Entre um Amor e um Perseguidor Psicótico
3 Capítulo 03
Notas iniciais
No outro dia, pela manhã, peguei minhas malas e chamei um Uber. Precisava chegar ao aeroporto até as 10 horas. Meu vôo sairia as onze horas para Cuiabá e levaria umas 3 horas, mais ou menos. Se eu tivesse sorte, pegaria o ônibus as 15:30 para Juína e logo poderia descansar. Era uma viajem longa de ônibus. Provavelmente chegaria à uma da manhã, ou talvez duas.
Eu estava esgotada! No meio da noite acordei com pesadelos terríveis do que havia me acontecido há uns anos.
Eu... Preciso me concentrar e ficar bem!
O motorista conversou bastante comigo, sobre coisas do dia-a-dia que passavam no jornal. Ele não parava de reclamar da política. Não o culpo, mas, para mim, política, religião e futebol não se discute! A não ser se for para reclamar de como as pessoas levam isso a sério demais, mas é outra história.
O dia estava bonito e o trânsito estava até razoável.
Chegaria antes do previsto! E teria que aguardar um bom tempo até pegar o avião.
Logo que cheguei no aeroporto, senti uma sensação ruim. Era como... Se eu estivesse sendo vigiada. Olhei para os lados, mas não vi nada, somente uma sombra de alguém andando rápido. Desconfiei, mas não deveria ser nada demais. Eu só estava em uma crise de ansiedade, nada demais.
O motorista desceu minhas malas e me encarou por um momento.
— Moça, você está bem? Está pálida!
— Não... Não é nada...
— Por acaso... Tem medo de altura? — Ele zombou.
Dei uma risada sem jeito, mas a piada foi engraçada.
— Só estou um pouco ansiosa... Faz três anos que não tiro férias. Fui obrigada a desligar um pouco.
— Que sorte a sua!
Então ele me ajudou e seguiu seu caminho. Subi e fiz o check-in. Despachei as malas e logo estava com minha bolsa de mão aguardando ser chamada para o voo.
Liguei o celular em uma tomada para deixá-lo com bastante bateria e fiquei mexendo nas redes sociais.
Minha irmã me mandou várias mensagens, querendo saber quando eu sairia de São Paulo. Respondi e logo abri um joguinho para passar meu tempo.
—--
Cerca de meia hora depois, a sensação ruim apareceu de novo.
E, como um fantasma, lá estava ele. O próprio! O prepotente e psicótico: meu ex!
Em pé, de frente para mim, acenando.
Respirei fundo e olhei para os lados, procurando se era realmente comigo.
Então, sem mais nem menos, ele se aproximou, carregando uma bolsa feminina.
— Olá, Cátia! Há quanto tempo!
Me recolhi em desconforto e respirei fundo.
— Porque veio falar comigo?
Fui bruta e nem um pouco educada com ele.
Estava farta! Ele era um maluco!
— Ué? Por acaso esqueceu? Eu amo você! É claro que viria falar com o amor da minha vida!
— Chega, Maicon! — Falei, sem pestanejar — Você é um maluco! O que veio fazer aqui? A gente não tem nada! E você insiste em me perseguir!
De repente, uma garota loira, bem nova, chegou e pegou a bolsa que estava nas mãos de Maicon.
— Olá. Ouvi vocês se exaltando e vim ver se estava tudo bem...
Ela passou o braço pelos ombros do meu ex e ficou me encarando com uma careta feia.
— Bem...
Mas ele me interrompeu:
— Francielle, esta é a Cátia! Ela é minha ex namorada, aquela que te contei que iria me casar! Acho que ela ainda não superou nosso término e veio fazer essa cena! Francamente, Cátia, você não sente vergonha?
Fiquei de boca aberta, gaguejando, com tanta raiva que não podia me segurar! Se ele abrisse aquela boca de novo eu juro que voaria no pescoço dele!
— Não foi nada disso que...!
Mas a garota loira empurrou Maicon de leve.
— Maicon, querido, por favor, vai comprar dois sorvetes para nós.
Ele saiu rápido.
— Ei! Ele está mentindo! Ele é um doido e-
Mas a garota apontou o dedo na minha cara e falou alto suficiente para todo mundo ao nosso redor ouvir:
— Olha... Cátia, certo? Não tente se explicar! O Maicon já me disse o suficiente sobre você! Sei que vocês dois saíram do Mato Grosso em busca de oportunidades melhores de trabalho e sei que quase se casaram! Eu jamais teria problemas com isso.
