A sala de jantar dos Cullen tinha um silêncio que pesava mais que qualquer palavra dita ali dentro. As janelas amplas deixavam a luz pálida da manhã atravessar os vidros, projetando tons azulados sobre os móveis escuros e polidos. Do lado de fora, a floresta de Forks parecia em suspensão, como se a própria natureza prendesse a respiração diante do que estava prestes a ser decidido.

Jacob se recostou na cadeira de madeira ao lado de Alice, o maxilar travado, o corpo tenso. Ainda se recuperava das últimas horas. Jane estava sentada do outro lado da mesa, impassível como sempre, os olhos vermelhos cravados em Carlisle, que estava em pé com um mapa aberto à frente, espalhando anotações sobre a mesa com precisão metódica. Alice permanecia com o olhar distante, como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Um pé no presente. Outro, bem fixado no futuro.

— Há uma vila no interior da Sibéria — começou Carlisle, com a voz baixa, firme. — Chamada Chernobor. Segundo informações dos Volturi e o que Alice conseguiu ver... é onde os ataques mais recentes têm se concentrado. Totalmente isolada. Neve o ano inteiro, população pequena. Mas agora, metade está morta. A outra metade desaparecida.

Jacob sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o frio da imagem que se formava.

— Eles atacam em grupos? — perguntou, tentando manter a voz firme. — Ou são como nós?

— Não. — Jane respondeu antes que Carlisle pudesse falar. — Não há nada em comum entre eles e vocês. São bestas. Instinto puro. Sem fala. Sem humanidade. Agem como uma matilha, mas são movidos por um ódio selvagem.

Jacob olhou de relance para ela. Estava séria. Mas pela primeira vez, ele viu algo diferente no fundo de seus olhos: preocupação.

— Enviamos guardas no início do caos para investigar — continuou Jane. — Mas apenas dois retornaram. Ambos feridos, algo extremamente raro. Disseram que os filhos da lua são mais rápidos do que lembravam... mais organizados. E estavam esperando.

Alice assentiu com um movimento breve.

— Quando tentei ver a vila, havia pontos em que meu dom era completamente bloqueado. Eles sabem esconder os rastros. Como se algo sombrio pairasse por lá. E há crianças desaparecendo. Dezenas. Estão usando os vilarejos ao redor como área de caça.

— Vocês vieram da Itália para a América só por conta de uma vampira meia humana e agora está me dizendo que não podem ir até a Rússia sozinhos e resolverem isso? Tinha dezenas de vocês aquele dia. — rosnou Jacob, amargurado pela lembrança. — Não é esse o papel de vocês? "Proteger a ordem"?

Jane cruzou as pernas, sem alterar o tom de voz. Jacob olhava diretamente para ela, seus olhos podendo facilmente lhe causar dor se houvesse algum tipo de dom como o dela.

— Não é tão simples. Não conseguimos rastrear lobisomens. O cheiro só é perceptivel enquanto estão aos nossos olhos, depois disso desaparece. E os mais antigos sabem como se esconder, afinal, foram séculos sem o aparecimento deles em massa. Eles sabem como driblar vampiros. — Ela olhou diretamente para Jacob. — Mas vocês não. Aro acredita que um lobo transmorfo conseguiria reconhecer o cheiro de um lobissomem. É por isso que você vai junto.

Havia mais ali do que ela dizia. Como se detestasse admitir que precisava dele. E Jacob percebeu. Mas naquele momento, não respondeu. Algo mais o preocupava.

— Se eles estão caçando humanos e escondendo seus rastros, isso vai piorar. Muito. — murmurou, desviando o olhar para o mapa.

Carlisle concordou, os olhos passando por cada rosto na sala.

— Precisamos montar uma estratégia antes de irmos. E isso começa com as informações que Jane trouxe de Volterra e as visões de Alice. Há mais do que mortes acontecendo. Não sabemos o que é, mas precisamos descobrir.

O silêncio caiu novamente. Carlisle era exímio em apaziguar ânimos, mas não era ingênuo. Por trás daquela expressão calma, Jane percebia uma centelha de desconfiança tão clara quanto a dela própria. Não por malícia, mas por compreensão. Porque Carlisle, assim como Aro, sabia ler para além das palavras — mas ao contrário do mestre dos Volturi, não governava para si mesmo, não colocava sua satisfação pessoal acima de todos. Jane não podia dizer o mesmo de Aro.

Aro não arriscava nada por altruísmo. Não cederia uma trégua tão frágil para beneficiar uma família de vampiros vegetarianos e uma matilha de lobos temperamental sem uma boa razão. Alec não era tão diferente dela nesse entendimento; não tinham engolido a justificativa de Aro para a trégua. Não quando conheciam tão bem as fronteiras da ambição do mestre.

Alice interrompeu o silêncio com a calma que lhe era tão peculiar, mas suas palavras não traziam conforto:

— Não consigo ver muito do futuro de vocês. Vejo vocês no vilarejo, vejo uma luta, mas o restante não passa de borrões. Não dá pra ver o futuro de uma batalha tão volúvel, tão cheia de ramificações. Não consigo ver claramento sobre os lobissomens, assim com não vejo sobre vocês — Seu olhar pousou em Jacob. — Não têm padrão previsível. Estão dispersos, mas não arriscaria dizer que são poucos. A forma deles não é de lobo como a de vocês, são mais próximos das lendas antigas. Fortes e rápidos como nós, mas não pensam, não têm controle quando estão transformados. Matam por instinto e não por estratégia. Os planos de Alec podem dar certo, mas não devem ser pegos desprevenidos.

Fez uma pausa, deixando todos refletirem por um instante antes de continuar, dessa vez com o olhar fixo em Jane.

