Entregue-se a mim
1 Capítulo 1
Prólogo
Anastasia tem 7 anos
Acabamos de chegar à casa de Tia Elen, eu gosto dela, ela sempre me dá um pirulito assim que chegamos a sua casa. Toco a campainha e esperamos, meu pai, Ray, mexe em meus cabelos, gesto conhecido por mim já que ele involuntariamente faz isso quando está nervoso.
Em seu elegante vestido longo de verão, Tia Elen abre a porta com um grande sorriso.
— Ana! – Ela diz me abraçando apertado e mesmo que seja um pouco sufocante, eu não a afasto.
— Eleonour. – Meu pai diz dando um leve abraço em sua irmã e logo se virando pra pegar as minhas malas no porta-malas do carro.
— Só Elen, Ray! Vai que algum vizinho te escuta. – Diz ela preocupada, mas meu pai apenas dá uma risada, provocando sua irmã. Ela se vira para mim. — Você está muito bonita, como sempre, Ana. Mas eu não sei... Parece que está um pouco triste. – Ela fingi pensar a respeito. – Talvez você precise de alguma coisa para adoçar o seu dia. Será que um pirulito mágico resolveria esse problema?
— Sem dúvida! – Eu exclamo pegando o pirulito colorido oferecido.
— Eu acho que essa é a última mala. – Meu pai fala colocando a mala roxa com borboletas rosa. Ele se agacha até ficar da minha altura e pergunta: — Você promete se comportar, Annie?
— Claro, Papai. – Ele me abraça, mas assim que se afasta fica olhando pra mim, como se decorando meus traços.
— Você se parece tanto com ela. — Ele afirma mais para si mesmo do que para qualquer outro, eu acho.
— Com a Mamãe? – Eu pergunto alegremente. Minha mãe morreu há 2 anos de câncer e sempre que Papai fala dela, ele fica com um semblante triste. Ele assente lentamente e balança a cabeça espantando a neblina de pensamentos em que estava perdido. Ele se levanta e olhando para Tia Elen, a orienta sobre coisas chatas como o horário de dormir e o que eu não posso comer... Papai sempre me fazendo passar vergonha. Ele termina sua palestra dizendo: — Cuida bem dela, Elen.
— Sempre. – Ela responde e eles se olham por longos segundos parecendo se comunicar por pensamentos... Como isso seria legal!
— Annie, eu vou tentar não demorar, algumas semanas no máximo, mas você sabe como é o trabalho de papai.
— Aham. – Respondo distraída, pensando em como eu gostaria que ele estivesse aqui no meu aniversário daqui um mês.
— Você sabe que eu vou voltar, não é? – Ele diz virando delicadamente meu rosto para eu olhar em seus olhos. Assinto com a minha cabeça, mas no fundo eu não quero que ele se vá. – Você sabe por que eu volto, Annie?
— Por que você me ama? – Eu respondo baixinho.
— Sim. Eu te amo e eu sempre vou voltar. – Ele diz com um sorriso que eu acho mais triste do que feliz em tudo.
— Eu também te amo, Papai.
Ele se despede da gente e assim que seu carro se distancia, eu espero ele virar a esquina. Mal sabendo que ele nunca voltaria.
Capítulo 1
Dias Atuais...
Eu estou atrasada. Olho no relógio enquanto o táxi atravessa as movimentadas ruas de Seattle. Faz exatos quarenta minutos que a despedida de solteira de Kate, minha prima e irmã do coração, estava marcada para começar. Se você me perguntar o porquê da despedida ser meses antes do casamento, eu realmente não saberei responder.
Há cinco anos eu não vejo minha família. Assim que eu me formei em literatura, eu fui para a Itália e mesmo que nós constantemente nos falamos por telefone, não é como se fosse a mesma coisa de estar com todos pessoalmente. Tia Elen e Tio Alaric Kavanagh, a quem eu considero meus pais, querem que eu me mude de vez para os Estados Unidos, mas eu não sei bem qual será a minha resposta.
Assim que o táxi para na enorme mansão dos Kavanagh, eu apressadamente pulo fora do carro já tirando, com a ajuda do taxista, a minha extensa bagagem de malas.
Antes que eu possa tocar a campainha, Kate e as outras damas de honra abrem a porta.
— Onde você estava? Eu quase desmaiava de preocupação! Quanta saudade. Como foi a viagem? Onde está Francis? – Ela diz tudo em um único fôlego. Como eu senti saudades de Kate e sua animação.
— Respira, Kate. Respira. An... O voo atrasou. Já estou aqui. Eu também. Bem. Longa história. – Ela não engole minha última resposta, mas eu lhe direciono aquele olhar que fala por si só: Depois eu te conto.
Olho para as damas de honra e abraço Melanie e Isabella, que eu já conheço, e Kate me apresenta as outras: Mia e Phoebe. Somos no total de cinco damas de honra. Só Kate mesmo!
— Então vamos para onde? – Eu pergunto.
— Uma boate que abriu há pouco tempo, mas que todo mundo diz ser incrível. – Melanie, amiga de infância minha e de Kate, responde.
