Notas iniciais
Reúnem-se nesta história, relatos de terceiros, experiências próprias e observações feitas a partir de jornais e matérias sobre uma triste grande realidade da nossa época. Por favor, comentem a história, contem casos de vocês ou de terceiros. Já passaram por algo parecido? Se já, como agiram?

"..."

"Eu era muito boba na época... Muito inocente até. Indo morar em uma cidade grande, com o possível 'amor da minha vida'. Eu já trabalhava, tinha me formado e conquistado meus primeiros estágios remunerados. No começo não achei estranho quando ele me pedia para faltar às aulas para ficarmos juntos. Depois continuei não percebendo quando ele começou a falar que deveríamos ser mais caseiros e não ficar indo em tantas festas, mas sim ver filmes em casa.

Passavam-se os meses e eu não percebia que o meu salário, por menor que fosse, era o único que pagava as despesas básicas da casa. E dele eu ainda tinha que tirar dinheiro para cuidar de mim mesma. Adorava ir à salões de beleza, comprar roupas chiques, andar de salto...

Mais tarde, ele quase me fez largar o emprego, falando que seria o homem da casa responsável pelo custeio e que eu viveria minha vida de princesa.

Antes de me demitir, tirei férias coletivas do estágio remunerado, mas ele não sabia.

Em seguida, tudo, absolutamente tudo que eu gostava e que precisava ser pago, começou a ser cortado do orçamento. O primeiro passo foi a academia, com uma desculpa que naquele mês as coisas ficariam apertadas para comprar o carro dele. No meio do mesmo mês, ele saiu e trouxe para casa vários produtos de beleza e higiene para que eu fizesse tudo em casa e não fosse ao salão. Até tesouras de cabelo ele trouxe. E o pior: Tudo de péssima qualidade, produtos até mesmo vencidos.

Fiquei furiosa, mas ele fez de tudo para contornar a situação e me fazer pensar que eu era exigente demais e que poderíamos aproveitar aquilo ainda.

Depois, ainda, começou a comprar comida para cozinharmos em casa. Na verdade, para EU cozinhar. E ele, continuava saindo todos os dias. E eu, sem perceber, fui ficando em casa.

Fui ficando sedentária, mal cuidada e feia. A única coisa que me cuidava ao extremo era para não engravidar, pois temia que aquilo impediria qualquer retomada da minha vida naquele momento. Eu sabia que se fosse mãe, largaria tudo para me dedicar ao bebê, então adiei esse compromisso.

Quando precisei comprar umas coisas supérfluas, das quais sempre gostava, percebi que ele havia gasto todo o dinheiro em bares, equipamentos do carro e coisas para ele. Quando questionei, ele me disse que eu queria gastar muito e que não precisava daquilo.

Ora! Eu preciso sim! Não vivo uma vida dessas pra não me divertir! Tenho meus direitos! Por isso percebi! Se você quer algo, trabalhe e ganhe dinheiro para comprar sem dar satisfação à homem algum!

A gota d'água, foi em pleno domingo. Ele teve a coragem de me dizer que eu estava feia e descuidada. E ainda, teve a audácia de dizer que eu deveria me preocupar, pois um homem como ele poderia me chutar a qualquer momento se eu ficasse feia.

Falei que a culpa era dele, por cortar todos meus gastos e não querer que eu trabalhasse.

Aquilo rendeu uma briga gigantesca a noite toda, que acordou os vizinhos. Ele quebrou meu telefone na parede e disse que no outro dia ele queria eu em casa, sentada perto da porta quando ele chegasse, pois teríamos uma conversa séria.

Por fim, ele saiu e dormiu fora aquela noite.

Mas não me deixei abalar. Na mesma noite, tomei um banho demorado e hidratei meu cabelo com o resto daqueles produtos vagabundos que ele comprou. Fiz uma máscara natural com algumas coisas do armário e me deitei, maquinando na minha cabeça como me livrar de tudo aquilo.

No dia seguinte, assim que acordei, fui às compras, me arrumei e comprei roupas novas. Voltei ao meu estágio, que recomeçava naquele dia, pela tarde, e, por incrível que pareça, um colega pediu se podia me indicar a um novo cargo que ele não poderia aceitar por acúmulo de funções. Aceitei na hora! E fui levar meu currículo com uma ótima indicação!

Agora restaria aguardar!

Voltei para casa no final do dia e lá estava ele: Possesso, bêbado e raivoso.

— Por que não me atendeu? — Ele gritava.

Expliquei que ele mesmo tinha quebrado meu telefone e ido embora sem dizer pra onde.

Mas, graças aos céus, não falei do meu estágio e da proposta de emprego. Antes disso, ele fez um escarcéu. Gritou, quebrou várias coisas e me acusou de ter saído para traí-lo. Me disse que era por isso que eu estava bem vestida assim.

Num impulso de raiva, falei que tinha sido isso mesmo! Então ele me disse, rindo, que a idiota era eu. Me disse que estava ficando com alguém também porque 'sabia que eu tinha o traído primeiro'. Eu chorei! Pela primeira vez em dias!

Achei que ele, por pior que fosse, não faria isso.

Então, sem remorsos, ele me expulsou do 'apartamento dele' que eu pagava.

Como eu estava apenas de ferias, tinha meu dinheirinho guardado. Peguei minhas coisas e saí. Fui para o apartamento da minha melhor amiga da época, passar umas noites até me ajeitar.

E a partir dali, trabalhei! Trabalhei muito para ser reconhecida e considerada para o cargo indicado. Fiz das tripas coração, trabalhei até de graça, além da hora, só para ficar o máximo com a cabeça ocupada.

Um mês depois, recebi a ligação do RH. Eu tinha minha primeira entrevista!"

Notas finais
Comentem
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.