Entre o Equinócio e o Solstício
4 Apenas um truque bobo
Notas iniciais
—Mago? Eles são pessoas difíceis de se ver hoje em dia. Já eu sou um qualquer... E isso é apenas um truque bobo. -Respondeu ele com um sorriso no rosto.
—Truque bobo?! Você acabou de fazer fogo! Com as próprias mãos! — Olivia estava chocada com o que acabara de acontecer, talvez ainda mais chocada com a naturalidade que aquele homem agia. Toda aquela situação era estranha. Aquele homem suspeito, aparecendo tarde da noite em meio aquela chuva. Dentro de si Olivia torcia para que tudo fosse fruto da sua mente alcoolizada.
—Que mal educado eu. Você me abriga, e eu nem sequer me apresentei. Prazer, sou Nate. -Disse ele com um sorriso tão singelo, que fazia Olivia abaixar sua guarda, e ao mesmo tempo desconfiar ainda mais dele.
—Eu sou Olivia. Vamos, vou te dar uma toalha para se secar e algo para comer.
—Muito obrigado senhorita Olivia.
—"Senhorita?" -Pensou ela corando levemente. -Vá na frente para que eu possa ver se você não vai aprontar nada. E não faça barulho, têm muitas crianças dormindo. -Disse ela de maneira rígida.
—Só me permita retirar minhas botas para não molhar seu lar. -Olivia consentiu com a cabeça e ele logo se apoio na parede e retirou suas botas. Ambas estavam encharcadas e com água por dentro. Ele retirou o casaco que estava tão encharcado quanto as botas e o deitou sobre elas.
Os dois se dirigiram até a cozinha, onde Olivia estava quando ele bateu na porta. Ela o deixou lá e subiu para o andar de cima. Logo ela desceu com uma toalha em mãos.
—Tome, se seque. Ainda tem um resto de sopa da janta caso queira. -Disse Olivia de maneira hospitaleira.
—Eu vou aceitar. -Respondeu ele pegando a toalha e secando seus cabelos.
"Isso parece tão errado, esse homem, ele é simpático e agradável demais pra ser verdade. Ele deve estar tramando alguma coisa. Ele com certeza está tramando alguma coisa. Deve estar esperando eu abaixar ainda mais minha guarda... Minha garrafa está ali no canto, assim que ele tentar algo eu corro até ela e a quebro em sua cabeça. Com certeza isso vai derrubá-lo." -Pensava Olivia enquanto servia o resto de sopa ao homem.
—Não está muito quente, mas isso você com certeza pode resolver com algum truque bobo. -Disse ela cheia de ironia.
—Haha! Você é engraçada. E muito gentil também.
—Psi! As crianças estão dormindo!
—Me perdoe, esqueci desse detalhe... -Respondeu Nate com o tom de voz bem baixo.
—Dona Olivia, quem é esse homem? -Perguntou Lili. A garota estava acompanhado de Noah que estava com os olhos semi abertos e a boca abrindo em um grande bocejo.
—Lili? Porque você não está na sua cama?
Ao ver a garota Olivia imediatamente começou a pensar em uma maneira de mandá-la de volta para cama. Ela ainda achava que aquele homem era perigoso. Ele poderia usar as crianças como reféns ou escudos. Além disso seria uma péssima ideia acertá-lo com uma garrafa na frente delas.
—Ela ouviu um barulho e quis vir verificar, mas estava com medo. Por isso me acordou também. -Respondeu Noah ainda sonolento e rapidamente a garota que estava ao seu lado o acertou com um cascudo.
—Eu não estava com medo! Eu só... Achei que seria melhor vir com você, pra mim não ter que ficar te explicando o que aconteceu amanhã. -Disse Lili tentando desmentir seu amigo.
—Voltem já pra cama! Os dois. Vão!
Olivia não era o tipo de pessoa autoritária, tudo que ela conseguia com aquelas crianças era com jeitinho e conversa. Por isso tentar elevar o tom de voz e agir dessa maneira, não foi nada eficaz.
—Quem é você? -Perguntou Lili diretamente ao homem que estava sentado em sua frente ignorando Olivia.
—Prazer, eu sou Nate, um qualquer. -Respondeu ele com seu típico sorriso. -Aqui, pra você. -Ele estendeu sua mão fechada para a garota e a girou abrindo-a lentamente e um rosa apareceu na palma de sua mão.
—Uau! -Noah arregalou os olhos, que até então estavam quase fechados, e se aproximou para ver mais de perto o que Nate acabara de fazer.
—Isso é... Magia? -Perguntou Lili fascinada pegando a rosa em suas mãos. Ela sentiu a textura das pétalas. Pôde sentir o aroma da flor. Sem sombra de dúvidas, aquilo era real. Noah também começou a tocar e cheirar e logo chegou a mesma conclusão.
—Magia? Não... Isso é apenas um truque bobo. -Respondeu Nate com seu sorriso costumeiro o que deixou Olivia irritada.
Um estrondoso trovão fez com que as crianças e a mulher levassem um grande susto e soltassem alguns gritos. Noah e Lili se abraçaram rapidamente e Olivia num impulso segurou no braço de Nate que não esperava essa reação vindo dela. Ela logo se afastou ficando extremamente corada e nervosa ao notar as risadas do homem.
—Está chovendo... Chovendo forte... Como você adivinhou? -Perguntou Noah se virando para Lili após o passar do susto.
—Você previu a tempestade garotinha? -Perguntou Nate interessado.
