Entre o céu e o inferno
13 Apocalipse
1
Hoje não era diferente de ontem... O clima ainda estava nublado, e o silêncio era de arrepiar, algumas vezes o vento passava por entre as árvores, fazendo com que elas se alvoroçassem e fizessem um barulho vago. Eu sentia um pouco de medo daquele barulho. Deitada no chão de terra e grama, tudo o que eu via eram as cópas das árvores.
Olhei para os lados, ninguém. Apenas o pequeno rio passando perto de mim, a minha frente. Eu mal sabia por quanto tempo estive ali. A verdade é que nos últimos dias aquele era o meu lugar preferido, talvez não se igualasse a como eu gostava de ir a floresta. Porém diante das circunstâncias... Era o que tinha.
Havia se passado um mês desde que saímos de Lockerwood. O mundo entrou em colapso, era a merda do apocalipse bíblico! Só que não era como imaginei. Anjos estavam guerreando contra demônios, e ambos queriam o mesmo, eu. No meio disso tudo, Gabriel havia sumido... Não sumido literalmente. Mas ele havia se afastado, estava procurando uma explicação para "o seu pai não deixa-lo voltar para o céu". E também para os meus desenhos. Quando saímos de Lockerwood, eu mostrei a pasta que peguei no meu quarto, eu havia desenhado a cidade inteira no escuro, então, segundo Gabriel, o meu dom era prever o futuro. E eu fazia isso através dos desenhos, era como se eu fosse a escolhida para prever os fatos que levariam o mundo ao apocalipse... Se fosse antigamente eu estaria pirando com tudo isso, mas devido aos acontecimentos do último mês... Não era qualquer coisa que me surpreendia.
Quanto ao resto de nós. Estávamos fazendo o possível para sobreviver, nós havíamos nos tornado mais próximos. Éramos quase... Inseparáveis. E embora tivéssemos várias diferenças, a nossa convivência era pacífica. Isso me alegrava.
Estamos pelo menos cinco cidades a frente de Lockerwood. Em um lugar afastado, onde existem três casas de campo grandes, uma bem próxima a outra. Vivemos muito bem aqui, ao menos tão bem quanto podemos. Cercamos o lugar com símbolos de proteção... Adiantou até agora.
E também havia Luke. Ele era um policial, ao menos antes disso tudo. Nós o salvamos da morte e desde então ele vive conosco, e com o seu treinamento me sinto mais segura... Embora ele seja um cara extremamente reservado... E claro, não teríamos conseguido este lugar sem Victória, ela é a dona daqui, uma mulher muito doce e gentil.
–De novo aqui, Jade? -Tomei um susto. Me levantei do chão rapidamente. Albert estava parado na minha frente.
–Eu gosto de ficar aqui. Lá em cima é entediante.
–Porém seguro, e tenho certeza de que Andrew concorda comigo.
–Andrew não está aqui.
–Acabou de chegar.
Eu e Albert subimos pela floresta, não era tão longe então não demoramos. Vi Andrew em pé em frente a mesa, ele estava lindo, seus cabelos pretos estavam um pouco mais longos, quase caíam em seu rosto. Ele olhou para mim, e deu aquele seu sorriso deslumbrante. Seus olhos azuis me encaravam lindamente. Fui até ele e o beijei.
Em seguida os outros se aproximaram da mesa, Andrew colocou um mapa sobre ela.
–Estão vendo as partes em vermelho? -Disse ele -É onde há atividade demoníaca.
–Então estão longe daqui. -Luke comentou distraído.
–Sim, então os símbolos estão funcionando e o lugar é seguro.
–Mas...? -Albert perguntou.
–Mas, eles podem estar tramando alguma coisa. Então vamos começar a fazer rondas pela floresta, pra garantir que não há nenhum intruso.
Realmente, já havia um bom tempo que não tínhamos contato com demônios. Nós não sabíamos nem onde Jonathan estava.
–Precisamos de armas. -Disse Luke -Eu sei de um lugar aqui perto.
–Tudo bem, nós procuramos as armas. Enquanto isso Albert, quero que você cheque todos os símbolos, veja se estão inteiros.
–Ok.
Nós saímos da casa. Andrew foi até o carro.
–Pensei que fosse ficar. -Eu disse chateada.
–Eu sei. Mas... É necessário que eu saia.
–Queria que não precisassemos viver fugindo e escondidos.
–Vamos ficar bem. E um dia quando tudo isso acabar, vamos poder viver como quisermos.
–Até lá, promete que você vai voltar inteiro?
–Prometo. -Ele sorriu, me beijou, e depois entrou no carro.
