Notas iniciais
Reúnem-se nesta história, relatos de terceiros, experiências próprias e observações feitas a partir de jornais e matérias sobre uma triste grande realidade da nossa época. Por favor, comentem a história, contem casos de vocês ou de terceiros. Já passaram por algo parecido? Se já, como agiram?

Era cinco e meia, de uma sexta-feira quente. Peguei minha bolsa e desliguei o computador da minha sala. Estava com pressa, mas tinha que organizar tudo e trancar as gavetas antes de sair de férias. Não gostaria que, ao voltar, as coisas estivessem fora do lugar ou que minhas canetas estivessem na mesa de algum colega que as pegou "emprestado" durante minha ausência.

Respirei fundo e olhei atentamente tudo ao meu redor. Janelas fechadas: OK! Gavetas trancadas: OK! Relatório impresso em duas vias, devidamente grampeadas: OK! Lixeiro do canto limpo: OK!

Este é o lado ruim de ter um pouco de crise de ansiedade: Puxei novamente todas as gavetas e portas de armário, me certificando que não havia esquecido nenhuma por acidente.

Desliguei a luz e observei minha sala por uns instantes, antes de ir até minha chefe e entregar o relatório impresso.

— Oi! — Falei com entusiasmo — Aqui! Trouxe sua cópia do relatório. Fiz toda a análise dos dados do último cliente e deixei com as devidas anotações para quem for ficar no meu lugar das continuidade!

— Obrigada, Cátia! Não sei o que faria sem você! Esse escritório estava um caos!

— E eu realmente espero que não volte a ser um antes de eu voltar das minhas merecidas férias!

— É mesmo! — Ela esfregou as mãos no rosto — Eu esqueci completamente! Ah! Estou tão atarefada com esse monte de impostos de renda chegando para fazer a declaração que eu nem sei que horas vamos sair daqui na semana que vem!

— Eu imagino! Mas, para compensar, já liguei para os nossos clientes atrasadinhos e cobrei eles de enviarem a documentação na próxima semana, ou ficarão sem declarar.

— Ah! Eu não sei o que faço! Eles ficam deixando para o último dia!

— Então, eu vou indo. Tenho que arrumar as minhas coisas, antes de viajar amanhã!

— Boa sorte, e volta logo antes que eu surte! — Ela terminou de falar, acenando e voltando os olhos para a papelada.

— São só quatro semanas! Logo estarei aqui!

Peguei minhas coisas e segui para sair do escritório de contabilidade. Estava indo tudo bem. Eu estava ansiosa pela viajem, mas ao mesmo tempo estava angustiada em pegar estrada sozinha neste ano.

Eu já tinha planejado tudo! Iria ver a minha família em uma cidade do interior do Mato Grosso e depois seguiria para um passeio turístico por algumas cidades próximas.

O problema é: Quando você fala sobre uma cidade "próxima" no Mato Grosso, significa um dia inteiro de viajem, diferente de uma cidade próxima em alguns outros estados.

Alguns dos pontos turísticos que eu estava louca para conhecer era alguns balneários em Nobres, as águas termais na volta, desviaria para as cachoeiras em Tangará da Serra, visitaria as trilhas, as lindas chapadas de Chapada dos Guimarães, além dos mirantes de lá, e, só talvez, arriscaria conhecer o pantanal.

Mas ainda teria que planejar uma rota, de modo a não perder pontos turísticos importantes. Era um plano para ser feito com a minha irmã mais nova, então eu dependia dela e de seu marido.

Assim que sai pela porta, um fio de suor frio desceu pela minha coluna.

Na porta, sendo atendido pela recepcionista, estava ele! A pessoa mais mal-caráter, descarada e prepotente que já conheci! Meu ex! Um sujeito maluco e desonesto com quem eu já havia terminado dois anos atrás e que insistia em vasculhar a minha vida pessoal.

Olhei diretamente para minha colega, evitando qualquer contato com o sujeito, como se eu não o conhecesse.

— Tchau, Raquel! Estou indo!

— Tchau Cátia!

Nesta hora, o dito-cujo me olhou, como se só então percebesse que era eu.

Tentei caminhar rápido, mas minha colega se levantou e me puxou para um abraço.

— Espera, Cátia! Me dê um abraço! Afinal, você não volta por um tempo, certo?

O rapaz demonstrou um certo interesse e perguntou:

— Vai sair de férias?

— Ela é uma das pessoas mais eficientes deste lugar! Ela vai é ser empurrada de férias, porque só sabe trabalhar!

Dei um sorriso forçado para minha amiga e fiz um sinal para que ela se tocasse, mas ela não percebeu.

— E vai para onde? — Ele perguntou.

— Olha, eu ainda não sei — Menti.

— Ué! Não ia visitar sua família em Juína?

Dei um beliscão nela, disfarçadamente e Raquel deu um pulo para trás, se tocando — finalmente — sobre quem era aquela pessoa ali.

— Que legal. Faz tempo que não falo com seus pais! Deveria mandar lembranças minhas para eles!

Olhei no fundo dos olhos dele, com uma raiva sobrenatural e falei:

— Eu não vou mandar recado nenhum! E você sabe muito bem o porquê! Agora... — Virei e abracei Raquel novamente — Se me dá licença, Raquel, vou descansar! Até daqui uns dias!

Ela se aproximou e sussurrou no meu ouvido:

— Desculpa, eu não sabia que ele era....

— Shiu! Fale baixo ou o maluco te escuta. — Beijei a cabeça dela — Eu te amo!

Bati o dedo no ponto do serviço e agradeci internamente aos céus! Finalmente estava de férias!