Entre o Frio e o Fogo | Twilight Saga
7 O Tilintar da Morte
Cinco dias se passaram desde o primeiro ataque. Cinco dias de sangue, neve e tensão constante.
O grupo havia caçado todos os dias, geralmente à noite, emboscando pequenos grupos dos filhos da lua espalhados pelas florestas da região. Nunca mais encontraram tantos reunidos como da primeira vez, mas as caçadas continuaram intensas, perigosas. Cada batalha deixava um rastro de corpos e fumaça, pois Alec nunca deixava de queimar os restos, como se tivesse prazer em garantir que nenhum deles jamais voltasse.
Os lobos eram os primeiros a farejar e rastrear os inimigos. Eles seguiam adiante, explorando os arredores como sombras ágeis e silenciosas. Seus corpos imensos se movendo com precisão entre as árvores, seus pensamentos entrelaçados em uma comunicação silenciosa, veloz e instintiva.
Os Volturi, por sua vez, pareciam se divertir. Eles deixavam que os lobos liderassem, permitiam que rastreassem e enfrentassem. Alec observava com frieza cirúrgica antes de soltar sua névoa para encerrar uma luta. Jane raramente falava. Cassius, por outro lado, sorria demais. E lutava com prazer demais.
Jacob sentia tudo isso. E estava ficando cansado.
Dormia pouco. O corpo já dava sinais de exaustão, mas ele se recusava a demonstrar qualquer fraqueza. Estava sempre em alerta. Quando conseguia fechar os olhos por algumas horas, era em sono leve, entrecortado por sonhos turbulentos e a constante desconfiança de que algo aconteceria enquanto dormia. Mais de uma vez, acordou em um sobressalto por barulhos do lado de fora do abrigo — só para descobrir que eram os vampiros rindo de alguma coisa entre eles. Ou apenas Cassius fazendo questão de andar pesadamente para acordá-los, por pura provocação.
Jacob se esforçava para manter a mente focada. Seu corpo ardia a cada batalha, e embora sua regeneração fosse rápida, ele começava a sentir a fadiga se acumulando. Não havia tempo para descanso completo, nem comida suficiente para repor tanta energia, mesmo que tentassem. As refeições eram sempre às pressas, os cochilos curtos demais.
O pior não era a luta. Jacob sabia lutar. O que o corroía era a tensão constante. O olhar de Cassius sobre Jane, o jeito como ela reagia à presença dele, que voltou a ser negativa, como se o beijo do primeiro dia nunca tivesse existido. O sorriso que às vezes se formava no canto da boca dela após uma luta. Aquilo o incomodava de um jeito que ele não gostava de admitir — não porque se importasse com Jane, mas porque ela era uma bomba-relógio. Ele precisava entender com quem estava lidando.
A neve não parava. O sangue no solo congelava rapidamente, deixando manchas escuras sob o branco imaculado da paisagem. E a cada novo amanhecer, o grupo retornava ao abrigo como se fossem guerreiros de guerra — sujos, silenciosos, cada um com seus pensamentos mergulhados em estratégias, desconfiança e algo que começava a se parecer com frustração. Não sabiam quantos filhos da lua ainda existiam. Nem quando isso terminaria. Mas sabiam que algo estava se aproximando. E, seja lá o que fosse, Jacob não pretendia piscar na hora errada.
A tarde caiu fria e silenciosa sobre a floresta. No abrigo improvisado, a monotonia da rotina foi interrompida por um toque no celular de Jane. Ela atendeu sem dizer nada. Sua postura rígida se manteve até que, alguns segundos depois, desligou e encarou o grupo.
— Alice mandou novas coordenadas. — Disse, seca, mas clara. — O grupo principal de lobisomens está se refugiando em uma caverna nas montanhas, a cerca de um dia de viagem daqui. Eles são mais numerosos do que esperávamos, e estão se preparando para a próxima lua cheia.
Jacob sentiu um arrepio. A lua cheia. A transformação incontrolável. Isso significava que a caçada precisava ser acelerada.
— Quantos? — Jacob foi direto.
— Sem um número exato. — Jane respondeu. — Mas Alice viu mais do que estamos enfrentando. Se esconderam longe para ter mais vantagem. Precisamos sair antes do pôr do sol. O cheiro de vocês será nosso disfarce. O plano é o mesmo. Vocês na frente. Nós cobrindo por trás.
Cassius se moveu com a lentidão teatral de sempre, saindo da sombra da parede.
