Entre o céu e o inferno
8 Os masai
Notas iniciais
Em pleno século XX, numa viagem a Nairobi, no Quênia, Aurora entrou no Hotel New Stanley com um sorriso na boca, sem suspeitar que aquela excursão mudaria para sempre a sua vida. Ela estava junto a um grupo festivo de turistas vindos do Brasil. Era uma alegria geral. A maioria queria visitar o Parque Nacional de Nairobi, já outros gritavam que as Colinas de Kgong estavam mais perto, onde encontrariam artesanato dos masai. Mas o que Aurora deseja mesmo era visitar a Biblioteca MacMillan e o Museu de Karem Blixen para enriquecer sua pesquisa de doutorado sobre as origens do homem na Terra. Afinal, tudo assinalava que naquele lugar, entre 5 e 3 milhões de anos atrás, a espécie hominídea se transformara em homens.
Uma semana depois, pés inchados de tanto turismo frenético com a excursão, Aurora conseguiu finalmente visitar a Biblioteca acompanhada de um guia local que falava inglês. Sozinha. Ela observou na entrada as esculturas estáticas de 2 leões, como recebendo-a com deferência, e mais além viu 3 homens de vermelho que inclinaram a cabeça em sinal de respeito, como reconhecendo-a. Eram 3 masai que não paravam de murmurar entre eles no dialeto tribal.
Mas as surpresas desse dia só estavam começando.
Rodeada de livros e mapas, os masai a rodearam e falaram em inglês: — Gostaríamos de recebê-la nos Jardins Botânicos, ao entardecer.
— Adoraria. Mas vou depender de meu guia...
E em meio à descontração, os masai se apresentaram e trocaram nomes com Aurora e com seu guia. Aurora sentiu um arrepio na coluna. Esses homens altos e altivos viviam longe da sociedade e se negavam a seguir os costumes ocidentais. Eram nômades modernos. Muitos acreditavam que eles descendiam diretamente da linhagem de Adão. Das tribos mais remotas da história humana. E Aurora desejava toda a informação possível para desvendar o mistério. Marcou o encontro com os masai, qual abelha vai atrás do mel.
Na entrada do Jardim Botânico, o guia foi sendo afastado com discrição, ao tempo que Aurora era levada para ver mais ou menos 300 espécies de bichos, que deambulavam em todo lugar. Quando estavam longe de qualquer contato humano, Aurora foi finalmente invitada a sentar no chão para uma longa conversa. Antropologia. História do povo, enfim. E no final, um deles perguntou-lhe:
— Você sabe quem foi Aurora?
— Eu! Meu nome é Aurora. Mas, acho que estão falando sobre alguma figura mitológica do passado...
— Isso! Da deusa que se apaixonou por um homem mortal. Quando o homem morreu, ela converteu-o em gafanhoto, e viveu com ele pela eternidade. E neste momento, ela está encarnada e com um ministério muito importante.
— Mas, vão me contar quem é ela? É da tribo de vocês, não é?
A risada masai durou tempo desta vez. Eles possuíam dentes brancos que brilhavam e eram homens belíssimos. Aurora sentiu mais um arrepio. Nossa! Lembrou-se de seu marido Lúcifer. Acalmou então sua breve excitação por esses homens. De alguma maneira ela adorava os pretos. Quando eles ficaram sérios, um deles tomou sua mão e lhe disse com doçura:
— Acho que é você! E espero que tenha sucesso na sua missão.
Como do nada, o guia apareceu correndo, pois, o Jardim estava fechando as portas. Os masai abraçaram Aurora com um sorriso, e desapareceram como por encanto. Rapidinho. Sem deixar endereço. Sem nunca mais serem encontrados em lugar nenhum.
No regresso dessa viagem, Aurora terminou seu doutorado em Antropologia. E dali para frente, sua vida mudou de vez. Numa noite em que Lúcifer encontrava-se ausente num motel com uma amante, Aurora achou uma carta escrita em inglês, guardada numa bolsa que levasse ao Quênia.
E leu atônita: -Agora você possui o poder do fogo e da água. Quando ficar muito triste vai chover, e quando estiver furiosa, catástrofes acontecerão. Aprenda a controlar-se, pois foi lhe dado um poder sobrenatural. Matará com a sua fúria e com os seus sentimentos de tristeza. Seus inimigos dar-se-ão muito mal daqui para frente, e quanto a seu marido, ele vai viver se você permitir, pois você é agora dona do futuro. Se quiser que a sociedade humana pereça, use seu ódio. Se quiser que ela sobreviva, ame-a. Perdoe-a, pois a partir de agora em diante você carregará a espada dos anjos. Será a guardiã da luz, e as trevas a buscarão e perseguirão como ratazana. Sempre estará rodeada de demônios vivos e invisíveis. Sempre estarão perseguindo-a, roubando-a, enganando-a. E terá que se defender só com o pensamento. Cada vez que um conhecido seu morra, não sofra, pois ele morreu por você.
E de repente, ela estava sentada no chão, enquanto seu coração batia quais tambores. Queimou a carta, e foi tentar dormir. Sonhou com os masai sorrindo e olhando-a.
Nos dias seguintes, coisas começaram a acontecer.
Lúcifer morreu de acidente de carro, depois de uma briga. Ele reclamou que a cerveja estava quente, e deu nela uns tapas enfurecidos. Depois, já na cama, a puxou pelos cabelos, e a estuprou como um selvagem, com tapas, mordidas, deixando-a cheia de hematomas. Mas, assim que ele dormiu, Aurora saiu de casa sem fazer barulho, correu pelas ruas, pegou um táxi e sumiu da cidade.
Durante a cremação de Lúcifer jurou a si mesma fazer ioga, meditação, qualquer coisa que a ajudasse a controlar sua fúria. Ela apenas fugira! Sequer falara nada! E Lúcifer era totalmente apaixonado por ela. O máximo que fazia era gritar como demônio, ameaça-la e traí-la.
Como ficou riquíssima com a viuvez, fez um acordo com a Universidade e se aposentou com menos de 30 anos de serviço. Dividiu seu tempo, dali em diante entre uma vida de viúva alegre, com vários empregados fazendo as mordomias de casa, e uma existência de escritora. Publicou seu livro de doutorado narrando a história da humanidade, e passou a fazer parte da intelectualidade dessa linda cidade.
A única coisa terrível que a atormentava, era não poder controlar seus poderes paranormais para evitar sofrimentos alheios. Cada vez que era ofendida, ou humilhada por alguém, essa pessoa batia de carro, ou ficava gravemente doente. Mas o que era pior: chegavam à cidade os vendavais. Urbes vizinhas alagavam, casas eram derrubadas, gente morria, e Aurora falava para si mesma para se consolar:- Eu não tive nada a ver com isso.
E para evitar desgraças, Aurora isolou-se. Comprou uma casa na praia e passou a nadar, tomar Sol e caminhar na beira do mar.
Mas, à medida que envelhecia, lendo e pesquisando, soube finalmente canalizar seus poderes. Visitava favelas, e espalhava energias positivas. Mudanças sociais aconteciam. Olhava para homens terríveis, e eles morriam. Fazia chover nos lugares com secas terríveis, ou levava ao poder gente justa.
E, um dia, morreu no mais completo anonimato, sem que nenhum capeta encarnado descobrisse sua verdadeira identidade. E, nunca mais encontrou os masai. Embora visitasse o Quênia muitas e muitas vezes...
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