– Eles moram nesta casa, mas não são um casal. Os vizinhos pensam que sim, porém não precisamos dar atenção às especulações. – responde a governanta. – Pela tarde, eu cuido de Roland e de Yasemine.

Mary tenta suavizar a conversa.

– Como está Marian?

– Bem. Ela trabalha com o Sr. Vasco e está estudando.

Um sorriso mais largo surge nos lábios da professora.

– E Roland? Tem visto o pai dele? – insiste Mary.

– Isso, não poderei responder, Sra. Nolan. – a governanta vira-se para Henry. – Quer algo mais, príncipe?

Regina e Mary entreolham-se não dizem nada. Por que a mulher chamara Henry de príncipe? Ela sabia de alguma coisa em particular ou era apenas gentileza?

O som de chaves vindo da porta de entrada, chama a atenção dos visitantes. Regina levanta-se e não se contém, seguindo para a sala principal. É seguida por Mary e pela governanta.

– Deixe-me ajudá-lo! – a bela mulher avança para o patrão e o auxilia com o carrinho do bebê e incumbe-se de fechar a porta.

Vasco aproxima-se das visitantes, com Yasemine nos braços. Linda, com seus cabelos negros já crescidos e quatro dentes em um sorriso amoroso. Ela parece reconhecer aquelas pessoas.

Delicada, para não assustar a menina, Regina aproxima-se e estende os braços. Ouve um gritinho risonho da garota e a vê esconder o rosto contra o pescoço do pai.

– Sra. Nolan, como está? – ele se volta para Regina. – E você? Como está?

Acariciando as costas de Yasemine, a prefeita exibe em seus olhos poderosos, toda a ternura que estava habitando sua alma.

– Henry, eu e Neil viemos acompanhar Regina em uma visita.

– Manuela, leve Yasemine para tomar um banho. Ela derramou iogurte na roupa. – Vasco entrega a menina para a governanta e demonstra tremor em suas mãos. – Por favor, sentem-se e fiquem à vontade.

Henry chega à sala, acompanhado por um garotinho. Cumprimenta Vasco e vai sentar-se ao lado da mãe e da avó.

– Por que vieram?

– Eu quero conversar com você. – Regina estava ainda bonita dentro daquele terninho preto. Os cabelos estavam bem escovados e a franja longa majestosamente tentava cair sobre sua testa. – Para tudo há uma explicação.

Nitidamente constrangido e enrubescido, Vasco não esconde sua ansiedade. Há uma luta entres os dedos de suas mãos.

No escritório da casa, os dois olham-se calados por algum tempo. Era o nítido olhar dos que se amam e que orgulhosamente não querem reconhecer isso.

– Esperei esse tempo para que você acalmasse seu coração e conseguisse ouvir o que tenho a dizer. – Regina dá o primeiro passo.

– E o que vai dizer? Vai afirmar que o que vi não foi o que eu penso ter visto?

Regina sorri e as pernas de Vasco viram geleia.

– Você viu o que viu porque não é drogado e nem esquizofrênico. – a resposta sai rápido demais par ter tempo em detê-la. – Certo, peço desculpas! Mas quando me viu segurando as mãos de Robin naquele dia, foi porque estávamos em despedida.

Um rápido estreitar de sobrancelhas mostra o desentendimento do homem.

– Robin veio até mim naquela manhã e conversamos muito. Choramos e ele entendeu que meu amor nunca pertenceu a ele. Choramos ainda mais por alegria, por você ter bebido o vinho em meu lugar...

– Como? Eu poderia ter morrido!

– Você irá me ouvir?

Cruzando os braços diante do peito, Vasco assume uma postura militar e é nítida a armadura que veste para proteger-se. Naquele momento, Regina consegue enxergar o verdadeiro cavaleiro de armadura reluzente, do conto de Ítalo Calvino.*.

– Caso eu tivesse bebido o vinho, iria adormecer e mesmo que Robin me beijasse, não me despertaria porque não o amo.

– Meu beijo a despertaria.

– Não. Porque eu não sabia que o amava. Sempre o desejei, o quis comigo, porém, nunca tive certeza do que sentia até ouvir o sinal da máquina avisando que você havia morrido.

Vasco infla o peito como se estivesse prendendo a respiração. Mostra-se contrariado e ainda muito ofendido.

– Quando meus lábios tocaram os seus naquela noite, percebi que meu amor era todo seu.

– Mentira. O que vi em seus olhos e nos olhos do ladrão naquela manhã, era o mais poderoso amor. E tenha certeza de que vocês foram cruéis.

Regina se aproxima e toca os braços cruzados do homem. Sente que ele estremece.

– Robin é importante em minha vida, porque fez parte dela. Mas não significa que o quero como meu companheiro, marido e amor. – delicadamente, ela roça os dedos na pele cuidadosamente barbada do homem. – Você mudou meu interior, Vasco. Está sempre em meus pensamentos, como estou nos seus.

– Irreal. – ele engasga e pisca, liberando gotas cristalinas de seus olhos azuis. Ele não a encara porque sabia que iria desmoronar.