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–Ele já devia ter voltado.

–Jade, você deve ter dito isso umas três vezes só nesse minuto. -Matt respondeu pondo os pés na mesa de centro.

Eu estava com muito medo, só de pensar que alguma coisa ruim havia acontecido com Andrew, já me fazia querer sair como uma louca atrás dele. Já havia escurecido, Albert andava de um lado para o outro na cozinha, ele estava muito preocupado, assim como Matt. Mas nenhum dos dois queria demonstrar isso pra mim.

A rua estava em total silêncio, porém as luzes da maioria das casas estava acesa, só que seus moradores infelizmente estavam sendo usados como receptáculo de algum demônio imundo.

–Mas que droga... -Disse Matt boquiaberto, ele olhava para a televisão estático.

–O que foi? -Perguntei me aproximando.

Três aviões haviam caído em menos de uma hora, o clima estava extremamente desestabilizado. Os aeroportos em várias partes do mundo estavam sendo fechados, segundo os noticiários era provisóriamente. Haviam pessoas por toda a parte dizendo que o fim do mundo poderia chegar a qualquer momento... O que me assustava era que eles podiam estar certos.

Matt mudou para o jornal local, mas antes que a troca fosse feita a luz acabou na casa... Olhei pela janela... Toda a rua estava no escuro.

–Não saiam! -Disse Albert. Eu sabia que ele havia voltado para a sala. Mas eu sequer o via em meio a todo o escuro.

–E se o sal não funcionar? -Disse Matt.

–Vai funcionar... Vocês tem alguma lanterna aqui?

–Tem uma na cozinha. -Disse Matt -Eu vou pegar.

–E você, Jade? -Albert perguntou.

–Sim. Vou pegar no meu quarto.

Em seguida eu passei pelo sofá, esbarrando na mesa de centro. Subi a escada e andei pelo corredor, usando a parede como indicação de onde ficava a porta do meu quarto. Eu não demorei muito a encontrá-la. Entrei no quarto, abri as gavetas do guarda-roupa, ela não estava lá. Segundos depois, lembrei que havia posto no criado mudo, ao lado da cama.

Peguei a lanterna, mas antes de acendê-la esbarrei na mesa onde desenhava. Com a luz, pude ver meus desenhos espalhados pelo chão. Eu já ia sair, não achei nada de mais até então. Mas quando olhei de novo, eu soube que havia algo errado com eles.

No andar de baixo ouvi alguém bater forte na porta. Andrew! O pensamento me trouxe alívio, mas ainda tinha o problema com os desenhos. Eu os apanhei do chão, e os levei comigo até o andar de baixo.

–Eles já chegaram? -Perguntei com a lanterna ligada.

–Shhhh... -Albert me repreendeu e sinalizou para que eu me abaixasse.

Eu o fiz. E em seguida ele sinalizou para cozinha, eu fui até lá sem saber o que estava acontecendo. Matt estava acabando de fechar as mochilas.

–O que foi!? -Minha voz era apenas um sussurro.

–Eles sabem que estamos aqui. -Matt sussurrou ainda mais baixo que eu -O sal esta nos protegendo. Mas se eles conseguirem entrar temos que sair daqui.

–Sair? Mas... E Andrew?

–Jade! Eu estou tentando manter você viva! -Ele fez uma pausa, mas logo continuou -Pega. -Disse me entregando uma das mochilas e colocando a outra em suas costas.

Ele sumiu dos meus olhos, foi até Albert. Eu nem sequer ouvia o que eles estavam dizendo, estava muito preocupada, eu não podia deixar Andrew, logo ele voltaria... Ou então... Não! Eu me recusava a pensar que ele havia sido morto. Isso não podia acontecer.

Um grito, vindo do lado de fora interrompeu meus pensamentos. Fui até a janela, por onde Albert e Matt olhavam para o lado de fora. Ambos estavam abaixados. Eu fiz o mesmo e então olhei para fora. Havia várias pessoas... Demônios. Com certeza. Exceto por uma mulher. Era Jessye, minha vizinha. Els estava grávida, talvez oito meses... Um cara alto a segurava pelo braço. Ela chorava em desespero.