— Garota, chega. Eu não estou a fim de discutir e...
— QUIETA — Ela gritou.
Todos ao redor ficaram em silêncio. Eu respirei fundo e revirei os olhos. Era o que me faltava, outra maluca!
— Ta ok. Vamos lá, você já está gritando mesmo! Termine de falar! O que aquele maluco inventou para você?
— Sei que você é uma mentirosa! Fica indo atrás dele! Não respeita o noivo dos outros!
— O QUE? — Fiquei incrédula e coloquei as mãos na cintura, para evitar rodar elas na cara dessa menina.
— Ele me contou tudo! Que você se mudou para o nosso bairro, para trabalhar na empresa de contabilidade que ele sempre usou!
— MAS QUE MENTIRA! — Tentei me defender! — Eu tinha me mudado para aquele bairro a trabalho há três anos! E ele era cliente da empresa há um mês!
— E ele me disse que você ficou sabendo da nossa viajem para Juína e resolveu esfregar na cara dele que iria também!
Meu mundo caiu. Eu não podia acreditar.
Olhei para os lados e esperei para ver se câmeras apareciam, como naquelas pegadinhas que são feitas em aeroportos!
Mas nenhuma câmera apareceu. Minha ansiedade cresceu e eu estava prestes a desabar. Respirei fundo e controlei minhas emoções para não chorar de raiva!
— Escuta... — Falei mais baixo, obrigando ela a se aproximar para me escutar — Eu quem terminei com ele. Há muito tempo. Ele me fez coisas terríveis e, sinceramente, não acredito que ele te convenceu que eu estou perseguindo ele.
Ela me olhou com mais interesse, mas ainda assim, desconfiada.
— Ele... É maluco! E sinceramente, quando que ele decidiu que vocês viajariam para Juína?
— Bem... Isso não te interessa!
— Por favor, me diga a verdade!
— Ele... — Ela se sentiu menos confortável quando as pessoas passaram a encarar ela em vez de mim — Ele disse que já tinha planejado há dois meses...
— Falou? Mas quando que ELE te contou isso?
— Bem... Ontem a noite.... Ele... Eu...
Cruzei meus braços, como que em vitória. Ela deveria ser menos burra!
— E faz quanto tempo que estão noivos?
— Faz... Um dia.. Ele... Ele me conheceu há dois meses... Mas ele me ama! E... Ele disse que iríamos visitar a avó dele em Juína e iríamos passear nas cidades em volta e...
AQUILO ERA UM PESADELO!
— Eu digo isso! Tome cuidado, Francielle. Ou vai acabar se enrascando com ele! Se eu fosse você caia fora enquanto há tempo!
Ela ficou extremamente vermelha e, num ato de raiva descontrolada, chutou minha bolsa que estava nos meus pés. Todos fizeram um grande "Ooooh" e meus batons e canetas rolaram pelo chão.
Abri minha boca em descrença total!
— ELE ME AVISOU QUE VOCÊ DIRIA ISTO! VOCÊ SÓ QUER ROUBAR ELE DE MIM! EU SABIA QUE VOCÊ ERA UMA VAGABUNDA!
E então, ela saiu correndo ao encontro de Maicon. Podia ser impressão minha, mas ele me olhava com um sorriso cínico de psicopata.
Respirei fundo... Isto não podia estar acontecendo... Eram as MINHAS férias e aquele maluco psicopata estava DE NOVO entrando na minha vida para tentar me arruinar.
Respirei mais e mais, numa crise ansiosa. Segurei meus cabelos com força e coloquei minha cabeça entre os joelhos, tentando controlar o pânico. Os dois anos de terapia que fui obrigada a fazer após ele estragar a minha vida estavam indo pelo ralo naquele momento! Eu DEVIA ter mandado ele para a cadeia quando pude!
De repente, uma pequena mãozinha colocou minhas canetas no meu campo de visão, abaixando-se e me olhando nos olhos.
— Moça! Peguei suas coisas!
Ergui o rosto e vi uma criança de uns 6 anos me entregando minhas coisas. Ergui mais o rosto e vi outra criança, provavelmente seu irmão, de uns 13 anos e sua mãe com minha bolsa nas mãos.