— Uma boate tipo gogo boys e bebidas ou só bebidas? – Isabella pergunta. Todas as damas de honra olham para Kate à espera de uma resposta.
— Bom, eu e Elliot combinamos de não... “Aproveitarmos” nossa despedida com outras pessoas. Mas nós não falamos nada sobre o divertimento de vocês, então gogo boys e bebidas! – Ela nos dá uma piscadela.
**C.T.**
A boate está muito cheia. Kate achou melhor não fechar apenas pra gente, segundo ela “dessa forma haveria mais candidatos aos nossos futuros maridos”, palavras dela, não minhas.
O show ainda não começou, mas as meninas parecem bem ansiosas. Notando o meu desanimo, Kate se senta do meu lado e diz:
— Então, onde está Francis? – Dou um longo suspiro e, como sei que se não for agora, será mais tarde, eu respondo.
— Nós terminamos. Dois dias antes de eu embarcar. – Ela me olha surpreendida e eu decido contar logo tudo de uma vez. – Ele disse que eu não estava me esforçando para a nossa relação dá certo, que eu não o amava.
— Ele estava certo?
— Claro que não! Eu fiz um monte de coisas pra dar certo.
— Mas você disse que o amava?
— Bom, não em tantas palavras, mas sim.
— Pelos meus cálculos, são apenas três.
— Ele disse que me amava e ficou me olhando, as palavras só não saíram. – Ela suspira auditivamente e como se eu fosse uma criança, diz:
— Ele não vai te abandonar. Ele não é o seu pai. Francis só quer que você o ame.
— Se ele me amasse, ele não se importaria, são apenas palavras, e daí se eu não disser?
— Você sabe que não é assim. Na minha opinião, você só não achou o cara certo. O dia que você realmente amar uma pessoa, você vai dizer, nem que seja para evitar que ela vá embora.
Chego a abrir minha boca, mas bem nesse momento o show começa e as últimas palavras de Katherine ficam na minha cabeça.
Seis homens lindos, fantasiados de policial, mágico, bombeiro, marinheiro, príncipe e superman estão no palco e OH MEU DEUS! A minha boca, assim como a das garotas, está formando um exato O.
— Que tanquinho, ein? Ô lá em casa! – Diz Mel se abanando, nós rimos, mas eu tenho que concordar que eles são lindos mesmo.
O policial vai à frente de todos e começa a tirar seu uniforme ao som de uma música animada. Primeiro a parte de cima, depois a calça e...
— Espera! Eu conheço esse corpo! – Diz Kate e antes que eu pergunte o que ela quer dizer com isso. Ela se levanta do lugar que nós estamos sentadas no bar, vai até o palco e diz: – Elliot Grey, eu acho bom você não tirar essa cueca, se você não quiser ser assassinado pela sua ex-futura-esposa!
Todas as damas de honra se levantam e, achando que Kate pirou de vez, vamos impedir ela de fazer uma barraco, só que surpreendentemente, o policial que ainda estava com aquele chapéu do uniforme e a cabeça meia baixa, dá um sorriso e levanta o rosto e... É realmente Elliot!
— Achou mesmo que eu iria deixar você vendo homens nus? – Ele diz com um sorriso de orelha a orelha. Mas o que Kate faz a seguir é que nos faz rir: Ela pega todas as roupas dele do chão e tenta cobrir ele com suas mãos.
— Eu acho bom você está vestido em três segundos, senão eu terei que arrancar os olhos de todas essas mulheres que estão babando por você!
Ele ri, mas como não é nenhum pouco burro, obedece. Também, quem iria querer enfrentar essa loira? Eu que não tenho essa coragem.
Todos os outros “gogo boys” são na verdade, amigos de Elliot e nossos acompanhantes no casamento. Os dois únicos que eu conhecia eram Thiago e Dave que estavam vestidos de mágico e príncipe, respectivamente.
Bebo meu quarto copo de uma bebida que tem um nome legal e por um minuto me lembro que eu sou fraca pra bebidas, mas logo me recordo que isso é uma despedida e que eu to solteira! Droga, eu estou solteira!
Colocamos várias mesas juntas e nos sentamos com os amigos de Elliot. Eu não parava de rir de Kate e seu noivo.
— Que ideia idiota foi essa, hein? Está querendo que eu vá para a cadeia por assassinato e falte no nosso casamento?
— Mas baby, eu só achei que seria uma surpresa legal.
— Surpresa legal seria eu de calcinha e sutiã na frente de dezenas de pessoas. – Na mesma hora que ela diz isso, ele fecha a cara.
— Eu acho bom, você nem está pensando em fazer isso, Dona Katherine!
— Se você pode, eu também posso!
Eu não sabia de quê que eu ria mais, dos noivos ou de Thiago jogando cantadas pra Mel e deixando bem claro que ele sabe fazer mágica entre quatro paredes, se é que você me entende. De repente Mel que está sentada ao meu lado diz:
— Ana, você tem que conhecer meu primo, ele é lindo, policial, inte...
— Obrigada, mas eu não estou interessada. – Eu digo sem hesitar. Estou afim de me divertir e esquecer meu ex babaca, não conhecer outros babacas. Ela faz um cara desesperançada, mas apenas assente.