–Eu vou contar até cinco, Jade. -Disse o homem que segurava Jessye -Se você não sair, ela morre... 1!

–Você ficou maluca!? -Disse Matt segurando meu braço quando tentei sair.

–Vai deixar eles matarem uma garota inocente!?

–Você não vai sair, Jade!

–2! -Disse o homem, contando.

–Tudo bem! -Eu gritei -Eu saio.

–Garota esperta. Agora ande logo, não tenho o dia todo.

–Eu já disse que você não vai! -Matt quase gritou.

–Ei! -Albert disse nos acalmando -Vamos sair os três. Você... Fez água benta, não é? -Ele olhou para Matt.

–Sim... Mas... -Ele o interrompeu.

–Sem mas. Vamos. Não percam um ao outro de vista.

Nós três saímos ao mesmo tempo. Havia bem mais de trinta demônios na rua. O homem que seguva Jessye me encarou, um arrepio passou pela minha espinha.

–Se entregue e a garota fica viva. -Disse o homem.

–Solte ela e eu me entrego.

O homem sorriu, um sorriso maléfico tão grande quanto poderia. Em seguida soltou Jessye. Senti um alívio imediato, eu nunca me perdoaria se alguma coisa acontecesse a ela ou ao bebê. Ela correu... Pelo menos três passos. Até que parou.

Havia sangue escorrendo pela sua boca. Eu olhei rapidamente para o homem que instantes antes a segurava. Ele mechia uma das mãos, estava matando Jessye. O pescoço dela virou com uma força horrível e ela caiu no chão.

–Não! -Gritei. Tentei ir até ela mas Matt me impediu.

Ele atravessou em minha frente e arremessou uma bexiga de aniversário no demônio que havia matado Jessye. A pele dele começou a queimar instantaneamente. Todos os demônios olharam para nós.

–Vão! -Albert gritou.

Eu e Matt corremos em disparada sem nem ao menos olhar para trás. Albert no acompanhava. Passamos por pelo menos três ruas, até que eu já estava cansada. Meu coração estava extremamente acelerado. Olhei para trás de relance... Estranhamente não havia mais ninguém nos seguindo.

Corremos ainda mais, talvez por precaução... Estávamos bem perto da escola quando parei.

–Porque parou? -Matt perguntou parando ao meu lado, Albert parou um pouco mais a frente.

–Eu não consigo mais correr… -Respondi ainda ofegante.

Albert se preparou para dizer alguma coisa, mas foi interrompido por um dos demônios, que praticamente se jogou em cima dele. Albert tentava se defender, e Matt estava pronto para ajudar, porém, os demônios que há pouco tempo tinham sumido, agora retornavam rapidamente.

–Saíam daqui! –Disse Albert, sendo segurado pelo demônio.

Matt segurou meu braço e começou a correr, fui forçada a acompanhá-lo. Ele entrou na escola e nós trancamos a porta. Em seguida ele começou a juntar as mesas e cadeiras para formar uma barreira na entrada principal.

–Matt! Albert ainda está lá fora.

Eu me aproximei da porta e olhei pelo vidro, os demônios caminhavam na direção da escola. Olhei mais atenta, não havia nem sinal de Albert. Me virei para trás e Matt estava me encarando, ele tinha uma expressão confusa. Eu não devia deixar Matt no meio de tudo isso, ele não devia viver assim, deveria viver como um adolescente normal. Um barulho alto me fez olhar para o lado, os demônios estavam tentando arrombar a porta.

–Temos que nos esconder! –Matt disse e começamos a correr.

Entramos na sala do diretor e ficamos abaixados. Nem sequer sabiamos o que estavamos fazendo, afinal esperar ali não era uma boa escolha. Eu queria saber onde Andrew estava, e se ele estava bem. Eu nunca deveria ter deixado ele ir sozinho.

–SOCORRO!