Toda vez que ele ia, era como se parte minha também fosse com ele. Eu contava os segundos até ele chegar. Me sentei na mesa do lado de fora, eu estava vestindo uma blusa frio. Logo a tirei, aquele lugar esquentava rápido demais.
–Triste? -Matt perguntou se sentando do meu lado.
–Não.
–Entediada?
–Muito. E você?
–Sim, mas achei uma coisa pra gente fazer. -Ele tinha um sorriso brincalhão no rosto -Vem comigo.
Ele se levantou bruscamente, e saiu em disparada, correndo para dentro da floresta. Eu simplesmente o segui, aproveitando a distração de Albert. Não havia nenhum sinal de que alguém nos viu saindo, nem sequer Annelise.
–Matt! -Eu quase gritei -Vai devagar!
2
Eu estava intrigado, o que ela queria conversar comigo? Talvez fosse uma armadilha. Algo que eles planejaram juntos... Mas eu estava seguro, não havia nada que pudessem fazer comigo. Me servi outro copo de whisky.
–Jonathan. Ela chegou. -Disse um dos meus demônios.
–Mande entrar.
Ela entrou, caminhando com passos lentos e cautelosos até mim. Então parou, em pé, na minha frente.
–Sente-se. -Eu disse sério, quando ela sentou voltei a falar -Eu agradeço se você for breve, Annelise. Sabe... Eu fiquei curioso pra saber o que quer comigo. Logo você, a anjinha mais fiel a Andrew.
–Eu posso assegurar, que ainda sou fiel a Andrew. -Ela respondeu secamente.
–Jura? Então ele sabe que está aqui?
Ela abaixou os olhos.
–Foi o que pensei... Eu só espero que vocês não estejam armando alguma coisa, porque se estiverem... -Ela me interrompeu.
–Não é nada disso. O que tenho a dizer, é pra ser dito entre eu e você. Andrew nunca teria me deixado vir se soubesse.
–Prossiga.
–Você não tem conhecimento, porém saiba que eu posso livrar um anjo do inferno... Mas claro, só aqueles que querem ser libertos. Ou seja, os anjos que caíram, por mais que tenham se perdido. Mesmo assim, eu posso livra-los do inferno... Só que pra isso... Eles precisam ter bondade, não apenas ódio.
–Onde quer chegar com isso!? -Perguntei não conseguindo esconder minha irritação.
–Você. Por mais que você tenha caído, feito coisas horríveis para Lúcifer, e seja o seu braço direito. Mesmo assim, eu sei que no fundo ainda resta algo bom em você.
Eu não pude conter o riso, o whisky quase saiu da minha boca ao entender o que ela queria. Era simplesmente engraçado demais, eu não podia parar de rir. Ela me olhava seria... Decepcionada talvez. Me contive.
–Se sua intenção foi vir aqui pra me salvar do inferno. Você perdeu tempo.
Ela se levantou, fiz o mesmo e ela parou na minha frente. Se ela não fosse tão boa, com certeza haveria raiva em seu olhar.
–Você pode ser salvo.
–Ninguém pode concertar alguém que já nasceu defeituoso, Annelise. Foi um erro você ter vindo aqui.
–Não, não foi. Você pode mentir pra você mesmo o quanto quiser, mas eu sei que ainda resta algo bom em você... Se estiver em dúvida, basta procurar bem aqui.
Ela colocou a mão sobre meu peito... Meu coração... Ela não percebia? Eu sou um demônio, não existe redenção para mim. Mas seus olhos ainda me encaravam, ela ainda tocava minha pele, mesmo que por cima de algumas camadas de roupa. Ela retirou sua mão, estava decepcionada, não era difícil notar.
–Vou voltar a te procurar, espero que tenha mudado de ideia. -Em seguida ela se virou.
–Quem garante que não vou mandar alguém seguir você?
Seus olhos voltaram pra mim.
–Você deu sua palavra... -Ela levantou os ombros -Estou decidida a ver quanto ela vale.
Novamente ela me deu as costas, desta vez ela foi embora. Eu não podia voltar a ser um anjo, fui um dos primeiros a cair, como voltar a ser alguém bom? E eu não podia dar as costas a Lúcifer, embora talvez ele merecesse... Se eu fizesse isso, significaria a minha morte.
–Tudo pronto. -Disse um dos meus demônios entrando -Podemos segui-la agora?
Podiam? Claro que podiam... Ela iria direto até Jade. Era a chance perfeita, esperamos um mês por isso, não podíamos simplesmente colocar tudo a perder.
–Jonathan? -Ele insistiu.
