O clima no escritório real era de um silêncio sepulcral. Richard segurava o pergaminho com o selo oficial do Vaticano, as bordas do papel amassadas pela força de seus dedos. Claire estava parada junto à janela, observando a neve que começava a cair, sentindo que cada floco representava o gelo que agora cobria sua vida.


​A carta não era apenas um conselho; era uma sentença. Richard leu as palavras em voz alta, cada sílaba soando como uma batida de martelo em um julgamento:

​"...é dever sagrado da monarquia assegurar a continuidade da linhagem sob a benção da Igreja. Informamos que, se no prazo de um ano a Rainha Claire não conceber um herdeiro legítimo, a Igreja declarará o matrimônio nulo por esterilidade espiritual. Uma nova monarca, escolhida entre as linhagens fiéis de Roma, será providenciada para ocupar o trono de Astúria e garantir o futuro do reino."

​Claire virou-se lentamente, o rosto pálido como mármore.

— Substituída — ela sussurrou. — Como se eu fosse uma peça de mobília desgastada ou um cavalo que não serve mais para a sela.

​— Eles não podem fazer isso — Richard rosnou, jogando a carta sobre a mesa. — Eu sou o Rei!

​— Você sabe que eles podem, Richard — Claire aproximou-se, a voz carregada de uma triste lucidez. — Se a Igreja anular nosso casamento, você perde o apoio dos nobres e o povo verá a minha permanência como uma maldição. Meus pais já me deram as costas. Eu não tenho para onde ir se for expulsa destas muralhas.

​Richard olhou para a esposa. Havia um abismo entre eles que nem mesmo o perigo iminente conseguia fechar. Ele a respeitava, sentia uma profunda amizade e culpa pelo que aconteceu com Gaspar, mas a ideia de forçar uma intimidade para gerar um herdeiro parecia uma violação para ambos.

​— Eles querem que eu gere um filho com um homem que ama outra, enquanto o homem que eu amo está em algum lugar do oceano que eu sequer conheço — Claire sentou-se, escondendo o rosto nas mãos. — É esse o preço da minha "inocência" no julgamento?

​Richard caminhou até ela e colocou a mão em seu ombro, um gesto de solidariedade, mas sem a paixão que a Igreja exigia.

— Temos um ano, Claire. Um ano para encontrar uma saída, ou para aceitar que o teatro que montamos está chegando ao ato final.

​Enquanto isso, na ilha distante, a vida seguia em um ritmo solar. Gaspar e Katrina estavam sentados na areia, observando o pôr do sol que incendiava o horizonte. Eles não sabiam da carta, nem da ameaça que pairava sobre Claire, mas Gaspar sentiu um calafrio súbito, um aperto no peito que o fez olhar para o norte.

​— O que foi? — perguntou Katrina, percebendo a mudança na postura dele.

​— Nada — mentiu Gaspar, embora sentisse, no fundo de sua alma, que o tempo de paz que haviam conquistado estava sendo ameaçado por sombras que ele pensou ter deixado para trás. — Apenas uma sensação de que o vento está mudando.

​Em Astúria, o relógio começara a correr. 365 dias para um milagre ou para a queda definitiva de uma rainha que já havia perdido tudo, menos o título que agora ameaçavam lhe tirar.