Ouvimos alguém gritar do lado de dentro da escola.

–Quem pode ser!? –Sussurrei.

–Não sei. Vem comigo. –Matt respondeu e saiu da sala do diretor. Eu o acompanhei, então acendi a lanterna.

–Oi! Tem alguém ai?

–SHHH –Disse Matt assumindo o papel de líder outra vez.

–SOCORRO! -Gritou mais uma vez a voz masculina. Estava vindo do final do corredor. Eu e Matt chegamos lá depressa.

–Jonathan!? –Eu disse ao vê-lo caído no chão.

–Minha perna! –Ele gritou, só então percebi que suas roupas estavam ensanguentadas.

–Jade, me ajude. –Matt disse colocando o braço esquerdo dele sob seu ombro. Eu me abaixei e coloquei seu outro braço no meu ombro. Nós ajudamos ele a se levantar, então levamos ele até o refeitório. Colocamos ele emu ma das mesas.

–Vou ver como está a entrada. –Disse Matt saindo.

–Cuidado! –Alertei.

Em seguida me virei. Jonathan não estava mais sentado, ele estava de pé bem atrás de mim. Com os olhos verdes pousados sob os meus. Tão próximo que eu podia ouvi-lo respirar. Ele sorriu, e olhou para a porta do refeitório, olhei pra lá também e ela simplesmente se fechou.

–Finalmente, trabalho feito! –Disse Jonathan –Sabe quanto tempo eu esperei por isso?

–Esperou pelo que?

Ele riu.

–Eu precisei acompanhar você, Jade. Desde de Nova York. Matei cada um dos seus “anjos da guarda” –Ele abriu e fechou aspas com os dedos –Até chegar em Andrew… De alguma forma, foi mais dificil ter ele morto. Eu tentava, tentava… Mas sempre dava errado. –Eu podia sentir a raiva em sua voz.

–Você… É um demônio… -O medo estava mais do que claro em minha voz.

–Eu não sou um demônio. Sou o demônio. Sou o braço direito do meu pai! Ele me falou muito sobre você, Jade.

–Onde o Andrew está?

Ele riu outra vez, eu sentia o meu coração acelerar.

–Da ultima vez que o vi. Estava sendo perseguido por arcanjos… Hum… A está hora, seu corpo já deve estar sendo comido pelos vermes.

–Não! –Quase gritei, lagrimas desciam do meu rosto, não podia ser… Ele não tinha morrido, ele não podia morrer.

–Ah, olhe pelo lado bom… Hum… Não tem lado bom, ao menos não pra você.

–Vai pro inferno! –Gritei e o empurrei. Ele nem ao menos se moveu.

–Eu vou. E você vai comigo.

–O que!?

–Ta na hora de conhecer o papai, Jade.

O sorriso no rosto dele se alargou, Matt batia na porta do refeitório, mas eu não iria conseguir abri-la. Jonathan não tirou os olhos de mim, até que se virou e começou a pronunciar algumas palavras… Que era em uma língua desconhecida. Rapidamente peguei um dos balões com água benta e joguei sob ele. Eu sabia que aquilo o havia afetado, mas não como os outros, mesmo assim corri na direção da cozinha. Que ficava dentro do refeitório.

Mas antes de entrar, fui arremessada na parede. Caí em cheio no chão, eu sabia que tinha torcido o tornozelo, pois ele doía de uma forma que nunca tinha doído antes.

–Eu tentei ser legal! –Jonathan gritou. Ele levantou a mão, e em seguida a fechou. Mesmo estando a quatro metros de mim, eu sentia como se ele estivesse apertando o meu tornozelo.

–Ah! –Gritei. As lágrimas voltaram a aparecer.

–Todos vocês humanos, são lixo pra mim! São a pior espécie já inventada. –Ele caminhou até mim –O mais engraçado é vocês se acharem os seres racionais. Onde está sua racionalidade, Jade!? Vamos lá! Porque não se defende!? –Ele gritava mais alto a cada segundo, eu mal conseguia olhar pra ele –Eu quero que você implore! Implore pela sua maldita vida, ou eu juro que mato você agora mesmo!

