Entre o céu e o inferno

12 Osiris, um Deus entre os homens


Notas iniciais
E cada vez que havia um conflito universal para solucionar, tudo chegava até Osíris. Ele se posicionava em frente de um espelho gigante, onde as imagens se materializavam, e recebia as mensagens. A seguir as analisava, as discutia com outros sacerdotes, para escolher pessoas apropriadas para cada caso. E esses escolhidos subiam numa nave interestelar, e cruzavam a imensidão para apaziguar guerras, ou terminar com uma epidemia mundial, ou equilibrar a temperatura-ambiente de algum mundo com problemas. Mas no dia em que chegou até Osíris um problema na Via Láctea, ele foi firme. Somente ele e mais ninguém sairia a solucionar esse conflito. E é claro, desviaria o caminho e faria uma visita à Terra para ver a sua irmã Salina. Um plano genial. Maravilhoso.

Num planeta muito longínquo, Osíris estava transformado num Sacerdote estelar, o maior galardão de um cidadão de seu mundo. Alguém que tinha a missão de vasculhar o Universo, falar com seres de outros mundos, e tomar decisões importantes em nome de seu povo.

E cada vez que havia um conflito universal para solucionar, tudo chegava até Osíris. Ele se posicionava em frente de um espelho gigante, onde as imagens se materializavam, e recebia as mensagens. A seguir as analisava, as discutia com outros sacerdotes, para escolher pessoas apropriadas para cada caso. E esses escolhidos subiam numa nave interestelar, e cruzavam a imensidão para apaziguar guerras, ou terminar com uma epidemia mundial, ou equilibrar a temperatura-ambiente de algum mundo com problemas.

Mas no dia em que chegou até Osíris um problema na Via Láctea, ele foi firme. Somente ele e mais ninguém sairia a solucionar esse conflito. E é claro, desviaria o caminho e faria uma visita à Terra para ver a sua irmã Salina. Um plano genial. Maravilhoso. Estava morrendo de saudades da única irmã que ficou para trás. Culpa de Belzebu. Se tivesse casado com um Santo, ela estaria no centro do Universo.

Osíris estava casado com Andresa, uma fêmea que chegara nesse planeta junto com ele. Haviam crescido juntos, namorado desde adolescentes, e casado na maturidade. Ainda não tinham filhos, pois queriam uma lua de mel muito longa. E essa viagem seria algo assim como a viagem de lua de mel que nunca tiveram. Fizeram as malas com entusiasmo, e partiram na frente de um comboio de 200 naves gigantes, para evacuar uma sociedade em perigo. Cada nave tinha dez pilotos, 50 casais como eles, e 100 mínimas naves para remanejamento de pessoas desse planeta em contratempo.

Osíris viajou na velocidade máxima, e, um dia, deu o sinal de chegada.

Através das janelas de sua nave viu com espanto um Sol inflando, crescendo, invadindo planetas, e destruindo a vida em todos os mundos atingidos. O último planeta que resistia estava tão quente que as pessoas mal respiravam, enquanto os rios e mares evaporavam pouco a pouco. Os sobreviventes não ultrapassavam 200.000 indivíduos.

Osíris e seus astronautas, como anjos que descem dos céus, desceram ao mundo de Crematória. Os sobreviventes se apinharam nas ruas, com os braços para cima, gritando, correndo e chorando como guris.

E como estavam numa missão contra o tempo, Osíris ordenou a subida em massa, de todos, com congelamento simultâneo. Desta forma, assim que os homens adentravam pelas portas ficavam duros que nem picolé, e a seguir levitavam no ar, cruzando corredores internos dessas naves, para serem distribuídos nas estantes por robôs, como mercadoria. Empilhados um acima de outro. Assim que os depósitos de corpos humanos lotavam, eram hermeticamente fechados, em temperaturas baixíssimas para hibernação de muitos anos.