— Precisamos de mais alguém para isso dar certo. Alguém inteligente o bastante para não transformar uma batalha imprevisível em uma carnificina inútil. — Jane vagou com sua mente para cada membro da guarda, pensando em quem poderia ajudar. "Felix". Alice soltou um suspiro, sua mente longe, já imaginando Felix no meio da encrenca toda. — Força bruta não irá ter grandes vantagens sobre vocês, precisam de alguém que acrescente em cérebro.

— Vou levar Quil e Embry. — Jacob falou, atraindo a atenção de Jane para si.

A fala caiu como uma pedra no silêncio tenso do ambiente. Jane virou o rosto para fitá‑lo, olhos vermelhos cravados nos dele.

— Quem são Quil e Embry? — perguntou, uma leve curva de desdém no canto dos lábios.

— São da minha matilha. Não são pensadores, mas são força bruta.

Alice acenou para Carlisle, que não pareceu contrariado. Já Jane crispou o maxilar e sussurrou, tão baixa e tão venenosa que poderia cortar a atmosfera:

— Não precisamos de mais lobos aqui.

Jacob não recuou. Não abaixou a cabeça e não desviou o olhar. Sua voz soou rouca e firme:

— Você precisa de mim e eu preciso deles. Eles vão comigo, e isso não é uma porra de pedido de autorização. Ou é isso — Ele deu um passo à frente, a raiva vibrando nas últimas sílabas — ou você pega esse seu celularzinho cor‑de‑rosa e liga para o seu dono mafioso da Itália. Diz pra ele mandar toda a corja pra tentar nos matar. Mas diga também que todos vocês morrem junto.

A atmosfera caiu num silêncio absoluto após aquelas últimas palavras. Nenhum dos presentes ousava sequer arriscar uma respiração. Jane não desviou o olhar. Não piscou. Não respondeu de imediato. Sua expressão continuava tão imóvel quanto a de uma estátua antiga, mas por dentro era uma tempestade. Sentia sua raiva ferver sob a superfície imóvel do rosto perfeito, uma raiva tão intensa que poderia rasgar a sala ao meio. Não era só pela insolência do lobo — era pela ousadia de não abaixar a cabeça para ela. Por não lhe temer. E aquilo não a assustava tanto quanto deveria... mas a irritava, e muito.

Jacob também sustentou seu olhar. Não teve medo de enfrentá‑la, mesmo estando tão próximo que poderia sentir o gelo sutil exalando de sua pele, tão denso e tão letal quanto as sombras que Jane tão bem conhecia. Não era só a intimidação de um lobo marcado pela batalha — era uma promessa cravada no timbre rouco e firme de sua voz.

Se pudesse, Jane teria colocado cada fibra do seu dom naquela troca de olhares, rasgado cada linha de pensamento do lobo para lhe mostrar quem era a criatura mais mortal naquela sala. Não por prazer, não por sadismo, mas por uma necessidade quase instintiva de reafirmar seu lugar no tabuleiro. Porque Jane não conhecia o recuo, não conhecia a rendição. E, no entanto, não moveu um dedo. Não soltou uma única palavra.

Seus olhos vermelhos cravaram-se nos escuros de Jacob com uma intensidade tão brutal que poderia dilacerá‑lo sem precisar mexer um músculo. Não era uma concessão ou uma rendição. Não era medo ou dúvida. Era uma calma tão afiada e tão sólida que parecia anunciar uma tempestade futura.

Jane respirou fundo, tão superficial que quase não moveu o peito, e inclinou a cabeça ligeiramente.

— Traga-os. — Disse, a voz tão firme e tão baixa que parecia uma sentença. — Mas diga a eles para não ficarem no caminho.

Jacob sustentou o olhar dela por mais uma batida do coração antes de responder:

— Não vão.

E assim, enquanto Alice e Carlisle trocavam olhares carregados de entendimento e pesar, Jane e Jacob não ousaram desviar o olhar um do outro. Não era uma paz selada.

Foi Alice quem ousou quebrar o silêncio, deslizando para o centro da mesa uma pilha de papéis amarelados. Sem pressa, começou a desenhar com uma caneta fina e habilidosa cada detalhe que sua visão lhe revelara — caminhos cobertos de gelo, trilhas marcadas por garras profundas, casas arruinadas no coração de uma vila isolada. Os traços ganhavam vida sob suas mãos enquanto o restante do grupo tentava assimilar a atmosfera carregada que ainda dominava o ambiente.

Jane não desviou o olhar de Jacob por um longo segundo antes de permitir que seu foco migrasse para as anotações. Sem dizer uma palavra, retirou do bolso do casaco uma pequena pasta de couro e a abriu, revelando desenhos e relatórios antigos dos Volturi. Suas luvas de cetim deslizaram sobre o mapa enquanto destacava detalhes que poderiam indicar locais estratégicos ou padrões de ataques registrados séculos atrás.

As imagens e relatos se sobrepunham, ganhando coerência sob a luz diurna do inverno de Forks, enquanto a conversa ganhava contornos mais práticos e menos emotivos. As tensões não desapareceram — elas simplesmente mudaram de lugar, convertendo-se em planejamento e estratégia.

— Partimos ao amanhecer — Decretou Jane. Seu olhar passando por Jacob, checando se ele estava atento a ela.

A sentença caiu no silêncio, tão firme e tão clara quanto uma ordem. E assim, enquanto as últimas marcas do confronto não dito desapareciam no ambiente, cada um deles sabia: não era mais uma batalha isolada. Não era por Aro, não era por interesses ocultos ou por alianças frágeis. Era por sobreviver, e pela tênue linha de paz que todos ali tentavam, à sua maneira, preservar.