1

O inferno estava diferente hoje, boatos corriam, cada vez mais destorcidos. Eu não sabia em que acreditar... Então decidi ir direto a fonte. Abri a porta da sala principal, e lá estava Lúcifer. Não era difícil perceber sua apreensão, os músculos rígidos, dentes cerrados, ele logo notou minha presença. Se virou, e deu um sorriso falso, tentando passar confiança.

–Volare... O que faz aqui?

–Eu vim dar as minhas informações semanais, e... -Ele me interrompe.

–Jura? Quer mesmo mentir pra mim? Diga de uma vez, quer saber se eu consegui trazer a garota, não é mesmo?

Eu o encarei, aquele maldito! Mesquinho, eu o odiava, o demônio mais baixo de todos, e com esse ar de superioridade me deixava ainda mais irritado.

-Vamos lá Volare, tenha coragem de me perguntar. -Ele se aproxima -Ou por acaso eu intimido você?

–Não. Modéstia parte, sou muito importante aqui...

–Não diria insubstituível.

–Sabe... O que eu realmente quero saber, é porque Andrew intimida você.

Ele arregalou os olhos... Será que eu deixei o rei do inferno contrangido? Tomara...

–O que te faz pensar isso!?

–Teve a chance de matá-lo. E não matou.

–Isso não é da sua conta!

–Ah qual é... Não há motivos pra não me contar.

Novamente ele ficou apreensivo, andou até sua mesa e me chamou. Quando me aproximei vi um livro. Ri, por dentro e por fora, era um livro de lendas... Aquela era a de um soldado celestial, ou algo assim, já tinha ouvido falar. Ele é Lúcifer lutariam pelo inferno...

–Acho que Andrew é este soldado...

–E eu acho que você ficou maluco. Isso é apenas uma lenda.

Ele jogou o livro em mim, mandou que eu analisasse. Então aquela era minha deixa, eu ia ler aquela lenda... Não havia nada mais interessante a se fazer.

2

Novamente estávamos na estrada, rodamos a noite toda. Já eram dez da manhã e ainda estávamos no maldito carro. Eu não havia pregado os olhos, não acho que Albert seja um motorista tão bom assim... Ri mentalmente.

Estávamos eu ele e Matt no mesmo carro. Enquanto os outros nos guiavam no carro a frente. Matt roncava feito um porco no banco de trás. Albert estava sério, assim como ficou a viajem inteira.

–Você está bem? -Perguntei.

–Sim. É só esse apocalipse... Soa bem melhor na ficção.

–Pois é... Eu estou cansada disso também. E o pior de tudo é ser inútil...

–Ei ei ei. O que quer dizer com inútil?

–Quero dizer que eu não desenho já faz um bom tempo.

–Paciência Jade, tudo no seu tempo...

Concordei, mas discorvava...

3

–Eu já disse que não sei, Annelise!

–Não precisa se irritar. Eu só queria saber... Fala sério, Lúcifer tinha sua vida nas mãos, Jade estava a menos de dez metros, mas ele simplesmente te deixou viver...

Eu a encarei. Gostaria de ter a resposta, mas ela estava me irritando... Na verdade tudo estava me irritando.

–O que quer que eu responda!?

Ela revirou os olhos. Luke olhou para trás rapidamente.

–A gasolina vai acabar. Paro nesta cidade?

–Você pode parar, ou então vamos empurrando o carro. O que você acha?

–Andrew! Afinal porque está tão irritado!?

Dei de ombros e fiquei olhando pela janela. Pouco tempo depois Luke parou em um posto de gasolina na beira da estrada. Albert parou logo depois, todos desceram dos carros.

–Onde vai? -Eu perguntei ao ver Jade indo em direção ao comércio do posto.

–Preciso ir ao banheiro.

Eu a acompanhei, esperei do lado de fora por alguns minutos, então ela saiu. Ia dizer algo mas o telefone do posto tocou, nós nos olhamos intrigados. Aquilo não era possível, nem sequer havia energia.

–Vamos, isso não pode significar algo bom.

–Deveríamos atender... -Ela respondeu.

–Já disse que não é algo bom!

–Ok... Não precisa se irritar. Afinal o que há com você? Percebi a tensão entre você e Annelise.

–Não sei... Eu...

–Diga. Sabe que pode contar comigo. -Ela encostou a mão no meu ombro.

–Estou com medo, Jade... Sinto uma raiva absurda, e tudo está me deixando irritado.

–Isso é normal. Você está tenso; preocupado... Nada que uma boa noite de sono não resolva.

Eu concordei. Mas sabia que não era verdade... Algo não estava certo, era como se algo em mim estivesse mudando, lentamente... Dolorosamente.

Todos entraram novamente nos carros. Seguimos viagem por várias horas...

4

Acordei, ainda estávamos no carro. Estava frio, ainda era noite. Albert tinha os olhos cansados, porém atentos a estrada... Olhei para o longe, minha cabeça doeu, uma dor tremenda. Então logo eu vi, era uma luz muito forte, ofuscante. e havia um som muito alto, que logo cessou, assim como a luz.

