Entre o pó dos nossos ossos
1 Despertando para a verdade
Será que o tempo cura tudo? As magoas? As feridas? Mas uma coisa eu aprendi com ele... Ele não mata os sentimentos, e ás vezes penso que não melhora as pessoas, porém sou um exemplo de que o tempo pelo menos muda esses seres eu era uma coisa agora sou totalmente outra pura causa e efeito.
Minha mãe chamava-se Leona um nome que eu achava forte, ela tinha pele clara cabelos escuros e encaracolados e olhos que me transmitiam mistério de tão escuros, de minha mãe somente tinha os cachos dos cabelos o que me intrigava muito sobre minha paternidade, morávamos em uma casa humilde com apenas uma sala, um quarto e um banheiro feitos de pedra oque deixava a casa muito fria, morávamos isoladas da aldeia no início da floresta onde ninguém se atrevia a colocar os pés com medo de superstições, quando necessitamos de comer minha mãe fazia da pequena sala uma cozinha, claro depois de caçarmos nosso alimento, no começo éramos apenas nós duas oque não me deixava triste, pois ela não deixava espaço em meu coração para as dúvidas paternas, houve uma vez que perguntei sobre meu pai ela ficou em silêncio se levantou passando três dias no quarto, então decidi não perguntar mais. Mas eu tinha muitas perguntas para ela, muitas que com certeza, ela não me responderia.
Por que ela me ensinou a caçar? Com seis anos de idade ela já me mandava sozinha para a floresta caçar nosso jantar, eu brincava com punhais, sais, adagas e facas eu achava divertido porque passávamos algum tempo juntas, minha mãe não era muito de conversar só de lecionar sempre dizia “Lea somente fale quando oque disser valer mais que o silêncio” eu revirava os olhos e bufava, eu passava muito tempo indo na floresta caçando, conhecendo as ervas e brincando como uma criança normal como pelo menos eu achava que uma criança normal brincava, um dia achei uma trilha resolvi segui-la e acabei chegando na vila, suja lamacenta com um poço no meio do vilarejo com pessoas vestindo trapos mas tudo muito harmonioso uma civilização ao todo, uma experiência que nunca tinha vivido fiquei feliz e com medo ao mesmo tempo não sabia interagir com outras pessoas fora minha mãe, fiquei observando as crianças brincarem, correrem se sujarem na terra lamacenta e percebi que não era uma criança de verdade.
Não ria como eles, não brincava como eles, me sentia estranha confusa e meio que vazia, na época não sabia mas agora eu sei que o vazio nunca me largaria, voltei para casa correndo e chorando não pude esconder da minha mãe oque tinha feito ela podia ver nos meus olhos vermelhos e inchados de chorar, nunca tinha visto tanta ira na sua voz e nos seus olhos me proibiu de voltar lá, me fez mil ameaças, promessas de castigos e penitências
– Mas por que mãe, porque não posso voltar? Porque não posso brincar com eles? Porque vivemos sozinhas e isoladas?
– Lea não faça perguntas que você não quer ouvir as respostas,
- Mas eu quero as respostas, quero ser como eles, quero fazer parte de algo.
- Lea você não sabe oque está dizendo, e muito menos o porquê mantemos uma vida assim, vá para o quarto e só saia de lá quando eu chamar ou enfrente as consequências do seu desacato.
Fui para o quarto muito contra minha vontade, me olhei em nosso espelho e não me reconheci meus olhos estavam de uma cor diferente não sei ao certo a cor parecia mel ou avelã sendo que meus olhos eram azuis será devido as minhas emoções? De repente a minha descoberta? Não dei atenção deitei em nossa cama feita de feno e coberta de lenções e cobertores, adormeci antes mesmo de me cobrir, quando dei por mim estava sonhando que ótimo! Fazia tempo que não sonhava minha mãe sempre dizia que só descansamos quando sonhamos, era um lugar lindo um castelo com chão de mármore tecidos nas paredes um belo banquete com tudo que eu conseguia imaginar faisões, porcos, e muitas comidas exóticas que eu em minha ignorância não soube identificar, tinha um homem sentado ao trono eu o fiquei observando enquanto ele me estendia à mão.
– Lea minha filha! Encontramos — nos finalmente, abençoado motivo que despertou seu dom minha menina!
- Filha? Tem certeza senhor? Infelizmente não conheço meu pai para lhe confirmar ou discordar.
