Entre o Pôr do Sol e o Amanhecer

1 – Partindo em direção a Louisiana


“A Fênix que Renasce conhece seu destino? De vir ao mundo, torna-se forte, aprender a voar. Construir um ninho, um companheiro procurar. Dormir, ansiar e caçar no céu infinito? Será que sabe que o fogo é seu futuro? Que uma chama irá lhe por fim à vida? Quando o calor purifica animar e pira, o esforço terreno tornando-se obscuro? Será que o pavor o peito lhe penetra? Será que se arrepende de escolhas feitas? Será que a mágoa a crista lhe enfeita? E que tem consciência do preço que perpetra? Antes extraordinário, seu corpo queima, enquanto lança gritos de pavor e dor. Carbonizadas, suas penas perdem a cor, negando a vida, uma lágrima teima. De morte tão medonha, outra alma nova, assumindo seu lugar, emerge. Com determinação e propósito elege um glorioso amanhecer sem trauma! Porventura a Fênix que Renasce agradece as cinzas negras que lhe dão vida? Sabe ela que o fogo seu destino lapida? Desfruta a terra enquanto não perece? (Colleen Houck)”

Jake Ashmore

Acordei cedo aquele dia, era o dia que tinha combinado de viajar com os garotos. Eu sei, eu queria embarcar nessa sozinho, não queria dar trabalhos para ele e muito menos colocá-los em perigo. Só que tem uma coisa que você precisa saber sobre os meus melhores amigos: eles nunca fazem o que você manda. Então claro, eles bateram o pé até conseguirem embarcar nessa comigo. “Ah isso é perigo.” “Ele pode ser um maníaco” “E se ele te estuprar e te matar depois”... Essas foram apenas algumas das frases que eles repetiram milhares de vezes para me convencer a deixá-los vir comigo. E como sempre fizemos tudo juntos, não deveria ser diferente agora. Então estamos partindo de casa para uma viajem em busca do meu namorado virtual. Você pode até achar tosco, mas... Eu sei que o amo, eu sei que é com ele que eu devo ficar. Então vou fazer esse pequeno esforço de ir até ele.

Meus pais deram uma surtada básica quando souberam dessa minha idéia maluca, de entrar num carro com quatro amigos e partir em busca do desconhecido. Só que depois de muita conversa eles aceitaram me deixar partir. Se eu estou com medo? Nem um pouquinho. Essa será apenas mais uma das histórias que terei para contar aos meus netos. Quando estiver sentando em um banco junto ao Brad e nossos netos sentados em volta ouvindo nossas aventuras.

Estava deitado sobre a minha cama quando ouvi o celular tocar, levantei correndo e fui pega-lo, poderia ser Brad, mas não. Era Andrew.

― Olá, bom dia! ― Disse ele contente. ― Animado para sair de Idaho em uma viajem de carro, até o Louisiana?

― O que você acha? Mais que animado, animadíssimo. ― Respondi rindo.

A animação que ele carregava na voz sumiu, eu soube logo que tinha algo errado, e então ele perguntou sério.

― Você tem certeza disso, Jacob? ― Ele perguntou usando meu verdadeiro nome, o que indicava que estava realmente preocupado.

― Nunca tive tanta certeza das coisas, Andrew! E você? Tem certeza que está pronto pra sair do seu estado com mais três malucos, só pra realizar um sonho, o maior sonho do seu amigo? ― Perguntei rindo, o que fez rir também.

― Eu não sei, mas acho que pra ter esse amigo seguro vale tudo! ― Ele falou rindo. ― Vou desligar, vou checar os pneus da picape antes de pegarmos a estrada. Logo passaremos aí pra te pegar, fique pronto.

― Ah tudo bem! ― Eu disse sorrindo animado.

― Ei, Jake! ― Ele começou.

― O que? ― Eu perguntei sério.

― Lembre-se que eu te amo! ― Ele falou sério.

― Eu também o amo, e não é atoa que você é o meu melhor amigo! ― Disse carinhoso.

Ele riu seco e desligou.