— Querida... Você está bem?
Ela se sentou ao meu lado.
— Filho, pega esse dinheiro e vai comprar uma água para ela, por favor.
O rapazinho saiu e percebi que a mulher respirava num ritmo bem lento, me fazendo respirar junto para acalmar meus nervos.
— Obrigada — Peguei a água e bebi meia garrafa de uma vez só — Eu... Eu...
— Não precisa se explicar... Eu entendo você.
Olhei ela nos olhos, com os meus cheios de lágrimas que finalmente escaparam. O garoto colocou a mão no meu braço e disse baixinho:
— Ele é igual ao papai.
Olhei, sem entender, e ele explicou:
— Meu pai era extremamente abusivo com a nossa mãe. Ele arrumou uma outra mulher e fez a mamãe passar por... Algo quase parecido.
Olhei novamente para a mulher e, só então reparei que seu rosto possuía marcas profundas de preocupação. Seu rosto não condizia mais com sua idade.
— Pelo menos você é nova ainda, garota. Eu esperei quinze anos até me livrar do meu ex marido violento. Tudo pelas crianças... Mas não valia a pena todo o sofrimento.
— Hoje a gente é feliz, não é, mamãe? — Perguntou a garotinha.
— Sim! Muito! — Ela acariciou os cabelos da filha e pediu que ela se sentasse ao meu lado.
Respirei e disse a ela:
— Sabe... Eu passei por muita coisa. Mas não entendo porque ele voltou depois de dois anos. Ele vem me perseguindo!
— Eu sei... Acho que entendo o motivo dele.
Olhei com atenção.
— Homens babacas e fracos emocionalmente só se dão bem na vida empurrando a mulher para baixo. Ele se sentia superior a você e quando você tirou ele do pedestal, ele se sentiu ameaçado, mas foi embora. Agora ele deve estar vendo você se dar bem na vida, talvez... Emprego? Faculdade? Outro amor?
— Emprego — Sorri discretamente — Só isso por enquanto.
— Pois é isso! Ele sente falta de ser maior que você e provavelmente não encontrou alguém para judiar da mesma forma. Ele se divertia com isso... Pelo menos foi isso que a policial falou para mim quando mandei meu ex marido para cadeia por perseguição e ameaças contra vida minha e dos nossos filhos!
— Meu terapeuta falou o mesmo.... — Contei — Mas isso não deveria mexer tanto comigo...
— Olha, se quiser, faço companhia a você até a polícia.
— Acho... Acho que por enquanto não será necessário.
Sentamos e conversamos mais um pouco. Ela iria para Cuiabá visitar as Chapadas dos Guimarães com seus filhos, de férias e seguiria para um balneário em Nobres. Perguntou se eu não queria ir junto, mas expliquei que iria com minha irmã depois de uns dias, mas que antes iria para Juína ver ela e meus pais.
Na hora do embarque, mais uma péssima surpresa: Meu ex e sua noiva ficariam bem próximos ao meu banco. Me senti incomodada, mas a mulher ao meu lado segurou meu ombro, vendo meu nervosismo.
— Espere, Cátia. Ei, João! Filho, você não seria um bom garoto e ajudaria a Cátia? Trocaria de lugar com ela?
— Mas mãe! Eu ia na janela!
— O assento dela também é na janela!
— E eu posso viajar sozinho?
Ela respirou fundo e o encarou seriamente.
— Não faça nada que me obrigue a ir até você depois! E pode pedir uma garrafa de suco! Eu pago!
Ele comemorou e correu para o meu lugar. Pude ver Francielle e Maicon me encarando por cima dos bancos. Virei de costas e segui até a frente do avião, onde me sentei confortavelmente ao lado da pequena Vitória e de sua mãe.
O resto da viajem a partir dali foi tranquilo.
Chegamos em "Cuiabá", o que teoricamente não é verdade, já que o aeroporto fica em Várzea Grande, ao lado. Mal saí e já notei o calor extremo ao sair do aeroporto. Me despedi da minha "amiga de viajem" e das crianças com um grande abraço apertado.
Peguei um Uber e segui direto para rodoviária de Várzea, que é pequena, mas aconchegante. Agora era só esperar o ônibus. Mas dentro do meu coração ainda tinha uma pontada de angústia: Eles chegaram e se sentaram propositalmente próximos a mim!
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