— Aro talvez gostasse de uma abordagem mais controlada. Eu poderia organizar melhor a divisão de ataque. — Disse, num tom suave demais.
Jane girou o rosto em sua direção. Os olhos vermelhos frios como o gelo.
— Você está aqui para seguir ordens, Cassius. Não para ditá-las. — Sua voz era firme, gélida. — Se quiser discutir autoridade, pode reclamar com ele. Mas não enquanto estiver sob o meu comando.
Cassius cerrou os dentes, mas esboçou um meio sorriso como se a resposta não o tivesse atingido — embora a tensão em seu maxilar dissesse o contrário.
— Então vou caçar. Preciso estar forte. — Disse ele por fim, recolhendo a máscara de indiferença. — Não vou demorar.
Demorou meio segundo após ele sair para Alec lançar um olhar para Jane, identificar sua reação nervosa e segui-lo.
O clima dentro do abrigo ficou denso. Jane continuou imóvel por alguns instantes, depois se virou e saiu pela mesma porta, como se precisasse respirar — ainda que não precisasse.
Do lado de fora, a neve começava a cair de leve. Ela estava de pé sob uma árvore, os olhos fixos nas sombras da floresta como se buscasse um pensamento que se recusava a se formar. Jacob observou de dentro por alguns segundos antes de sair também. Seus passos foram firmes, mas não apressados. Parou a poucos metros dela.
— Está tudo bem? — Perguntou, com a voz mais contida do que costumava usar com ela.
Jane não virou o rosto.
— Por que não estaria? — Respondeu, fria como sempre.
— Não sei. Brigas de casal são comuns no mundo humano...
Jane virou lentamente, os olhos faiscando.
— Nós não somos um casal.
— Ah. — Jacob cruzou os braços. — Bom, eu pensei que beijar alguém sugerisse exatamente isso. Ou quase.
Ela arqueou uma sobrancelha, o rosto ainda carregado de tensão contida. Se seu corpo estivesse vivo, provavelmente seu rosto queimaria em um misto de vergonha e raiva.
— Os Volturi têm mais alianças do que você poderia contar nos dedos. Eu sou uma delas. Cassius é outra. — Ela deu um passo adiante, o olhar cravado nele como uma lâmina. — Não somos amantes. Nem qualquer coisa que sua mente romântica de lobo tente projetar. É funcional. Estratégico.
— E obrigatório?! — Jacob rebateu, seu tom sendo de pura provocação.
— Por que minha vida seria da sua conta? — O tom de Jane era firme. Sempre o mesmo sentimento contido por Jacob: um qualquer desafiando uma autoridade.
Jacob estreitou os olhos.
— Não é. Mas se estamos arriscando nossas vidas juntos, eu preciso saber com quem estou lidando. Com quem estou entrando numa caverna cheia de monstros. Você é um ponto de interrogação faiscando do lado de um explosivo. E isso é um problema. Porque cada dia que passa, fico menos certo do que esperar de você.
Jane manteve o silêncio por alguns segundos.
— Isso não é sobre mim, Jacob. — Disse por fim. — É sobre você. Sobre o quanto precisa controlar tudo ao seu redor pra se sentir seguro.
Ele deu um sorriso torto, irônico.
— Engraçado ouvir isso de alguém que tem prazer em torturar e matar quando está no controle absoluto da situação.
Ela riu. Um riso seco.
— Toquei em algo sensível?
— Não. — Ele respirou fundo. — Só estou tentando sobreviver. E sobreviver exige saber onde pisar.
Jane o encarou, agora sem sarcasmo. Apenas uma expressão indecifrável. Depois, se virou, voltando a encarar a floresta.
— Então preste atenção onde pisa, lobo. Se sou um campo minado, você pode explodir.
Jacob permaneceu parado por um tempo, observando Jane de costas, o vento brincando com alguns fios soltos do cabelo dela. A conversa não tinha sido uma briga, mas também não foi paz. Era sempre assim com ela: uma tensão constante, como uma corda esticada demais, prestes a romper.
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A jornada até a caverna foi tensa. A paisagem se tornava cada vez mais hostil, as montanhas escarpadas e cobertas de neve, o vento uivando como um lamento. Quando finalmente chegaram à entrada da caverna, um buraco negro na encosta da montanha, Jacob sentiu um pressentimento. O cheiro de lobisomem era avassalador, mais forte do que o esperado.
— Tem mais deles do que pensávamos! — Pensou Jacob e soltou um rosnado. Quil e Embry sentiram a mesma vibração, arrepiando seus pelos.