–NÃO! –Eu o encarei, tomada pela raiva e uma subita coragem. –Não vou implorar pra você, seu bosta! Você sim é o desprezivel aqui, os demônios são só uma sub espécie, estão abaixo dos humanos, abaixo dos anjos, abaixo de todos, e você ainda mais. –Fiz uma pausa, o encarando mais friamente –Você não vai me matar. Sabe porque? Porque não isso o que mandaram você fazer. Você é só a cadelinha de lúcifer, uma cadelinha muito bem adestrada!

Sua expressão mudou, ele estava ainda mais bravo. Porém se afastou de mim, eu estava certa, ele não ia me matar… Ele foi até a porta do refeitório, droga! Quando ele a abriu pegou Matt pelo braço e o trouxe a minha frente. Eu ainda estava no chão, desta vez eu estava com medo, não podia deixar que fizesse algo de ruim com Matt!

–O que foi? –Ele disse sorrindo –Vamos lá, onde está toda a sua coragem?

–Solta ele! Ele não tem nada haver com isso!

–Não… Ele não tem. Por isso eu posso matá-lo.

Jonathan o agarrou pelo pescoço, estava enforcando ele, eu implorava, chorava, mas ele não o soltava.

–Por favor! –Chorei –Eu… Eu faço o que você quiser!

Ele soltou Matt no chão. Senti um imenso alívio. Seus olhos caíram sob mim, então ele veio em minha direção e se agaixou logo a minha frente.

–Faz o que eu quiser? –Ele sorriu.

–Faço! Eu faço… Mas tem que deixar o Matt sair daqui em segurança.

–Jade, Não! –Matt gritou.

–Otimo. Mas se você tentar me enganar…

–Eu não vou!

–Trato feito. –Ele já ia se levantar, mas então voltou a me encarar. Ele colocou a mão na minha coxa e sorriu. Logo depois senti meu osso se rompendo.

–Ah! –Gritei com a dor.

–Agora estamos quites.

A dor era insuportável. Eu sentia que ia desmaiar, eu mal conseguia mexer a perna. Jonathan voltou a falar, olhei para Matt, ele veio até mim, tentando me deixar acordada. Olhei pela janela imensa do refeitório… Havia uma luz estranhamente forte do lado de fora, eu ouvi uma gritaria começar. Seguida por vários flashs de luz. Em seguida ouvi o vidro da janela do refeitório quebrar e uma forte luz entrou no refeitório.

A luz enfraqueceu. Andrew! Ele estava com suas asas para fora, seus olhos brilhavam encandescentes. Até que ele voltou ao normal, porém permanceu com as asas. Jonathan ficou de frente para ele, em seguida arremessou uma das mesas nele apenas com o poder da mente. Andrew a jogou para o lado.

–Você devia estar morto. –Disse Jonathan.

–Você também… Mas o seu caso, posso resolver agora.

Andrew o jogou na parede e andou na direção dele. Mas o barulho na porta o distraiu. Era Albert… Ele estava bem! Andrew voltou a olhar na direção de Jonathan… Ele sumiu…

–Jade! –Matt disse me chacoalhando. Eu mal o ouvia, minha perna doía ainda mais.

Então vi Andrew parado na minha frente.

–Vai ficar tudo bem. –Ele disse colocando a mão na minha coxa. Então a dor passou e ele estendeu a mão para me ajudar a levantar do chão.

–Eu… Eu pensei que tivesse perdido você. –Eu o abracei, minhas lágrimas molhavam o seu peito. Ele me abraçou de volta… Eu nunca me senti tão segura.

–Precisamos ir. –Andrew disse me encarando –Quantos antes sairmos daqui. Melhor.

Assenti, Andrew segurou minha mão e nos tirou da escola. Lá for a estavam Gabriel e Annelise, cercados por demônios mortos. Todos estavam bem… Mas haviam várias coisas que estavam bem longe de estarem bem.