Levantei da cama e olhei meu rosto no espelho. Estava com a cara de sempre, poucas olheiras, os cabelos loiros emaranhados por conta da noite dormida. Peguei minha escova de dente e sem mesmo olhar, joguei o creme dental nela, deixei um pouco de água escorrer sobre ela e levei a boca, fiquei nos movimentos de escovação por tempo suficiente para quinze pessoas escovar os dentes. Se havia algo que eu tinha pavor, era mau hálito ou dentes sujinhos. Joguei água na boca e bochechei limpando minha boca e a sentindo arder por conta da refrescancia do creme dental. Joguei um enxaguante na boca e repeti o processo. Parei e encostei as duas mãos na pia. Fiquei me olhando no espelho. Eu estava fazendo o certo? Largando a minha vida e indo atrás de um homem que eu mal conhecia? Estava sim. Não era só por ele, mas era pela minha vida também. Eu estava esperando a minha vida começar.

Sai do banheiro aos pulinhos e como estava tão animado comecei a cantar.

― Até que em fim chegou, é a minha hora o mundo está tão perto, eu preciso ousar, mas se tiver de ser tem que ser agora. Será? Não! Lá vou eu... ― Cantei os primeiros versos da música do filme enquanto terminava de arrumar minha mochila, era tudo real. Realmente dessa vez tudo mudaria. ―Tocar a grama, a terra, do jeito que pensei sentir o sopro da brisa tal como imaginei; Completamente livre como sempre sonhei, sair andando, correndo, dançando, em frente. Pulando, cabelos voando, soltando, alisando, enrolando e enfim declarando, minha vida começa aqui. ― Continuei cantando.

Parei quando ouvi um toc toc na porta do meu quarto. Olhei imaginando quem deveria ser.

― Entra mãe!

Minha mão entrou os olhos vermelhos de tanto chorar, ela aceitou que eu fosse, mas ainda assim estava triste e torcendo para que eu desistisse. “Você tem o direito de escolher sua própria vida.” Disseram meus pais. E eu aceitei viver dessa forma, eu aceitei sair daqui e ir atrás da minha vida.

― Chorando de novo, mamãe? ― Perguntei calmo e carinhoso e caminhei até ela rapidamente, abracei minha mãe e ela me deu um beijo na cabeça.

― Sentirei tanta a sua falta! Com quem eu vou falar do caras que me paqueram? ― Ele perguntou esboçando um pequeno sorriso. ― Ou quem vai comigo ao salão de beleza?

― Ah mamãe, eu volto logo. Eu não vou mudar de vez. Eu vou... Hm, ter uma experiência se eu gostar de lá. Eu volto pego todas as minhas tralhas e vou. Até porque os meninos estão comigo, lembra? ― Perguntei passando o dedo em sua face.

Minha mãe sorriu forçado.

― Espero que você e os meninos não se metam em confusão. ― Ela disse e beijou meu rosto. ― Ah trouxe isso pra você! ― Ela falou mostrando uma colcha feita com retalhos. ― É bem quente, pra você usar na viajem!

― Oh mamãe, obrigado! ― Eu disse sentindo os olhos queimarem por conta das lágrimas que eu segurava.

― É melhor você ir ver seu pai, ele esta praticamente surtando! ― Ela disse e me soltou do abraço.

― Eu vou assim que terminar de arrumar aqui, os meninos logo passam aqui. ― Falei.

Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente e resolveu sair do quarto. Fiquei sozinho e me sentei sobre a cama. Fiquei olhando pro nada. Um pequeno arrependimento começando a bater na minha mente, mas balancei a cabeça para afastar os pensamentos e levantei. Voltei a arrumar a mochila. Depois de ter tudo lá dentro. Sorri. Entrei no banheiro e tomei um banho rápido. A água quente relaxou o meu corpo animado demais. Não demorei muito no banho, até porque não tinha tempo. Sai e me sequei bem antes de vestir a minha roupa.

Escolhi uma camiseta sem mangas com estampa do nosso país. Era bem bonita, branca com a estampa da bandeira dos EUA. Vesti um short curto preto, e calcei meu coturno médio. Não liguei para o cabelo, apenas sequei e passei as mãos. Estava pronto.

Peguei minha mochila e sai do quarto, parei na porta e fiquei olhando para o meu quarto. Para tudo que deixaria ali, toda a lembrança que tinha vivido ali, minha primeira vez tinha sido naquela cama. Eu ri sozinho ao lembrar-me disso. Fechei a porta e segui em direção a sala.

― Pai? ― Chamei olhando para o meu pai que estava de costas fumando um cigarro.

Ele não se mexeu, continuou olhando para fora da janela.

― Eu vou ficar bem, pai... ― Eu disse baixo, e fui cortado pela sua voz grossa.