–Não. Vamos... Deixar ela ir por enquanto...
–Mas...
–Sem mas! Eu dito as regras aqui! -Interrompi irritado. Eu não devia deixá-la ir...
3
–Você me fez correr tanto pra isso!? -Perguntei a Matt quando paramos ao lado de uma imensa cachoeira.
–Ah, qual é? Não está anciosa pra pular?
–Não, eu ainda não fiquei louca.
Ele revirou os olhos, então se sentou no chão de terra. Parecia um tanto distante... Talvez ele sentisse falta da nossa vida como era antes... Eu também sentia, mas estávamos vivos, era um bom começo.
–Triste? -Perguntei me sentando ao seu lado.
–Eu... Sinto falta da mamãe. Você não?
–Sim. Eu sinto. Mas... Gabriel deixou ela e o papai seguros. Ao menos eles vão ficar bem.
–Espero que um dia a gente possa ver eles de novo.
–Ei! Claro que vamos. -Dei a ele meu melhor sorriso, ele sorriu de volta. Eu precisava fazer com que ele se divertisse um pouco. -Quer saber, esse lugar é quente demais.
–O que vai fazer!? -Ele perguntou de olhos arregalados ao me ver indo na direção da cachoeira.
–Eu vou pular.
–Você não faria isso.
–Então continua olhando!
Eu corri, e então me joguei sem pensar duas vezes. Senti um forte frio na barriga, e em seguida medo, era mais alto do que pensei, o vento batia no meu rosto e eu caía cada vez mais rápido. Até que senti a água chegar em mim. E logo eu estava afundada no lago, aquilo foi o máximo! Eu tinha um sorriso brilhante em meu rosto.
–Eu disse que ia pular! -Gritei ainda na água, olhando para cima.
–Acho que agora é minha vez... Lá vou eu.
Em seguida Matt se jogou, caiu um pouco a minha frente, espirrando água para todos os lados. Ele nadou até mim, em seguida mergulhou, depois voltou a superfície.
–Talvez o fim do mundo possa ser divertido. -Ele disse.
–Talvez. -Eu sorri, e jogamos água um no outro.
Ficamos lá por mais de trinta minutos. Até que decidimos sair. Eu estava completamente molhada. Olhei para cima, teríamos que dar a volta pra voltar ao acampamento, será que alguém já havia notado nossa falta?
Começamos a caminhar pela floresta, o sol esquentou ainda mais. Depois de alguns minutos de caminhada nós dois já estávamos secos, exceto meu cabelo, que ainda estava úmido.
–Acha que Albert vai ficar bravo? -Matt perguntou.
–Talvez. Ou então nem notou a nossa falta.
–Notou sim, nesses últimos dias ele se tornou uma águia para nos vigiar.
–Tem razão. Mas... -Eu parei de falar quando ouvi vozes na floresta.
Matt me encarou, então segurou meu braço e nos levou para atrás de uma árvore. Eu procurei discretamente alguém, mas não vi ninguém.
–Você também ouviu? -Sussurrei.
–Shh... -Ele ficou observando por mais alguns segundos, depois olhou pra mim -Vamos. -Disse ele baixinho.
Nós saímos de trás da árvore e caminhamos devagar, sorrateiros. Até ouvirmos um tiro. Eu gritei, com o susto. Matt segurou meu braço ainda mais forte e correu, me arrastando com ele, novamente ouvimos vozes, desta vez ainda mais altas, atrás de nós.
Continuamos correndo. Porém um homem nos fez parar, quando entrou em nossa frente. Matt não desistiu de correr, ele tentou desviar do homem. Mas outros apareceram, o que nos obrigou a parar. Quando percebi já estávamos cercados, em meio há um círculo deles.
–Quem são vocês? -Perguntou um deles.
–Não importa. Deixe-nos passar. -Matt disse, ele ainda segurava meu braço. Quem eram aqueles homens? Demônios?
–Passar? -Ele riu em deboche -Eu acho que não.
Um deles atacou Matt, os dois começaram uma briga, Matt tirou um canivete... Onde ele arranjou? Ele tentou acertar o cara, mas rapidamente ele tirou o canivete dele, e mesmo assim Matt não parou de socar o homem. Um deles me segurou, me dando uma gravata e apontando uma arma para minha cabeça.
–Chega! -Ele gritou para Matt, que quando viu aquilo me olhou e parou de brigar. -Agora vou explicar as coisas, -Dizia o homem para Matt, sem deixar de apontar a arma para minha cabeça -Vou perguntar, e você responde. Se não responder, eu atiro na garota. Onde estão alojados?