- Que tipo de pai seria eu se não reconhecesse minha própria filha? Sim é você mesma Lea Verumdecaelo cujo pai não conheceu até o presente momento, você tem oito anos filha de Leona Verumdecaelo a mãe que lhe cria em uma floresta amaldiçoada isolada de tudo e de todos se não acredita olhe sua marca de nascença veja sua herança hereditária paternal.
Eu pensei que marca é essa? Pronto estava assustava novamente mas com certeza ele poderia responder todas as minhas perguntas, olhei para ele procurando traços parecidos com os meus e identifiquei uma pinta na parte interna do punho pinta que eu também tenho, fiquei eufórica não acredito deve ser meu pai mesmo quantas pessoas tem uma pinta no mesmo lugar? E de certa forma éramos parecidos ele era alto acho que 1,85 mais ou menos, era possante olhos azuis os cabelos dele eram loiros oque combinado com os da minha mãe poderia ter dado origem a esse meu castanho dourado avermelhado Ah! Sei lá não estou conseguindo raciocinar direito.
Quando abri a boca para lhe pergunta o mais obvio, Por que me abandonou? Acordei repentinamente e dei de cara com minha mãe me encarando como se eu tivesse feito alguma coisa errada, estava com os olhos cor de mel os mesmos que eu estava antes, sem me dizer nada saiu do quarto e me deixou com meus pensamentos, será que é verdade? Será que ele é realmente meu pai? Será que foi apenas um sonho? Será que não? Pensei e pensei até que os primeiros raios solares tocassem a janela e então adormeci. Quando acordei escutei uma voz estranha, fiquei analisando aquela voz da cama até que resolvi levantar me olhei no espelho e meus olhos estavam normais, de novo azuis cheguei á sala e me deparei com um homem.
- Bom dia Senhor! ( Disse aos berros pelo susto)
- Bom dia Lea!
- Bom dia mãe! (eu disse meio sem jeito).
- Bom dia minha filha!
Um silêncio inundou a pequena sala, os dois olhando para mim e eu não sabia para onde olhar.
- Lea oque você acha de ir buscar uns ovos no vilarejo, e buscar umas frutas na floresta?
- Oque? Lembro-me de esse ter sido o motivo do auge da nossa discussão ontem!
Minha mãe olhou para mim com um aspecto cansado e frustrado.
- Lea, por favor, faça oque lhe pedi.
- Sim! Mãe estou indo. (sai pisando forte no chão)
- Cace uma pequena ave na floresta e tente trocar por ovos.
- Sim senhora.
Então assim fui para a floresta capturei uma codorna e segui a trilha que horas antes havia me trazido problemas, minha cabeça estava a mil essa manhã não fazia sentido algum, mal eu saberia que mudaria minha vida brutalmente cheguei à pequena quermesse no velho vilarejo havia uma senhora com um lenço no cabelo grisalho com um avental sujo atrás de um balcão de madeira feito a mão.
- O que temos aqui? Um rostinho que nunca tinha visto Olá menina você esta de passagem por aqui?
Eu fiquei nervosa e as palavras não saiam da minha boca quando saíram gaguejei um Olá muito sem jeito, disse que não, que morava na região perto da floresta Black Hort. Com minha mãe a senhora praticamente saltou os olhos do rosto e depois os colocou no lugar, mudou totalmente sua expressão e sua forma de falar.
-Então oque você deseja?
-Gostaria de lhe ofertar esta pequena ave em troca de ovos de galinha.
-Não, lhe dou os ovos mas não quero nada que venha dessa floresta amaldiçoada.
-Mas senhora não seria justo, não seria uma troca.
-Quer os ovos ou não?
-Sim eu lhe agradeço... E lhe peço desculpas.
-Aqui estão os ovos agora peço que se retire do meu estabelecimento.