Lá estava um anjo, de costas... Era Gabriel. Em um grande penhasco olhando para o nada. Eu me aproximei dele, perguntando onde ele havia andado todo esse tempo. Ele veio em minha direção, pronto para atacar, mas passou reto. Me virei rapidamente, e vi muitos demônios, eles estavam lutando com Gabriel. Venceriam facilmente... De alguma forma, eu sabia que aquilo era real...

–Jade! Acorde... Jade! -Dizia Albert me chacoalhando.

–Um sonho? Não... Não pode ser.

Desci do carro, Andrew logo veio até mim. Estava muito preocupado, mas antes que eu pudesse explicar, um clarão imenso veio de um penhasco, que ficava ao lado esquerdo da estrada. Seguido por um som alto ensurdecedor para todos os humanos que ali estavam.

–É ele! -Eu disse desesperada.

–Quem!? -Andrew e Annelise me perguntaram ao mesmo tempo.

–Gabriel! Temos que ajuda-lo!

Eu já ia entrar na floresta, quando Andrew segurou eu braço, e mandou que Albert tirasse eu, Matt e Luke dali. Eu fui quase jogada no carro, que quase saiu com as portas abertas. Nunca vi Albert acelerar tanto.

Comecei a chorar... Eles não sobreviveriam, nenhum deles, eram muitos demônios, seria um massacre. Eu tentava sair do carro, mas a porta estava travada.

Matt me segurou, tentava me acalmar, mas como eu poderia!? Ele era tudo pra mim... E agora eu sabia que nunca mais iria vê-lo.

*

–Alguém sabe onde estamos? -Albert perguntou... Na pressa de fugir, ninguém sequer olhou o mapa.

–Que diferença faz? Sem Andrew e Annelise já estamos mortos. -Respondi.

–Adoro seu entusiasmo.

Revirei os olhos. Em seguida Albert parou o carro, era um bar velho, no meio do nada. Eles desceram do carro...

–Vamos lá, Jade. Você também precisa comer.

Desci e entrei. Não estava me importando com nada. Muito menos comigo... Fala sério, passamos por tanta coisa, e agora Andrew morreu por minha causa. Se eu não tivesse feito eles pararem... Nada disso teria acontecido.

–Acho que essa é a hora perfeita para um treino.

–Não enche, Luke... Aceite de uma vez que iremos morrer, não tem mais porque eu lutar.

–Ótimo. Não lute, apanhe.

Ele me derrubou. Rapidamente me levantei do chão.

–Você é louco!? -Gritei.

–Porque não vão se resolver lá fora? -Disse Albert.

E o que eu tinha a perder? Então estávamos nós dois nos fundos do bar. Eu acertei um soco, em seguida outro e outro. Parecia não ter muito efeito. Ele me empurrou, voltei lhe dando um chute, apanhei uma garrafa e o acertei na cabeça.

Aproveitei sua tontura, e dei o golpe final. Ele caiu no chão, as mãos cobrindo a cabeça, o corpo em posição fetal.

–Acho que já foi bem treinada... -Ele deixou escapar.

Albert e Matt estavam ali e agora riam como duas crianças.

–Não tem comida aqui. Vamos continuar. -Disse Albert.

Eles foram em direção ao carro, eu entrei no bar. Queria me olhar em um espelho... Talvez me fizesse bem. Eu ia abrir a porta do banheiro, quando o único telefone empoeirado do bar tocou. Depois de alguns segundos eu atendi.

–Alô...? -Disse pensativa.

–Jade! Não acredito, você está mesmo viva!

Lágrimas começaram a descer dos meus olhos. Mal podia acreditar que era verdade.

5

Jade entrou no carro, com uma expressão ilegível. Perguntei se estava tudo bem e ela apenas concordou com a cabeça. Eu sabia que havia algo errado, conhecia muito bem minha irmã.

As horas seguintes foram silenciosas, Jade me deixava cada vez mais intrigado. Então Albert finalmente parou o carro. Todos desceram. Era um pequeno comércio, mas passaríamos a noite ali.

Assim que entramos, Jade me pegou pelo braço e me levou para longe dos dois.

–Matt, você não vai acreditar! -O entusiasmo em sua voz era tremendo.

–O que houve, me diga.

–Eu falei com a mamãe.

–O que!?

–Ela deu a localização. Precisamos ir!

–Sem os dois?

–Albert não nos deixaria ir.

–E quem disse que eu vou deixar? Jade não sei bem o que quis dizer com isso. Mas já pensou que podia ser um demônio? Ou algo pior, não sabemos.

–Então temos que descobrir. Como um demônio faria o telefone tocar?

–Telefone!?

–Sim. Ela ligou.

–E consegue explicar como ela fez isso!?

–Não temos tempo, ela explica quando chegarmos lá.

–Jade, nós não vamos! É arriscado demais. Devemos esperar, Andrew ainda pode estar vivo.

–Precisamos de ajuda pra proteger o lugar. -Disse Albert.

Jade me encarou e foi até ele. Deixando todo aquele assunto no ar. Protegemos todo o lugar, comemos uma péssima comida enlatada. E nos deitamos.

*

Acordei às quatro e meia da manhã com um barulho estranho, logo entendi o que era, alguém estava roubando o carro. Acordei Albert. Ele foi correndo para fora, mas o carro já havia saído.

–O que faremos agora!? -Perguntei de imediato.

Ele continou olhando, preocupado.

–O que foi, Albert?

–Onde está sua irmã!?