Embry, que estava o tempo todo perto de Jane, lhe lançou um olhar rápido; ela sabia o que aquilo significava. Colocou seu corpo todo em alerta também. Os olhos rastejando para cada milímetro do local.
A caverna explodiu em rosnados e uivos, e dezenas de lobisomens, maiores e mais ferozes do que os que haviam encontrado antes, irromperam das profundezas.
— Alec — Sussurrou ela. O vampiro mal teve tempo de mexer as mãos quando a caverna explodiu em rosnados e uivos, e dezenas de lobisomens, maiores e mais ferozes do que os que haviam encontrado antes, irromperam das profundezas.
A batalha foi instantânea e brutal. Os lobos se lançaram contra as criaturas, suas presas e garras rasgando a carne, seus corpos se chocando com uma força devastadora. Os lobisomens eram selvagens, mas os Quileutes eram guerreiros experientes, movendo-se com uma sincronia mortal. Mas a superioridade numérica era esmagadora. Os vampiros também foram forçados a lutar, seus movimentos rápidos e graciosos, seus golpes precisos e letais.
Cassius adentrou mais a caverna em um piscar de olhos. Jane o seguiu, não por vontade, mas por dever. Seu papel era proteger todos ali — mesmo os que lhe davam mais trabalho do que valiam. O interior da caverna era sufocante. O teto se estreitava, o chão tornava-se irregular, e o cheiro de sangue velho misturado ao pelo molhado dos lobisomens poderia fazer um estômago revirar.
Um grupo numeroso avançou sem hesitação. Eram maiores do que os anteriores, mais agressivos, mais organizados. Lobisomens surgiram das sombras, cercando Cassius e Jane, e em seguida se separando para avançar e atacar os outros grupos, onde Alec e os demais estavam.
Jane lutava, mas logo seu corpo pequeno quase desaparecia em meio às criaturas. Ela girava a cabeça de um lado para o outro, tentando paralisar todos ao seu alcance, mas mal conseguia abrir espaço. Seu corpo era engolido pelos corpos numerosos e enormes dos lobissomens.
Cassius tentava resistir, os braços firmes arrancando gargantas e atravessando tórax, mas não fazia o suficiente. Não por falta de força, mas porque simplesmente havia demais. Ele não conseguia sequer se mover até Jane. Um lobisomem o derrubou com um impacto violento, fazendo-o bater contra a parede rochosa.
— ALEC! — gritou, a voz saindo sufocada pelo impacto, mas ainda era nítido sua raiva.
Mas Alec também estava preso em seu próprio caos. A névoa se debatia, balançando de um lado para o outro, tentando se espalhar, mas sem controle suficiente. Os lobisomens estavam em todos os lados.
Jacob, que combatia dois lobisomens mais atrás com Quil e Embry, ergueu os olhos por instinto. Lá na frente, ele viu. Jane havia sido derrubada com um golpe brutal. E antes que ela pudesse se recuperar, mais três lobisomens se lançaram sobre ela, suas garras e presas rasgando suas roupas, seus rosnados ensurdecedores. Ela ainda tentava levantar, os olhos vermelhos arregalados em uma mistura de raiva e, pela primeira vez em séculos, medo.
A imagem dela no chão, cercada, lutando desesperadamente, atingiu Jacob como uma flecha no peito. Ele rosnou — um som gutural, primal — que ecoou pelas paredes da caverna. Seus pelos se eriçaram, os músculos tensionaram como molas.
Ele se lançou em direção a Jane como uma bala viva, uma massa de músculos e fúria. Ele se chocou contra os lobisomens que a atacavam, derrubando-os com uma força brutal. Suas presas se fecharam no pescoço de um, suas garras rasgaram o peito de outro. Ele era uma máquina de combate, movido por uma raiva que ele não compreendia. Uma raiva que vinha de dentro, de um instinto mais profundo do que a razão.
Cassius se ergueu em meio ao sangue e avançou logo atrás, rasgando outro inimigo ao meio. Jane, ainda no chão, abriu os olhos e viu Jacob. Um borrão marrom de músculos e presas que despedaçava os lobisomens em cima dela como se nada mais existisse. Por um instante, seu corpo ainda não reagia. Estava ferida e vulnerável. Pela segunda vez em sua existência, experimentou o gosto do medo. Um medo real. Não o medo de falhar, ou de desagradar Aro... mas o medo de morrer.
E foi Jacob quem a tirou disso.