Quando fechei a porta da quermesse já não entendia nada com nada, porque fui tratada assim? Não dei motivos, não fui mal educada Ah! Não sei preciso de respostas que talvez só o meu “pai” possa me dar, quando cheguei em casa, minha mãe estava conversando com o Senhor cujo o nome ainda não sei, rindo e gesticulando parecia até outra pessoa ela pediu que eu fizesse o café da manhã, só veio me ajudar a fazer o omelete e quando se dirigiu a mim parecia a velha Leona Verumdecaelo fizemos o omelete e para minha surpresa ela fez o prato do indigente! Minha mãe desde que eu me lembro nunca fez isso para mim bufei comi e sai, fui para o único lugar em que realmente iria me sentir em casa a floresta Black Hort. Ela sim! Entendia-me assistiu meu crescimento, me viu brincar e chorar assistiu minhas primeiras quedas e foi minha escola medicinal fiquei algum tempo lá sentada em uma árvore alta onde conseguia ver tudo dava até pra ver o vilarejo de longe como não tinha visto isso antes? Como não tinha descoberto ele antes daqui de cima? Desde que me conheço subo nas árvores principalmente nas mais altas, tipo um desafio de eu para mim ah! Eu não estava nem um pouco a fim de criar novas perguntas que assim como as velhas não seriam respondidas, fechei os olhos e puxei o máximo de ar que meus pulmões conseguiram, quando de repente escutei um “Ola!” Soltei o ar de uma vez só arregalei os olhos olhei em todos os cantos e não vi ninguém, pronto! Só faltava isso agora, ouvir vozes! Já não bastavam sonhos estranhos? Quando escutei novamente.
- Você é surda ou mal educada?
Percebi que a voz vinha de cima, tinha um garoto na copa da árvore olhando diretamente nos meus olhos.
- Quem é você? Oque esta fazendo aqui?
- Já vi que não é surda então só lhe sobra á outra opção!
- Você não respondeu minhas perguntas, (me movi para que ficasse fácil pegar meu pequeno punhal na minha cintura na parte de trás da calça)
- Nossa! Quanta simpatia! Meu nome é Pietro Corvin
- Oque você esta fazendo aqui? Ninguém vem a esta floresta você é do vilarejo?
- Não sou do vilarejo tenho cara de ser de lá? Estou de passagem e vi você então resolvi perguntar onde estou? Quero dizer em qual cidade?
- Budesti România.
Era uma Budesti diferente dos tempos atuais tudo se resumia em vilarejos, vilas e pequenas cidades com muito verde em volta, mas estávamos progredindo ao poucos.
- E?
- E oque? Eu disse, esperava estar aonde?
- Não sei não tenho rumo fico aonde eu gostar e vou para onde quero.
Ele tinha uma vida de eremita, eu achava fascinante já que só vivi aqui isolada privada de ver o mundo, mas interrompendo meus pensamentos ele começou a falar.
- Você não vai me disser seu nome? Eu disse o meu as pessoas costumam se apresentar sabe?
- Lea Verumdecaelo (ele tinha um jeito muito irritante de falar).
- Muito prazer Lea Verumdecaelo!
- É o prazer será só seu mesmo! Bom, tenho que ir esta escurecendo e tenho que voltar para casa.
- Ok, nos vemos amanhã então Lea Verumdecaelo.
- Amanhã? Que histó...
Ele já tinha ido silenciosamente assim como chegou, então fui para casa quando cheguei e abri a porta ainda tínhamos a visita, pensei nossa! Para quem nunca tinha tido visitas ai esta uma que não quer ir embora! Para minha surpresa minha mãe estava fazendo o jantar tinha usado a codorna que mais cedo a senhora da quermesse tinha rejeitado, minha mãe fez com legumes mas é claro ela tinha que arrumar algo para mim fazer então me mandou colher algumas laranjas do pé em frente a nossa casa, fazer um suco para acompanhar o jantar, quando nos sentamos na mesa improvisada resolveu disser algo antes.
— Bom! Lea antes de continuarmos quero lhe contar algo que eu decidi e creio que lhe fará muito bem (eu fiquei a observando enviando a primeira garfada a boca)
- Vou me casar filha! (eu cuspi toda a comida na mesa chocada com a notícia)
- Que? Mãe eu nem sei o nome desse homem eu o vi pela primeira vez hoje!
- Lea eu estou apenas lhe informando oque esta acontecendo, não quero e nem preciso da sua permissão.
- Então se sua única vontade era me informar a senhora já o fez.
Me virei novamente para o prato e então o indigente resolveu iniciar uma breve conversa comigo.
- Lea, não estou tirando sua mãe de você, eu quero fazer parte desta família.
- Hum! Assim fico aliviada. (deixei bem claro um tom de ironia) Eu nem sei seu nome nem sua profissão e nem da onde você veio.
- Meu nome é Érico Varcon sou fazendeiro cuido de minhas terras posso oferecer a vocês uma vida mais confortável, vocês são minhas responsabilidades agora.