― Eu sei que vai ficar bem, eu te ensinei a se defender muito bem, mas e eu e a sua mãe? Acha que ficaremos bem? ― Ele perguntou. ― O nosso único bebê está partindo para o desconhecido. Eu sei... Eu deveria ficar feliz, saber que você está crescendo, e em partes eu estou feliz...

― Pai... ― Falei baixinho sentindo as lágrimas escorrerem pela face.

― Foi tão difícil aceitar que você era gay, mas então eu percebi que independente de quem você levasse para cama, você ainda seria o meu bebezinho. E eu te aceitei, briguei, chutei, bati e lutei por você... E...

Cortei o que ele estava falando, o abracei e fiquei ali quieto sentindo as lágrimas descerem pela face.

― Eu te amo tanto, papai! ― Sussurrei.

― Eu também te amo demais, meu anjo! ― Ele disse, percebi que ele também chorava. ― Eu espero te ver logo, então, por favor, tome cuidado... E volte! ― Ele falou e sorriu. ― E avise para o tal do Brad que eu sei usar uma espingarda muito bem!

Eu ri em meio às lágrimas.

― Pode deixar, eu avisarei! ― Eu disse rindo.

Ouvimos o som da buzina em frente a nossa casa. Eu olhei para cima e encarei seu rosto, ele sorriu. A mamãe logo chegou e nós três nos abraçamos de novo.

― Eu amo vocês! ― Falei chorando.

― Nós também! ― Respondeu meu pai, já que minha mãe estava chorando demais para falar qualquer coisa.

Sorri e sequei minhas lágrimas, era hora de sair... Caminhamos os três juntos até fora de casa. Os meninos esperavam do lado do grande carro de Andrew.

― Bora menino! ― Gritou Luke sorrindo.

― Achei que estivesse mais animado, está pensando em desistir? ― Perguntou Liam em meio às risadas.

― Senhor e Sra. Ashmore! ― Cumprimentou Andrew com seu jeito carinhoso de sempre.

Meus pais apenas acenaram e sorriram para os garotos.

― Vá e boa sorte! ― Falou papai sorrindo.

― Eu... ― Comecei.

― Não diga nada, apenas vá e volte cheio de histórias para nos contar! ― Disse papai sorrindo.

Meu coração apertou, mas era verdade. Eu iria viver a minha vida e voltar cheio de coisas boas para contar.

Abracei os dois mais vezes e então corri com minha mochila pelo nosso jardim até a rua. Os meus amigos me abraçaram todos de uma vez e nós sorrimos.

― Prontos? ― Perguntou Liam sorrindo.

― Ao infinito e além! ― Gritamos juntos em coro. Sim, tínhamos vinte anos, mas agíamos como crianças de dez ou até menos.

Entramos no carro. Liam iria dirigir primeiro, então foi para o banco de direção, Luke entrou no banco de carona, e eu e Andrew sentamos juntos nos bancos traseiros. Olhei para Andrew, ele sorriu e eu retribuí. Liam arrancou o carro em direção ao nosso destino. Nós não iríamos direto para o Louisiana, passaríamos em vários estados e cidades, conhecendo as festas, as baladas, as bebidas e aumentando nossa bagagem.

Estávamos no carro a mais ou menos meia hora.

― Que viajem depressiva, achei que isso seria mais legal. Vamos todos ficar calados? Os três minutos de silêncio pela nossa vida antiga acabaram. Agora vamos aproveitar nossa nova vida! ― Reclamou Luke.

Nós todos rimos, no fundo ele tinha razão.

― Certo, então vamos ouvir uma música... Aliás, Andrew você trouxe o violão? ― Perguntei sorrindo e me virei para ele. Andrew estava como sempre, jaqueta de jogadores de futebol, os cabelos arrepiados com as pontas loiras e um sorriso sacana que deixava qualquer passiva de bunda piscando.

― Claro, está no malas! ― Ele respondeu sorrindo e me encarando.

Rapidamente desviei meus olhos e sorri também. Luke já mexia no som do carro e escolhei músicas.

― Menos música de viado! ― Reclamou Liam, e bateu as mãos no volante enquanto ria.

― Ah nós somos viados! ― Gritou Luke.

― Ninguém precisa. ― Reclamou Liam rindo de novo.

― Ah cala a boca, assim não vamos encontrar pessoas para foder! ― Disse Luke rindo.

― Ah para amor, então você quer foder com outros? ― Perguntou Liam fingindo estar bravo com o namorado. ― Vocês ouviram meninos? Ele que foder com outros.

― Ah eles sabem... E estão pensando na proposta de fodermos todos juntos! ― Luke disse e gargalhou.

