Entre o rio
30 Resposta
Notas iniciais
Meus pulmões clamam por ar. Minha mente fervilha. O rio me envolve e comprime meu corpo num abraço perigoso. Tempo demais sem respirar e será mortal.
Lembranças do acidente que sofri, há pouco mais de dois meses, se misturam com flashes de outra tragédia, de outra vida.
O anseio pela verdade me mantém obstinado. Preciso de algo rotundo e esclarecedor. Preciso das memórias de Daniel. Preciso descobrir se elas são minhas ou se estou perdido numa ilusão.
Dor. Quero respirar. Ainda não posso.
Duas crianças brincando num descampado. Uma tempestade se formando. Uma menina com o sorriso de Angela corre na minha frente. Nossos sapatos provocam estalos na extensa ponte. A tempestade despenca de súbito.
Angela segurou minha mão quando eu escorreguei. Tentou me puxar. Não conseguiu. Eu caí.
As memórias vêm. Todas elas. Feito a enxurrada que nos pegou de surpresa naquela tarde.
Impulsiono-me para cima. Puxo o ar com força. Agarro o fôlego. Caminho trôpego para as margens do rio. Meu corpo treme. Minha mente vibra.
Uma última pergunta me assombra. Ignoro meu distintivo pela resposta.
Desenterro de vez o passado. Quebro a tampa do caixão com a pá. Olho para o seu interior. E caio de joelhos.
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