Revirei os olhos devorei o prato que estava em minha frente e fui para o quarto queria ficar o mais longe possível deles, ironia a menina isolada do mundo sempre quis estar entre as pessoas e agora ela resolve se isolar dentro do próprio isolamento. Adormeci e sonhei novamente com meu suporto pai, era tudo tão lindo tão fora da minha realidade e tão perfeito eu estava novamente naquele palácio castelo, e todos me veneravam como se eu fosse a princesa e ele o rei, o rei resolve se levantar e disser:
- Recebam minha única filha Lea Verumdecaelo ela dará continuidade a nossa fartura e prosperidade ela dará continuidade aos nossos preceitos.
E todos me aplaudiram sorrindo e satisfeitos o futuro estava protegido enquanto eu estive-se viva e saudável, então meu pai me puxou nossa! Eu já estava o chamando de pai sem eu perceber acho que realmente o sangue fala mais alto.
- Minha filha, preciso falar urgentemente com você ele cochichou em meu ouvido, nos retiramos da sala principal e caminhamos até outra mais privada parecia um gabinete com mesa principal, pequenas mesas nos cantos livros e papeis por toda parte, e cadeiras com acolchoado vermelho com pedrarias cravejadas nos descansos dos braços, tudo muito refinado.
- Minha filha, creio que não temos muito tempo para falar sua mãe esta arquitetando um plano para que nossos encontros não aconteçam mais, ela já lhe mantem em um lugar mágico para que eu não possa detecta-la, me diga minha filha onde você mora e irei busca-la pessoalmente.
- Isso tudo é muito novo para mim! Pai, fartura e pessoas não sei se isso tudo é real minha cabeça esta dando voltas, eu não sei o seu nome e muito menos essa história de magia minha mãe sempre me disse que não existe essas coisas.
- Como? Disse ele, filha não temos tempo pra isso! Você ouviu oque lhe disse anteriormente? Depois que eu encontra-la esclarecerei qualquer dúvida sua, mas agora me diga onde você esta.
- Como sabe que encontrou a menina certa? (precisava perguntar, eu posso estar tomando o lugar de outra e assim desgraçando a vida da menina usurpada)
- Seja rápida Lea já sinto sua mãe tentando invadir seu sonho, como eu te disse antes você tem a marca da minha família, a pinta em seu punho! Não sei quanto tempo conseguirei manter nossa conversa, sua mãe já esta interferindo você mora em um local que drena meus poderes.
Quando resolvi dizer onde morava tudo ficou preto, e simplesmente estava em outro lugar no começo não reconheci tudo tão claro, tão puro me sentia bem lá quando dei por mim era a velha Black Hort. A floresta começou a morrer tudo ficou sem cor, as folhas murchando e amarelando, o chão não tinha mais flores e as frutas das arvores apodrecendo e eu também quanto mais à floresta morria mais eu sentia que estava morrendo, estava sufocando ficando pálida e sem vida me desesperei por a floresta estar me levando para o buraco junto com ela senti meu último suspiro tive um acesso de raiva por morrer jovem, por nem ter começado a viver e por perceber que de certo modo ninguém sentiria minha falta, ergui minhas mãos para o céu para a lua sei lá! Uma espécie de instinto e supliquei vida e força quando percebi minhas mãos estavam com uma luz então direcionei minhas mãos a mim como se a lua estivesse me dando vida e eu tivesse que repor a vida que a floresta estava me tomando foi quando explodiu uma bomba de energia, fleches de luz como se fossem fogos de artifícios prateados.
Acordei e vi minha mãe na cabeceira da cama com as mãos juntas como se estivesse rezando de olhos fechados e Érico como se pudesse costurar o vento fazendo movimentos com as mãos, como se ele pudesse sentir que acordei abriu os olhos rapidamente e disse a minha mãe que eu tinha acordado, minha mãe abriu os olhos com aquela cor novamente aqueles olhos mel me encarando disse para Érico que precisavam conversar e resolver tudo logo antes que começasse, e saíram do quarto na verdade saíram da casa não tenho ideia de onde foram eu estava tão exausta que não consegui sair da cama, com dor no corpo e encharcada de suor estava tão cansada que não conseguia dormir, eu precisava recobrar minhas forças precisava dormir, mas parecia que alguém estava martelando minha cabeça como se eu fosse um prego, me irritei e tentei levantar Ah! Consegui! Fui me arrastando para a pequena sala que ótimo! Não tinha nem farelo para comer e eu estava faminta minha única alternativa era me entupir de frutas na floresta não tenho forças para caçar então fui cambaleando na direção da Black Hort. A floresta que em meu sonho tentou me matar, não estava interessada em pensar nisso agora no momento só queria encher minha barriga.
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