― Nem vem... Pode tirar o cavalinho da chuva. O Jake é só meu! ― Andrew fez cara de bravo e logo gargalhou.

― Ah pode parar, eu quero foder com o Luke... ― Falei rindo. ― Ele tem um brinquedão!

Luke olhou para mim fingindo estar assustado e depois gargalhou.

― Eu sou passivo meu bem, pas-si-vo. Eu adoro uma banana! ― Ele completou rindo.

Sem mais demora ele ligou o som do carro e One Direction começou a tocar.

“Your hand fits in mine/ Like it's made just for me/ But bear this in mind/ It was meant to be/ And I'm joining up the dots/ With the freckles on your cheeks/ And it all makes sense to me” Tocando no rádio e todos nós ouvindo e sorrindo. Erámos veados assumidos, não precisávamos fingir não curtir grupos do gênero.

Rimos juntos enquanto a música rolava.

― Ah caramba. Essa é boa! ― Gritou Luke mais alto que a música. ― Agora galerinha! ― Falou ele indicando que era o refrão.

“I've just let these little things/ Slip out of my mouth/ 'Cause it's you/ Oh it's you / It's you/ They add up to/ And I'm in love you/ And all these little things” Começamos a cantar todos juntos. Ou melhor, a berrar todos juntos. Já que ninguém estava preocupado com a afinação naquele momento. Tudo que queríamos era apenas rir e ser feliz. Aproveitar os primeiros momentos de nossa viajem longa.

O dia passou rápido. E a noite caiu. Luke assumiu a direção pela noite, mas todos nós estávamos cansados, precisando descansar, estirar as pernas.

― Vinte e três horas da noite, acho que está na hora de pararmos! ― Eu pedi cansado.

― Claro, vamos procurar uma pousada! ― Disse Andrew antes de bocejar. ― Agora!

Rimos todos e ele riu também.

Não demorou muito e encontramos um motel. Paramos, pois em meia hora tinha sido a única coisa que tínhamos encontrado. Estacionamos o carro no estacionamento pequeno e improvisado.

― Um motel? ― Eu perguntei.

― Qual o problema? ― Perguntou Liam.

― E aquela história de nossa suruba? ― Perguntou Luke rindo.

― Shh, se comportem. ― Reclamou Andrew e seguiu até o porta mala do carro, tirando nossas mochilas.

Pegamos nossa bagagem e nos dirigimos até o motel, entramos e fomos direto para o balcão.

― Boa noite! ― Disse uma mulher com um batom tão vermelho que parecia sangue. Ela passou a mão pelos cabelos e se arrumou na cadeira que estava sentada.

― É, hm... ― Pigarreou Andrew quando notou que a loira estava dando em cima dele. ― Nós vamos querer um quarto com quatro camas. Pernoite. ― Ele disse.

A mulher fez cara de espanto, mas então voltou ao seu sorriso.

― Tudo bem! ― Ela disse e digitou algo em seu computador. ― Está aqui a chave! ― Ela deu uma chave para ele. ― Vocês são maiores de idade, né?

Todos rimos juntos. Com exceção de Andrew que nos fuzilou com o olhar.

― Claro que sim, quer ver nossa documentação? ― Ele perguntou e virou-se para ela de novo.

― Não, tudo bem. Eu acredito em vocês. Todos têm cara de homens! ― Disse ela e mordeu seu lábio.

Andrew agradeceu e saímos do balcão indo para o local que ela tinha indicado, subimos a grande escada e entramos no quarto que tinha nosso número. A primeira coisa que fiz foi olhar o quarto, não parecia tão sujo ou nojento.

― Luke, olha o banheiro! ― Resmunguei e Luke correu para dar uma olhada.

― Ah, passivos e suas frescuras! ― Disse Liam que se jogou em uma das camas.

― Frescura? Você pode estar deitando em cima de porra alheia, sabia? ― Disse sério.

Liam fez cara de nojo e então gargalhou.

À hora começou a passar e todos nós um por um tomamos banho. Estávamos muito cansados até mesmo para ir se alimentar deixaríamos isso para amanhã. Todos deitaram cada um em sua respectiva cama.

― Estou muito animado! ― Disse Luke.

― É, vai ser maneiro! ― Liam completou.

Andrew não disse nada, eu sorri.

― Boa noite meninos, e preparem-se que amanhã começa nossa grande aventura! ― Falei sorrindo, e sem nem perceber acabei entrando no mundo dos sonhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.