–Não estamos. Só... Só estávamos procurando um lugar pra passar a noite. -Mentiu Matt. Ele nunca entregaria o acampamento.
–Quer que eu acredite que são só vocês dois?
–Mas somos só nós. -Eu disse e ele apertou ainda mais o meu pescoço.
–Já pode soltar ela! -Matt quase gritou.
–Posso, mas não quero.
Ele guardou a arma. Continuou me segurando, e cheirou o meu pescoço, tentei me soltar e ele me apertou ainda mais contra ele. Matt tentou vir até mim, mas dois deles o seguraram.
–Jade! -Alguém gritou, a voz era familiar. Andrew, senti um alívio imediato... Ele levava a sério me salvar de tudo. -Solta ela. -Andrew disse, ele estava sério, estava bravo, e eu não sabia se era só com aqueles caras, ou se era comigo também.
Um dos caras foi para perto dele, ele levantou uma das mãos e o jogou contra uma árvore.
–Solta ela, não vou pedir de novo.
–Não tenho medo de você, idiota. -O homem pegou a arma novamente e colocou na minha cabeça, em seguida engatilhou. Senti todo meu corpo tremer, porém eu o vi ser arremessado para longe. Eu caí no chão, assim como os homens que seguravam Matt. Andrew me encarou, com certeza estava bravo comigo. Ele se aproximou e estendeu a mão, me ajudando a levantar.
–CUIDADO! -Matt gritou quando eu já estava em pé.
O homem apontava a arma diretamente pra mim. Ele atirou, fechei meus olhos com o medo. Quando os abri me vi envolta nas asas de Andrew, o homem arregalou os olhos e correu tão rápido que deixou a arma cair. Andrew segurou meu braço e começou a caminhar. Olhou para Matt mas não parou. Matt também nos acompanhou.
Logo chegamos ao acampamento. Todos estavam agrupados conversando, pareciam extremamente preocupados. Quando notaram nossa presença todos olharam pra mim, abaixei os olhos, droga! Andrew soltou meu braço e entrou. Ele devia me odiar agora.
–Onde estavam!? Quase nos mataram de preocupação! -Perguntou Victória.
–A culpa foi minha, eu insisti pra Jade ir comigo a uma cachoeira.
–Não é sua culpa, Matt. Eu quis ir.
–O que passou, passou. -Disse Albert -Só não saiam mais daqui sozinhos.
–Ok... -Eu disse e em seguida entrei, precisava me desculpar com Andrew. Procurei ele na cozinha, depois andei no corredor.
–E onde você estava? -Ouvi Andrew perguntar, me escondi atrás da parede. -Devia ter ficado aqui, de olho em Jade. Podia ter acontecido alguma coisa!
–Eu sei Andrew. Acha que eu gostaria que ela se machucasse? -Era Annelise.
–Não foi isso que eu disse. -Eles ficaram em silêncio por um momento -Onde você estava?
–Eu... Eu fui ver Jonathan, Andrew.
–Você foi o que!?
–Meu dever é cuidar dos caídos. Ele pode ser salvo, Andrew.
–Ele é o braço direito de Lúcifer! Onde você está com a cabeça!? Ele pode muito bem ter seguido você!
–Não seguiu. Olha Andrew, não pedi apoio, eu só estou fazendo meu trabalho.
–Você não vê o quanto é perigoso? Ele pode te usar pra conseguir o que quer, Annelise.
–Olha... Chega desse assunto.
Ela saiu da sala, fiquei bem quieta, a observando. Jonathan podia ser salvo? Eu duvidava. Mas... Ela fez isso por toda a existência dos anjos, ela não podia estar errada. O que eu estava pensando? Claro que podia. Era de Jonathan que estamos falando, o desgraçado quase me matou.
–Quando você vai entrar, Jade? -Ouvi Andrew perguntar, droga, ele sabia que eu estava lá o tempo todo.
Eu entrei na sala, ele estava em pé na frente da janela. Parei na entrada da sala, fiquei olhando pra ele, estava pensando no que deveria dizer, ele ainda estava bravo? Eu não sabia dizer, e se não me descupasse?
–O que você tem? -Ele se aproximou, segurou o meu queixo e levantou minha cabeça, me fazendo olhar pra ele.
–Eu queria me desculpar. Você ficou bravo não ficou?
Ele suspirou.
–Jade, se alguma coisa de ruim te acontecesse eu jamais me perdoaria.
–Eu sei. Prometo não me arriscar mais assim.
–E não vai, de agora em diante vou ficar ainda mais de olho em você.
–Não parece ruim.