Cada vez que uma nave lotava, saía para o espaço se alinhando na formação de triangulo, na espera de Osíris autorizar a partida final. O destino seguinte era um mundo relativamente perto, que se nutria de uma estrela jovem, cheia de energia, e onde havia um matagal paradisíaco. Fantástico. Um paraíso em meio de um sistema solar tranquilo, e em cujo lugar essa civilização evacuada poderia continuar sua história.

A última nave a lotar foi a de Andresa, que recolheu as últimas 800 pessoas. Deu o comando para um piloto, e voou até a nave de Osíris para dar-lhe seu relatório. Missão cumprida. Não sobrara mais ninguém para salvar. As ruas estavam completamente vazias. Era um mundo em silêncio. Faltava apenas resgatar a bicharada. Mas, isso era um trabalho para veterinários, que estavam para chegar de outro planeta, com naves gigantes para levar até os elefantes e as baleias.

Osíris, esgotado, olhou para sua mulher e disse:

— Vamos descer para ver se não sobrou mais ninguém?

— Hum... Você está querendo ver as suítes desses hotéis primitivos?

— Também... Meus relatórios contam que, neste planeta, há hotéis para fazer amor. Só para isso. Já pensou?

E ainda dando risadas, subiram numa pequena nave de resgate, desceram numa rua ampla, pela qual caminharam de mãos dadas. Entraram em supermercados, lojas de roupas, mas o calor era insuportável. Colocaram uma máscara para se ajudar a respirar, no momento que sentiram que havia algo errado.

Guiados pela intuição, abriram as portas de uma Escola, e entraram nas salas como quem busca algo inesperado. Chegando ao ginásio, viram 500 crianças chorando baixinho, amarradas, sentadas no chão, e deixadas para trás pelos adultos.

Enquanto Andresa se desfazia em lágrimas, Osíris dava um grito de telepatia para os pilotos de sua nave, para regressar em busca desses meninos.

E enquanto vulcões lançavam chamas e crateras abriam nas ruas, como quem quer engolir os últimos homens, Osíris e seus homens percorreram novamente esse planeta, cidade por cidade, pois em todas elas havia meninos e velhos deixados para trás.

Os veterinários chegaram ao momento em que Osíris dava por encerrado seu resgate. Recebeu o veterinário/comandante na sua nave, deu-lhe um abraço, e contou-lhe, ainda abismado, de tudo que havia se passado. Tinha 200.000 adultos egoístas, ruins, congelados, e 50.000 garotos e 10.000 velhos assustados, pois o susto da morte os havia arrasado interiormente. E não desejava levá-los ao mesmo planeta dos demais refugiados. Osíris nem sabia o que fazer. Necessitava um planeta civilizado para transportar os meninos. E escutou como num sonho:

— Leve as crianças para Marte. Ele está convertido num mundo maravilhoso, com uma colônia de humanos. Vão ser adotados por casais amorosos, educados, e serão felizes.

— Hum... E Marte fica ao lado da Terra... Obrigado pela informação... Nossa! Quem diria. Marte está finalmente verde...

Enquanto o grosso das naves partia com sua carga congelada numa direção, Osíris e Andresa rumaram para Marte. Viram desde longe o “Sistema Solar”, e com emoção foram chegando perto, olhando tudo com lágrimas nos olhos. Saturno, Urano, Júpiter, e Marte, o antigo planeta vermelho, quente, onde nenhum humano conseguia sobreviver. E agora, havia nele cidades enormes, gigantes, protegidas com uma redoma translúcida, pois o calor externo ainda estava acima da média suportável por um ser humano. Viram um ponto alto saindo de uma redoma, e pousaram nela com delicadeza. Depois a nave desceu, entrou na cidade, enquanto a porta superior fechava.

Osíris ficou a observar uma comitiva que os estava esperando.