Eu momentaneamente percebo que todos na mesa estão silenciosos. Eu encontro com o olhar de Kate e ela olha suplicante para mim.
— Você podia dá uma chance pra ele...
— Preciso ir ao banheiro. – Digo a interrompendo e me levantando.
Retoco minha maquiagem rapidamente e assim que me sento na nossa mesa e olho para todo mundo, noto que todos estão olhando para algum lugar que não seja para mim. José até está olhando para o teto como se fosse o arquiteto do ano e analisasse um projeto de milhões.
— O que vocês estavam aprontando?
— Nós? Nada! Como você ousa fazer uma afirmação sem fundamento como essa? – Mia, que mesmo tendo acabado de conhecer, já percebi que não é uma boa mentirosa, fala.
— Elli, eu acabei de perceber que Ana não conhece todo mundo. – Diz Kate em uma óbvia tentativa de desviar do assunto.
— É verdade. Ana, você já conhece os patetas Ethan, Thiago e Dave aqui. Esse é José – diz indicando o Superman de cabelos pretos bagunçados, olhos verdes e um olhar super fofo – e este é meu irmão Christian – O outro Grey é o bombeiro moreno de olhos acinzentados e corpo escultural, ele olha para mim com um olhar e eu acredito seriamente que eu preciso trocar minha calcinha.
— É um incrível prazer, Anastasia. – Diz Christian, ao contrário dos outros que só assentiram.
— Digo o mesmo. – Eu digo com enorme sorriso. De repente, Kate olha para todo mundo com um olhar estranho e diz:
— Quer dançar, Elli?
— Com certeza.
— E você, Mel?
— Se você tocar na minha bunda você não terá mais mãos para tocar qualquer coisa, Thiago.
— Phoebe?
— Só se for agora, José.
— Mia, vamos dançar também?
— Sem dúvida, Ethan, mas já vou logo avisando que eu só quero fazer ciúmes para aquele loiro no bar.
— Eu vou fazer você mudar de ideia mesmo.
— Vai sonhando.
— Bellinha, vamos?
— Eu não sou um cachorro, Dave. – Isabella responde se levantando e indo para a pista de dança sozinha. E em segundos só restavam eu, Dave e Christian. Assim que Dave abre a boca, Christian o olha com um olhar do tipo se você fizer isso, eu vou fazer você se arrepender de ter nascido.
— É, pelo jeito eu sobrei. – Diz David engolindo em seco e indo para o bar.
Christian se senta na cadeira ao meu lado e diz: — Então quer dizer que você mora na Itália?
— Sim.
— Eu já fui lá algumas vezes, mas só à negócios.
— Que pena. O país é incrível, a arquitetura, as pessoas, a culinária... – Gemo só de pensar no maravilhoso país que é a minha casa. Assim que faço isso, ele olha para a minha boca e se eu estivesse um pouco mais bêbada, eu já estaria em seu colo.
— Eu nunca tinha pensado nisso, mas, nossa, garotas que falam italiano são sexys.
— Eu sou sexy?
— Sem dúvida, você é.
— Questa non è l'unica cosa che faccio che rende la mia bocca look sexy
— O que você acabou de falar? – Ele pergunta e eu dou uma risada. Eu me esqueci como um flerte inocente é bom... Se bem que esse moreno não tem nada de inocente. Encosto em seu ouvido e falo a tradução*.
— Mal posso esperar para descobrir essas outras coisas. – Dou uma risada gostosa com seu comentário.
— Na verdade, eu estava me referindo as minhas habilidades em francês. Será que você pensou que eu estava me referindo a outra coisa? – Eu falo com um ar inocente.
— Claro que não. Eu sou um grande fã da cultura francesa. Espera, quer dizer que você pensou em algum sentido duplo? E eu que achava que você, com esse rosto, era bem angelical. – Ele diz com incredulidade fingida. – Por que não nos juntamos aos outros na pista?
— Não, dançar não é o meu forte.
— Acho que sou capaz de te guiar, mas vou logo avisando você vai ter que trabalhar duro.
— Eu devo está fazendo algo errado, então. Por que era para você fazer o trabalho duro. – Digo erguendo uma sobrancelha. Ele ri.
Quando eu disse que eu não sabia dançar, eu não estava fazendo charme. Dançar sozinha seguindo o ritmo da música é uma coisa, já dançar em sintonia com alguém definitivamente não é para mim. Depois de umas três músicas, eu já tinha perdido as contas de quantas vezes eu havia pisado no pé de Christian. Assim que a música Don’t you worry child começou, ele segurou mais firmemente nos meus quadris e disse no meu ouvido:
— Fecha os olhos e apenas escuta.
Faço o que ele me pediu e me concentro na bonita letra:
Meu pai disse
Não se preocupe, não se preocupe, garoto
Veja, o céu tem um plano para você
Cada palavra da música me fazia lembrar do meu pai. E eu simplesmente encosto minha cabeça no peito de Christian e me perco em mim mesma sem perceber que os olhos de todos da despedida estavam em nós ou até mesmo que eu estava dançando.
Fale com o autor