—Eu não sei, eu estava sentada e quando eu me levantei e olhei pro céu... Foi como se eu visse uma forte chuva, raios, trovões e um forte vento. Tudo junto, vindo em minha direção. -Respondeu ela tentando explicar o ocorrido que nem mesmo ela havia entendido.
—Sabia que dizem que prever tempestades e outros fenômenos naturais é uma das habilidades mais comum dentre os magos? -Perguntou ele instigando a curiosidade da garota.
—Sério? Como você sabe disso? -Perguntou ela com os olhos brilhando.
—É o que dizem... Bem, não vou abusar da hospitalidade da senhorita, me mostre onde eu posso dormir e eu irei, amanhã de manhã bem cedo eu vou embora. Não quero dar mais trabalho. -Disse ele virando para Olivia que embora não tenha demonstrado, gostou da atitude dele.
—No fim do corredor há um pequeno quarto, lá você deve achar um banco para se sentar e dormir. Espere aqui, vou pegar uma coberta. -Disse ela subindo as escadas para o segundo andar, furiosa pelo jeito como as coisas se desenrolaram.
—Você não é um mago mesmo?
Perguntou Lili que esperava que ele fosse. Ela sempre foi uma garota muito curiosa. A magia e as pedras do solstício e do equinócio, sempre foram os assuntos que mais lhe atraíram.
—Infelizmente não... -Respondeu ele colocando sua mão na cabeça da garota a encarando. -Você me lembra minha irmãzinha sabia? -Sua expressão mudou. Agora seu semblante trazia um certo saudosismo. Até mesmo uma certa tristeza.
—Sério? Em que eu pareço com ela? Como ela era? -Perguntou a garota interessada.
—Como ela era? Deixe me ver. -Ele retirou sua mão da cabeça da garota e encarou o teto por um tempo. -Eu convivi pouco com ela. Levaram-na embora quando ela tinha apenas quatro anos. Eu tinha onze na época. Ela tinha os cabelos ruivos iguais os seus, porém, maiores. O rosto dela também era cheio de sardas. Seus olhos azuis como mar, assim como os seus, e eles brilhavam, assim como os seus estam brilhando agora.
No rosto de Nate se encontrava um sorriso que tentava mascarar a tristeza que era notável na sua voz. Ali do lado, parada nós degraus da escada estava Olivia. Diferente das crianças ela podia notar o que ele tentava esconder com aquele sorriso. Do seu olhos escorreu uma lágrima, rapidamente ela correu pelo seu rosto. Ao chegar ao seu queixo ela pingou no chão. Só nesse momento ela percebeu que estava chorando. Imediatamente ela secou o rastro molhado que aquela lágrima deixara.
—Aqui está sua coberta. Pegue uma vela e siga reto no corredor. Eu estarei logo atrás de você. -Disse Olivia de maneira séria ao homem. -E vocês dois, já pra cama.
Assim que Nate deu as costas ela se abaixou deixando sua boca próxima do ouvido de Noah.
—Tranque a porta dos quartos das crianças e jogue por de baixo da porta. A do quarto de vocês guarde contigo. -Sussurrou ela é logo seguiu os passos de Nate.
O homem seguiu pelo corredor, ao fim dele Olivia mostrou o quartinho onde ele dormiria.
—Eu até lhe ofereceria uma cama, mas nós não temos nenhuma vazia. -Isso era uma grande mentira, ela apenas temia pela segurança das crianças.
—Não se preocupe, só de ter um teto para me abrigar eu já estou satisfeito, durma bem. -Disse ele entrando no quartinho onde ele logo encontrou o banquinho onde se sentou e apagou a vela que carregava.
Não muito longe dali
—Ei! Parado ai! -Gritou um homem que estava acompanhado de mais quatro pessoas, ambos armados com arcos que miravam a cabeça da pessoa para quem ele gritava.
Não era possível reconhecer se era homem ou mulher. Sua estatura era alta. Seu rosto, coberto por uma máscara de raposa e seu corpo por uma capa preta.
Ao receber a intimação do homem que estava com o arco aquela pessoa parou de se mover.
—Retire a máscara e se identifique!
Aquela pessoa permaneceu imóvel, sem responder as ordens que recebia.
—Vou repetir só mais uma vez! Caso contrário irei disparar!
Ele estava nervoso. Sua mão tremia. A forte chuva e os trovões ecoando pelo céu tornavam aquela situação ainda mais tensa. Já haviam se passado cerca de dois minutos que o último aviso tinha sido dado. Ele não sabia o que fazer. Nunca havia precisado atirar em alguém. Em um momento de indecisão e até mesmo covardia ele resolve dar mais um aviso.
—Esse é o último aviso! Retire a máscara e identifique-se!
—Eu achei que aquele seria o último aviso... -Enfim aquela pessoa se pronunciou. Sua voz era grave, claramente a voz de um homem. -Já que você quer tanto, realizarei um de seus desejos. Irei me identificar. Embora não acho necessário, afinal somos velhos amigos.
—Velhos amigos? -Ele acabara de ficar mais nervoso após as palavras daquele homem, e agora, estava com tanto medo, que a coisa que mais deseja era poder voltar no tempo e ter atirado uma flecha em sua cabeça.
—Sim, mas não só seu, de todos vocês nascidos do Sol. Eu sou o passado que há tanto tempo vocês tentam esquecer e maquiar! Eu sou a vingança que vocês tanto temem! Eu sou o maior pesadelo de todos vocês! Eu... Sou o caos!
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