Eram colonizadores. Homens da Terra, que trabalhavam na árdua tarefa de arborizar Marte e fazer brotar a vida nele. Mas quando viu seus pais, Ador e Aurora, chorando abraçados, os observando de longe, e acenando com as mãos, Osíris não entendeu mais nada. E correu a abraçar seus velhos como um guri. Aos berros. Afinal, haviam encarnado em planetas diferentes.

Passada a emoção do reencontro, Osíris soube que seus pais estavam ali, em busca de Salina. E limpando as lágrimas, perguntou-lhes:

— Mas, Salina não está na Terra, pai?

— Não, filho. Ela e Belzebu foram expatriados da Terra. Soube da notícia através do espelho, e antes da partida deles já estávamos no espaço viajando na velocidade máxima. E faz 500 anos que estamos percorrendo a Via Láctea, de planeta em planeta, em sua busca.

— Eu tenho todos os mapas daqui pai... E tenho um “Espelho falante” na minha nave. Vamos procurar com calma...

E enquanto pai e filho se debruçavam por cima de papéis, sem tempo para acabar uma nova pesquisa, Andresa e Aurora se encarregaram de terminar o trabalho para o qual cruzaram a imensidão. Fizeram os meninos descer da nave, e os levaram até um ginásio esportivo gigante, onde ficariam na espera de pais adotivos. Alguns ficariam em Marte, mas a maioria viajaria para a Terra, pois os computadores estavam abarrotados de casais querendo adotá-los. Já os velhos, ficariam por ali mesmo, em fazendas agrícolas, onde viveriam seus últimos anos aos cuidados de pessoas carinhosas.

Quando Aurora e Andresa viram Ador e Osíris chegando, eles já não eram mais os mesmos. Riam com felicidade, enquanto caminhavam abraçados, pois através do espelho encontraram um Sistema Solar com um planeta pequeninho, com uns homens nus, vivendo como os índios. O mundo de Salina, finalmente, havia ficado ao descoberto. E a família, mais uma vez, estaria reunida. Em menos de 50 dias, viajando na velocidade invisível, estariam lá. Ia ser uma farra. Chegar assim de surpresa, e encontrar Salina cheia de bebês, ou com uns 3 netos em redor.

Após o reencontro, viajariam para o mundo de Osíris, pois levariam todos os gênios que quisessem acompanhá-los.

Afinal, no mundo de Osíris as pessoas estudavam desde a infância, mas não trabalhavam quase nada. Desta forma, naquela civilização o tempo era para amar, pois nada os agredia. Uma sociedade mecanizada, com robozinhos que faziam as mordomias de todos os homens. Robôs que podiam destruir tudo, inclusive matar um ser humano. Mas que não o faziam, porque os homens adivinhavam seus pensamentos, e os desintegravam com o olhar, em milésimos de segundos, como uma sucata velha. Afinal, no mundo de Osíris, os homens já não eram mais humanos. Eram Deuses. Deuses que controlavam as chuvas, as erupções dos vulcões, evitavam os terremotos com o pensamento, impediam enchentes desintegrando as águas, e convertendo-as em vapor. Destruíam tsutmanis na beirada do mar, desintegravam a matéria inútil com piscar de olhos, e viajavam entre Galáxias ao serviço universal, onde quer que fossem chamados a intervir.

Fim

Notas finais
Enquanto o grosso das naves partia com sua carga congelada numa direção, Osíris e Andresa rumaram para Marte. Viram desde longe o “Sistema Solar”, e com emoção foram chegando perto, olhando tudo com lágrimas nos olhos. Saturno, Urano, Júpiter, e Marte, o antigo planeta vermelho, quente, onde nenhum humano conseguia sobreviver. E agora, havia nele cidades enormes, gigantes, protegidas com uma redoma translúcida, pois o calor externo ainda estava acima da média suportável por um ser humano. Viram um ponto alto saindo de uma redoma, e pousaram nela com delicadeza. Depois a nave desceu, entrou na cidade, enquanto a porta superior fechava.
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