Ele deu um meio sorriso e colocou as mãos na minha cintura. Seus lábios tocaram os meus, ele não estava mais bravo. Coloquei uma mão em seu cabelo, estava macio como sempre, eu o amava demais, era até difícil descrever. Quando nos beijavamos era como se meu mundo parasse, eu nem conseguia me imaginar sem ele.
Nosso beijo foi interrompido pela luz de um farol de carro. Era Luke, mas ele não viu a gente. Quando meus olhos voltaram para Andrew ele estava me encarando, parecia distante.
–Você está bem?
–Sim. Só um pouco cansado.
–Finalmente. -Consegui lhe arrancar um sorriso.
Nós subimos, eu me banhei, ele logo em seguida. Então nos deitamos, eu estava preocupada... Comecei a pensar em Gabriel, quando ele voltaria? E se estava certo sobre mim, porque eu nunca mais desenhei? Isso me fazia sentir imprestável. Eu sentia falta da minha antiga vida, da minha floresta, de ir a escola, de Susan... Pensar nestas coisas me fazia querer chorar. Talvez as coisas nunca mais voltassem a ser como antes.
E eu tinha apenas dezoito. Não devia estar passando por tudo isso... Prever um apocalipse? Isso era muito pra mim, e eu havia tentado tanto desenhar nos últimos meses, só que nada vinha a minha cabeça.
–O que foi?
Me virei e Andrew estava me encarando, o quarto estava iluminado apenas pela luz do luar.
–Nada... Eu só estava pensando se Gabriel está bem. Não tivemos nenhuma notícia dele. Eu queria que ele voltasse, talvez pudesse explicar melhor os meus desenhos... Ou pelo menos a ausência deles neste mês.
–Não se preocupe com os desenhos agora.
–Falando em preocupar. Acha que Jonathan vai mesmo virar um dos mocinhos?
–Ele passou a vida toda sendo mal, ninguém muda tão repentinamente.
–Mas por outro lado, se ele estivesse do nosso lado, seria um ótimo aliado. Não?
–Sim, ele seria.
Ele me beijou, eu me aconcheguei em seu peito e dormi muito rápido.
4
A porta da sala se abriu, trazendo uma ventania que parecia não cessar. Me levantei do sofá, em seguida ele entrou. Caminhando com passos lentos e graciosos em minha direção, usando algo como um sobretudo preto, seu cabelo castanho claro, estava excessivamente penteado, ele me encarou e me deu um falso sorriso, que eu simplesmente não consegui corresponder, estava preocupado, o que era tão importante para fazê-lo vir pessoalmente?
–Lúcifer... O que faz aqui? -Perguntei.
–Já que você não foi até mim, durante um mês, Jonathan. Eu tive que vir até aqui por notícias.
–Peço perdão.
Ele continuou da mesma forma me encarando.
–Eu soube... Que lhe fizeram uma proposta. -Havia ódio em seu olhar. -Então eles tem um anjo pra tentar salvar os caídos, dessa nem mesmo eu sabia.
–Pois é. Eu também mal pude acreditar.
Ele permaneceu em silêncio, seu silêncio me corroía. Seus olhos voltaram para mim.
–Eu a quero morta.
–Você o que?
–Disse que a quero morta. Ela é uma ameaça ao meu reino.
–Mas... -Ele me interrompeu, socando a parede.
–Estou te dando uma ordem! Você não tem sido muito útil ultimamente.
–Claro... Vou mandar alguém fazer amanhã de manhã.
Ele se virou, estava indo embora, me senti aliviado. Mas ele se virou quando estava na porta.
–Não quero que alguém faça. É pra você fazer pessoalmente, Jonathan. E quero que me traga Jade logo, ou então serei obrigado a dar um jeito em você.
Ele saiu. Me sentei no sofá, eu precisava atrair Annelise, não seria difícil chama-la até aqui... Então eu a mataria. Só que de repente isso parecia ser impossível. Eu não podia matá-la. Chacoalhei a cabeça. Eu podia, repetia em minha cabeça, mesmo sabendo que estava balançado... Ela veio tentar me salvar, mesmo estando ao lado de Andrew, e eu a trairia... Minha cabeça nunca esteve tão confusa.
–Se matar a anjinha for problema então eu mesma faço. -Disse Jezabel, com um sorriso.
–Não pedi sua ajuda.
–Só que de repente você parece bem balançado. -Ela riu, eu a odiava ainda mais quando ria -Talvez ela tenha razão... Talvez você possa ser salvo.
Revirei os olhos e passei por ela, batendo o ombro contra o dela
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