Jane se ergueu. Os olhos vermelhos arderam, não só de raiva, mas de vergonha. Vergonha de ter caído. Vergonha de ter precisado de ajuda. Mas se obrigou a ficar de pé, ofegante, os cabelos emaranhados e o rosto manchado de sangue e poeira. Ela ergueu o queixo e avançou. Se havia um lugar onde ela recuperava seu poder, era ao lado do irmão.
Correu até Alec, que estava ofegante, cambaleante com o esforço de conter e manobrar sua névoa enquanto era atacado de todos os lados. Jane golpeou os inimigos ao redor dele com fúria metódica, abrindo espaço, variando entre sujar suas mãos de sangue e morte e fazer uma cabeça e outra arder em chamas invisíveis. O grito dos lobissomens quando eram atingidos pela dor sufocante dela era ensurdecedor. Ela colocava toda sua concentração nessa tarefa, agora com ainda mais raiva. E com isso, Alec também pode se concentrar. Ela o protegeu como quando eram crianças — ou o que restava disso. Lutando lado a lado, os dois estavam em seu melhor.
Enquanto isso, Jacob e Cassius estavam no outro extremo da batalha. O lobo avançava como um vendaval. Seu corpo ardia em raiva e sua mente estava em chamas. A imagem distorcida de Cassius em vários ambientes queimava em sua memória, fazendo sua visão ficar turva. Se sentia cedo de raiva. Cada lobisomem que vinha em sua direção era arrancado do chão como se fosse Cassius disfarçado. Ele matou quatro seguidos, afundando presas, rasgando com as garras, quebrando costelas com o peso de seu corpo.
Cassius, por sua vez, lutava com precisão cruel. Mas ele percebia a tensão no lobo. Os olhos queimando, a fúria dirigida e certeira demais. Ele viu o modo como Jacob, por vezes, quase errava o alvo por centímetros. Ele podia sentir intenções. E a intenção de Jacob, ainda que selvagem e desordenada, era clara como a luz: se a linha fosse ultrapassada por acidente, ele o mataria.
O vampiro sentiu a raiva crescer. Raiva de ser ameaçado, de precisar compartilhar território, de saber que, por mais que Jane nem sonhasse com aquilo, havia algo que se movia dentro daquele maldito lobo toda vez que olhava pra ela. Para sua Jane.
E os dois lutaram lado a lado, dois predadores, ambos desejando que um terceiro corpo não saísse vivo dali.
Foi nesse instante que Alec, finalmente conseguindo libertar parte da névoa, espalhou-a como uma cortina venenosa, sufocando os inimigos e fazendo os que sobraram desabar. Sua fumaça rastejava como dedos negros, envolvendo tudo, apagando todos os sentidos. O único som que poderiam ouvir agora eram o dos lobos rosnando.
Jane, agora ao lado dele, manteve-se em posição de ataque, protegendo o irmão até que ele conseguisse força total. Quando a névoa ficou mais espessa, eles sabiam: a batalha tinha acabado.
Cassius olhou para a fumaça, ainda envolvido em sangue, os dentes arreganhados. Jacob, ao seu lado, também olhava.
Jacob foi o primeiro a avançar, seguido por Quil e Embry, ambos em direção à névoa para acabar de vez com a vida dos que restaram. Alec mantinha a cortina venenosa em constante movimento, abrindo passagens breves e estratégicas para os lobos, permitindo que avançassem e recuassem conforme precisassem. Para qualquer outro, seria impossível se orientar naquela escuridão sufocante. Mas para os três, conectados pela mente, pelo faro e pela missão, era como dançar entre sombras conhecidas. Eles eram três, mas lutavam como um só.
Dentro da névoa, os lobisomens restantes urravam, cegos, confusos, desesperados. Atacavam o nada, mordiam o ar, até que sentiam o impacto de uma mordida, uma garra, o golpe final.
Quando o último rosnado morreu e a última pata caiu no chão, Alec recolheu a névoa lentamente, como se puxasse um véu de escuridão de volta ao seu próprio corpo. A caverna ficou em silêncio por um instante. Apenas o som das respirações pesadas dos lobos preenchia o espaço — e o leve tilintar de sangue escorrendo pelas pedras.
Jacob ergueu a cabeça, ofegante. Olhou ao redor, sentindo o cheiro metálico da morte e da vitória.
Cassius permaneceu imóvel, os olhos estreitos observando os lobos, como se ainda ponderasse se era possível confiar neles. Jane limpava o sangue da testa com as costas da mão. Alec, cansado mentalmente, mas inteiro, observava o campo de batalha como quem analisa uma pintura concluída.
Tudo estava terminado.
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