esteja esganiçada pela falta de prática e a necessidade de água, era como se eu ouvisse pássaros cantando uma melodia.
– No hospital. – Falo tentando manter minha voz calma. Vou para a porta do quarto e chamo pela outra enfermeira que também está de plantão hoje: — Lisa! Lisa! – Com um olhar preocupado ela vem em minha direção.
– O que aconteceu? Você está pálida, Carla.
– Ele-ele acordou. – Vejo seus olhos se arregalarem e ela olha para a cama que depois de muito tempo abriga um homem consciente. Tanto eu como ela nos aproximamos da cama como se ele fosse um animal que com qualquer movimento brusco poderia se assustar. – Qual é o seu nome? – Pergunto o mais delicadamente possível. Ele olha para mim por longos segundos, um olhar confuso passa por seu rosto.
– Eu... não me lembro.
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