Quatro anos se passaram como um suspiro sobre as torres de Astúria. O tempo trouxe maturidade para o reinado de Richard e uma serenidade melancólica para Claire. O castelo, antes frio, agora exalava o calor de um lar consolidado, mas a ausência de uma peça do tabuleiro ainda era sentida nos corredores silenciosos.


​O jardim de inverno de Astúria era o refúgio favorito de Claire. Diferente das flores vibrantes de Valerion, aqui a beleza residia na resiliência: pinheiros robustos e flores que brotavam sob a geada. Ela caminhava ao lado de Richard, que agora ostentava uma barba mais cerrada e um olhar que, embora ainda sério, suavizava-se sempre que pousava na esposa.

​— Você parece pensativa hoje, Claire — Richard comentou, entrelaçando seus dedos aos dela. — As notícias de sua mãe em Valerion a preocupam?

​— Não, Richard. Apenas observando como o tempo muda as coisas — ela respondeu, parando diante de um arco de pedra. — Quatro anos... parece uma eternidade e um segundo ao mesmo tempo.

​Um mensageiro aproximou-se apressadamente, interrompendo o momento. Ele entregou a Richard um pergaminho lacrado com o selo da Casa Heraldrick, mas com uma caligrafia que Richard reconheceria em qualquer lugar do mundo.

​Ao ler a carta, Richard soltou uma risada curta, algo raro e genuíno.

​— Claire, você não vai acreditar — ele disse, virando o pergaminho para ela. — É do meu irmão. Gaspar está voltando.

​O coração de Claire deu um solavanco, uma reação instintiva que ela acreditava ter enterrado há anos.

— Gaspar? Depois de todo esse tempo?

​— Ele diz que está a poucos dias de viagem. Escreveu que "as estradas do mundo cansam as botas, mas a saudade de casa cansa a alma" — Richard balançou a cabeça, guardando a carta. — Ele parece mudado, mais reflexivo. Sinto falta das discussões dele, para ser honesto. O castelo ficou sério demais sem as insolências do meu irmão.

​Claire forçou um sorriso, tentando esconder o turbilhão que a notícia causara.

— Será bom ter a família completa novamente, Richard.

​Enquanto isso, nas águas agitadas do Mar do Norte, um navio mercante cortava as ondas em direção ao porto de Mistral. No convés, protegida do vento por uma lona, uma rede balançava suavemente com o ritmo do oceano.

​Gaspar estava deitado nela, com os olhos fechados e os braços atrás da cabeça. O tempo o transformara: o rosto estava mais marcado pelo sol, o corpo mais robusto e uma cicatriz fina agora cruzava seu antebraço esquerdo. A aura de deboche ainda estava lá, mas temperada por uma vivência que o tornava ainda mais enigmático.

​— Você está sorrindo sozinho de novo. É o vinho ou a expectativa?

​A voz vinha de uma jovem sentada em um caixote de madeira ao lado da rede. Katrina Swanson tinha cabelos castanhos rebeldes e olhos curiosos que não se intimidavam diante da nobreza. Ela era uma plebeia que Gaspar conhecera em uma das províncias distantes, uma órfã de espírito livre que o ajudara em uma situação complicada de viagem.

​Gaspar abriu um dos olhos e sorriu para ela.

— É a perspectiva de dormir em uma cama que não balança, Katrina. E de ver se o gelo de Astúria ainda derrete com a minha presença.

​— Você fala desse castelo como se fosse uma prisão — Katrina comentou, afiando uma pequena faca de cozinha. — Mas prometeu que eu teria um emprego lá. Não me diga que vou ser serva de um carcereiro.

​— Você será o que quiser ser, Katrina. Eu prometi e eu cumpro — Gaspar sentou-se na rede, ficando sério por um momento. — O Rei Richard é um homem justo. Ele vai gostar de você. Só tome cuidado com a Rainha... ela tem o hábito de ler segredos que a gente nem sabia que tinha.

​— Ela é tão terrível assim? — Katrina perguntou, curiosa.

​— Não — Gaspar murmurou, olhando para a linha do horizonte onde as montanhas de Astúria começavam a surgir. — Ela é o motivo de eu ter passado quatro anos longe. E o motivo de eu estar voltando agora.

​Ele se levantou, sentindo o ar gelado bater no rosto. O jogo estava prestes a recomeçar, mas agora havia uma nova peça no tabuleiro: uma jovem plebeia que não conhecia as regras, e um homem que já não tinha mais medo de quebrá-las.